31 de ago de 2010

Chuva de Verão

Rain. Nova Zelândia, 2001, 92 minutos. Drama.
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É verão na Nova Zelândia, início dos anos 70, aos treze anos, Janey se instala com sua família em uma cabana para mais um perfeito feriado à beira-mar. Ela está cada vez mais consciente dos problemas no casamento de seus pais. A mãe tornou-se alcoólatra e o pai virou uma pessoa totalmente alienada. Ao ver sua mãe se envolver com um fotógrafo, ela começa a descobrir sua própria sexualidade. Janey decide crescer rápido. Rápido demais...

Esse é um daqueles filmes que assistimos sem ter que pensar muito. A história é suave, com elementos comuns no drama e que vão moldando o filme, tornando-o um pouco maior do que ele é. O roteiro é muito eficiente ao focar a vida de uma garota que quer ser grande: ela experimenta, em pouca quantidade, muitos dos prazeres da vida adulta, como a bebida, o cigarro, os beijos. A atração por um homem mais velho a coloca diante de um de seus medos, que é ser como a mãe. Se ela foge dessa sensação de que pode virar exatamente aquilo que a mãe é, ela paradoxalmente vai de encontro a essa característica quando percebe que somente assim poderia conquistar o fotógrafo. O fotógrafo é um elemento impactante na vida da família: ele faz com que o pai se disperse e que, quando se dá conta do que está havendo, se desligue por vez; revive o desejo na mão; incendeia Janey, que passa a desejá-lo incansavelmente.

Ainda que seja bastante simples, o filme possui uma capacidade muito grande em mostrar como a família se deteriora. A parte interessante é que eles desmancham silenciosamente, cada qual à sua maneira, mas todos, de certa forma, buscando uma última aproximação. O pai tenta debater com a mãe, que tenta abraçar a filha, que tenta cuidar do irmão, que corre pros braços do pai. Eles formam um ciclo, mesmo que o elo não seja muito forte. A somar, há a belíssima trilha sonora e a paisagem local. As canções ao longo do filme são extremamente funcionais, porque elas têm uma habilidade tremenda de colocar o espectador a par dos sentimentos dos personagens. São canções belas e tristes, tal como cada personagem ao longo do filme. A paisagem mostra muitos cenários interessantes, como o barco ancorado, o primeiro passei no barco do fotógrafo, as festa sorganizadas pela família à noite.

Chuva de Verão é um filme mediano, mas interessante. A sua história é de certa forma envolvente, já que nos faz ficar ao lado da complicada Janey e, ao mesmo tempo, nos faz compreender o que cada pessoa da família sente em relação umas às outras. O verão pode significar eventos positivos: acampamentos, férias, viafens; pode também assumir outros sentimentos: desapego, condescendência, incômodo e, por fim, tristeza. O final do filme vale muito a pena e o conclui de maneira muito satisfatória!

Luís
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29 de ago de 2010

A Paixão Segundo G.H.

Brasil, 1964, 168 páginas (Editora Rocco).
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“Essa imagem de mim entre aspas me satisfazia, e não apenas superficialmente. Eu era a imagem do que eu não era, e essa imagem do não-ser me cumulava toda: um dos modos mais fortes de ser é negativamente”. ¹ 

Clarice Lispector é um grande nome da nossa cultura literária e eu realmente nunca me dediquei o suficiente às obras dela. Li um livro de contos e também o livro A Hora da Estrela, sem jamais ter lido qualquer outro texto dessa escritora. Lispector se diferenciou quanto à sua literatura pelo caráter aproximativo e introspectivo de suas personagens, tornando-as próximas do leitor, que, segundo um colega meu, “facilmente se identifica com o narrador ou com o personagem central”.

Esse romance da autora tem um forte tom de crônica, principalmente no que diz respeito ao modo como a história foi concebida. Eu poderia começar a resenha apresentando a sinopse clássica do livro, que é aquela na qual a pessoa que leu o define sua história como sendo a de uma mulher que, diante de uma tarefa simples do cotidiano – limpar um quarto –, se entrega a uma série de questionamentos sobre a vida e sobre os eventos circunstantes a ela. Poderia também dizer aquilo que eu acho que resume melhor o livro; sinceramente, prefiro fazê-lo: A Paixão Segundo G. H. é um livro sem qualquer enredo, sem história, sem personagem, sem barata.

Honestamente, acho que o grande problema do livro se encontra fora dele: o problema se encontra nas pessoas. O mesmo que acontece a esse romance acontece, por exemplo, ao filme Casablanca. Explico: em algum momento, tornou-se culto ter visto e ter gostado de Casablanca; desse modo, quem não o viu diz que o viu e quem o viu e não gostou diz que gostou. Algo semelhante envolve essa obra de Clarice. Não sei por que, mas se tornou proibido dizer “não gosto das obras dela” – lê-la assumiu um caráter tão culto (e por que não dizer opressivo?) que impossibilitou as pessoas de expressar suas opiniões verdadeiras em relação ao que pensam sobre aquilo que lêem. O livro é tão absurdamente complicado que duvido que um terço de quem o leu conseguiu compreendê-lo em sua quase totalidade – como, então, todos podem adorá-lo? Minha resposta a essa pergunta é simples: não o compreenderam, não o adoram. Apenas foram condicionados a dizer que é um livro excelente. Não quero, com isso, desmerecer a opinião de quem o leu, o compreendeu e realmente gosta do livro – minha opinião de que essa seja uma obra ruim não é uma verdade universal. Creio que haja quem goste de A Paixão Segundo G. H.

G. H. é uma mulher confusa, uma mente muito turbulenta. Ela é tão cheia de pensamentos que, ao colocá-los para fora, a narrativa se torna interrupta, meio brusca, cheia de frases soltas. Compreendi perfeitamente quando um colega me disse que o livro é assim porque G. H. narra seus pensamentos e que as mudanças dinâmicas e as constantes retomadas de assuntos já passados representem o modo como a nossa mente funcione. Não acho, no entanto, que isso tenha resultado desse pensamento. Penso que Clarice Lispector simplesmente se limitou a escrever inconclusivamente, divagando e se repetindo, apresentando informações desnecessárias e incômodas, já que não remetem a qualquer aspecto psicológico interessante de ser avaliado. Para mim, o perfil psicológico de G. H. é tão profundo quanto um pires e sua amplitude emocional é semelhante à de uma colher de chá – suas reflexões ilógicas sobre a sua realidade são extremamente cansativas, seus pensamentos são bem estranhos.

Não posso, porém, criticar o livro como se não houvesse parte da qual eu tenha gostado. Pouco antes de encontrar a barata, creio que haja o único momento em que a personagem é coerente e objetiva naquilo que pretender passar ao leitor. Quando, ao chegar ao quarto da empregada, descobre que a empregada já o havia limpado, G. H. passa por um momento de desapropriação: a casa, sente-a como se não fosse sua, pois a sua vontade, a vontade repentina de limpá-la, não fora respeitada. “Uma cólera inexplicável, mas que me vinha toda natural, me tomara: sentia uma imensa vontade de matar alguma coisa ali” ². Decerto, é o único bom momento do livro, pois é quando o leitor consegue se aproximar mesmo da personagem. Quando Clarice descreve a relação quase ausente estabelecida entre a personagem central e a sua empregada, eu pude finalmente gostar um pouquinho do romance. Um pouquinho, só um pouquinho.

Clarice pôs a minha capacidade de leitura à prova: demorei três semanas para ler um livro de menos de duas centenas de páginas. O que realmente me deixou surpreso foi o fato de o livro ter 168 páginas de absolutamente nada. Nada! Desde ver a barata até esmagá-la e comê-la a autora demora muito, muito tempo para desenvolver a história. Que história, aliás? Como devem ter percebido, não gosto de livro e não o recomendo. Decerto essa resenha será alvo de críticas de leitores que adotaram o romance de Clarice como uma obra-prima – atitude da qual, como também devem ter percebido, eu discordo.

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1. Editora Rocco, 2009, 1ª Edição, página 31.
2. Editora Rocco, 2009, 1ª Edição, página 43.

27 de ago de 2010

Terapia do Amor

Prime. EUA, 2005, 105 minutos. Comédia Romântica.
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Muitos devem saber: eu simplesmente detesto comédias. Então, quando eu quero me divertir sem pensar muito e quando quero ver algumas coisas divertidas e engraçadinhas, procuro uma comédia romântica, que usualmente não é tão caricata, embora seja sempre previsível. Aliás, ao fazer essa afirmação, eu mesmo me contradigo, porque Terapia do Amor não é um poço de previsibilidade, mesmo que siga à risca na composição do relacionamento dos personagens.

Rafi é uma mulher recém-saída de uma relacionamento que se consulta com uma terapeuta, que a aconselha a procurar diversão, aproveitar enquanto é jovem. Uma noite, Rafi encontra um rapaz bem mais novo que ela e os dois se envolvem. Insegura com a diferença de 14 anos entre ela e o garoto, Rafi é incentivada pela terapeuta a investir no relacionamento, já que "a diferença da idade não faz diferença". Isso muda quando a terapeuta descobre que o jovem, na verdade, é seu filho e que ele está cada vez mais a fim de Rafi.

Primeiro, devo dizer que não imaginava Uma Thurman e Meryl Streep num mesmo filme. São ambas atrizes de talento, mas a junção me soa incomum. Vê-las atuando, no entanto, foi interessante, ainda que, como eu disse acima, o filme siga fielmente o desenvolvimento típico das comédias românticas e cabe às atrizes as reações normais de filmes assim, ou seja, nenhuma grande interpretação. Já devo ter me contradito umas três vezes em dois parágrafos e farei isso mais uma vez. A sequência simples de eventos mostrados nas comédias românticas é: os protagonistas se conhecem e se estranham, depois se descobrem a fim um do outro, em seguida passam por problemas existencias e, por fim, de maneira previsível, se descobrem apaixonados e vão viver felizes para sempre. Terapia do Amor possui esses elementos, mas curiosamente tem o primeiro e o último atos invertidos, já que os personagens rapidamente se identificam um com o outro e, no final, se descobrem numa aventura da qual não tirarão proveito a longo prazo. Aos poucos, a comédia romântica desaparece, dando lugar a um drama suave, com alguns questionamentos comportamentais e boas amostras de como pessoas inteligentes conseguem se portar diante de certas situações: a terapeuta vivida por Meryl Streep consegue se entender com Rafi de maneira saudável; Rafi compreende que seu futuro depende também do que seu marido pode lhe oferecer e David percebe que, diante do fim do relacionamento, o que lhe resta é seguir em frente, sempre se lembrando positivamente de Rafi.

