31 de jan de 2011

Reencontrando a Felicidade

Rabbit Hole. EUA, 2011, 95 minutos, drama. Diretor: John Cameron Mitchell.
Sabe quando você sente que um filme podia ser muito pequeno, mas acabou engrandecido pelo seu conjunto de fatores positivos? Pois é, essa é uma das características desse novo filme, que traz de volta a maravilhosa Nicole Kidman.

Era o começo da década passada, o ano era 2001 e Nicole Kidman atraía a atenção dos espectadores e da crítica para a sua performance como Grace, a mãe da família-fantasma do filme Os Outros. A atriz, então, emplacou sucessos de crítica nos anos seguintes: Moulin Rouge, ainda em 2001; As Horas, de 2002; Dogville, em 2003. E desde então não consigo me lembrar de uma produção realmente boa da qual ela tenha participado. Isso até 2010, quando ela protagonizou Rabbit Hole, fazendo os espectadores se lembrarem de que ela é a mesma atriz capaz de proporcionar excelentes desempenhos.

Como devem ter notado, a interpretação da atriz me agradou totalmente e não acho que os circuitos de premiação estejam supervalorizando o trabalho de Kidman nesse filme – sua atuação é mesmo elogiável e 50% do poder desse filme está em suas mãos. A outra metade está nas mãos de Aaron Eckhart, intérprete de Howie Cobbert, esposo da personagem Becca, defendida por Kidman. Ambos interpretam o casal que há oito meses perdeu o filho e que desde então tem tentado lidar com a perda – eles vêem o filho em todos os lugares da casa e não sabem direito se querem manter isso ou se querem se ver livres para então tentar recomeçar. Como podem notar, a premissa é bastante simples e toda a história se desenvolve a partir disso.

A respeito do roteiro, devo dizer que ele já me chamou a atenção pela sua organização: estruturado in media res, nós conhecemos a vida de Becca e Howie depois que eles perderam o filho; na verdade, já se passaram oito meses desde que o seu filho morreu. O filme é linear, mas somente conhecemos aquilo que se passou antes de começarmos a assistir à obra por causa dos diálogos e das explicações que surgem quando os personagens conversam. Desse modo, não há apelos emocionais para longas cenas de choro ou cenas que mostrem a criança morrendo, o que é um ponto positivíssimo para o filme. Praticamente, todo o enfoque do filme está nas relações desses personagens e suas interações individuais com o mundo. Desse modo, as tramas paralelas e os personagens coadjuvantes servem para dar suporte à história de Becca e Howie, sem que os coadjuvantes ou as situações se tornem desnecessárias ou desalojadas na trama. Eu gostei muito de como o assunto é debatido e de como os personagens interagem. Destaque especial para dois momentos: quando Becca se revolta com as constantes comparações entre Danny, seu filho de 4 anos que cruzou a rua para pegar o carro e foi atropelado, e Arthur, seu irmão, que tinha 30 anos e morreu de overdose; depois, há o momento em que Howie discute com Jason, o garoto que atropelou o seu filho.

Acredito que o roteiro é tão bom porque ele conseguir enxugar a história dos personagens. Em apenas uma hora e meia, nós conferimos a todos os problemas pelos quais passam os personagens, a todos os seus conflitos internos e à forma como eles buscam uma nova energia para continuar a viver. A somar, conhecemos o apego que eles têm um pelo outro e o modo como desejam continuarem juntos. Isso é feito de um modo conciso e objetivo, sem longas divagações melodramáticas e incômodas. Penso que Rabbit Hole conseguiu ser intenso naquilo que buscava sem precisar ser apelativo e esse é inquestionavelmente um mérito do filme. Não nego que o clima do filme seja pesado, não havia como não o ser, afinal – estamos assistindo à história de um casal cujo filho pequeno morreu e estamos acompanhando justamente o processo de adaptação à nova vida. Os diálogos, as conversas, as atitudes dos personagens – tudo me pareceu muito verossímil e muito elogiável.

John Cameron Mitchell, responsável por uma outra obra bastante famosa, Shortbus, é o diretor desse longa-metragem e penso que o seu trabalho aqui seja notável e até premiável, ainda que eu imagine que ele não terá espaço nas premiações entre os grandes nomes dessa temporada, entre os quais estão Darren Aronofsky, David Fincher e Danny Boyle, recente ganhador do Oscar de melhor direção. É perceptível o esforço de Mitchell em retratar cada cena com o máximo de veracidade, abordando cada elemento de um modo que seja possível na vida real. E cabe a ele também um grande elogio pelo modo como trabalhou com o elenco, arrancando de todos boas performances. É inquestionável que um filme desse porte ficaria ruim se os atores principais não fossem capazes de entregar-se às situações propostas; felizmente, não é isso o que acontece. E o resultado é muito simples: Aaron Eckhart e Nicole Kidman promovem interpretações excelentes. Ambos estão em perfeita sintonia, seja nas cenas mais simples seja nas cenas de discussões – atentem para a discussão que há entre eles logo depois de ela ter, sem querer, apagado o vídeo do filho deles que estava no celular dele. Percebemos quanto os atores são bons não pelas cenas mais dramáticas, mas sim pelas cenas em que há mais estabilidade e calmaria – eles não saem do tom, carregam o clima pesado consigo o tempo todo. Assim, dou-lhes total credibilidade e realmente afirmo sem dúvida disso: apreciei as suas interpretações. Infelizmente, Eckhart está sofrendo da mesma maldição que Leonardo DiCaprio: ele está sendo ignorado em todas os circuitos de premiação. O filme ainda conta com Diane Wiest, que aparece em poucos momentos, mas que, junto com Kidman e Eckhart, consegue impor a sua presença e mostrar uma potência dramática muito válida.

Honestamente, esse filme me conquistou mais do que qualquer outro que eu tenha visto dessa temporada de premiações. Realmente não acho que esse seja inferior às obras “A Rede Social”, “Cisne Negro” e, sobretudo, não é inferior à “Minhas Mães e Meu Pai”. E sinceramente penso que não faz sentido indicar qualquer autor de qualquer um desses filmes sem também indicar o casal protagonista, ainda que eu saiba que Eckhart permanecerá ignorado. Para mim, Rabbit Hole é uma obra que merece ser vista, porque sabe abordar um tema relevante com dignidade, sem apelar para o drama à-toa e para as bobagens costumeiras dos filmes melodramáticos. Todo o elenco está em sintonia, a direção é muito válida, a fotografia é bastante bonita. A somar, adoro a metáfora do título original, que definitivamente se perdeu com essa péssima “tradução”.

29 de jan de 2011

A Linguagem Secreta do Cinema

The Secret Language of Film. EUA, 1994, 197 páginas (Editora Nova Fronteira - 1ª edição especial, de 2006). Autor: Jean-Claude Carrière.
Esse é definitivamente um livro que todo cinéfilo deveria ler.

Esse livro se trata de uma das preciosidades que esporadicamente encontramos nas nossas buscas literárias. Como o meu projeto da faculdade envolve literatura e cinema, acabei diante desse título notável, escrito pelo roteirista francês Jean-Claude Carrière, famoso pelas suas muitas obras, como, por exemplo, Belle de Jour, dirigida pelo espanhol Luis Buñuel. Carrière pouco a pouco introduz o espectador ao mundo do cinema. Ou, pelo menos, a uma parte desse grandioso mundo. O autor vai nos contando a respeito de suas experiências com o cinema e aquilo que aprendeu com as gravações das quais participou. Seu enfoque não é exclusivamente no modo como a linguagem cinematográfica é concebida – o autor propõe também uma análise do ponto de vista do espectador, tornando então o livro muito mais interessante, pois ele dá uma amostra do pensamento do diretor e também do espectador, compreendendo ambos os lados que se comunicam.

É claro que o mais divertido são as curiosidades que ele conta a nós. Por exemplo, ele nos revela alguns acontecimentos por trás dos sets de filmagem, aborda um pouco das características mentais de quem recebe uma mensagem emitida por uma cena. Quanto ao primeiro aspecto, ele cita um acontecimento engraçado a respeito do filme Belle de Jour: numa das cenas, um homem mostra algo numa caixinha e uma prostituta é bastante convicta ao negar-lhe; então, o homem mostra a Séverine, personagem de Catherine Deneuve, e ela aceita prontamente. Na verdade, ninguém sabia ao certo o que havia na caixinha – nem mesmo o diretor e o roteirista. A cena servia para aprofundar a lascívia de Séverine. Um dia, então, o roteirista teve contato com um laosiano e segue a passagem: "[...] o homem contou-me que, outrora, algumas requintadas senhoras laosianas costumavam atar um grande besouro com uma fina corrente de ouro e colocá-lo no clitóris, durante o ato sexual. A agitação das muitas pernas da criatura produzia um grau indescritível de prazer adicional” (p. 86).

