26 de jun de 2011

A Casa do Fim do Mundo

A Home at the End of the World. EUA, 2004, 96 minutos, drama. Diretor: Michael Mayer.
Incrível como bons livros resultam em obras muito medianas. Inúmeros pontos tornam o filme bem menor do que ele poderia ter sido - um deles é Colin Farell.
O que me motivou a assistir a esse filme foi a obra literária que lhe deu origem. Uma Casa no Fim do Mundo – e conseqüentemente A Casa do Fim do Mundo – fala sobre o começo da amizade entre Bobby e Jonathan na década de 70 e sobre como ela foi se transformando, até chegarem à idade adulta, nos anos 80. Em meio a isso, há o problema de Bobby com a morte de sua família, um relacionamento homossexual entre os personagens principais e a relação a três com Clare, mulher mais velha, que acaba apaixonada pelos dois.

É curioso notar que o autor do livro é também o roteirista desse filme. Anteriormente, ele havia escrito o romance As Horas, que originou o excelente filme protagonizado por Nicole Kidman em 2002; dois anos depois, em 2004, ele assinou o roteiro que transformaria em filme outro livro seu. Não sei bem o que houve, mas se eu fosse adaptar essa obra, em específica, eu tomaria cuidados notáveis e tentaria manter aquilo que há de mais elogiável no romance: mais de um protagonista e narrativa em primeira pessoa. O personagem central dessa produção é Bobby, garoto que teve problemas na infância, decorrentes da perda do irmão num trágico acidente doméstico, da mãe em conseqüência da tristeza pelo filho perdido e, mais tarde, do pai, que se afundou em solidão com a quebra do vínculo familiar.

Bobby, já adolescente e viciado em drogas – que lhe foram apresentadas pelo irmão –, conhece Jonathan na escola e rapidamente se tornam amigos: logo ele está freqüentando a casa de Jon, jantando com a família dele, dormindo na casa dele e, por fim, descobrindo-se atraídos sexualmente. O grande problema do roteiro é que isso tudo é mostrado de forma muito rápida e acabamos não tendo tempo pra entender os personagens. Jonathan e Bobby parecem adolescentes solitários e desajustados em relação a todos ao seu redor, mas isso não é mostrado como motivo fundamental para a aproximação entre eles. De desconhecido a acolhido pela família de Jon, Bobby parece não ter qualquer desenvolvimento. A relação maternal que Alice, mãe de Jon, nutre por Bobby é requentada no filme: falta carinho, falta amor mesmo. Eu não tive certeza se a personagem de Sissy Spacek aceitou Bobby em sua casa por pena dele, por ele ser amigo do filho ou porque lhe queria o bem. Mais tarde, quando Bobby se muda para o apartamento de Jon e de Clare, esses dois parecem desconhecidos e mesmo depois de algum tempo, eles ainda não parecem ter afinidade suficiente. Os três se apaixonam, se relacionam, e eu fiquei me perguntando: como pessoas tão desconhecidas conseguem isso? Michael Cunningham tratou seus personagens superficialmente e tornou qualquer situação pela qual eles passam muito simples, sem possibilidades de sugerir ao espectador algum questionamento. Seu roteiro é suave demais.

Vale ressaltar que o livro tem quatro protagonistas: Jon, Bobby, Clare e Alice. No filme, ao enfocar Bobby, os outros se tornam coadjuvantes, mas mesmo assim Michael Cunningham tentou colocar um pouco da história de cada um desse personagens na história e isso resultou em cenas bem desalojadas, como aquela em que Alice conversa com Clare, aquela em que Ned avisa Bobby que ele e Alice vão para o Arizona e que não há mais espaço pra ele e inclusive a saída repentina de Jon do triângulo amoroso em que os três personagens vivem. Essas cenas parecem meio soltas na história, como se fossem irrelevantes, como se não houvesse um motivo mais profundo para que cada um desses eventos ocorressem.