As atuações das atrizes são interessantes e ambas me agradaram. Já o intérprete de David é meio insosso e achei difícil acreditar que uma mulher como Uma pudesse se apaixonar por um cara como Bryan Greenberg, o ator, afinal, ele é muito feio! O cara tem 23 anos e é muito bobalhão, totalmente diferente daquilo que Rafi espera. Sobre o nome da personagem, fiquei curioso e, por favor, alguém me diga: ela tem nome de homem? Ouvi umas quatro vezes eles a chamando de Raphael, "como o pintor". Acredito que seja legal a incursão que o filme faz pelo dramático, mas eu realmente esperava uma comédia romântica clara e acabei meio frustrado com o resultado final. Quando quero ver dramas, escolho filmes dentro desse gênero; comédias românticas são puramente para me fazer rir um pouco e, mesmo havendo cenas bem leves, eu não achei nada realmente engraçado.

Terapia do Amor é um filme que contraditoriamente à categoria na qual se encontra nos mostra algo um pouco diferente do habitual, mas se resume praticamente a tudo aquilo que vemos nas comédias românticas. Nada surpreende, nada realmente novo; apenas aquilo a que já estamos acostumados. Ficaria mais feliz se o filme fosse um pouquinho menor e se o humor fosse um pouco mais presente, mas, de um modo geral, é aconselhável para um dia da semana à noite, quando você está sem nada para fazer e quer se entreter um pouco.

25 de ago de 2010

Terra Rasa

Confira também: O Inverso do Cinema - Terra Rasa.
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Shallow Ground. EUA, 2004, 95 minutos. Terror.
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Mais um da série "Por que diabos eu resolvi assistir a esse filme?". Estava aqui em casa e resolvi vê-lo, pois tinha visto uns pedaços uma vez e, como não gosto de ver parcialmente os filmes, quero vê-lo todo. Logo nas cenas iniciais, há um erro de continuação que me assustou, pois é realmente tenebroso e qualquer um constataria que aquela cena não deveria estar ali. Se começou assim, fiquei imaginando como terminaria.

Eu nem sequer sei resumir o filme. Sei que há uma tentativa de suspense que perdura pelo filme, insistindo em surgir mesmo quando o espectador já está mais do que decidido que o roteiro é um fiasco e nada é capaz de dar uma levantada no astral de Terra Rasa. Há também um assassino misterioso e mascarado cuja finalidade é criar o pânico na cidade - que curiosamente parece ter 15 habitantes (sendo que 5 estão mortos) - e instigar o espectador, que supostamente deveria ficar curioso e gastar bons momentos a pensar a respeito da forma como a trama se solucionará. Enfim, logo no começo nós já compreendemos que veremos muitas coisas e a explicação final será aquém daquilo que imaginávamos. E é exatamente isso que acontece, com especial destaque para a maneira absurdamente tosca com a qual o filme se conclui.

Como não há muito o que falar sobre o filme, segue abaixo uma série de spoilers, então recomendo que quem ainda não viu o filme pare de ler aqui. O roteiro é bem estranho, pois inclui sequências de mau gosto e completamente incoerentes. Quando constatam, por exemplo, que o garoto sujo de sangue é, na verdade, um pouco de cada uma das pessoas mortas desaparecidas na região, nós ficamos de queixo caído ao ver a maneira como chegaram àquela conclusão: vendo cerca de 10 fotos, o policial surtado identificou um pequeno detalhe do garoto em cada uma das fotos. Como se alguém simplesmente pensasse: "Nossa, como o lóbulo da orelha dele é semelhante ao dela!". Pouco a pouco, a história vai se descontruindo e eventos de um passado nem sequer mencionado surgem para que nós pensemos que foi justo o que aconteceu com um ou outro personagem. Nessa mesma cena - a que o policial morre - surge uma imensa incoerência. Ele morre devido ao fato de ter matado um bandido que não lhe passava o dinheiro (propina) e esse mesmo bandido reaparece na forma de "garoto-sujo-de-sangue". No entanto, o primeiro garoto do filme era um misto de várias pessoas "injustiçadas", então, por que o assassino do policial é exatamente o mesmo que ele matou? Seria mais racional, então, pensar que cada uma das pessoas que foram mortas pelo assassino encapuzado resolvessem acertar suas contas com ele.

A conlusão desse filme é simplesmente terrível, porque, quando descobrimos quem é o assassino, temos uma vontade imensa e descontrolada de rir sem parar. É totalmente incoerente! Nada justifica o fato de que aquela pessoa seja a assassina. Nada justifica a inclusão do motivo que levou aquela pessoa a matar - até porque aquilo não é um motivo. Esse filme, apesar de ser escroto, nos ensina algumas lições importantes, às quais vale dar destaque:

  1. Regras mais importante num filme de terror em que o assassino seja um humano (não um espírito): jamais seja incoerente ao relacionar o matador e o método de matar. Por exemplo, crianças de 10 anos e velhinhas de 65 anos podem matar envenenando a comida ou o suco de alguém; elas não matam, no entanto, esfaqueado com brutalidade, não usam serras elétricas e muito menos penduram pessoas que possivelmente pesam o dobro do seu peso em uma árvore! O motivo pelo qual ele mata deve ser claro e, sem sombras de dúvida, deve ser coerente!!
  2. Os personagens que aparecem têm que ter alguma finalidade além de morrer. Não podem simplesmente aparecer como justificativa para matá-los logo em seguida. E acrescentá-los na história para que pensemos que eles sejam o assassino também é ridículo!
  3. Fatos que não foram previamente citados não são argumentos para matar um personagem ou deixá-lo viver. Primeiro, temos que conhecer a personalidade do sujeito e acompanhar sua evolução ao longo da obra. Vale ressaltar que todos os personagens precisam de algum desenvolvimento, até mesmo o assassino.
Enfim, esses são alguns pontos a ser observados a fim de que o desenvolvimento e a conclusão não sejam patéticos como é o caso do que acontece em Terra Rasa. Esse é um daqueles filmes que devem ser evitados. Se vocês considerarem pegá-lo para assistir, desistam! Possivelmente é uma opção a ser acrescentado à categoria "piores filmes de terror já realizados" - essa categoria, aliás, possui um número bem grande de produções!

23 de ago de 2010

Passageiros

Passengers. EUA, 2008, 93 minutos. Suspense / Drama
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Gostaria de começar essa resenha com uma alusão que penso encaixar-se perfeitamente naquilo que quero dizer. Passageiros é como uma redação que fugiu ao tema. Espera-se que o aluno escreva sobre a importância do pensamento positivo e ele debate os efeitos da propagação de casas de fast-food numa determinada região. Esse filme é exatamente assim: a proposta inicial rapidamente é esquecida, dando espaço a algo que frustra o espectador - e, como se não bastasse, sua conclusão soa bastante inverossímil.

Claire Summers é a psicóloga responsável pelo tratamento de alguns pacientes que sobreviveram a uma queda de avião. Alguns se mostram mais gentis, outros são mais esquivos, mas ela tem contato direto com cada um deles. Ao mesmo tempo em que começam a sumir os pacientes, Claire envolve-se amorosamente com um deles - que excepcionalmente se sente bem melhor e mais vivo, como jamais se sentira. Com o auxílio das informações de alguns deles, ela conclui que a empresa áerea está escondendo algo e que está diretamente ligada aos desaparecimentos.

Primeiro, peço que me desculpem pela sinopse, pois ela, embora de acordo com o filme, é falsa. Por dois motivos e falarei sobre um deles agora. O resume não possui nada de supercriativo ou original, mas facilmente poderíamos ter sido apresentados a uma obra com mais densidade, mais coerência dentro de sua própria proposta. O filme poderia ter feito com que nós pensássemos, feito com que nós nos identificássemos com os personagens e situações e que, de alguma forma, nós nos envolvêssemos com o que é mostrado. Isso, no entanto, não acontece porque o filme perde o foco e só uma hora depois de exibição é que vemos qualquer vestígio do suspense proposto na sinopse. Tão logo que acontece o acidente, bem no começo do filme, Claire é apresentada às pessoas que estavam no avião e um deles já mostra estar "modificado" depois do acidente. Nesse momento, pensei que o filme abordaria aquilo que Claire estuda dois minutos depois dessa cena: sensações extra-sensoriais. No entanto, a percepção aguçada do personagem é ignorada e o filme afunda em dois planos básicos: o romance entre Claire e Eric, vivido por Patrick Wilson, e as sessões frustradas envolvendo a psicóloga e os pacientes.

Vale ressaltar que o roteiro constrói mal os personagens. Claire é a típica estudiosa, sempre ansiosa por mais conhecido, possui dois títulos de mestrado na área profissional em que atua, tem problemas familiares. Seria, enfim, uma personagem interessante. Mas o roteiro a torna completamente abobalhada e o diretor a torna ridícula em algumas cenas, fazendo-a ser uma quase criança. E isso soa muito incoerente com a sua "essência". Eric é o cara da "percepção extrasensorial" e tudo o que ele sabe fazer é dar em cima de Claire. Mas são cantadas de baixo nível, chatas, que não combinam com o tom jovial e culto que o personagem tem. Aliás, eles não combinam, não flui química entre os atores e tive a impressão de que demorou muito tempo até que eles estivessem à vontade em cena. Esse é um dos casos, pelo menos para Anne Hathaway, em que interpretações e personagem não se fundem. Claire é bem estranha e medíocre, deveras instável e, de um modo geral, desaponta o espectador; a interpretação de Hathaway, no entanto, está de acordo com sua personagem, logo, fez seu trabalho bem e ela é a praticamente todo o motivo pelo qual eu dei uma nota razoável para o filme. Admito que também gosto dela, então não fiquei tão incomodado quando ela aparecia em cena...

[SPOILER] O final do filme é o segundo motivo pelo qual Passageiros me incomodou. A conclusão é muito patética e tenta fazer uso do recurso inovador apresentado por O Sexto Sentido, que, embora lançado há 10 anos, continua fresco na memórias dos cinéfilos. Diferentemente do que acontece no filme que eu citei, em Passageiros aquela conclusão é risível por uma série de motivos apresentados no filme, a começar pelo fato de que a vizinha louca e intrometida era, na, verdade, uma tia morta de Claire. Como uma pessoa não se dá conta de que não é normal estar diante de um parente próximo que faleceu? É muito besta! E ainda há o fato de que eles tentam encaixar vários detalhes nas últimas cenas a fim de tornar aa história coerente. [FIM DO SPOILER]

Passageiros é um filme entre o ruim e o mediano, que não consegue se firmar em sua proposição. O potencial suspense se torna romance, os personagens são abobalhados, as situações são inconsistentes e apenas Anne Hathaway traz um pouco de charme e beleza ao filme - ainda assim, preciso apontar que em algumas cenas ela está ridícula! Certamente há filmes mais interessantes para se ver e que realmente fazem jus à categoria na qual se enquadram. De suspense e drama, Passageiros não tem nada!

Luís
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21 de ago de 2010

A Centopeia Humana

The Human Centipede. Holanda, 2010, 92 minutos. Thriller.
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“Eu não gosto de seres humanos”. – Dr. Heiter.