Com todos os seus anos de experiências, o roteirista ainda explica como alguns filmes causam estranhamento no espectador, por uma série de motivos – às vezes, a passagem do tempo parece disforme (por exemplo, há uma cena durante o dia, intercalando duas cenas extensas durante a noite; se a cena durante o dia for curta demais, o efeito obtido é incômodo), às vezes é o posicionamento da câmera e as direções descritas (se um personagem diz que vai pro leste e anda para a esquerda, lado que o espectador assume ser oeste). Comenta também sobre alguns pequenos detalhes que cabem à equipe técnica de um filme. Numa das passagens, Carrière comenta que a equipe de direção de arte estava riscando as paredes e o roteirista perguntou o porquê; a ele foi explicado que os personagens que viviam naquele ambiente eram muito pobres e nem sempre podiam pagar o aluguel, aí quando pressentiam que seriam despejados ou quando recebiam o aviso do despejo, eles tentavam fugir com alguns de seus móveis, que arranhavam as paredes. O roteirista comenta que, sem aqueles detalhes, muito do efeito estético teria sido perdido naquela cena.

Inquestionavelmente, trata-se de uma obra que todos os cinéfilos deveriam ler, porque a sua abordagem é realmente muito interessante. Não apenas pelas curiosidades, mas também pelo muito que Carrière tem a contar sobre a sua vida pessoal e sobre os seus envolvimentos profissionais com grandes nomes do cinema, como Luis Buñuel, Hitchcock, etc. Decerto, um livro que merece estar nas nossas estantes.

27 de jan de 2011

Curtas-metragens: Homossexualidade

Recentemente, descobri o prazer de assistir a filmes que, num pequeno período de tempo, registram todas as informações que querem passar, ou seja – os curtas-metragens. Vi poucos, alguns por sugestões de colegas no Filmow, outros porque encontrem elogios na Internet, e alguns por outros motivos, como simples curiosidade. Todos os filmes abordam diretamente ou indiretamente a homossexualidade – e evidentemente não foi uma coincidência a junção desses títulos nesse post. Decidi listá-los, então, e apresentar alguns títulos a vocês. Reafirmo: todos eles abordam direta ou indiretamente a homossexualidade. Então, abaixo segue a lista contendo cinco filmes a que assisti recentemente.

Amor Cru – Argentina, 14 minutos. Qualidade: boa.
Katja Alemán nos conta a história de dois garotos nos últimos dias de escola. Enquanto um jovem enxerga a amizade que ambos têm como “apenas amizade”, o outro espera algo mais, tendo um carinho especial pelo amigo. Parece que em pouco tempo conseguimos entrar no pensamento do rapaz, conhecendo as suas vontades e anseios em relação ao outro. A narrativa começa mediana e ganha força nos momentos finais, fechando com um flashback estarrecedor, que nos faz ver uma amizade na qual afinidade e intimidade estão intimamente ligadas.

Bramadero – México, 22 minutos. Qualidade: insatisfatória.
Trata-se da obra mais estranha dos filmes que selecionei para esse post, porque parece haver nele uma intenção muito forte de criar um contexto simbólico, mas isso tudo acaba meio perdido nas cenas explícitas de sexo que são apenas gratuitas. A história dos dois homens que se encontram – não se sabe se intencionalmente – numa construção qualquer e então realizam os seus desejos sexuais me soou interessante a princípio, mas não demorou dez minutos para que eu percebesse que o filme pendia mais para o pornográfico vazio do que para aquilo que pretendia. E o problema, para mim, não está nas cenas de sexo explícito; o problema reside na sua superficialidade.

Café com Leite – Brasil, 20 minutos. Qualidade: muito boa.
O romance entre Marcos e Danilo é abalado quando Danilo torna-se responsável pelo irmão menor depois de que seus pais morrem. De modo muito resumido, esse é o tema do filme e devo dizer que Daniel Ribeiro, o diretor, soube como registrá-lo muito bem, passando-o para o espectador com extrema veracidade. Os atores também estão em perfeita sintonia, o que faz com que nada nessa produção pareça vulgar ou incômoda. Talvez o seu único problema seja o final aberto demais, que não nos responde a uma pergunta básica: Marcos e Danilo se adaptaram, afinal, à nova situação? Eu sei que é algo bastante relevante, mas mesmo assim esse “defeitinho” não interfere na qualidade do curta-metragem, de um modo geral.

Lucky Blue – Suécia, 30 minutos. Qualidade: média.
Esse é um filme que nos cativa mais pelo elenco, direção, fotografia e trilha sonora do que pelo roteiro, que nos conta a história de Olle e Kevin, dois garotos que descobrem que têm afinidade depois que Kevin começa a ajudar Olle a organizar o pequeno festival de karaokê da cidadezinha onde moram. A direção é despretensiosa, o que ajuda muito – então, esse enredo é tratado com simplicidade e sutileza, tornando-se agradável para quem o vê. Mas ele não dura muito na memória, esquecemo-nos dele rapidamente.

Quero Seu Amor – EUA, 14 minutos. Qualidade: ruim.
Quero mais uma ver repetir: cenas de sexo explícito não me incomodam. Então, o que me fez avaliar esse filme como “ruim” não foi o fato de que vemos relações sexuais em 75% dessa obra. O enredo aborda uma noite em que dois amigos – melhores amigos, pelo que entendi – bebem um pouco a mais e acabam transando. De certo modo, é bastante bonito o que vemos em cena, porque Travis Matthew conseguiu captar tudo com extrema veracidade, diferenciando o seu curta-metragem de um filme pornô, o que facilmente poderia ter acontecido nas mãos de um diretor com menos sensibilidade artística e estética. Mas eu me pergunto: a intenção era só mostrar sexo? Assistir a esse curta-metragem é como parar diante de uma criança que, sentada na sarjeta, chupa um pirulito totalmente distraída. Ou seja, não há nada desautomatizador aqui. É só sexo, é um registro do cotidiano, uma seqüência de pequenos eventos que não nos fazem pensar em nada além daquilo que se vê. Sem referências ao histórico dos personagens, sem alusões ao seu futuro, os catorze minutos de filme tornam-se apenas aqueles catorze minutos de filme – sem nada que o precede nem nada que o sucede.

Em breve, cada um desses filmes curtas-metragens terão a sua resenha individual. E assim que eu assistir a outros, eu faço uma pequena lista deles e ponho de novo aqui, dentro de um tema específico ou dispersos mesmo.

25 de jan de 2011

Inverso do Cinema: Minha Mãe



Esse filme me foi sugerido pela Jacqueline, que, pelo bom gosto, sempre me incentiva a ver os filmes que me recomenda. Ao me passar esse, porém, ela fez uma ressalva: “o diretor só quis chocar com esse filme”. Ao conferir o filme, que ficou abaixo da média na minha avaliação pessoal, e ao analisá-lo criticamente, não pude deixar de concordar com ela. E resolvi retomar essa sessão com esse filme por um motivo: a sua intenção – ou pelo menos aquela que eu considero que tenha sido a sua intenção. É claro que o resto do conjunto influencia, afinal, não consideraria um filme ruim somente pela intenção estúpida do roteirista. Sem me prolongar mais, vamos ao que interessa.

SITUAÇÃO PROPOSTA:
Pierre é um jovem de dezessete anos que vai viver com a mãe, Hélène, por quem tem um amor muito intenso e uma visão distorcida da realidade dela. Um dia, ela lhe diz, sem meias-palavras, que ele a enxerga conforme ela não é, porque, na verdade, ela é, em suas próprias palavras, une chienne – uma cadela. Hélène decide então mostrar ao filho o seu modo de viver: apresenta-o a um mundo de sexo sem culpa, de relações grupais; definitivamente, ela lhe apresenta um mundo de novas experiências no campo sexual.

Personagens
Basicamente, o filme gira em torno de Pierre e tenta discutir as suas relações com as pessoas a partir do momento que passa a ter como tutora sexual a sua própria mãe. Hélène, a mãe, é uma personagem coadjuvante a meu ver e cabe a ela conduzir o filho pelo caminho das novidades. Há entre os dois uma relação dúbia e provavelmente não-recíproca, na qual ela lhe ensina e o ama numa proporção e de um modo bem diferente do modo como ele ama – isso discutirei mais abaixo, quando comentar o roteiro. Hansi e Réa também são figuras consideráveis na trama, haja vista que elas, junto com Hélène, são responsáveis pela mudança da percepção de mundo de Pierre.
Qual o problema nesse aspecto: as personagens femininas são vazias e suas motivações não tem base. Hélène, que é para Pierre o que Lorde Henry é para Dorian Gray, é simplesmente superficial, assim como as suas “amiguinhas”, Hansi e Réa. É exatamente esse o motivo pelo qual as três não conquistam a nossa simpatia. E Réa ainda atinge um ponto de vulgaridade que não há como considerá-la senão asquerosa. Os atores também não conseguem dar qualquer vida a seus personagens, talvez porque o roteiro não sabe bem definir o que se espera deles. Aí, ninguém parece funcionar bem – nem minimamente bem, o que é verdadeira uma pena.