Os atores, em minha opinião, constituem outro erro. Não sei quem achou que Colin Farrell poderia encontrar em si mesmo o tom necessário para a grandeza de Bobby. Ele me soou muito equivocado na maior parte das cenas; a sua insistência em falar baixo e mole, para criar o tom distraído de Bobby me irritou. Dallas Roberts transformou Jonathan em outro equívoco – seu personagem não tem problemas sentimentais, ele parece apenas uma drama Queen. Gosta de choramingar, de reclamar, de se fazer de vítima – e isso não se deve ao roteiro simplório, que tenta mostrar muito numa estrutura muito limitada. A sua interpretação provavelmente provém do fato de que Jonathan é exclusivamente gay, então o ator resolveu falar com os punhos quebrados e ficar com a língua presa em alguns momentos. Isso para não falar da gesticulação excessiva em algumas cenas. Robin Wright Penn não tem espaço na obra, sua personagem não tem desenvolvimento nem a atriz pode destacar-se. Cabe a ela poucos momentos e somente na sua antepenúltima cena é que podemos vê-la se esforçando para aparecer: a expressão da atriz enquanto a sua personagem vê os dois rapazes dançando na varanda é magnífica. O espectador atento poderá fazer uma retrospectiva mental e preencher os vazios que o filme tem a partir do momento em que a observa constatar que, embora eles sejam três, o amor reside em apenas dois, sempre dois. Sissy Spacek, em minha opinião, está linda. Fisicamente, eu digo, porque a sua personagem sofre do mesmo problema de Clare – não tem qualquer desenvolvimento. Mas, ainda assim, ela é a melhor de todos – rouba a cena, em todos os momentos. Uma pena que o diretor tenha desperdiçado justamente o melhor nome desse elenco!

Aqueles que leram o livro previamente sentirão pontadas de felicidade ao perceber que os diálogos se mantiveram. Podemos reconhecer a maioria das passagens literárias, desde Bobby dizendo “Por que sente muito? Você nem a conhecia” para Alice, quando ela diz sentir muito pelo garoto ter perdido a mãe até quando ela fala “Ei, garotos, que tal me dar uma carona?” – no momento extremamente tenso do livro e extremamente bobo no filme. E acho que as qualidades do filme sejam essa e a trilha sonora. Como Bobby é viciado em vinis, a trilha do filme acaba sendo boa e válida.

De resto, A Casa do Fim do Mundo é um filme comum, daqueles que eu considero “só mais um filme”. Se minha memória não fosse muito boa, eu decerto não me lembraria dessa obra daqui a dois meses. Achei-o superficial, creio que esse adjetivo resuma bem o que pensei do filme. Não é profundo, não é cuidadoso, não explora o suficiente. E o tipo de obra cinematográfica que não motiva o espectador a conhecer a obra literária – a não ser, evidentemente, que o espectador seja tão superficial que se surpreenda com o que essa produção mostra. Embora seja possível vê-lo tranquilamente, não vai sensibilizar ninguém, garanto.

24 de jun de 2011

Glue

Glue, Historia Adolescente en Medio de la Nada. Argentina / UK, 2006, 110 minutos. Drama.
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A descoberta da sexualidade na adolescência é um tema que pode gerar uma boa cinematográfica, desde que, obviamente, o roteiro não se foque em situações bobas e lugares-comuns, aos quais filmes com essa temática estão sujeitos. Quando li a sinopse de Glue, rapidamente pensei que se tratava de um filme bom dentro dessa subcategoria, mas eu estava terrivelmente enganado.

O mote dessa produção mexicana é a viagem de três jovens a um lugar onde poderão ficar sozinhos e é nesse lugar que eles conhecerão as suas sexualidades e as explorarão de modo aberto e sem preconceito. É assim que o filme é vendido, mas ele está bem longe de cumprir a sugestão dada pelas linhas que eu escrevi. Glue simplesmente não mostra nada e a tal viagem da sinopse consiste numa cena de uns oito minutos – muito longos, só para constar – que mostra pouquíssimas coisas de relevante.

Li num blog que o diretor de Glue se baseou num roteiro curto e que os atores só o leram uma vez. A partir das situações propostas pelo diretor, eles desenvolveram a cena no improviso – talvez esse tenha sido o erro. Alexis dos Santos, o diretor, se equivocou ao pensar que poderia pegar uma câmera e sair filmando sem ter algo sólido em que se embasar; errou ao pensar que seus atores teriam a capacidade de lidar com esse modo excêntrico de direção; errou na edição, quando permitiu que cenas longuíssimas e sem propósitos fossem misturadas a efeitos cansativos. Creio que o maior problema de Glue seja a direção totalmente equicovada! Não há como esperar muito dos atores se percebemos que não há ali uma mão firme para lhes guiar, logo não culpo os jovens intérpretes dos chatos personagens Nacho, Andréa e Lucas, sendo este o protagonista, aquele o melhor amigo e ela a garota que acaba envolvida nas propostas desordenadas dos garotos.