Esses dias, o Ewerton, um colega meu – dono do blog A Cereja do Bolo –, comentou comigo sobre um filme chamado The Human Centipede e me mandou um link para que eu visse o trailer. Como estou acostumado com as mais diversas (e, às vezes, absurdas) idéias para filmes de horror, não me surpreendi ao ver aquilo: um médico-cirurgião renomado, especialista em separação de gêmeos siameses, tem o sonho de criar trigêmeos siameses. Como nunca viu isso, ele mesmo desejar criá-los e a parte em comum entre eles será o trato digestivo. Com essa intenção, ela seqüestra três pessoas e as opera, conectando a boca de uma ao ânus da outra, de como que se assemelhem a uma centopeia.

Devo dizer que eu realmente achei fantástica a intenção do filme. Confesso que nunca pensei naquilo que o médico pensou. A simples imaginação de como ficariam as pessoas depois da cirurgia me deixou meio nauseado, principalmente quando pensei na conseqüência de conectá-las do modo como o cirurgião desejava: o que a pessoa A comesse seria transferido para a pessoa B e tudo sairia pela pessoa C. Parece bem escatológica a situação – e ela de fato é –, mas em nenhum momento o filme aborda essa ocorrência de modo medíocre ou sujo. Esse é um ponto positivo, em minha opinião. Creio que a máxima qualidade do filme seja a indignação causada no espectador. Eu me senti indignado com a situação a que os três turistas foram submetidos. Não me refiro ao fato de terem sido seqüestrados, mas à condição desmoralizante em que foram postos. Os três tornaram-se um animal – um bicho quase bestial, exótico e não nomeado pela biologia. Os três se tornaram uma criatura fora do convencional e o pior é que são três células colocadas juntas e isso faz com quem elas não tenham independência, porque definitivamente não pensam como um único ser. Devido, porém, à condição crítica na qual se encontram, são obrigados a conviver juntos.

Se a idéia me pareceu legal, o roteiro me pareceu bem estranho e mal desenvolvido. O começo do filme, no qual somos apresentados à estranha figura do Dr. Heiter e às turistas americanas que servirão como partes da centopéia, é totalmente clichê e improvável. O médico, na cena inicial, que acontece na beira da rodovia, seqüestra um homem. O modo como Tom Six escreveu esse trecho do roteiro é totalmente inverossímil, principalmente pela improbabilidade da concretização daquele seqüestro. Embora o rapto de Lindsay e Jenny seja mais aceitável, a introdução dessas personagens é absurdamente clichê. As jovens bobas, que estão num país alheios sem saber falar a língua oficial, se perdem numa área de florestas e acabam chegando à casa do médico que as costurará. Ridículo, é o que eu tenho para dizer. De certo modo, nada se desenvolve no roteiro – não sabemos nada sobre nenhum personagem e as cenas basicamente estão ali para que saibamos que os personagens estão tristemente ferrados. No caso de Lindsay e Jenny, elas estão comendo merda literalmente. A única verossimilhança do roteiro diz respeito ao modo como a polícia começou a desconfiar de Dr. Heiter: o médico simplesmente não se ocupou em esconder os carros dos turistas que estavam próximos à sua propriedade.

Quando à direção, não sei bem o que dizer. A Centopeia Humana tem uma estrutura bastante simplória, sem muitos elementos que poderia implicar dificuldades para o diretor Tom Six. Acho também que o diretor optou por ângulos e planos não muito interessantes e mostrou algumas coisas bem estranhas e inexplicáveis – se ele tivesse bom senso, decerto perceberia que a centopéia não conseguiria descer da mesa em que estava sendo analisada do modo como foi mostrado. Aliás, não foi mostrado; e isso dá maior credibilidade à minha desconfiança de que era impossível aquele acontecimento. As atuações não têm muito destaque: as intérpretes de Lindsay e Jenny são bem fracas e o caráter dramático de suas interpretações é realmente paupérrimo. O único grande destaque no filme é Dieter Laser, intérprete de Dr. Heiter. O ator me assustou com a sua maluquice e o seu comportamento complexo de querer ser Deus. Os seus olhares, os seus modos de se comportar e, sobretudo, o modo como ele age em relação aos outros: nem mesmo os seus cachorros – que ele considera “queridos” – sobreviveram à loucura de sua mente. Laser conseguiu reproduzir muito bem esse aspecto do personagem. E ele é realmente assustador, talvez tanto quanto o próprio personagem.

A Centopeia Humana é um filme esquecível, devo admitir. Não tem nada nele que me provocou uma reação de potencial lembrança. Assisti a esse filme há sete dias e nem sequer me lembro de algumas passagens. O único momento de real tensão é o momento final, quando o filme termina num momento extremamente pessimista e dramático – como seres individuais ou como gêmeos, a morte parecia inevitável. Penso que a finalidade do filme era nos causa certa aflição e confesso que há uma cena capaz disso: a simples imaginação de que os três personagens vão se “descosturar” um do outro me causou uma sensação de dor. Isso aconteceu em uma cena apenas...

19 de ago de 2010

Preciosa - Uma História de Esperança

Precious: Based on the Novel Push by Shappire. EUA, 2009, 111 minutos. Drama.
Indicado a 6 Academy Awards. Venceu por Melhor Atriz Coadjuvante (Mo'Nique) e Melhor Roteiro Adaptado.
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"O amor nunca fez nada de bom para mim. O amor me bate, me estupra, me chama de animal, faz com que eu me sinta inútil, me deixa doente" - Clareece Precious.

Todos os anos, alguns filmes independentes ganham destaque na mídia. O filme de 2010 foi Preciosa, baseado num livro escrito por Shappire, que narra a vida difícil de uma garota negra e obesa de 16 anos que constantemente é estuprada pelo pai, de que já tem um filho e de quem espera o segundo. A mãe lhe trata muito mal, tornando-a escrava de sua própria situação dramática. Recém-expulsa do colégio onde estudava - e mesmo assim semianalfabeta -, Preciosa busca uma segunda chance em uma nova escola, indo contra a onda de desgraça que parece ser sua vida.

Não me restam dúvidas de que o primeiro fator que chamou a atenção da crítica e do público para esse filme foi a roteirização dramática. O livro de Shappire era dramático o suficiente para render um filme, que decerto intensificaria o drama vivido pela personagem central. Desse modo, todos ficariam impressionados - e de fato ficaram - com a história de Clareece Precious Jones. Se tem algo que eu já aprendi é isso: a Academia adora histórias intensamente dramáticas. Parece que quanto maior a desgraça, mais fácil tocar o coração daqueles que selecionam os filmes que serão indicados numa determinada cerimônia. E outra coisa que também já aprendi é que as pessoas - cinéfilos ou não-cinéfilos - adoram são filmes do gênero dramático. Isso talvez signifique que buscamos em certas obras uma reflexão que nos leve à autoajuda: se Preciosa - que é obesa, negra, analfabeta, foi estuprada e está doente - consegue lidar com uma situação complicada, nós então provavelmente não teremos do que reclamar diante de um problema qualquer, como o rompimento de um namoro. E também sei que observar a vida de uma pessoa que parece estar imutavelmente em complicações faz com que nós nos sintamos emocionados, principalmente quando as personagens conseguem dar a volta por cima, como é o caso dos feel-good movies.

Antes de ver o filme, muitas pessoas recomendam-no para mim, adjetivaram-no tanto que o tomei por uma obra-prima da tragédia. E também reafirmei todos os meus pensamentos que comentei acima. A única exceção fica por conta de Preciosa ser um filme feel-good; definitivamente, não é. Preciosa é bem pesado e tão assustadoramente realista que o espectador fica tenso ao assistir certas cenas. Não creio que o roteiro seja realmente muito bom. Creio apenas que tem um desenvolvimento correto e, às vezes, meio lento e isso me fez pensar que o filme tivesse mais de uma hora e cinquenta minutos. É difícil pensar que tanta coisa ruim possa acontecer a uma única pessoa, eu chego até a pensar que isso é ficcional demais. No entanto, qualquer pessoa que acesse o seu conhecimento geral de mundo saberá que a vida de Preciosa é perfeitamente verossímil e é exatamente por isso que ficamos mais chocados: as cenas que vemos somadas àquilo que sabemos ser verdadeiro nos coloca diante de um mundo desumano e injusto - o que a garota fez para merecer tudo que acontece com ela?

Sinceramente, acho que, embora tenha cenas cruéis, o roteiro não é muito desenvolvido. Ele me parece meio breve e implícito e, para que eu me emocionasse, tive que recorrer à minha noção de realidade. Gostei, no entanto, de como Preciosa é trabalhada. Sua personagem é bastante rica: uma garota na situação dela tem comportamentos tendenciosamente autodestrutivos. Isso, no entanto, não diz respeito às atitudes da garota, que, bastante sonhadora, enxerga sempre uma oportunidade de melhora. Quando somos apresentados aos seus sonhos, nós percebemos que ela se reconhece como pessoa e, simultaneamente, busca afastar-se de si mesma. Numa cena, vemo-la, tal como é, dançando com alegria para um rapaz com quem usualmente sonha; noutra cena, enquanto se arruma para ir à escola, Preciosa se olha no espelho e lá vê uma garota magra e loira, o tipo popular e elogiável, evidentemente o oposto do que Preciosa é. Mary Jones, mãe de Preciosa, é decerto uma das criaturas mais terríveis já mostrada nas telas. Ela é um carrasco obstinado a fazer sofrer; em vez de matar, porém, ela prolonga a vida, de modo que a agonia também seja prolongada. Ela sente ódio pela filha, odeia-a tanto quanto pode e lhe culpa por tudo: pelas pessoas que tocam insistentemente a campainha, pelas visitas inesperadas, pela resistência da assistente social em liberar o cheque da pensão mensal. Ela, contudo, amou a filha um dia. Quando Preciosa abre o seu álbum de fotografias, vemos a figura de Mary segurando Preciosa ainda bebê nos braços e a mãe observa a filha com notável felicidade. O mais interessante é que essa cena é mostrada depois de já termos visto o comportamento monstruoso da mãe e isso parece acentuar a nossa ânsia por respostas - o que levou aquela mãe a odiar a própria filha?

Não pude deixar de relacionar a personagem de Mo'Nique à personagem de Mary Tyler Moore em Gente como a Gente - ambas são mães frias e distantes, que não nutrem qualquer amor pelos respectivos filhos. Não pude, também, deixar de correlacioná-las quanto aos seus comportamentos e às suas concepções de realidade: elas crêem que, à sua maneira, amam suas crianças. A única diferença entre elas é o fato de que Beth é uma versão educada e elegante (e também mais bonita) de Mary Jones. "Que mãe odeia o próprio filho?", é a pergunta que Beth faz a seu marido, quando este lhe pergunta o porquê de ela odiar Conrad, seu filho caçula. Ordinary People, de 1980, não nos dá resposta para essa pergunta; Precious, porém, nos responde bem: o ser humano - mesmo uma mãe em relação ao próprio filho - é egoísta. Mary Jones é tão exageradamente egoísta que responsabiliza sua filha por tudo o que deu errado em sua vida. Como o seu ideal de vida não foi atendido, ela se ocupa em destruir o ideal da filha. Ainda que esteja na função de coadjuvante, Mary Jones é uma personagem tão rica quanto Preciosa e ambas são decerto o destaque do filme.