Direção
Diferentemente do que fez em outro de seu filme, Les Chansons d’Amour, de 2007, Christophe Honoré aqui peca pela insistência em nos mostrar cenas desnecessárias e cinematográfica vulgares. E não faz isso apenas uma vez – dá uns dois closes no pênis de Louis Garrel; filma Joana Preiss (Réa) lambendo-lhe as nádegas; em off-screen, filma uma cena na qual Réa introduz o dedo no ânus de Pierre e então oferece o dedo para a mãe dele cheirar e para ele lamber. As suas tomadas vão contra a ousadia do seu roteiro, ele parece bastante primário e convencional ao filmar certas cenas – o elenco nu e algumas imagens panorâmicas não atribuem novidade à maneira como a direção foi concebida.
Qual é o problema nesse aspecto: o incômodo provocado por algumas cenas e a linearidade paradoxal da direção de Honoré. Não pretendo sugerir que o diretor embasasse sua obra num falso moralismo que domina o cinema e que, às vezes, impede de mostrar uma cena de sexo com a devida veracidade. Mas acho que exista uma diferença estética e artística muito diferente entre cenas ousadas e aquilo que Honoré concebe. Comparemos Ma Mère com outro filme francês, Irreversible, que é da mesma década e que foi dirigido por Gaspar Noé. Em 2002, Noé dirigiu a sua obra, que choca pela sua extrema violência, chegando ao seu ápice numa cena extremamente incômoda de estupro em tempo real – ao longo do filme, vemos muito sangue, vemos diálogos não muito convencionais, vemos órgãos genitais filmados explicitamente. Há, no entanto, uma diferença mórbida entre uma e outra obra, haja vista que as cenas de Minha Mãe são gratuitas enquanto as cenas de Irreversível provêm da necessidade de se registrar com a maior verossimilhança possível as situações que envolvem os personagens. Assim, considero errônea a direção de Honoré, que me decepcionou com esse filme.

Roteiro
A história desse filme é extremamente atrativa, pelo menos para mim, que constantemente busco filmes cujas temáticas fujam do lugar-comum e sejam capazes de apresentar uma nova vertente de uma característica social muito cotidiana. O amor do filho pela mãe já foi registrado na literatura – vide Édipo; já foi vista em outras obras cinematográficas – por exemplo, Transamerica, na qual um garoto se apaixona, sem saber, pelo pai transexual, e Trage Liefde, na qual o filho relaciona-se sexualmente com o pai. Mas diferentemente de outras obras às quais eu assisti, Minha Mãe registra algo que para mim era novo: o filho tem perfeita consciência de que a pessoa com quem ele quer se relacionar é sua mãe e isso não lhe causa nenhum problema moral ou culpa; a mãe também consciente do desejo do filho e também não se incomoda. O que poderia por esse motivo se tornar uma obra que garantisse uma excelente reflexão a respeito desse acontecimento, que decerto se deve verificar em muitas famílias, tornou-se um filme chato que não propõe nenhum questionamento válido e nenhuma análise significativa. Hélène, que é uma personagem extremamente importante, some em boa parte do filme – danificando a construção que vínhamos fazendo entre ela e seu filho, Pierre.
Qual o problema desse aspecto: a discussão temática é totalmente esquecida em detrimento que coisas não-importantes, como o relacionamento confuso de Pierre com Hansi. Na verdade, penso que o grande problema seja a dispersão, já que o que é realmente significativo ao longo do filme se perde em função de coisas consideravelmente menores. Tive a impressão de que à conversa que Pierre tem na piscina com os dois amigos de Hansi foi dada mais relevância do que ao seu relacionamento perturbador com a sua mãe.

Elementos cinematográficos
Ma Mère definitivamente não chama atenção para outros aspectos, como fotografia, trilha sonora, direção de arte ou montagem. Tudo é bem convencional e pouco atrativo nesse quesito. A potencial força do filme decididamente não estava aí, mas sim no roteiro. Só em alguns momentos somos atraídos pelas cenas registradas de um outro lado francês, que é quando os personagens andam nas ruas, quando vão a clubes e festejam à noite – festejam vulgarmente, só para constar.



Vou às conclusões finais desse meu texto. Penso realmente que Minha Mãe tinha potenciais chances de se tornar um filme lembrado pelo modo positivo como o seu roteiro é discutido, no entanto, tornou-se um filme que mal chega ao tom mediano. E o mais triste é pensar que Christophe Honoré tinha em sua mão dois excelentes atores – Isabelle Huppert e Louis Garrel – e ainda assim não soube como guiá-los dentro do seu filme problemático. Não quero que pensem que Ma Mère seja um dos piores filmes que existem – ele decerto não o é. Mas merece estar nessa sessão pela pretensão absurda de Honoré, que se perdeu dentro dela própria e compôs um filme que nem sequer entretém. Como disse, uma pena.

23 de jan de 2011

Gia - Fama e Destruição

Gia. EUA, 1998, 119 minutos, drama. Diretor: Michael Cristofer.
Nesse premiado filme feito para a TV, somos apresentados a um excelente trabalho cinematográfico que nos conta a história de Gia, uma das modelos mais famosas da história, brilhantemente interpretada por Angelina Jolie.

Angelina Jolie é conhecida por suas ações excêntricas e seu comportamento muito diferente das atrizes-barbie que há em Hollywood. Em Gia, ela teve a oportunidade de mostrar o quão boa ela pode ser num papel dramático e que ao mesmo tempo tem muito a ver com ela. Na minha opinião, Gia é o filme no qual Jolie possui melhor desempenho, superando até mesmo os indicados ao Oscar Garota, Interrompida e A Troca, sendo que pelo primeiro ela ganhou.

Gia Maria Carangi foi a primeira supermodelo estadunidense. De desconhecida, tornou-se um nome famoso rapidamente, estampando capas de revistas, sendo contratada para muitos trabalhos. Simultaneamente, envolve-se com Linda, que, por conflitos pessoais, não pode assumir o relacionamento. Há o foco também na decadência da carreira da modelo, que, compulsiva no uso de drogas injetáveis, começa a se tornar uma personalidade difícil de lidar.

Gia não é um super filme, mas certamente é muito bom como biografia, sendo, na minha opinião, muito superior a muitos filmes lançados, como Johnny e June, Frida, etc. Tenho, sobretudo, que elogiar o excelente trabalho de Angelina Jolie, porque ela é a alma do filme. Duvido que outra atriz personificaria Gia Carangi da mesma maneira que a atriz fez. Vale ressaltar que a personagem é muito difícil e não é apenas necessário estudar o comportamento da modelo, mas também vestir a personalidade dele. Jolie teve que se tornar Gia e não somente interpretá-la. E a atriz fez com extrema eficiência o seu trabalho e nada me resta senão parabenizá-la totalmente por aquilo que ela nos mostra. O cuidado em cena é fantástico: os olhares penetrantes, a maneira como anda, como seduz Linda e como, paralelamente, seduz todo mundo ao seu redor - inclusive o espectador. Entregue totalmente à personagem, Jolie não tem medo de ficar sem roupa e acabamos vendo uma das cenas mais bonitas de nudez, que é quando o fotógrafo tirar fotos de Gia e Linda nuas, separadas por uma tela. Essa foto, aliás, pode ser vista aqui. Elizabeth Mitchell, que ficaria bem mais famosa por viver a (adorada) Juliet, de LOST, participa do filme, como Linda, a paixão de Gia. O entrosamento entre as atrizes é muito bonito e podemos perceber que elas estava à vontade em cena, embora Juliet fique muito aquém de Jolie, principalmente nas cenas mais dramáticas. A Linda do filme parece bem mais bonita do que a mulher real, mas acredito que não poderão ver isso na foto acima, pois ela somente permite ver o dorso da verdadeira Linda. Kylie Travis estorva o desempenho de outras atrizes, interpretando a mãe de Gia: se sua importância na trama é grande, não se pode dizer o mesmo de sua atuação.

O roteiro é dividido mais ou menos assim: meia hora para mostrar a ascensão de Gia e uma hora e meia para mostrar a destruição. Embora haja desequilíbrio da teoria, na prática funciona bem e não nos sentimos incomodados com isso, porque a parte realmente interessante está em sua decadência, que, apesar de lenta e gradual, sempre foi evitada a qualquer custo. A eficiência da direção fez com que o filme não se tornasse um documentário sobre a tragédia. Os depoimentos dos atores ao longo do filme são interessantes, pois dão uma credibilidade maior aos personagens que eles interpretam. O diretor conseguiu captar bons ângulos e pôde mostrar a instabilidade de Gia com grande eficácia. Trilha sonora, cenários, maquiagem, são elementos muito bem utilizados e vale ressaltar que o prólogo - que na verdade é um trecho do epílogo - é muito bonito, incentivando o espectador a continuar vendo.

Gia - Fama e Destruição é uma obra que merece ser vista, principalmente pelo ótimo desempenho de Angelina Jolie, que facilmente teria recebido uma indicação se o filme fosse feito para os cinemas e não para a TV. Possível que muitos concordem comigo que essa é uma das melhores cinebiografias já feitas.

22 de jan de 2011

The Sex Movie

The Sex Movie. EUA, 2006, 84 minutos, comédia. Diretor: Colton Lawrence.
Filme feito para ser visto numa noite sem nenhuma grande pretensão e agrada principalmente aqueles que gostam de ouvir diálogos sobre sexo - e eventualmente ver cenas de sexo.