O roteiro não se ocupa em fazer nada, até creio que seja lorota o que o diretor contou: provavelmente jamais houve um roteiro. Os personagens não se desenvolvem, não evoluem; há cenas intercaladas que não apenas quebram o clima (que já é fraquíssimo) como também perturbam o espectador com a sua terrível falta de utilidade. Confesso que não houve uma cena em específico que me chamou a atenção. A única cena mais interessante é aquela na qual os personagens se relacionam a três, no banheiro masculino de uma festa – ela é quase intensa, quase correta, quase bonita. Enfim, quase.

Fica evidente que eu não recomendo Glue. Não sei se há alguém que goste dessa obra, mas essa pessoa decerto enxergou coisas que eu não pude ver. Achei um filme monótono, sem propósito e, como se não bastasse, longo demais! Vários questionamentos importantes foram deixados de lado ou se perderam em meio às frases falhas de efeito que Lucas, o protagonista, solta ao longo do filme. Uma pena, perdi o meu tempo. Não perca o seu.

Luís

18 de jun de 2011

Apagar os Rastros

Quemar las Naves. México, 2007, 100 minutos, drama. Diretor: Francisco Franco Alba.
Este filme foi uma excelente descoberta para mim, achei todos os temas bastante trabalhados e, mesmo que haja um tom meio novelesco em alguns momentos, garante certos questionamentos.
Na busca por filmes que abordassem a sexualidade, eu encontrei essa pequena pérola. Quemar las Naves, filmes mexicano de 2007, é uma obra que consegue reunir todas as boas qualidades do cinema: roteiro denso, atores competentes, direção firme, trilha sonora adequada,fotografia eficiente e, sobretudo, excelente entretenimento para quem gosta de dramas sérios que envolvem personagens complexos.

Os personagens desse longa-metragem são Helena e Sebastián. Eles são dois irmãos, ela mais velha do que ele, que vivem cuidando da mãe doente. Dois acontecimentos marcam drasticamente a vida dos dois: a morte da mãe e a chegada de um novo garoto no colégio. A partir desse momento, suas vidas se desviam daquilo a que estavam acostumados e partem para um rumo inesperado.

Eu não me sinto confortável em dizer que o que há de melhor nessa obra é o roteiro. Cada elemento está tão intrinsecamente relacionado a outro que tudo nesse filme forma um bloco único, que, embora possa ser fragmentado para análise, não pode ser dividido. Ou se gosta do filme ou não se gosta dele, não creio que haja um meio termo. Primeiramente, discorrerei sobre os personagens e as atuações, falarei então do roteiro e da direção, depois da fotografia e trilha sonora e fecho como habitualmente: comentando se acho válido ou não conferir esse filme.

Pouquíssimas vezes, eu vi personagens sendo tratado com tanto carinho. O trabalho de composição deles me fez ficar tenso: eles são completos demais. São personagens que não têm apenas ação; eles também seguem um raciocínio, eles pensam, eles sentem e eles, sobretudo, têm uma maravilhosa formação psicológica. Desse modo, eles são trabalhados por dentro e por fora – e isso é dificílimo no cinema. Helena, por exemplo, é uma garota distorcida entre o ceder e o reter, a linha que separa essas duas ações é tênue e, para ela, às vezes, indiscernível. Ela desistiu da escola e vive em função da mãe e do irmão, cuida deles tanto quanto pode, esforça-se o máximo para agradá-los. De certo modo, por ser esse o seu estilo de vida, ela espera que o irmão lhe retribua e que esteja disponível para ela, que possa lhe ajudar o suportar o peso das mágoas que ela esconde dentro de si. Sente-se protetora dele e o inclui em seus planos, não deseja torná-lo seu amigo-escravo, porém espera que ele tenha sentimentos recíprocos em relação a ela. Num determinado momento, quando Sebastián alcança sua liberdade como pessoa e depreende-se da veia familiar – que basicamente significa não estar sempre ao lado de Helena, a garota passa a viver em função dele e a atenção exagerada que ela dedicava à mãe agora se volta para o irmão.