A respeito da direção, realmente penso que Lee Daniels fez um grande trabalho. Como diretor, ele conseguiu agrupar uma série de bons elementos numa película que, apenas pelo seu tema, já é extremamente forte. Outro grande acerto do diretor foi não deixar o filme ainda mais pesado. As cenas de choro e emoção são feitas de modo a sensibilizar e não destruir o psicológico de quem assiste. Concordo, portanto, com a sua indicação como Melhor Diretor. Acho que Gabourey Sidibe e Mo'Nique enfrentam um pequeno problema: suas personagens são muito maiores do que as interpretações das atrizes. Ambas defendem bem as suas personagens, mas eu realmente fiquei com a sensação de que o grande mérito é de Preciosa e de Mary Jones, não de Sidibe e Mo'Nique. Dentre as indicadas em Melhor Atriz, creio que Sidibe não tinha muitas chances - acredito que a disputa estava entre Sandra Bullock, que acabou levando o prêmio, e Meryl Streep, a quem a Academia deve um Oscar há muito tempo. Em relação às indicadas em Melhor Atriz Coadjuvante, Mo'Nique me parece ter um grande destaque. Faço a ressalva, no entanto: se Julianne Moore tivesse sido indicada por Direito de Amar, eu concederia o prêmio a ela e não a Mo'Nique.

Preciosa é um filme que incomoda o espectador em alguns momentos; é como se fôssemos corrompidos por testemunhar as constantes agressões à garota sem poder protegê-la. No seu intento de chocar, o filme obtém sucesso. Provavelmente é um filme que será lembrado por algum tempo, principalmente quando nos referirmos às atrizes centrais: Preciosa será, potencialmente, a grande obra das carreiras de Sidibe e Mo'Nique. Que chances, afinal, elas têm de conseguir outra oportunidade de uma boa interpretação? Infelizmente, o preconceito ainda existe e, só para exemplificar o meu comentário, a própria Academia, ao longo de oito decênios de entrega de prêmios, só reconheceu uma atriz negra (magra e bonita, coincidentemente) como melhor atriz.

17 de ago de 2010

Quando Duas Mulheres Pecam

Persona. Suécia, 1966, 85 minutos. Drama.
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Primeiro filme de Ingmar Bergman a que assisti. Depois de vê-lo, me veio aquela sensação de peso, pois essa é uma obra-prima psicológica, que obriga o espectador a pensar sobre cada detalhe em cena. Cada momento indica uma situação, cada expressão indica uma vertente da pessoa e nós caminhamos junto com o filme e somos apresentados a um final reflexivo.

Elisabeth é uma atriz de teatro que após uma apresentação de teatro decidiu calar-se. Desde então, fica muda e vive num hospital, onde conhece Alma, a enfermeira que tomará conta dela. Com o ínfimo avanço nas tentativas de fazer Elisabeth falar, a médica do hospital sugere que as duas mulheres vão passar algum tempo na em sua casa de praia, onde poderão ficar mais à vontade e o tratamento poderá fluir melhor. No período em que passam juntas, cresce entre elas um relacionamento confuso, bastante íntimo, amarrando-as.

Bergman, Liv Ullman e Bibi Andersson, respectivamente, diretor e intérpretes de Elisabeth e Alma, compõem uma obra interessantíssima cuja principal nuance apresentada é a psicológica. O diretor prima pelo silêncio de uma das atrizes, faz com que haja apenas uma voz, apenas um rosto em foco, para nos apresentar posteriormente uma conclusão magnífica. Em conjunto, os três entraram em perfeita sintonia, proporcionando uma ótima afeição em relação ao espectador, já que nos identificamos com tudo o que vemos. Os planos-sequência de Bergman são fantásticos. Ele mostra sempre uma atriz em cena, dificilmente vemos as duas ao mesmo tempo e isso é o necessário para que possamos concluir corretamente a excelência de sua obra. A iluminação que ele usa em cena é fantásticas, pois vemos as atrizes conforme estão suas personagens: embora diante uma da outra, elas estão ocultas e são parcialmente vistas. Curiosamente, o lado do rosto que vemos de uma é o oposto ao lado do rosto que vemos da outra. Em preto e branco, o filme proporciona um furor ainda maior. O calor provém das palavras, dos olhares, jamais das cores em cena. Logo, a eficiência do diretor para captar os melhores ângulos das atrizes é fundamental.

Bibi Andersson representa o descontrole emocional, as revoluções internas do ser. Em pouco tempo, sua personagem ama e odeia, se sente apaixonada e, pouco depois, se torna vingativa. A atriz responsabiliza-se pelas modificações comportamentais, tornando-se um objeto de estudo de Elisabeth. Liv Ullmann, em seu primeiro papel num filme - este seria o 1º de 12 filmes em que ela trabalharia com Bergman -, nos apresenta uma personagem maravilhosa, que sobressai à outra. Sem falas, suas interpretação resigna-se aos olhares e gestos. Os close-ups em seu rosto nos revelam emoções e vontades, nos revelam interesse e, sem nenhuma palavra, podemos compreender todo o significado daquilo que ela sente. Gostaria de citar uma cena que para mim é uma das melhores do filme. Elisabeth está sentada na cama fumando e Alma está numa poltrona, contando a elas seus segredos. Uma cena belíssima na qual todos estão em perfeita sincronia.

Lembram-se de que disse que o filme mostra várias vertentes de uma pessoa? Usei o singular, porque é exatamente isso que o filme representa. [SPOILER] Elisabeth e Alma são, na verdade, a mesma pessoa. Representam, respectivamente, o físico e o emocional. Para isso, basta analisarmos como são mostrada. Elisabeth se move pouco, é bastante linear e a sua única grande explosão é aquela instintiva (quando teme que a outra lhe jogue água fervente); Alma, como o próprio nome sugere, é a parte interna, cheia de movimentos bruscos, variando em humor e sentimentos. Duas cenas deixam isso bem claro: a que o marido de Elisabeth dorme com Alma e quando as duas mulheres conversam no final do filme. Sr. Vogler busca os sentimentos de Elisabeth e não o seu físico, logo ele se deita com Alma. No final, Bergman mostra a mesma sequência de duas perspectivas, exibindo as expressões das atrizes, buscando representar o quanto a culpa pesa (metaforicamente mostrada pelas ofensas de Alma) e a maneira como o físico reage (visto na interpretação de Ullmann). [FIM DO SPOILER]

Quando Duas Mulheres Pecam, muito mais conhecido como Persona, é um filme instigante e hipnotizante, que deve ser visto pelos cinéfilos e pelos fãs de Ingmar Bergman. Infelizmente, o título nacional interfere no depreendimento daquilo que o orignal apresenta, mas o bom espectador facilmente entende tudo o que vê. Definitivamente, uma obra que demorei para descobrir, mas entrou para a minha lista de filmes preferidos.

15 de ago de 2010

Camisa de Força

The Jacket. EUA, 2005, 102 minutos. Drama.
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O filme estava aqui em casa há algum tempo e, como eu queria assistir a alguma coisa que não fosse extremamente dramática, eu resolvi conferi-lo. Viagens no tempo são frequentemente abordadas nos filmes, mas poucas vezes há coerência suficiente para nos permitir compreender exatamente cada passagem de cenas. Em Camisa de Força, penso que haja somente dois erros que diminuíram o meu apreço pelo filme, mas, de um modo geral, ele é muito interessante e eu o recomendo às pessoas que querem se entreter com algo legal.

Jack Starks é um veterano de guerra que, ao voltar para casa, conhece uma garota e uma mulher. Ajuda-as a arrumar o carro e voltando a estrada, pega carona com um rapaz. Quando a polícia pede para que parem o carro, o policial é morto com um tiro e a culpa recai sobre Jack, que vai preso num hospital psiquiátrico, já que não há qualquer indício de que havia mais alguém com ele. No hospício, Jack é submetido ao tratamento estranho do Dr. Becker, que consiste em prendê-lo com uma camisa de força e deixá-lo trancado numa gaveta, onde o personagem começa a viajar num tempo, fazendo descobertas incríveis, como o fato de se encontrar com a garotinha do começo do filme e descobrir que morreu há muitos anos antes.

Acho que a coisa mais surpreendente é: eu não vi um defeito sequer na atuação de Keira Knightely, que interpreta Jackie, a versão mais velha da garotinha que Jack Starks conhece pouco antes de ser preso. Sua atuação não é monstruosamente brilhante, está bem longe de ser assim, mas eu consegui assistir ao filme do começo ao fim sem pensar que ela está forçando a barra ou que está usando a beleza como artifício pra fazer o espectador pensar que ela está atuando. Achei-a boa, simplesmente. Adrien Brody está bem também, no mesmo nível de sua parceira de elenco, Keira Knightely. Seus melhores momentos são aqueles nos quais está dentro da gaveta de necrotério, que causam bastante incômodo no espectador por causa da sensação de claustrofobia somado ao ótimo (e breve) desempenho de Brody. Daniel Craig também tem certo destaque - bastante gordo, eu mal o reconheci numa cena. Sua participação é pouca e sua interpretação é mediana como a dos outros, mas tem sua importância, que é principalmente mostrar que nem todos naquele lugar estão realmente loucos. O destaque, na minha opinião, cabe à personagem Lorensom, interpretada com bastante eficiência por Jennifer Jason Leigh. Contando com boas cenas, a atriz se destaca também pelo que o roteiro a oferece, tornando-a parte de um ciclo complexo. Destaque para a cena na qual Starks diz a ela como curar Babak, a criança com problemas mentais da qual a Dra. Lorensom cuida.
Os filmes que abordam viagens no tempo normalmente apresentam um futuro dependente do presente, ou seja, se você conhece o futuro e conhece um determinado acontecimento que vai determinar uma situação potencial, você é capaz de interferir e mudar a ordem das coisas. Eu gostei muito de Camisa de Força porque, embora tenha essa perspectiva, não aponta que tudo pode ser mudado e resolvido. Sobre o ciclo que citei no parágrafo acima, ele consiste no paralelismo entre o presente e o futuro. Por exemplo, o Dr. Becker diz a Jack Starks, no futuro, o nome de três pacientes que morreram durante o tratamento; no presente, ao sair da gaveta, Starks diz ao doutor que seu tratamento é falho, pois aquelas três pessoas já haviam morrido. Somos obrigado a considerar que os dois períodos acontecem simultaneamente, pois Jack não teria sabido se o próprio doutor não lhe contasse, mas o doutor não saberia se, antes, Starks não tivesse falado aqui. Um evento não poderia, portanto, acontecer antes do outro, o que nos permite concluir que na linha do tempo todos os eventos acontecem ao mesmo tempo e que constituem um ciclo infindável.