“A beleza da vida quase sempre é encontrada quando desistimos de controlá-la”.
The Sex Movie é um filme sobre sexo e isso fica claro pelo péssimo título original. Infelizmente, acho que esse filme não foi lançado no Brasil nem sequer em DVD e muito provavelmente ficará sem vir para cá por muito tempo, porque provavelmente não deve ser muito conhecido nem mesmo no país que o concebeu.

O cenário do filme é a casa de Kris, que convidou os seus três amigos – J.D., Heidi e Rafe, respectivamente um heterossexual, uma lésbica e um gay – para passar uma tarde em sua casa, como nos velhos tempos. Os quatro trabalham nos bastidores de ensaios pornográficos, então o sexo é algo bastante natural pra eles. E é exatamente sobre isso que eles discorrem ao longo do filme: tabus, medo, machismo exacerbado, a sociedade e a sexualidade, os defeitos masculinos, os defeitos femininos, etc.

Como disse acima, o cenário é a casa de Kris e é nesse ambiente que os personagens ficam durante os 84 minutos de filme. O roteiro privilegia os diálogos e as constatações de cada personagem, garantindo que cada um tenha o seu espaço em cena e que exprima claramente as suas opiniões sobre o tema que debatem. Não acredito que nenhum personagem seja coadjuvante, porque fica bastante evidente a importância de cada um na trama: todos têm o mesmo peso em cena e o diretor optou por intercalá-los; se um fala, os outros se tornam secundários, vão revezando, um tendo destaque em cada momento. Como todos têm opiniões fortes e são bastante rígidos nas suas convicções, muitas discussões sérias acontecem ao longo do filme e todas as elas são bem estruturadas, apresentando então argumentos mais fortes para defender os posicionamentos dos personagens. Vale ressaltar que eles estão sob o efeito do álcool e de ¼ de pílula de ecstasy – logo perder o controle fica bem fácil. E assim eles começam não apenas um jogo de palavras e debates, mas também um jogo de sedução, no qual brincadeiras ousadas são propostas o tempo todo, desde as garotas se beijarem e se acariciarem até os rapazes mostrarem os seus pênis e se beijarem também.

É curioso notar o uso da expressão “no calor do momento”, que é dita pelo personagem heterossexual quando o homossexual o beija inesperadamente e ele retribui. Todos os acontecimentos que os personagens vivenciam têm a ver com a situação daquele momento e não de experiências anteriores entre eles. Tanto é que eles são amigos e inimigos ao mesmo tempo; há neles o conforto da amizade e a fúria da arqui-inimizade. A proximidade entre eles causa um conflito muito intenso em cada um, já que todos estão envolvidos no jogo perigoso proposto pela anfitriã: sexo e sentimentos, não apenas fazê-los, mas também senti-los. Acredito que a melhor personagem, aquela é mais desenvolvida seja Kris, a dona da casa. Ela se mantém coerente ao longo do filme todo e apresenta argumentos irrefutáveis sobre vários assuntos, como, por exemplo, a evolução do ser como criatura bissexual. Os outros personagens são instáveis em muitos momentos. J.D. é de uma arrogância extrema e num momento diz que acha homossexuais uma aberração, principalmente se considerar os preceitos religiosos, e noutro momento diz que não tem nada contra eles; Rafe e Heide envolvem-se num jogo de confidências que não é respeitado nem por um nem por outro; Rafe é submisso demais enquanto Heide é muito extremista, mas depois a situação inverte e explode – no final do filme, todos os personagens já discutiram com todos, houve agressão, objetos atirados na parede, uma cena de sexo. Acho que o grande problema do filme é o final, que parece totalmente fora do contexto da obra, já que tudo se voltou para um romantismo errôneo e destoante, que definitivamente deveria ter sido evitado nessa obra em particular.

Há um tom meio amador no filme, principalmente nas tomadas externas, quando os personagens são filmados andando na rua – a câmera não deve ser profissional e isso resultou naquela imagem meio ruim. Os atores provavelmente não são profissionais também. Em alguns momentos, eles parecem amadores. A exceção fica por contra de Michelle Mosley e Mathew Tyler, intérpretes de Kris e J.D., que mantém a sua boa atuação do começo ao fim. A simplicidade da atuação de Mike Fallon, o Rafe, me irritou, porque o seu personagem precisava de um tom menos submisso e miúdo e o ator simplesmente se deixa desaparecer ao lado dos outros atores. Eleese Longino, Heide, é aquela que mais discute em todo o filme. Suas discussões se baseiam em gritos, o que me perturbou um pouco, e em algumas cenas, ela parece bem confusa quanto àquilo que deve demonstrar sentir.

Creio que The Sex Movie seja uma obra interessante, mas não é grandiosa nem pretensiosa e talvez esse seja o seu acerto. Não há nela grandes expectativas – é uma produção cujo único fim é entreter o espectador. E eu devo dizer que consegue fazer isso bem se o espectador conferi-la também sem grandes esperanças. O ponto alto do filme são os diálogos sobre sexo e as constatações críticas apresentadas ao longo do filme. Não é um filme do qual você sempre se lembrará, mas decerto é um entretenimento para uma noite fria em que você está sozinho em casa. Pensando bem, talvez seja mais legal vê-lo acompanhado...

20 de jan de 2011

Oito Contos de Amor

Brasil, 1997, 87 páginas - Editora Ática (2ª Edição). Autora: Lygia Fagundes Telles.
Como leitura de transição, essa antologia funciona muito bem, tendo três dos melhores contos escritos pela autora.

Essa obra se trata de uma antologia de oito contos da autora Lygia Fagundes Telles, uma das mais famosas autoras nacionais, responsáveis por inúmeros romances famosos, como Ciranda de Pedra – que inclusive foi adaptado para a teledramaturgia –, e livros de contos, destacando-se os títulos Antes do Baile Verde e A Estrutura da Bolha de Sabão. Os oito contos desse livro foram recolhidos de cinco livros da autora e o responsável pela seleção é Pedro Paulo de Sena Madureira, que selecionou os seguintes títulos (listados aqui na ordem do livro):

1. As cerejas
2. Pomba enamorada ou uma história de amor
3. As pérolas
4. Herbarium
5. A chave
6. Apenas um saxofone
7. O encontro
8. A estrutura da bolha de sabão

Acredito que a seleção tenha sido boa, principalmente porque ela abrange muitos tipos de contos. Alguns são definitivamente mais sensíveis enquanto outros são mais pungentes, criados sob uma estrutura bem diferente dos contos feitos para que o leitor se apaixone pelo enredo. Não vou comentar sobre os oito contos, porque o post ficaria excessivamente grande, então eu vou me focar naqueles que mais atraíram a minha atenção. Os contos Pomba enamorada ou uma história de amor, As Pérolas e Apenas um saxofone, que são os contos sobre os quais falarei, encontram-se em dois livros: o primeiro foi publicado originalmente em Seminário dos Ratos enquanto os outros dois foram publicados em Antes do Baile Verde.

Pomba enamorada ou uma história de amor: conhecemos a história de uma mulher, eleita a princesa da Primavera num baile, que conhece Antenor, por quem se apaixona perdidamente. O grande problema é a reciprocidade – ou melhor, a falta dela! O homem não lhe dá qualquer valor porque não a ama nem nunca pretendeu amá-la, haja vista que o encontro deles foi apenas ocasional. O amor dela por ele é tão grande que ela se torna obsessiva – procura-o em todos os lugares, sob sol, sob chuva, deseja-o incessantemente. O mais interessante é o modo como a autora trabalha o passar do tempo. Em poucas passagens, o conto se desenvolve muito, os anos vão passando e a obsessão da personagem permanece, o espectador acompanha a história muito entretido. São oito páginas de puro entretenimento.

As Pérolas: um homem doente vê a esposa de arrumar, preparando-se para ir a um encontro no qual ela encontrará um amigo do casal, que a ama. O homem pouco a pouco projeta imagens de como será o encontro e de como gradativamente o amigo e a esposa vão se enamorar, esquecendo-se ambos dele, que, à época do casamento deles, já estará morto há algum tempo. A narrativa se fortalece pela dose correta de sentimento presente nela; o espectador acompanha os pensamentos do moribundo e se compadece de sua situação, ao mesmo tempo em que consegue fazer projeções além daquelas propostas pela autora.

Apenas um saxofone: conhecemos a história de Luisiana, uma mulher muito rica – tão rica que se dá o dinheiro de autononimar-se “Luisiana” – e que vive das lembranças do passado e da vida que teve com um tocador de saxofone. Dentre os três, esse é o único conto narrado em primeira pessoa e podemos perceber com muita força a personalidade da narradora. O modo como ela nos conta a sua vida é mesmo apaixonante, mas curiosamente esse efeito é conquistado paradoxalmente: a personagem nos conta mais coisas ruins do que coisas boas, mas o nosso encanto se deve à sua sinceridade muito espontânea.

Acredito que esse livro valha por esses três contos. É uma leitura de transição, livro que lemos quando não temos outro para ler e queremos alguma distração. Não nego a qualidade da autora, mas “contos de amor” realmente não são os meus preferidos. Mas esses contos que eu comentei realmente valem a pena.