Sebastián, por sua vez, primeiro vê na irmã uma companhia extremamente positiva e isso fica evidente pelas cenas iniciais, quando ela canta junto com o rádio toca-discos e faz uma performance para o irmão. Há sintonia entre os dois e isso é quase inenarrável. Não há, no entendo, plenitude em relação à afinidade entre eles e é exatamente isso que Sebastián encontra quando um novo garoto chega à escola. Ele vê no rapaz a rebeldia que ele nunca ousou ter, a força que ele jamais descobriu em si, a coragem que extravasa o limite do aceitável. Ele percebe que ele não apenas admira o rapaz pelo que ele é como também o inveja, tentando moldar-se conforme à imagem dele. Assim, eles se tornam amigos e, desta vez, eles são plenos. Há no outro aquilo que falta em um deles, eles são opostos, se diferem bruscamente, porém insistem na relação, embasada numa ternura muda, silenciosa. Sebastián se opõe a todos: diferentemente de Helena, que é explosiva, ele é contido; diferentemente de Juan, que é corajoso e valente, ele é um mero observador; diferentemente de Ismael, filho do médico que tratava a sua mãe doente, que é um rapaz determinado e decidido, ele é instável.

É interessante notar que todos os personagens são carentes. Eles carecem de apego, carecem de amor. Todos se envolvem pelo desejo de sentirem-se completos, todos buscam a auto-estima nos braços de alguém que acreditam querer bem. E as atuações de todos os atores correspondem àquilo que pedem os personagens. Angel Onésimo Nevares, intérprete de Sebastián, me surpreendeu com uma atuação contida e muito bem elaborada, que nos permite adentrar com ele no universo do personagem. Irene Azuela, a Helena, não erra no tom de voz, nem na postura altiva, nem no modo de se portar em cena, outra surpresa boa! Bernardo Benítez, o Juan, compõe um personagem que aparece pouco, mas que tem extrema importância na trama. Esses três atores nos presenteiam com interpretações muito boas, que conciliam as medidas certas de carisma, orgulho e sentimento.

O roteiro reúne magistralmente situações que engrandecem e desenvolvem os personagens. O enredo não se repete, não pára: é sempre um contínuo crescente, sempre nos mostrando eventos novos e fazendo com que nós sejamos capazes de nos envolver com cada acontecimento. Há também magníficas alusões culturais, como quando o grupo da classe chama o novo garoto de Scarface e como quando Helena lê um livro para a mãe: O Morro dos Ventos Uivantes – o que remete mais uma vez ao que eu disse acima, sobre todos os personagens serem carentes. A trilha sonora, muito bem editada, toca canções que combinam perfeitamente com a cena. Analisemos, por exemplo, a canção que embala a personagem Helena. “Um dia, vou embora / não voltarei jamais / Sei que devo continuar minha vida / em outro lugar”, é a seqüência de versos cantada por Helena e isso corresponde a tudo aquilo pelo que a personagem vive: a esperança de uma vida nova, em outro lugar, fazendo aquilo que lhe agrada. A trilha sonora funciona como um elemento catártico, pois ela puxa para si a carga dramática por que cada personagem passa.

Repetindo: Quemas las Naves é uma pequena pérola do cinema. Um filme que deve ser visto, que merece uma conferida minuciosa, que requer a atenção de um bom cinéfilo, disposto a descobrir uma nova obra interessante. Não é um filme sobre crianças, nem sobre draminha bobo. É uma produção séria e densa sobre as vontades humanas, desde as mais elevadoras quanto as mais autodestrutivas. Vou recomendá-lo mais uma vez, para que tenham a certeza de que eu realmente gostei dessa obra. Vejam-na não uma vez, mas mais do que isso: depreendam-na em todos os seus sentidos, enxerguem-na nas entrelinhas. Vale a pena, com certeza.

16 de jun de 2011

Harry + Max

Harry and Max. EUA, 2004, 74 minutos. Drama.
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Ultimamente, tenho visto muitos filmes que abordam o tema homossexualidade, como Tempestade de Verão, e muitos que abordam relações incestuosas, como Pecados Inocentes. Curiosamente, Harry and Max é um filme cuja abordagem se foca na relação homossexual incestuosa dos irmãos que dão título à obra.