Não ficou bem claro para mim o porquê de Jackie ter aversão a Jack Starks. No filme, é dito que ele comete um crime contra a garota e a mãe, mas elas continuam vivas, como Jackie afirma numa passagem. De aversão e medo, subitamente, a moça começa a amar Starks. Faltou um pequeno desenvolvimento nessa parte do filme, que causa alguma estranheza no espectador, mas nada que interfira bruscamente no resultado final. Achei curiosos também a semelhança entre o título original e os nomes dos personagens principais: Jacket, Jack e Jackie. Será uma alusão ao fato de que os três personagens - estou incluindo a camisa de força - estão em ligação direta um com o outro? Vale citar que eu mesmo achei minha teoria sobre o "paralelismo" meio incorreta, pois numa cena vemos que o personagem desaparecer do futuro porque acorda no presente. Isso desconstitui o meu pensamento de que, embora independentes, os eventos do agora e do depois formem um ciclo. O final é extremamente preguiçoso. Poderia ser muito mais ousadas a compor uma conclusão para o filme, que termina meia-boca, com aquela demonstração de que vimos tanto para enxergarmos apenas o que é óbvio. Eu particularmente já esperava por aquele fim, porque ficou claro para mim que ele podia mudar o futuro somente se conhecesse o que o levou a aconteceu. Eu esperava, portanto, que o final fosse diferente, porque aquele seria muito fácil de engolir. E, para minha surpresa, o final apresentado foi o mais simples, mais comum. E isso é uma pena.

De um modo geral, penso que Camisa de Força é bastante válido, porque entretém o espectador com sua históriae garante uma hora e meia de entusiasmo. Não fiquei cansado durante o filme, não tive vontade de adiantar e acho que poderia vê-lo mais vezes ainda (daqui a uns meses, logicamente). O final e pequenos problemas ao longo do desenvolvimento tornam-no menor, porém totalmente assistível e, se você estiver totalmente relaxado, pode se mostrar uma obra prazerosa de se ver.

13 de ago de 2010

Distrito 9

District 9, de Neil Blomkamp. EUA / Nova Zelândia, 2009, 112 minutos. Ficção Científica. 
Indicado ao Academy Award na categoria Melhor Filme.
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Produzida por Peter Jackson, essa obra de Neil Bloomkamp foi bastante comentada na época do seu lançamento, principalmente pela sua amostra selvagem de como seria a imposição da convivência entre seres extraterrestres e seres humanos. Eu me lembro de que ouvi muitos comentários a respeito, ouvi adjetivos como “nojento”, “exagerado” e até mesmo expressões como “sem pé nem cabeça”. Tantos comentários me fizeram ficar curioso a respeito do filme.

A abordagem parte do princípio que uma nave especial, num determinado momento, ao visitar o Planeta Terra, estacionou sobre uma região na África e não conseguiu mais sair de lá, provavelmente por problemas técnicos. Os humanos, curiosos a respeito daquilo, invadiram a nave e descobriram a existências de alienígenas, os quais foram transferidos para uma região onde seriam alojados. A partir dessa introdução, somos apresentados a Wikus Van De Merwe, que é genro de um poderoso industriário e que é encarregado de, conforme a lei, avisar os seres extraterrestres de que eles serão despejados em 24 horas e reabrigados em outro lugar. Sua missão primeira é conseguir a assinatura das criaturas, mas isso se torna uma tarefa epopéica.

Creio que o maior concentrador de elementos interessantes no filme seja o roteiro. Honestamente, é o que mais me chamou a atenção. Embora eu tenha gostado da direção de Neil Bloomkamp e acredite que o diretor soube como elaborar bem os seus planos de ação com boas tomadas que envolvem cenas interessantes de ação – e aqui estão inclusas as perseguições e explosões – e algumas cenas de caráter emocional – como as ligações que Wikus faz para a esposa na tentativa de que ela o aceite depois que ele foi contaminado. Quanto às atuações, devo dizer que eu não as achei fantásticas; nem sequer sei se as achei corretas, porque elas ficam sobpostas ao plano do roteiro, já que a história parece se impor aos outros elementos do filme.

Talvez o que mais incomode as pessoas em relação ao filme seja a banalização da situação vivida: os seres humanos a princípio reagem contra a estadia dos alienígenas, mas depois eles se acostumam de tal modo que chegam a residir em torno da favela que o Distrito 9 se tornou. A situação é tão real que humanos e aliens falam a mesma língua, todos se entendem e interagem, numa constante transação – mercadorias são vendidas, assim como as armas; estas criam uma elevação do índice de marginalidade, já que o tráfico se intensifica e cria problemas para os dois lados, dentro e fora do distrito onde estão os alienígenas cercados. Os acontecimentos são de tão intensos que há uma humanização daqueles seres do outro planeta: eles têm nomes comuns aos nossos (Christopher, por exemplo), eles passam por processos burocráticos, podem ser autuados, são molestados pela milícia – enfim, apenas provêm de outro lugar, mas se tornaram tão humanos quanto os próprios humanos. Em minha opinião, esse é o grande acerto do filme. Em vez de mostrar os anos iniciais, aqueles que vieram imediatamente depois da “invasão”, a opção foi mostrar a situação já estabilizada, depois de muitos anos que a neva havia chegado. Desse modo, é totalmente crível que a situação esteja daquele jeito, principalmente no que diz respeito à estadia e à marginalização daqueles indivíduos.

A estruturação da obra é bem construída. Primeiro temos a impressão de que se trata de um filme documentado e mais tarde essa aparência de documentário é substituída por uma estrutura narrativa comum a filmes cuja intenção não é exatamente retratar uma realidade objetiva. No primeiro momento, vemos a alternância da história e de relatos, que vão construindo a nossa visão da situação que é vivida em Johanesburgo, na África. Depois, vemos apenas a situação de Wikus, que, depois de contaminado e tornar-se o primeiro ser humano a portar ambos os genes (tanto humano quanto alienígena), se transforma em alvo de poderosos industriários cuja intenção é aproveitar suas recentes habilidades, como a de controlar as armas extraterrestres, para dominar o comércio armamentício e lucrar com isso.

Distrito 9 soube abordar vários temas muito recorrentes na nossa sociedade de um modo compacto e, ainda assim, intenso. A junção de vários elementos no roteiro criou uma obra interessante, cuja proposição de questionamento é crítica e muito objetiva. Gostei de como a obra foi composta. A indicação ao Oscar na categoria Melhor Filme foi um pouco exagerada, mas, mesmo assim, não desmereço o filme, porque vejo nele qualidades em maior quantidade do que defeitos. Recomendo que vejam.

11 de ago de 2010

Avatar

Avatar, de James Cameron. EUA, 2009, 161 minutos. Ficção Científica.
Ganhador de 3 Oscar e indicado a outros 6 prêmios, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor.
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James Cameron se tornou responsável pelas duas maiores bilheterias do cinema. Em 1997, ele trouxe às telas a história de Titanic, famoso filme que obteve o recorde de indicações ao Oscar e que tornou memoráveis certas cenas. Doze anos depois, em 2009, ele dirigiu e escreveu Avatar – que conquistou várias indicações no Oscar 2010 e que se tornou febre entre os que gostam de filmes.

Honestamente, acho que o principal fator do filme que manifestou toda essa aglomeração em relação à obra é o conjunto de efeitos especiais. Cameron sempre teve uma tendência a filmes de proporções grandiosas – tal como O Exterminador do Futuro (ele foi o responsável pelos dois primeiros filmes) e Titanic – e seus filmes normalmente são recebidos com certo entusiasmo, já que o primor técnico, principalmente no que diz respeito à perfeição fotográfica e ao figurino é de fato elogiável. Eis que surge Avatar e os efeitos visuais são utilizados em larga escala, o que provoca um intenso frenesi nos rapazezinhos e mocinhas que amam filmes cheio de explosões, naves, mundos paralelos, etc. Isso me faz perguntar: o que é realmente importante num filme?

A minha pergunta provém do fato de que Avatar pode ser um filme que impressiona pelos efeitos, mas, como um todo, não chega a ser elogiável. Os efeitos gráficos constroem um bom cenário e as edições de som transformam o filme numa sucessão coerente de barulhos épicos (como as explosões, nas cenas finais), mas é só isso. Não há espaço para atuações, já que os atores ficam sobpostos aos seres azuis, os Na’vi, criados por computador. Cameron utilizou atores reais – como Zoe Saldana – para viver os Na’vi, mas mesmo assim fiquei com a sensação de que o trabalho desses atores foi desperdiçado. Nem mesmo aqueles que são predominantemente humanos foram bem aproveitados. Muitos podem dizer que Michelle Rodriguez não é boa atriz e que sempre se repete, mas, mesmo se eu considerasse tais afirmações verdadeiras, ainda teria que dizer que ela foi totalmente mal aproveitada como Trudy. Sua participação se resume a quatro cenas, de quinze segundos cada e com pouquíssimas falas. Sigourney Weaver, que anteriormente trabalhara com Cameron em Aliens, o Resgate (pelo qual ela foi indicada como Melhor Atriz), aqui interpreta Dra. Grace; sua participação, devo dizer, acontece apenas para uma explicaçãozinha meia-boca no meio do filme sobre como os humanóides azuis se conectam à vegetação de Pandora. O que dizer de Sam Worthington? Sua capacidade interpretativa me deixou em dúvida: ele passa mais tempo como avatar, de modo que não pude avaliá-lo bem.

A respeito do roteiro, realmente fiquei impressionado: não me contou nada novo. Tudo o que eu vi me pareceu muito conhecido, como se eu já tivesse assistido a dez filmes cujos clímaces tenham sido recortados e inseridos no roteiro de Avatar. Ainda que haja uma sensação de originalidade, creio que isso se deva ao modo como Cameron dirigiu a sua obra e não no modo como concebeu a história dela. E Avatar ainda tem uma onda crescente de clichês, a começar pelo mote que desencadeia os acontecimentos mais importantes: o rapaz rejeitado (lembram-se de que não o queiram por ele ser paraplégico e não ser o seu irmão gêmeo?) envolve-se com uma garota “fora do seu mundo” (nesse caso, a expressão é no sentido literal) e, embora esteja com ela, provoca-lhe, de certo modo, algum mal; descobre-se, no entanto, apaixonado e volta-se contra aqueles para quem trabalhava. Me digam, com sinceridade: quantas vezes já viram isso? Eu já vi várias vezes e devo dizer que consigo apontar semelhanças entre o roteiro de Avatar e o roteiro de Um Amor Para Recordar. Curioso ser estruturado em duas horas e meia e não ter tanto o que dizer.

Confesso, no entanto, que o filme não é apenas sobrevalorização. Não sei se posso chamar de fotografia aquela criação computadorizada do planeta Pandora, mas devo admitir que se tratam de excelentes imagens, que impressionam pelo bom gosto estético. E o desempenho de Cameron como diretor desse filme também é elogiável, já que seu trabalho consiste em reunir uma série intensa de elemento de grande impacto visual. Honestamente, não o culpo por achar o filme chato – eu sempre soube que ele é um diretor que privilegia o choque provocado por algo totalmente novo e que coloca como segundo plano as atuações e até mesmo o roteiro. Como exemplo, cito Titanic: a história de um navio que afunda poderia facilmente ser abordada em uma hora e meia, no entanto, a abordagem panfletária de efeitos especiais o prolongou no dobro do tempo. Não quero, com isso, criticar Titanic – este é um filme do qual gosto muito, saibam!