18 de jan de 2011

Marcas da Violência

A History of Violence. EUA, 2005, 95 minutos. Drama.
Viggo Mortensen e Maria Bello em perfeita sintonia, num filme que mantém um clima de suspense interessante e ainda nos faz desconfiar até mesmo de quem conhecemos há muito tempo.

Como a cerimônia escolhida para ser debatida no mês de junho do ano passado no blog Um Oscar por Mês foi a 78ª edição, ou seja, a cerimônia de 2006, eu assisti Marcas da Violência para poder comparar a atuação de William Hurt com a dos outros atores também indicados naquela categoria. Visando basicamente vê-lo em cena, me surpreendi com um enredo bastante interessante, que capta a atenção do espectador e que mostra sem grandes devaneios o quão perigoso pode ser estar ao lado de alguém cujo passado é desconhecido.

Tom Stall é o dono de uma cafeteria no centro da cidade e um dia, ao tentar proteger os clientes de sua loja, acaba assassinando dois homens que invadiram o seu estabelecimento com más intenções. A partir de então, é aclamado como herói local e, para sua surpresa, se torna alvo de um sujeito estranho, que começa a rodear Tom e sua família, acusando-o de ser outra pessoa, alguém de passado sujo. Então, a simples desconfiança toma proporções gritantes quando a perseguição à família se torna mais intensa e fica difícil saber em quem se deve acreditar.

Confesso que o primeiro fator que me deixou feliz foi a escolha dos atores. Viggo Mortensen e Maria Bello, logo no começo, já parecem estar em harmonia, e isso causou a minha rápida simpatia. Não creio que sejam dois grandes atores, mas admito que o entrosamento deles em cena é realmente muito bom e isso perdura do início ao fim do filme. O roteiro prima pela dinâmica, então somos surpreendidos rapidamente com o mote que dará sentido a toda a trama. O mais interessante na construção da história é a ampla divergência inicial; são sugeridas, mesmo que implicitamente, três possibilidades: Tom Stall está sendo confundido, Tom Stall é um cidadão sendo apoiado pelo sistema de proteção à testemunha (e isso implica no fato de que ele deve ter presenciado ou mesmo participado de algum crime) ou mesmo que Tom Stall é Joey, o sujeito que Carl Fogarty procura. Todos essas possibilidades fazem com que a família toda esteja insegura, afinal a qualquer momento uma revelação - ou mesmo uma ação decorrente dessa revelação - poderia afetar para sempre todos os membros envolvidos na trama.

[Parágrafo com bastante spoilers] O que mais me interessou no filme é a dualidade dos personagens. Todos têm dois lados, o bom e o ruim. Tomemos como exemplo o próprio Tom Stall, que é também Joey - o sujeito por quem Fogarty procura. Podemos ver nele os dois lados bastante explícitos: enquanto Tom, ele é um homem honesto, de fala calma, voz macia e totalmente atensioso à família; como Joey, ele é agressivo e ágil e absurdamente impiedoso. O mesmo se aplica ao seu filho, Jack, que no começo busca resoluções através de diálogos, mas depois se torna agressivo e questiona com selavgeria não apenas a função enquanto membro familiar, mas também investe pesadamente contra aqueles que lhe desagradam. Talvez o melhor momento para mostrar o quanto os personagens são movidos pelos seus instintos - e aí fica evidente a dualidade que os rege - seja a cena em que Tom e Edie fazem sexo. No primeiro momento em que isso ocorre, a relação deles é consumida totalmente pela ternura e pela paixão, percebemos isso até mesmo pelo modo como ela se veste (adolescente, provavelmente representando inexperiência); já no segundo momento, há entre eles sexo agressivo e rude, sem toques de gentileza, movidos pelo tesão apenas, caracterizando o seu sexo como animalesco. Essa cena, talvez, seja a melhor do filme - decerto é aquela da qual mais gosto.

Marcas da Violência é um filme cujo título ficaria bem melhor se traduzido literalmente: um histórico de violência. Isso talvez se adeque melhor a tudo que o filme tem a mostrar. O que me deixou realmente surpreso foi a atuação de Maria Bello. Como Edie, esposa de Tom, ela se mostra muito eficiente - não foi à toa que o Golden Globe a nomeou como Melhor Atriz Dramática em Papel Principal. Aliás, outra coisa que me chamou a atenção foi a atuação de William Hurt - como a Academia pôde indicá-lo por uma atuação tão simplista e comum como aquela? Ao lado dos outros atores, ele se mostra totalmente apagado. A sua participação na história de vida violenta de Joey é fundamental, mas até a simples imagem de Joey é mais impressionante que a sua.

Marcas da Violência é um filme que merece ser visto. Muitos podem achá-lo simples demais, talvez até um pouco exagerado, mas eu não vejo nada de absurdo nele. Não duvido nada de que haja muitas pessoas que convivem com Joyes e Tom Stalls e que desconhecem esse fato e que, por conta disso, acabam dormindo com o inimigo achei que o momento fosse bom para uma alusão infame a outro filme. Não hesitaria em conferi-lo mais uma vez, porque ele realmente me entreteve com a sua história e é uma obra que passa despercebida, mas que deveria ser recomendada pelas pessoas que trabalham em locadoras quando os clientes pedem por bons filmes.

17 de jan de 2011

Mentes Perigosas

Dangerous Minds. EUA, 1995, 99 minutos, drama. Diretor: John N. Smith.
Uma obra mediana, que aborda os problemas reais que um professor pode enfrentar quando se depara com uma classe que não dá o devido valor aos estudos. Encabeçado por Michelle Pfeiffer, o filme propõe um questionamento interessante sobre os problemas atuais do ensino.

Baseado no livro lançado pela ex-oficial da marinha LouAnne Johnson que desistiu do seu cargo para lecionar inglês e, logo na sua primeira tentativa, deparou-se com uma classe de alunos violentos e sem quaisquer perspectivas. Michelle Pfeiffer assumiu o papel principal nessa obra cinematográfica que, como muitos filmes biográficos, a cada instante tenta capturar a tenção do espectador para a bondade do personagem central

Na verdade, acho que Dangerous Minds é uma obra razoável. E o seu nível mediano se deve exatamente à insistência em manter a narrativa morna, sem ousadia e sem nuances capazes de surpreender. Embasado em muitos clichês e estruturado por um roteiro comum, é muito fácil comparar essa obra àquelas que são frequentemente exibidas na Sessão da Tarde e que são feitas para agradar espectadores de todos os níveis - tanto aqueles que gostam de objetividade quanto aqueles que estão aptos a depreender informações importantes dos filmes. Não creio que haja muito o que ser dito sobre o roteiro e as atuações. A história é narrada de modo muito idealizador, transformando LouAnne numa heroína - às vezes, como na cena em que ela impede uma briga, incomoda um pouco, mas de um modo geral o roteiro se ocupa em torná-la mais normal conforme o filme se desenvolve. Michelle Pfeiffer, por sua vez, consegue defender bem a sua personagem. Isso não quer dizer que sua interpretação seja magnífica; ela está apenas correta. Devo ainda acrescentar que, considerando a maneira como a personagem é concebida pelo roteiro, não é mesmo muito difícil compô-la.

Saindo um pouco da esfera cinematográfica,  acho interessante comentar o quão importante é esse tipo de análise comportamental. É muito fácil, em sala de aula, para um professor atribuir julgamentos e culpas aos alunos sem compreender a realidades deles. E é também comum aos alunos se agarrarem a princípios deterministas como aquele que define que a pessoa será algo por o meio determina. São várias as passagens que evidenciam esses pensamentos e também há passagens que mostram com eficiência o preconceito existente no âmbito escolar e que é, muitas vezes, difundido pela própria coordenação da escola. E se buscarmos além do que o filme mostra, depreenderemos uma filosofia importante: temos que fazer escolhas, não importa que as opções não nos agradem totalmente. LouAnne, no melhor momento do filme, diz para os seus alunos que ninguém deve se fazer de vítima, porque sempre há possibilidade de escolha e que somos nós quem decidimos. Em sala de aula, o professor deve compreender que há fatores externos que, pelo fato de os alunos estarem inseridos em sua área de ação, acabam afetando os estudantes.

Mentes Perigosas não é um filme surpreendente, mas está longe de ser uma obra ruim. É um filme mediano, que pode ser facilmente previsto do seu início ao seu fim, mas que, se visto com serenidade, pode acabar entretendo o espectador e proporcionando um pouco de questionamentos a respeito de como devem ser portar professor, alunos, coordenadores, diretores, e todo o conjunto escolar. Vale uma conferida, daquelas despretensiosas.

15 de jan de 2011

Original e Remake: Disque M para Matar e Um Crime Perfeito

 

Gostaria de retomar essa sessão com uma obra que eu achasse verdadeiramente válida, por isso eu decidi comprar dois filmes que têm uma boa composição artística e estética e que são capazes de entreter o espectador. Antes de começar as comparações, primeiro devo ressaltar uma informação, a qual levei em consideração antes de começar esse texto. Tanto Dial M for Murder (1954) quanto A Perfect Murder (1998) são obras baseadas na peça teatral de Frederick Knott, sendo que esse inclusive assinou o roteiro do filme de Hitchcock. Talvez seja errôneo assumir que a obra mais recente seja um remake da anterior, quando na verdade pode ser – e é – apenas uma versão da peça de teatro, que, por sua vez, foi baseada numa produção feita para a TV americana em 1952. Desse modo, não posso simplesmente alegar que Um Crime Perfeito tenha sido refeito a partir de Disque M para Matar – comparar, portanto, as diferenças artísticas entre essas obras é desnecessário, haja vista que ambas são adaptações e que cada ao seu modo mantém a sua individualidade. Alguns alegam tratar-se de um remake, mas eu prefiro ater-me a idéia de que seja uma versão adaptada diretamente da peça e não do filme de Hitchcock. Assim, me basearei nesse pensamento para comparar as duas obras.