Eu realmente não me senti tocado por nada que foi exibido em Avatar. Acho que esse é um dos filmes que impressionam pouco, porque parecem novos, principalmente no que diz respeito às técnicas audiovisuais que foram empregadas na construção dessa obra. De resto, é só mais um filme, que não modifica nada na vida de quem o vê. Mesmo tendo conquistado mais lucro do que Titanic, ainda creio que o seu filme de 1997 seja a verdadeira obra-prima de Cameron!

9 de ago de 2010

Original e Remake: A Profecia

Eu criei um post no começo do ano, comentando sobre os dois filmes que representam a primeira parte da saga Sexta-Feira 13. Agora, resolvi retomar essa sessão e, para isso, convidei alguém especial: o Marcelo, do blog Diz que Fui por Aí. Como o admiro, como companheiro de conversas e também como admirador de filmes, convidei-o para vir aqui. Como curiosidade, vale ressaltar que em mais de dois anos, o Marcelo é o primeiro blogueiro a participar com uma resenha ou um artigo.
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Advertência: o artigo abaixo possui um grande número de relevações sobre o enredo.


Para os que não me conhecem, meu nome é Marcelo Antunes, proprietário do blog "Diz Que Fui Por Aí..." e colaborador no "Um Oscar Por Mês". A convite do Luís, escrevi um texto sobre a primeira versão do filme A PROFECIA, levado às telas em 1976, para uma nova sessão do “Literatura e Cinema”, cujo propósito é analisar algumas obras que, alguns anos depois, foram refilmadas. O próprio Luís abriu a sessão, em janeiro passado, com o original e o remake de Sexta-Feira 13. Hoje, ele será o responsável pelo texto da versão de 2006, de A Profecia.

"Refazer" filmes não é nenhuma novidade no cinema. Algumas vezes eles funcionam, outras não. Devo confessar que, de modo geral, o segundo caso me ocorre mais constantemente. O que Gus Van Sant fez com Psicose? E Tim Burton com o Planeta dos Macacos?

Quem sabe, numa postagem futura, elucidaremos essas questões? Material é o que não falta! Por ora, no entanto, nosso olhar se debruça sobre THE OMEN - original e cópia.


Há 34 anos, a 20th Century Fox levava às telas aquele que é, apontado por muitos, como um dos grandes filmes de terror de todos os tempos: A Profecia (The Omen, no original). Baseado no romance homônimo de David Seltzer - que também escreveu o roteiro - , o longa estreou, numa bem sacada estratégia de marketing, em 06 de junho de 1976. Trinta anos depois, quando uma nova versão foi lançada, a estreia ocorreu em 06 de junho de 2006, numa clara alusão ao número 666.

Sinopse: Katherine Thorn (Lee Reemick) é a esposa do diplomata americano Robert Thorn (Gregory Peck), que dá a luz à uma criança natimorta. Convencido por um padre, o político decide adotar um bebê recém-nascido - tudo arranjado para que Katherine não desconfie de nada - a quem chamam de Damien. O tempo passa, os Thorn mudam-se para a Inglaterra - onde Robert é nomeado embaixador - e Damien se revela uma criança diferente das demais. No seu quinto aniversário, sua babá suicida-se durante sua festa, jogando-se de uma das janelas da casa da família, após discursar em sua homenagem. A cena é capturada por Keith Jennings (David Warner), um paparazzo que, mais tarde, desempenhará importante papel na trama. Esse é apenas o primeiro dos acontecimentos estranhos que envolvem o garoto que, segundo Brennan, um desesperado padre que procura Robert, é o filho de Lúcifer.

1. Personagens e suas funções na história.
No original: Damien - O filho do capeta que tem como objetivo dominar o mundo; Robert Thorn - Adotar Damien como filho no lugar daquele que havia morrido. No desenrolar da trama, Robert vê-se obrigado a matar o próprio rebento; Katherine Thorn - Torna-se mãe do menino-capeta sem saber de quem realmente se trata. Acaba sendo vista como possuidora de problemas psquícos; Mrs. Baylock - Misto de babá e guardiã do Anticristozinho.
No remake: a família Thor praticamente é a mesma do filme original. Robert, Kathy e o jovem Damien foram exatamente recriados a partir dos personagens primeiros, sem que suas personalidades fossem modificadas. Robert, tal como na história de 1976, é o responsável pela adoção de Damien e a primeira pessoa a notar o comportamento estranho (e a potencial origem obscura do garoto) é Kathy, a mãe. A somar, há Mrs. Baylock, a babá de Damien: com o intuito de instruir a formação satânica do garoto, ela surge como uma figura misteriosa, disposta a tudo para cumprir sua missão.

2. Direção e desempenho do elenco.
No original: A direção de Richard Donner é acertadíssima. Seu grande mérito foi exatamente contar a história “remando contra a maré” do que estamos acostumados a ver em filmes do gênero. Para os que preferem um terror regado a sangue e muitos gritos, A Profecia pode soar estranho. O longa-metragem assusta e incomoda com cenas que de explícitas pouco têm. A ligação da criança com o demônio não é mostrada obviamente em momento algum e isso só fica claro, para o espectador, através de situações e personagens como a aterrorizante babá Mrs. Baylock, numa grande atuação de Billie Whitelaw. As atuações de Lee Remick e Gregory Peck - voltando à ativa, depois de algum tempo ausente da telona - também são extremamente verossímeis. Como se esquecer da cena em que Katherine é atacada por macacos ou a que Thorn e Jennings estão em um cemitério, um dos momentos mais reveladores da história? Ah, claro, não esquecendo também do pequeno Harvey Stephens que, embora não tenha seguido carreira, provou ter sido a escolha perfeita para viver o pequeno Anticristo.
No remake: devo dizer que esse é ponto problemático da obra refeita. Os atores não parecem muito entrosados e suas interpretações parecem bastante superficiais. Julia Stiles se mostra pouco expressiva, numa atuação miúda e apática; Liev Shreiber tem um desempenho um pouco maior, mas mesmo assim não chega a surpreender como Robert Thorn, vivido por Gregory Peck no original. O grande destaque é Mia Farrow, que refez Mrs. Baylock de forma tão acertada quanto Billie Whitelaw em 1976. O intérprete de Seamus Davey-Fitzpatrick, o anticristo, não acrescenta muito à trama como ator, o seu visual inocente e contraditoriamente perigoso foi bem aproveitado.

3. Desenvolvimento do roteiro.
No original: Embora alguns trabalhos de David Seltzer não deponham a seu favor - taí O Mistério da Libélula que não me deixa mentir - o roteiro de The Omen é quase perfeito, daqueles que “descem redondo”. A trama cumpre o seu papel e “prende” o espectador intensamente, a cada nova cena, até o surpreendente final.
No remake: por ser uma refilmagem bastante fiel à obra original, praticamente tudo o que acontece na versão de 1976 também acontece na nova versão. Vale ressaltar que foram feitas adaptações interessantíssimas, principalmente aquelas vistas no início do filme, quando os padres discorrem sobre os eventos recentes que podem indiciar a chegada do anticristo.

4. Efeitos sonoros e visuais.
No original: Com uma fotografia sombria que casa perfeitamente com o clima da história e edição e efeitos especiais que, embora modestos, dão um show, um dos grandes destaques do longa-metragem é, sem dúvida, a incrível trilha sonora de Jerry Goldsmith - inspirada na ópera “Carmina Burana” - ganhadora do Oscar. Pois é. Atire a primeira pedra quem não sentiu calafrios ouvindo “Ave Satani” (nomeada a melhor canção original) - um daqueles clássicos casos em que a música desempenha papel de protagonista na trama?
No remake: o tom sombrio foi adotado como elemento de acréscimo às cenas tensas. A trilha sonora não me parece muito marcante, mas não posso dizer que ela é falha, já que consegue transmitir bons momentos de tensão ao espectador. Com a vinda da tecnologia, novos efeitos puderam ser utilizados e assim algumas cenas se tornaram mais superficiais – talvez porque passaram a exigir mais dos atores. Para comprovarem o que eu disse, basta comparar as cenas em que Katharine Thorn se acidenta despencando da escada: a de 1976, realizada com Lee Remick se jogando contra uma parede (ou seja, ela estava em pé e seu movimento era horizontal) é bem mais expressivo que a de 2006, na qual Julia Stiles simplesmente fez uma expressão estranha e os técnicos responsáveis se ocuparam em fazê-la se movimentar digitalmente.

Opinião do Marcelo.
• A qual filme eu prefiro: A versão de 1976, evidente.
• O remake de A Profecia é válido? Sinceramente, penso que certos filmes não necessitariam ser feitos uma única vez, imagine duas. Não é o caso de A Profecia, evidente. Mas não entendo o porquê de uma refilmagem. Talvez a data, o aniversário redondo da produção, tenha inspirado recontarem a história. Sei lá.
• O remake faz jus ao filme original? Nenhuma das continuações do filme estão à altura do original, inclusive o remake.

Opinião do Luís.
• A qual filme eu prefiro: eu definitivamente prefiro a obra de 1976, ou seja, a obra original, que acaba se sobrepõe ao remake se formos analisar ambos os filmes em diferentes quesitos, como fizemos acima.
• O remake de A Profecia é válido? Confesso que não vi qualquer necessidade de se recriar uma obra que estava muito bem, sem qualquer sinal de velhice. Creio que o remake tenha apenas tido o intuito de aproveitar o momento que se aproximava (dia 06 do mês 06 de 2006) para reacender um questionamento já antigo acerca do número bíblico 666 e lucrar bastante com isso.
• O remake faz jus ao filme original? Não acredito definitivamente que o remake se equipare ao original. Admito, no entanto, que essa é uma obra que, em qualidade, não chega a ser ridícula, como usualmente acontece com os remakes. Não são equivalentes, porém. O filme de 1976, com Gregory Peck, Lee Remick e Billie Whitelaw, é ainda superior e, por isso, mais apto para análises críticas e entretenimento com qualidade.

A Profecia é um filmão que, como quase toda obra do gênero, é cercada por várias lendas, envolvendo aqueles que, direta ou indiretamente, trabalharam no projeto (o avião que Peck pegaria caiu, vitimando todos os passageiros; o hotel em que o diretor esteve hospedado sofreu um ataque por parte do IRA, etc.), o que confere, de certo modo, uma espécie de charme extra. Portanto, para os fãs e também os não fãs do gênero, fica a dica desse que é - por que não? - um clássico do terror. (por Marcelo)

Assim como o Marcelo, também penso que A Profecia (1976) seja um grande filme de terror e que o seu grau máximo de intensidade esteja na sua forma agressiva de mostrar implicitamente um conteúdo chocante. Não me restam dúvidas de que esse seja um dos últimos grandes filmes de terror – bom elenco, boa história, bons aspectos técnicos e artísticos. Enfim, uma grande obra! (por Luís).