1. Personagens e situações.
Ambas as verões têm basicamente a mesma premissa: um homem elabora um plano aparentemente magnífico para assassinar a sua esposa e, então, encontra alguém que possa controlar para convencer a realizar o que ele havia planejado. As figuras importantes das duas obras são o marido (Tony Wendice, em 1954; Steven Taylor, em 1998 – as referências serão descritas sempre nessa ordem), a esposa (Margot Wendice; Emily Taylor), o amante (Mark Halliday; David Shaw) e o potencial assassino (Lesgate; “homem mascarado”). Como podemos perceber, todos os personagens centrais e relevantes estão presentes em ambas as obras, mas situações ocorrem de modo diferente.
No original: Tony planeja todo o assassinato e investiga a vida de um antigo colega de faculdade, o qual recentemente reviu num ambiente público. Ao verificar o seu passado, constata uma série de irregularidades e confronta-lhe com isso, chantageando-lhe e então lhe propondo que cometa o crime por dinheiro, oferta que é aceita após breve hesitação. A consumação do crime, porém, não se realiza e Lesgate acaba morto por Margot, que acaba se tornando suspeita de um crime premeditado – suspeitam que ela conhecia o homem e que, por causa de pistas forjadas por Tony, ela desejava matá-lo por ele saber do seu romance com Halliday. Ela é presa e condenada enquanto a polícia começa a suspeitar que tenha havido um erro na análise das evidências; voltam as suas atenções então para Tony, que também é alvo de Halliday, que já suspeitava que o marido tinha sido responsável por tudo aquilo. Ainda que não seja mostrado, percebemos que Tony acaba preso por ter planejado um homicídio.
No remake: Steven, assim como Tony, está consciente de que a esposa tem um amante. Então, revira o passado de David Shaw e, descobrindo irregularidades em sua vida, chantageia-o e propõe que ele mesmo seja o assassino de Emily. Nisso, o filme de 1998 se diferencia do original, já que na primeira versão a proposta é feita a um personagem que não tem qualquer envolvimento com a potencial vítima, ao passo que aqui ele tem uma conexão direta com ela. Ainda que aceite executar o plano, David acaba contratando uma pessoa para matar Emily e ela, por sua vez, consegue se livrar do homem matando-o. Sem notícias de David e reclusa na casa de uma amiga, Emily desconfia de que os problemas financeiros de Steven poderiam tê-lo feito planejar aquilo e mais tarde conclui ser verdadeira a sua suposição, pois encontra uma fita gravada por David, seu amante, na qual Steven lhe propõe o assassinato da esposa. Ela e o marido se confrontam e ele, ao agredi-la, acaba esfaqueado e morto por ela.
Ponderações: compreendo que cada obra tem a sua característica individual e gosto do modo como isso se registra em cada uma delas. Não vejo nenhuma diferença considerável de qualidade entre uma obra e outra nessa aspecto, então atribuo o mesmo olhar às duas produções – enquanto, por exemplo, o original me agrada pela sua conclusão, na qual Margot não sai matando as pessoas, o remake me agrada pelo tom verossimilhante da suspeita de Emily em relação a Steven. Assim, mérito dos dois filmes.

2. Desenvolvimento do roteiro.
Não vejo por que separar os dois filmes para comentar esse aspecto, uma vez que eu simplesmente gosto de como as coisas se desenvolvem em ambos os filmes. Penso que Um Crime Perfeito tenha um ritmo um pouco mais lento e um pouco menos de força nos diálogos, o que o torna, comparativamente, um pouco menor do que Disque M para Matar, mas ainda assim ambos os filmes conseguem manter a atenção do espectador com os seus acontecimentos. Tanto um quanto o outro possui algumas pequenas falhas em seus roteiros, como, por exemplo, o método anticonvencional e duvidoso usado para provar que Margot era inocente e Tony culpado – no filme de 1954 – e a estranha propensão de Emily a matar sem muita dificuldade tudo que lhe afronte – na versão de 1998. Considerando que haja mais aspectos bons do que aspectos ruins, acho válido admitir que cada filme, à sua maneira, é capaz de agradar com o desenvolvimento do seu roteiro.

3. Direção, elenco e aspectos artísticos.
Eis o quesito que distancia absurdamente um filme do outro. Enquanto Disque M para Matar é todo dotado de um conjunto artístico elogiável, Um Crime Perfeito se limita a ser um filme que entretém – e só.
No original: Alfred Hitchcock certificou-se de que comporia uma obra inesquecível, ousou ao captar cada ângulo, foi ousado ao criar efeitos de luz e sombra, criou tomadas teatrais, que englobam tudo que há em cena. O elenco do filme, no qual se destaca a beleza segura de Grace Kelly, atrai a atenção do espectador - na verdade, a atriz principal sozinha consegue garantir quase 100% da nossa atenção, tamanha a sua desenvoltura em cena, impedindo que nossos olhos se voltem para outro lugar que não os seus lindos olhos azuis, capazes de revelar toda a situação problemática de sua personagem. A fotografia é maravilhosa, registrando-se para mim como uma das mais interessantes, principalmente quando considero que o filme se passa praticamente todo dentro de um único ambiente.
No remake: Andrew Davis seguiu uma cartilha e dirigiu sem muita ousadia, sem um tom grandioso. Talvez tenha sido certo não ser muito pretensioso, mas decerto não foi válido compor uma obra que não se destaca pelo modo como foi dirigida. Ainda que Gwyneth Paltrow jamais poderá ser comparada ao talento de Grace Kelly, devo admitir que ela está correta na maior parte do filme. Em um ou outro momento, ela fica um pouquinho caricata, mas nada que possa comprometer a integridade do filme. Assim como ela, Viggo Mortensen e Michael Douglas estão corretos e num bom tom - os três dividem a nossa atenção ao longo do filme. De destaque, há a trilha sonora, com alguns momentos de suspense interessante, no qual a música faz diferença. Num ou noutro momento, porém, acabamos um pouco distraídos por uma súbita elevação do tom musical, característica que me incomoda.
Ponderações: considerando-se o conjunto, a obra original é notadamente superior.

4. Função de entretenimento.
Mais uma vez, não vejo como diferenciá-los, porque gosto dos dois filmes e penso que ambos sejam capazes de entreter o espectador. Tanto um quanto o outro atraem a nossa atenção e se revelam obras bastantes válidas. Não nego, porém, a minha preferência pelo filme de 1954, dirigido fabulosamente por Alfred Hitchcock, afinal, considerando todos os fatores analisados, Disque M para Matar sobressai ao ser capaz de entreter totalmente e ainda reunir um conjunto elogiável de bom diretor e elenco, bom desenvolvimento de roteiro, excelente argumento cinematográfico.

5.Conclusões.
a) A qual filme prefiro: Disque M para Matar, por causa de todos os motivos citados acima: é uma composição de extremo bom gosto na qual estão reunidos bons atores, excelente diretor, roteiro instigante e fotografia muito charmosa – e tem também Grace Kelly, linda!
b) A versão refeita faz jus ao filme original? Acredito que a versão de 1994 não ofenda o filme de Hitchcock. Não se equipara em qualidade, mas definitivamente não se trata de uma obra ruim.
c) A versão refeita é válida? Penso que, como adaptação da peça teatral de Frederick Knott, o filme seja válido. Ele não o é, porém, se pensarmos nele como um remake de Disque M para Matar, haja vista que o filme de 1954 mantém uma singularidade inalcançável e não havia como – nem por quê – tentar repetir o feito conquistado pela obra de Hitchcock.

13 de jan de 2011

Os Melhores e Piores Livros de 2010

Assim como 2010 foi um ano de bastantes filmes, também foi um ano de muita leitura, ainda que eu tivesse me dedicado muito mais aos filmes do que aos livros. Muitos dos títulos que eu li foi com finalidade acadêmica, então não vou ficar escrevendo aqui sobre livros teóricos, já que eles não se enquadram exatamente no que eu chamo de “literatura”.