7 de ago de 2010

Mar Adentro

Mar Adentro. Espanha, 2004, 125 minutos. Drama.
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Ramón Sampedro (Javier Bardem) é um homem que luta para ter o direito de pôr fim à sua própria vida. Na juventude ele sofreu um acidente, que o deixou tetraplégico e preso a uma cama por 28 anos. Lúcido e extremamente inteligente, Ramón decide lutar na justiça pelo direito de decidir sobre sua própria vida, o que lhe gera problemas com a igreja, a sociedade e até mesmo seus familiares. (fonte - adorocinema.com)

O filme aborda um tema bastante polêmico: é direito da pessoa não querer mais viver e, por incapacidade de pôr em prática o suicídio, requerer que outra pessoa, desde que em consenso, facilite o ato de morrer? O assunto é extremamente delicado, pois envolve uma série de conceitos que soam estranhos aos ouvidos de muitas pessoas. Perguntam-se como pode uma pessoa querer morrer quando tudo o que todos querem é viver tanto quanto possível. Como se isso não bastasse, há ainda o preceito religioso que fomos feitos para cumprir nossa missão na Terra e somente Deus pode tirar de nós as nossas próprias vidas. Espera-se que haja incentivo para seguir em frente mesmo quando alguém já sabe que seguir em frente é remoer as dores com as quais convive há algum tempo e que isso não trará felicidade alguma.

Definitivamente, é um filme com um tema complicadíssimo, que, ao mostrar seus argumentos, pode tanto encontrar apoio ou críticas nas opiniões de quem o vê. Eu achei que o desenrolar desse filme faz com que nos posicionemos ao lado de Ramón, uma vez que podemos compreender completamente os porquês de ele ter desistido de viver. Ele sabe que se tornou um fardo, um peso para seus familiares e que nenhuma situação vai mudar isso e nada além de sua morte fará com que eles se sintam aliviados. Mas, sobretudo, ele faz isso porque ele mesmo não quer mais subsistir daquela maneira. Com bastante delicadeza, o filme nos mostra Ramón e o seu cotidiano. Nos mostra também as pessoas que ele encontra e o quanto essas pessoas modificam sua vida, tornando-a mais esperançosa - não exatamente no sentido que muitos podem pensar. O que quero dizer é: elas fazem-no crer que estará mais perto de seu desejo, ou seja, morrer. Achei interessante como foi exibido o comportamento da família dele. Quase todos estão convencidos que de a morte é o melhor caminho para ele, embora escondam isso. Mas é fato que todos ali, até mesmo o irmão que é contra a ação de "matar" Ramón, tem conhecido da infelidade permanente na qual vive o outro.

Misturando esse conteúdo denso a suavidade da poesia, o filme nos mostra o escapismo de Ramón. Sua imaginação o transporte para os locais que quer ver, como o mar, o campo, a mulher que ama. Em uma cena bastante poética, Ramón se levanta da cama, se afasta o suficiente e pula pela janela, de onde alça voo e passeia por todas as paisagens com as quais sonha. Há também a sutileza do amor presente numa narrativa de assuno pesado. O amor é visto de maneira bastante humana e, embora haja envolvimento de um homem e uma mulher, eu a vi de maneira bastante fraternal, uma vez que, como Ramón mesmo diz, ele não sente nada do pescoço para baixo. Esses eventos ao longo do filme são fundamentais para que a obra se finaliza conforme o desejo do diretor: ele quer que percebamos que matar alguém pode ser um ato de amor.

Depois de tudo, vocês estão pensando que esse filme é excelente, certo? Pois aviso que não. Embora sua temática seja fantástica, eu simplesmente não me entretive com o filme e cheguei à triste situação de apertar flash-forward umas três vezes. A narrativa flui de maneira tão lenta é não há como não se sentir cansado e nem sequer as boas atuações me tiraram do marasmo que esse filme provocou. As duas horas de filme tornaram-se quatro, pois eu não via qualquer avanço no desenvolvimento e tudo parecia revolver o mesmo assunto batido a respeito da decisão de Ramón e o relacionamento dele com a advogada que sofre de uma grave doença degenerativa e Rosa, uma moça que o conheceu por ter sabido de sua decisão.

Eu posso recomendá-lo, certamente; isso, no entanto, não significa que eu tenha gostado dele. Na verdade, penso que pelos próximos dez anos não vou revê-lo, temendo que me cause novamente aquele tédio absurdo. Talvez vocês possam gostar, talvez o vejam com um olhar mais amistoso. Eu realmente me senti triste pelo fato de um filme potencialmente excelente ter se transformado em algo tão chato. Entretive-me tanto quanto me entreteria se tivesse passado uma hora e meia vendo o "mar" do título como paisagem...

Luís

5 de ago de 2010

Uma Casa no Fim do Mundo

A Home at the End of the World. EUA, 1994, 347 páginas. Drama.
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 Antes de tudo, gostaria de agradecer à Jacqueline por me recomendar e emprestar esse livro. Discutíamos sobre relacionamentos a três e sobre como eles podem ou não dar certo e então ela me falou desse livro, se prontificou a me emprestá-lo e, por causa dela, pude conferir essa obra literária que é, no mínimo, elogiável.


Jon e Bobby são crianças nos anos 60 e eles ainda não se conhecem. O primeiro vive o conforto de uma família que lhe conforta carinhosamente nos braços do pai e no metodismo inflexível da mãe; Bobby, por sua vez, é iniciado aos nove anos no uso da maconha e vê em seu irmão um verdadeiro herói. Tudo se desestrutura quando Carlton, irmão de Bobby, morre tragicamente num acidente doméstico e a família do garoto se desestrutura totalmente: a mãe morre depois por depressão e o pai se mantém alheio ao filho que lhe restou. Já adolescentes, Bobby é um garoto solitário e Jon é tagarela, casualmente acabam se aproximando e descobrindo um no outro qualidades que queriam para si. Tornaram-se amigos, mesmo com o receio familiar que os pais de Jon sustentavam pelo novo amigo. Descobriram-se mais íntimos, enamoram-se. Depois de um tempo separados e já adultos, Bobby vai morar com Jon e Clare, mulher mais velha que divide o apartamento com o amigo. Aos poucos, os três descobrem-se numa tumultuada relação a três, que implica vários questionamentos e decisões difíceis.

Pela sinopse que eu fiz, vocês podem contar três personagens, creditando a dois deles – Jon e Bobby – a categoria de protagonistas. Mas a narrativa de Michael Cunningham, autor do livro, é muito mais ousada: ela dá voz a quatro personagens, tornando-se todos principais. Desse modo, conhecemos Jon, Bobby, Clare e Alice, mãe de Jon. O livro é todo estruturado na narrativa dessas pessoas, sendo, portanto, narrado em primeira pessoa. Isso permite que o leitor se identifique com os quatro e permite que conheçamos os pontos de vista de todos os envolvidos nesse romance. Cada personagem comenta não apenas sobre os medos que lhe cerca como também falam sobre as alegrias e momentos de felicidade por que passa, comenta sobre a relação que tem com a sua própria vida. É possível a nós conhecer os personagens a partir do seu interior. Por exemplo, primeiro o autor se ocupa em narrar os pensamentos e sensações dos personagens. Logo no primeiro capítulo, Jon, ainda criança, nos narra o quanto se sente confortável nos braços do pai e fala sobre o quanto se sente atraído pelo conforto que aqueles braços lhe proporcionam; noutra passagem, ela comenta sobre como se sentia ao olhar no espelho: nem homem nem mulher, ele não se via numa figura masculina nem em uma feminina. Bobby, por sua vez, admite o quanto admira o irmão, figura importantíssima na sua infância e companhia da qual jamais se desligaria, mesmo depois da morte do irmão. Clare – que entra na história somente na terceira parte do livro, quando os personagens já são adultos – discorre sobre a importância que a sua família teve na formação do seu caráter e o modo como ele é capaz de lidar com a relação a três que vive com Bobby e Jon. Alice, aparentemente de menos importância na história, aborda vários assuntos de sua vida: o casamento acomodado, as preocupações com o filho, a esperança de uma vida fora da monotonia habitual.

O autor não se equivocou ao compor o relacionamento de Jon, Clare e Bobby se sem focar naquilo a que estão sujeitos os relacionamentos como esse: a sensação de exclusão. Os personagens mantêm relacionamentos sexuais entre si, mantêm afeição e também se amam – mas de formas diferentes. Cunningham acertou ao mostrar que, embora o sexo admita três pessoas, no amor só cabem duas. O amor é uma estrada estreitas e por elas só passam duas pessoas por vez. Assim, sabemos que, mesmo que façam sexo e se sintam afeitos um ao outro, eles não se amam de modo a ficar os três protegidos. Bobby e Jon se amam fraternalmente, amam-se de tal modo que o sexo não interfere no sentimento e assim eles perceptivelmente continuarão pelo resto de suas vidas. Bobby e Clare também se amam, mas se amam como homem e mulher, e, mesmo sentindo extremo carinho um pelo outro, têm noção de que um dia aquilo pode acabar. Jon e Clare partilham do sentimento de carinho, amam-se também fraternalmente, chegam a ser confidentes – mas, tal como o relacionamento de Bobby e Clare, sabem que um dia pode acabar. Desse modo, se Jon sobra no quesito intensidade sexual, Clare sobre no quesito “durar para sempre”. Vivenciando esse sentimento e tendo-o como base para as suas ações, os dois personagens tomam decisões muito fortes e decisivas, como no momento em que Jon decide se desvincular do triângulo no meio do livro e, mais tarde, quando Clare opta por fazer o mesmo.

A personagem de Alice representa, muito provavelmente, a figura da sociedade observando o relacionamento dos três. Ela é uma mulher que se casou por não ter motivos para não se casar e manteve-se num casamento por muitos anos, até que o marido morreu e ela, então, pôde começar a viver como queria. Desde que seu filho era adolescente, ela já sentia impulsos de sair de sua vida cotidiana – tanto é que se aventurou a se juntar ao filho, Jon, e ao melhor amigo dele, Bobby, nas longas noites em que os dois – eventualmente os três – se entregavam às viagens lisérgicas. Assim, ela busca o tempo todo um escapismo psicológico, quer se sentir diferente de quem é. Diante da descoberta do relacionamento entre Bobby e Jon – numa das cenas mais tensas do livro –, Alice passa a lidar com a situação do melhor modo que consegue, pois ela, como ela mesma admite no livro, já havia notado que o filho era “diferente”. Muito mais tarde, ela diz para Jon que ele deveria investir num relacionamento sério, mesmo diante das argumentações do rapaz de que ele, Bobby e Clare vivem um relacionamento sério. O autor quis talvez mostrar um pouco da hipocrisia que embasa a sociedade: as pessoas, mesmo aquelas que buscam o tempo todo fugir do lugar-comum que assola as suas vidas, não são capazes de aceitar aquilo que lhes foge muito do convencional. Aceitam a homossexualidade porque ela já está consolidada na nossa cultura, mas temem relações que sejam diferentes daquelas a que estamos habituados.