Eu conheci algumas boas obras e li também algumas que não me causaram uma boa impressão. Também tive o prazer de reler algumas obras e, infelizmente, abandonei a leitura de algumas no meio, por falta de tempo e por outras necessidades. Não vou me estender muito com esses meus comentários, vou direto à lista dos melhores e dos piores livros que eu li no ano anterior. Optei por não elencá-los numa lista de preferência, então vou apenas dividi-los em “gostei” e “não gostei”. Começo, então, pelos que mais me chamaram a atenção:

Uma Casa no Fim do Mundo, de Michael Cunningham – o enredo narrado por quatro vozes é fantástico. O autor não se limitou ao compor a história de Jon e Bobby, garotos que se conhecem e se tornam amigos – e mais tarde envolvem-se amorosamente. Já adultos, conhecem Clare e acabam envolvidos numa relação a três. Sem medo de se aprofundar nas relações psicológicas, Cunningham compôs uma obra que merece ser lida por causa de seu tema delicado e pela forma – igualmente delicada – com a qual o autor soube conduzir a história. E ainda tenho um apreço especial por esse romance porque ele me foi recomendado por alguém de quem eu gosto bastante: a Jacqueline. Um beijo pra você!

Gota D’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes – inspirado pela tragédia clássica Medeia, os autores reinventaram a história da mulher que faz tudo pelo marido e é trocada. A personagem grega Medeia tornou-se a carioca Joana, o herói Jasão, homônimo na obra contemporânea, é um cantor bem sucedido. A história, com isso, recebeu um charme a mais, atingindo o leitor com a sua intensidade mórbida. Acredito até que ela seja capaz de atrair o interesse pela obra original, de Eurípedes.
Jogo Perigoso, de Stephen King – nunca neguei: esse é o meu autor preferido. Acusam-no de só saber escrever histórias de terror, mas eu garanto que Stephen King vai muito além disso. Nessa obra, ele invade o psicológico de uma personagem algemada a uma cama, obriga-lhe a reviver sua infância problemática, faz com que ela assista a um cachorro esfomeado devorar o corpo do marido morto (morte da qual ela é responsável) e ainda faz com que ela se confronte com seu próprio corpo e suas necessidades fisiológicas. Uma viagem intensa para o leitor.
O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde – Dorian Gray é um personagem que me marcou. Wilde não poupou filosofia e questionamentos ao escrever o seu único romance. A vida de Dorian é ao mesmo tempo transgressão e pecado, é imoralidade e blasfêmia – tudo isso apresentado de modo muito simbólico e provavelmente distorcido, já que me parece que nenhum pecado é de fato pecado e a imoralidade é, na verdade, a maneira como as pessoas definem tudo aquilo que elas querem fazer e, por medo do pensamento alheio, não fazem.
Leite Derramado, de Chico Buarque – mais uma vez na lista dos melhores, Chico Buarque me encantou com a história de Eulálio, um senhor hospitalizado que divaga sobre a sua vida e conta de modo não-linear a sua vida e a vida dos seus ascendentes e descendentes. Escrito com um estilo muito próprio e superelogiável, essa obra de Chico Buarque registrou-se para mim como uma amostra de que autores brasileiros têm produzido boas obras.



Infelizmente, nem todos os livros que eu li me causaram emoção ou gratidão. Custou-me muito tempo para ler alguns, mesmo eles sendo obras curtas, que eu usualmente leria em menos de uma semana. Ainda bem que eles não foram muitos ao longo do ano. Vamos à lista dos meus pequenos incômodos.

A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector – não sei bem qual é o problema desse livro, mas acho que ele é totalmente disperso e, por causa disso, desagradável. Diferentemente de A Hora da Estrela, não qual o efeito metalingüístico é fantástico, aqui as incursões da narradora em sua própria mente é realmente chata, divagando na maioria das vezes sem propósito. Ainda bem que também reli o outro título citado, a fim de manter o meu carisma pela autora. G.H. pode parecer legal para muita gente, mas para mim ela é apenas uma mulher chata que um dia, por despropósito do destino, encontrou uma barata, esmagou-a e a comeu por falta de algo mais produtivo pra fazer.

Limite Branco, de Caio Fernando Abreu – o primeiro livro que leio do autor me causou extremo desagrado, porque ele, assim como A Paixão Segundo G.H., é cheio de divagações desnecessárias, que atrapalham o desenvolvimento do romance. Aliás, nem sequer descobri o que Caio F. quis mostrar com essa sua obra, haja vista que o enredo é por si só muito cansativo e limitado por si mesmo.
O Terceiro Travesseiro, de Nelson Luiz de Carvalho – enquanto as duas obras de cima simplesmente não se desenvolvem, essa obra nos conta uma história que flui; e flui tão bem que eu a li em apenas um dia. O problema reside no bom gosto estético, uma vez que esse livro conta com um enredo cheio de clichês e numa estrutura narrativa muito primária, isso para não citar o estilo trágico de escrita do autor, que parece ter escrito o romance quando tinha 12 anos de idade! Desse modo, o triângulo amoroso formado por Marcus, Renato e Beatriz é simplesmente descartável para a literatura nacional – e o pior de tudo que é que isso virou peça de teatro e vai virar um filme. Pra quê?

Então, esses são os melhores e os piores de 2010. Li alguns outros livros, mas basicamente os que chamaram a atenção – positiva ou negativamente – ao longo do ano anterior foram esses títulos citados.

11 de jan de 2011

A Outra História Americana

American History X. EUA, 1998, 121 minutos. Drama.
A assombrosa dose de realidade é percebida nos diálogos firmes, nos argumentos aparentemente incontentáveis e o filme nos mostra que a violência funciona em retroalimentação: sempre gerando mais violência.

Havia algum tempo que gostaria de ver esse filme. Quando o pessoal do Um Oscar Por Mês se prontificou a comentou o Oscar de 1999, eu rapidamente me propus a vê-lo e resenhá-lo, de modo que seria útil e ao mesmo tempo saciaria a minha vontade de ver essa obra, cujo tema é realmente bastante delicado. O filme gira em torno de Derek, um neonazista que lidera uma gangue local e que propõem atitudes violentas contra todos que não façam parte das pessoas "limpas", ou seja, hispânicos, negros, orientais, etc., são tratados como pestes por sua turma. Depois de ser preso e descobrir o verdadeiro significado dos seus atos dentro da prisão, ele retorna disposto a ser diferente do que era. Porém descobre que o seu irmão está seguindo o mesmo caminho dele, tornando-se perdido em conceitos errôneos.

O grande trunfo do filme é fazer com que o espectador não tome partidos. Para isso, o diretor recorreu a um tom documental, que pode ser visto até mesmo nos diálogos. Ainda que o orgulho neonazista de Derek seja um estilo de vida, não é dessa maneira que o filme propõe o desenvolver da história. O espectador não fica a favor ou contra Derek, porque em suas palavras há verdades e em suas atitudes há exageros. Assim, ele trilha dois extremos, sem, porém, encontrar equilíbrio entre eles. Quando citei o caráter documental, me refiria a vários elementos, como, por exemplo, os intensos diálogos entre Derek e outro personagem, com destaque a um excelente debate durante um almoço, quando o personagem depõe falando a respeito de como a sociedade fica perturbada quando há fluxo de pessoas, que vêm em busca de algo melhor e sempre interferem na qualidade. Os monólogos dele são dotados de verdades duras e cortantes, que servem para determinar as atitudes dele e também para dar a chance de Edward Norton mostrar o quanto aquela interpretação era difícil.

Acredito que o roteiro do filme seja bem construído em vários aspectos, com exceção da transformação do irmão de Derek. O garoto tinha uma convicção, acreditava mesmo que aquele estilo de vida proporcionaria um futuro melhor e estava envolvido densamente com as pessoas que partilham das mesmas perspectivas. Diante das narrativas do irmão a respeito do que aconteceu na prisão, o garoto simplesmente opta por seguir com o irmão, sem qualquer conflito psicológico, sem qualquer confusão a respeito daquilo que ele realmente gosta - e fica claro durante o filme que ele gosta tanto do irmão como de chutar negros. A direção de Tony Kaye é bastante correta, primando por aquilo que é o essencial numa narrativa complexa como essa: informações e diálogos. O diretor soube como captar não somente o posicionamento do personagem como também a posição dos atores, as suas expressões mais e menos carregadas, as suas gesticulações. Edward Norton mostrou que é um grande ator - sua interpretação é irrepreensível e eu acho que ele deveria ousar tanto quanto ousou nesse filme. Não me restam dúvidas de que sua indicação foi merecida.

Considerando o filme como um todo, devo recomendá-lo. É uma obra consistente acerca de um tema dificílimo e facilmente poderia cair em algo caricato, ofensivo e desnecessário. O filme, porém, passa longe disso e se mostra totalmente coerente com a sua proposta de mostrar estilos de vidas, transformações e ajustamentos com a sociedade. Cada diálogo é um novo impacto, cada cena é um choque: certamente é um filme que cumpre o seu objetivo de maneira bastante válida!

9 de jan de 2011

A Hora da Estrela

1977, Editora Nova Fronteira, 98 páginas (9ª edição). Autora: Clarice Lispector.
Uma das melhores obras da literatura nacional, que contém metalinguagem, crítica social e um estilo muito peculiar dentre as obras de Clarice Lispector.

Em agosto do ano passado, eu comentei aqui no blogue o livro A Paixão Segundo G.H., da escritora brasileira (por naturalização, ela nasceu na verdade na Ucrânia) Clarice Lispector. Quem leu a minha resenha percebeu que eu me opus totalmente àquela obra, a qual considero monótona, dispersa e sobrevalorizada. A Hora da Estrela, por sua vez, é uma obra que eu considero muito válida para a nossa literatura e consiste numa das melhores obras da autora.

Sendo esse o penúltimo romance escrito por Clarice, ela faz questão de nos proporcionar uma análise crítica sobre a realidade cultural do nosso país e ainda proporciona uma excelente composição metalingüística, o que faz de seu livro um dos mais requeridos da literatura nacional. Analisá-lo não é fácil, devido as características muito bem elaboradas da escrita de Clarice Lispector. A sua obra conta com série de qualidades elogiáveis e até considero invejáveis, pois poucos autores conseguem – e poucos conseguiram – realizar uma obra com toda a grandiosidade desse seu livro, que foi o último a ser publicado enquanto a autora ainda estava viva.

Devido à fantástica metalinguagem do livro, somos confrontados com a história de uma alagoana chamada Macabéa, uma jovem datilógrafa “que às vezes sorri para os outros na rua”, mas “ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham” (p. 22). A história dessa nordestina nos é narrada por Rodrigo S.M., narrador que se tortura por causa do relato que nos quer fazer, haja vista que a existência dessa jovem, sobre quem ele afirma conhecer pouco, lhe ofende e lhe perturba, pois ela, como ele mesmo descreve, “somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade – pra que mais do que isso? O seu viver é ralo” (p. 30).

Vale ressaltar que a grandiosidade da narrativa, em primeiro lugar, se encontra do afastamento do autor e do narrador. Ainda que quem escreva seja Clarice, há um segundo autor-narrador, que é também um personagem de Clarice. Pode-se dizer que o narrador, ainda que não participe efetivamente da história, é também personagem dela, já que é também uma criação, com emoções, sentimentos e personalidade. Depois, temos a relação entre o narrador-autor Rodrigo e a sua personagem, Macabéa. Não podemos afirmar precisamente que a personagem existe no plano da realidade do narrador, pois ele mesmo garante não saber exatamente tudo o que acontece e, ao mesmo tempo, sente-se mal por nos contar uma história tão simples, sem muitos atrativos. Ainda há o fator de que Macabéa lhe veio por outra inspiração – o narrador viu alguém na rua e essa pessoa lhe remeteu à nordestina sem rosto e sem vida que é Macabéa.

Há uma aproximação interessante entre o narrador e Macabéa e é exatamente essa aproximação que cria um paradoxo interessante nesse romance: ainda que ele lhe tenha afeto, eles pertencem a classes sociais muito diferentes e possuem estilos de vida diferentes, sendo ela um ardor na vida do narrador, pois a história dela, quanto mais perto dela ele se sente, mais culpado ele se sente. Ao narrar sua vida, o narrador apresenta uma série de falhas no sistema social. A personagem alagoana praticamente subsiste porque não tem informações suficientes para poder se questionar. Sem se perguntar, ela simplesmente acredita que sua vida tem que ser daquele jeito porque tem que ser assim – sem mais. A tia, que lhe aplicava cascudos sem motivos razoáveis, criou em Macabéa uma noção eterna de submissão e é assim que ela se sente – submissa a tudo: ao seu trabalho, ao seu namorado, à sua amiga Glória, à sua própria situação. Viver num quarto com outras quatro garotas não lhe incomoda, desde que tenha um rádio e possa ouvir informações que não entende, mas que julga importante conhecer. Isso mostra que a personagem foi condicionada ao não-discernimento: “[...] ‘Arrepende-te em Cristo e Ele te dará felicidade’. Então ela se arrependera. Como não sabia bem do que, arrependia-se toda e de tudo. O pastor também falava que a vingança é coisa infernal. Então ela não se vingava” (p. 45). Para Macabéa, basta crer, acreditar é o suficiente.

A obra de Clarice narra um Rio de Janeiro não muito bonito – nele vivem pessoas esteticamente feias, que não chama a atenção, que estão à margem da sociedade e que não sofrem porque não têm consciência do que é sofrer, haja vista que existem iludidas pelas mentiras sociais contadas a todo o momento. Chega a ser difícil compreender se o narrador se diferencia tanto dos personagens que ele narra, afinal, os personagens são ele também. Nos momentos finais, com o desfecho criado para Macabéa, ele assume que o mesmo que aconteceu a ela aconteceu a ele também – assume, portanto, que eles estão muito mais próximos do que realmente parece.

Assim, é difícil assegurar quem é real e quem não é nessa obra. Os personagens misturam-se às vezes e completam-se, somam-se em alguns momentos. Clarice cuidou para que sua obra se mostrasse como uma crítica, não apenas à sociedade, mas também à pessoa – o ser individual é criticado, principalmente quando ele necessita de outro para firmar-se como ser superior. De certo modo, é isso que acontece com Rodrigo, ao mesmo tempo em que ele narra e descreve Macabéa como algo por quem ele tem carinho e que, simultaneamente, lhe causa incômodo. A Hora da Estrela possui então vários elementos que apenas constituem uma obra elogiável e que merece ser lida. Aprecio o desenvolvimento filosófico-questionador desse romance e recomendo as pessoas que desejam ler uma obra intimista, na qual se conhecem bem todos os personagens – tanto é que a história da nordestina se inicia já no meio do livro, depois que o narrador demonstrou como é a sua personalidade. Considerando todos os aspectos da obra e a sua relevância literária, não deixo de admitir: A Hora da Estrela é um dos melhores livros nacionais.

7 de jan de 2011

Ken Park

Ken Park. EUA, 2002, 96 minutos. Drama.
Larry Clark conseguiu criar uma obra que choca por sua superficialidade, exibe sexo descontextualizado e incomoda - com razão - as pessoas que buscam um filme mais sério e denso, com algum tipo de crítica social.

Após vê-lo apresentado pelo Hugo, do Cinema - Filmes e Seriados (clique aqui para ver), eu fiquei curioso para conhecer essa obra. Ao pesquisar sobre ela, outro fato me chamou a atenção: Larry Clark, o diretor desse longa-metragem, tem também outro filme bastante polêmico em seu currículo. Curiosamente, ambas as obras têm enfoque no cenário adolescentes e nos problemas em torno dos jovens, principalmente a respeito da sexualidade. Lendo breves sinopses, concluí que Ken Park poderia ser um bom filme. E poderia mesmo.

O acerto do filme é mínimo. Ele mostra grupos não-esterotipados e pouco comuns de jovens: uma garota bem "acesa" que vive sob a guarda religiosa do pai; um garoto que se envolve com a namorada e com a mãe dela; um garoto rejeitado pelo pai, que o trata de modo rude, assumindo que o filho seja homossexual; um garoto que vê sua privacidade invadida pelos avós, com quem mora. Por fim, há Ken Park - personagem título do filme que logo no começo se suicida diante de todos do colégio. Esse aspecto do filme é interessante, pois ele retrata a vida de tipos difíceis e esse poderia ser o motivo principal para a concepção de uma boa obra cinematográfica.

Cada personagem tem seu momento em cena e todos têm suas vidas contadas parcialmente, já que todo o filme se passa em um dia. Porém, pelo excesso de personagens, é difícil contar com eficiência a história de todos sem que surja um tom de superficialidade, pois parece muito coincidente que todos passem por tudo o que passam no mesmo dia. Um pensamento fica em nossa mente: são amigos porque são rejeitados pela sociedade? Mesmo que pensemos assim e concluamos que seja isso mesmo, é improvável que todos aqueles eventos aconteçam simultaneamente com todos eles. Compreendi o intento do diretor: mostrar um retrato da vida dos quatro jovens. Isso explica o porquê de exibir um dia na vida deles, ou seja, tal como numa fotografia, o que se registra é apenas um momento e não uma sequência grande deles. O roteiro poderia ser muito bom; não o é, no entanto. E isso se deve exatamente ao pouco que é mostrado e ao tanto que é deixado para se subentender - assim, toda e qualquer densidade parece pouca, tornando o filme apenas "mais um" e dispensável.

Muitos se chocam com as cenas de sexo. Alguns até as consideram explícitas - e algumas são mesmo. No entanto, não acho que elas atrapalhem o desenvolvimento do filme e a nota baixa que eu dei à obra decerto não está relacionada à pronografia e ao erotismo exibidos. De certa forma, a maneira crua como o sexo é mostrado - com direito a cenas de sexo oral e ménage à trois - intensifica a proposta do diretor, porém não surte o efeito desejado, já que elas pareçam bastante descontextualizadas. Um bom exemplo é a cena em que Tate se masturba enquanto se enforca e, ao mesmo tempo, vê um vídeo de duas tenistas em plena disputa: o que poderia ser uma cena interessante se torna desnecessária e feia e isso resulta na raiva que alguns sentem pelo filme.

Honestamente, eu o acho um filme infeliz. Principalmente quanto ao roteiro e à abordagem da trama.  Não há nada que valha realmente a pena e até mesmo o título parece não ser justificado ao longo da exibição. Larry Clark não mostra nada que seja verdadeiramente produtivo aos olhos de quem vê o filme e acho que não seria totalmente estranho se esse filme ficasse esquecido nas prateleiras das locadoras. Vejam-no somente se estiverem com muita curiosidade. Caso contrário, abstenham-se simplesmente de conferi-lo.