Admito que Uma Casa no Fim do Mundo não é o melhor livro que eu já li, mas vejo nele muita qualidade para recomendar a todas as pessoas que buscam uma boa obra literária, capaz de propor excelentes questionamentos sobre diversos assuntos: amor, amizade, laços de ternura, impulsividade, entre outros. Tudo nesse livro parece muito bem conectado e cada estágio – infância, adolescência e idade adulta – representa uma série nova de reflexões. Eu, particularmente, adorei a adolescência, momento que mais me chamou a atenção exatamente por ser quando os garotos descobrem que se amam além do jeito como dois amigos normalmente se amam. Creio que vocês devam conferir esse livro, provavelmente um dos melhores que eu li esse ano. Recomendo que o leiam com atenção, tomem nota das passagens importantes, releiam-nas, absorvam o máximo possível. Embora não seja livro de auto-ajuda, pode acabar dando grandes dicas de como se portar diante de situações complexas – como, por exemplo, relações a três.

Luís

3 de ago de 2010

Um Homem Sério

A Serious Man. EUA, 2009, 110 minutos. Drama / Comédia.
Indicado a dois Academy Awards: Melhor Filme e Melhor Roteiro Original.
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Os irmãos Coen têm um histórico elogiável de indicações no Oscar. O último prêmio recebido foi duplo: concederam-lhes as estatuetas de melhor direção e melhor roteiro pelo filme Onde Os Fracos Não Têm Vez, de 2007. Antes foram indicados outras vezes como diretores e como roteiristas. Para mim, é inegável que a Academia vê no trabalho deles uma essência que crêem sempre merecer elogios.

Nesse novo filme deles, a vida de Larry Gopnik, um professor universitário cuja vida, de repente, vira de cabeça pra baixo. Sua esposa decide abandoná-lo e quer o divórcio, pois vai se casar com um vizinho; o seu filho se envolve com um garoto problemático depois que compra maconha dele e perde o dinheiro que usaria para pagá-lo; seu irmão Arthur, que sofre de problemas de saúde e que mora com a família de Larry sempre causa irritação em Sarah, filha de Larry. A somar, há os problemas que ele tem enfrentado na universidade, para onde enviam cartas anônimas falando mal do professor.

Devo dizer, desde já, que não entendi o porquê da indicação na categoria principal. Mesmo aumentando para o dobro o número de indicados, nada justifica a inclusão de Um Homem Sério entre esses filmes que concorrem como Melhor Filme. Não quero dizer que seja uma obra ruim, mas decerto não há qualidade que o eleve a tal nível de excelência. Mas, considerando o fato de que Um Sonho Possível também recebeu uma indicação, não vejo porque criticar tanto a atitude da Academia de indicar Um Homem sério. Penso

Gosto do modo como o roteiro se desenvolve. Os acontecimentos na vida de Larry vão acontecendo gradualmente e, embora todos pareçam acontecer no mesmo período, os roteiristas souberam como dar destaque para cada evento separadamente e, para conectá-los, usar os vários questionamentos pelos quais Larry passa. Gosto, especialmente, do comportamento submisso do personagem principal diante dos problemas que enfrenta: embora afirme que não aceitará o dinheiro que um aluno usa para suborná-lo – e embora realmente não queira aceitá-lo -, Larry parece não ter firmeza o suficiente para dizer isso com convicção de modo a convencer qualquer pessoa. Quando a esposa lhe diz que quer o divórcio e que ele deve procurar um advogado, ele o faz rapidamente, assim como rapidamente cede quando a esposa e o amante lhe dizem que ele deve, para o bem dos filhos dele, se mudar de casa. Larry é, definitivamente, um homem que cede facilmente e que, ainda que saiba das dimensões reais de seus problemas, consegue encará-los com certa amenidade.

O humor negro está definitivamente presente em Um Homem Sério. Não parece ser um filme de comédia – e realmente não o é -, no entanto, os elementos cômicos são visíveis ao longo da história. Destaque especial para as cenas dos três rabinos, todos com ótimas sugestões para o personagem central. Destaque também para a personagem Sra. Samsky, que me arrancou risos exatamente pelo modo como ela parece destoada e caricata. Sobre as atuações, creio que todas sejam boas. Ninguém está maravilhoso em cena, mas, sob as mãos cuidadosas dos irmãos Coen, o elenco está correto e consegue nos envolver na história. A direção também é correta e rende bons momentos, mesmo não sendo impecável.

Creio que o problema notável de Um Homem Sério seja o modo como o roteiro se estreita. O filme é cheio de referências internas sobre a cultura judaica, a qual, quem não é judeu, pode não entender totalmente. Isso, às vezes, afasta o espectador da obra, que não compreende em sua totalidade a informação que está sendo transmitida. Ainda assim, acho que Um Homem Sério é um filme interessante para se ver. Nenhuma obra-prima, nenhum filme do qual o espectador sempre se lembrará, mas decerto é uma produção que garante uma hora e quarenta e cinco minutos de entretenimento.

Luís

1 de ago de 2010

Na Natureza Selvagem

A Cecília já esteve aqui no Blog Literatura e Cinema várias vezes. Cmentou comigo um livro, fez um artigo comigo a respeito de um dos nossos escritor preferidos - Stephen King -, e desta vez ela vem mais uma vez para falar sobre um filme, ao qual assistimos em janeiro desse ano, quando ela me ajudou a analisar cerca de 30 títulos. Segue abaixo as nossas resenhas e ela, embora já seja parte da história dessa blog, é a convidada especial de hoje.


Into the Wild. EUA, 2007, 140 minutos. Drama.
Indicado a 2 Academy Awards, incluindo Melhor Ator Coadjuvante.
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Atire a primeira pedra quem nunca pensou, num momento mínimo de raiva adolescente que fosse, em fugir de casa, em deixar tudo para trás: as regras, as ordens dos pais, os costumes, as reuniões familiares de domingo...

Chris McCandless faz exatamente isso. Abre mão de seu conforto, de sua família rica e estruturada, de seu próprio dinheiro, de uma carreira promissora, e parte em uma aventura "na natureza nelvagem". Porém, seus motivos são muito mais fortes do que mera rebeldia adolescente. Chris se cansa da mentira que é sua vida; se cansa de viver de aparências, de status, de o motivo de tudo ser o dinheiro e a imagem.

Parte então em busca de sua essência, da essência de todo ser humano, que é o instinto de sobreviver por seus meios próprios, ter que caçar para se alimentar, dormir ao relento e se proteger dos animais que habitam a natureza.

Seu objetivo é chegar até o Alaska. Em seu caminho ele conhece locais, pessoas, situações, faz amizades valiosas, deixa-as para trás... tudo em prol de sua "grande aventura".

Com o codinome de Alexander Supertramp (Superandarilho, na tradução), Chris passa por diversos lugares deixando sua marca. Não apenas sua assinatura em portas de banheiro, mas principalmente no coração das pessoas.

Tudo é registrado por ele em seu diário. Seus procedimentos de caça, de subsistência, seus meios de se manter "confortável", ou o que isso signifique no meio da selva. E Chris, por mais adversidades que encontrasse, jamais pensava em abandonar sua meta.

O filme possui uma atmosfera envolvente de rebeldia, de primitivismo, que acaba por nos provocar, nos faz querer conhecer pessoalmente a situação. Como seria largar tudo e partir em uma jornada onde a única maneira de sobreviver é fazer uso dos nossos instintos mais primários?

Supertramp consegue sobreviver por dois anos viajando pelos EUA, adaptando-se ao clima e às condições de cada local em que se alojava. Usava de sua própria experiência para aperfeiçoar suas técnicas.

Analisando a história sob esse olhar, nos parece algo surreal, totalmente fictício, um sonho do roteirista. O que mais nos surpreende na história é o fato dela ser baseada em fatos reais. Não apenas uma história inspirada em alguém real, mas verdadeiramente baseada na realidade. O diário realmente foi escrito, as inscrições em banheiros, portas, as pessoas...

A obra mexe com nossos mais profundos questionamentos. Rebelar-se contra a sociedade e criar um meio próprio de vida. Sem consumo, sem escolas, sem regras, sem política, sem mentiras... Chris McCandless conseguiu tal feito, com certo sucesso. Mas até que ponto conseguiríamos fazer o mesmo? O que aconteceria se nos aproximássemos da natureza para dela e com ela convivermos? Talvez seja um instinto que todos possuímos, mas nos falta a coragem para fazê-lo aflorar.

Cecília
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Depois que todos me falaram o quão bom esse filme era, eu me sentia obrigado a conferi-lo. Baseado em uma história real e tendo, aparentemente, conquistado a todas as pessoas, Na Natureza Selvagem conta a história de Christopher McCandles, um rapaz aventureiro que desistiu de tudo o que tinha para seguir numa jornada de libertação até o Alasca. Com aspectos técnicos muito bons e boa qualidade astística, esse filme faz jus a todos os elogios que recebe.

A princípio, dois fatos me agradaram: não ver Sean Penn atuando e ver Marcia Gay Harden como coadjuvante. Nunca vi um filme no qual ela seja coadjuvante que não tenha sido bom. No caso desse, ela mal aparece, mas ainda assim marca presença. Aproveito para dizer: Sean Penn deveria parar de atuar e dedicar-se unicamente à direção, já que seu punho firme e sua excelente escolha de foco fez com que esse se torna não somente um culto à atitude de Chris - ou Alexander Superandarilho -, mas também uma homenagem à paisagem ao seu redor. Sean Penn captou com toda a eficiência que ele não tem como ator a vida de Chris desde a sua vida reprimida perto dos pais até a sua ruptura libertária

O grande efeito que o filme causa no espectador é uma sensação de admiração e, sobretudo, aproximação. Ver tudo o que se desenvolve em cena é praticamente participar do filme e estar ao lado do personagem principal. Dentre todos as pessoas que Chris conhece ao longo de sua jornada, podemos sentir que nós poderíamos tê-lo conhecido, poderíamos ter cruzado com ele. Essa inclusão muito bem programada inquestionavelmente conquista o espectador rapidamente. Eu apenas não entendi o porquê de a Academia ter ignorado um filme tão bom como esse. Indicou-o a apenas duas categorias quando poderia tê-lo indicado a pelo menos mais três: Melhor Fotografia, Melhor Ator (Emile Hirsh) e Melhor Diretor (Sean Penn). Considerando que Juno concorreu a Melhor Filme e que Na Natureza Selvagem é superior, então acredito que poderia ter recebido ainda uma outra indicação, desta vez para o prêmio máximo, Melhor Filme!

Ainda que eu tenha tido a impressão de que há mais ficção do realidade nessa obra, não posso deixar de considerá-la uma trama muito boa, com doses equilibradas de emoção, aventura, romance e drama. Apesar de ter mais de duas horas, quase nem percebemos, tamanho o entretenimento. A grande surpresa do filme fica por conta daquele final, já que não exatamente aquilo que esperávamos... a realidade parece tornar-se fatídica ali.

Luís
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