De forma bem direta, o filme se inicia com os dois irmãos planejando uma viagem e, pouco depois, já alojados na barraca onde dormirão, surge o diálogo que nos mostra um passado tumultuado entre eles – em Bermudas, eles tiveram o seu primeiro contato sexual. Mais tarde, numa cena interessante na qual os diálogos são prioridade, os irmãos falam sobre como começaram a ter desejos um pelo outro e Max fala para Harry que desde pequeno ele nutria vontades pelo irmão e que ele sempre soube que estaria pronto para ceder e que, por causa disso, existiria algo entre e esse algo acabou acontecendo em Bermudas.

Primeiro, o roteiro se foca no caráter sexual do relacionamento, mas em nenhum momento deixa transparecer que entre eles há apenas fome de sexo. Eles se amam e isso fica evidente. Eles tentam se agradar, buscam um no outro o conforto que eles não encontram na vida agitada que levam. São estrelas do rock, suas fãs sempre os seguem, suas relações profissionais parecem superficiais e movidas pelo interesse – e isso é bem mostrado numa das cenas finais, que exibe as conseqüências da quebra de contrato entre Max e sua própria mãe, que o gerenciava em sua carreira. Considerando todos os eventos comentados sobre a vida deles – o roteiro não se ocupa em mostrar flashbacks, apenas usa os diálogos para nos fazer conhecer o passado dos personagens e também fatos do seu presente -, me pareceu aceitável que eles se procurassem a fim de saciar a carência por relações realmente embasadas em afeição.

Tudo entre eles é tratado com naturalidade, desde o sentimento fraternal que o une como irmãos como o sentimento sexual que os coloca como amantes. O sexo entre eles tem como base a afinidade e afeição, então nós – que vemos o filme com o olhar crítico que a sociedade impõe para relações incestuosas – acabamos “aceitando” a situação tensa a que eles estão constantemente expostos. Talvez esse seja o maior acerto do roteiro: saber tratá-los como irmãos e como amantes sem deixar que uma característica se sobreponha à outra. Eles não são isso ou aquilo, eles são ambos e eles admitem essa relação para si mesmos. Não têm vergonha de suas conversas, não disfarçam seu amor, são personagens bem conflituosos.

E é talvez nesse ponto que resida o erro do roteiro. Embora o que seja mostrado permita muitas deduções, o roteiro se limita a insinuar e não aborda situações mais profundas. Todo o filme se resume às cenas nas quais aparecem Harry e Max: eles fazem camping, eles viajam, eles ficam num hotel, eles fazem muitas coisas. Acabamos conhecendo apenas a perspectiva dos personagens em relação ao relacionamento deles. O interessante seria expor uma opinião de fora, mostrar a sociedade enxergando o romance que eles vivem. Numa cena, isso tenta ser explorado. Harry, bêbado, conta a uma garota com quem tanto ele quanto Max já haviam se relacionado que ele e o irmão mantinham relações sexuais constantes e ela simplesmente reage como se ele tivesse falado algo que não repercutisse o suficiente para ofender a moral dos indivíduos. Querendo ou não, relações sexuais entre pais e filhos, irmãos e irmãos, etc., chocam as pessoas porque todos nós somos criados com o ensinamento de que não é certo envolver-se em relações intra-familiares. E a garota, que deveria ser a representante da “visão da sociedade” destoa nessa cena e a invalida totalmente. A somar, há o fato de que o roteiro parece não explorar a grandiosidade de Harry e Max. Harry, por exemplo, quer entender o que motiva o irmão a agir tão impulsivamente, envolvendo-se com homens mais velhos, como o professor de ioga dele; tenta então entrar na mente do irmão. Vai atrás do professor de ioga do irmão e cria toda uma situação que incentiva o homem a reproduzir com ele o que houve entre ele e Max – e essa cena parece ridícula no filme, porque ela não significa nada, de tão boba que ela se tornou quando o diretor optou por transformar algo obviamente tenso em algo coloridinho demais. Confesso que fiquei me perguntando: “Em que porra de mundo essas pessoas vivem? Todo mundo reage maravilhosamente bem quando descobrem que dois irmãos mantêm um caso?”. Não sou preconceituoso, mas não sou hipócrita para dizer falsamente que notícias como essas não me surpreendem a princípio. Os personagens desse filme são bem diferentes de mim; decerto vivem num lugar onde irmãos relacionam-se assumidamente.

Não cabe aos atores o espaço suficiente para desenvolverem um bom desempenho. Isso se deve ao outro problema do roteiro: focar-se muito no que os personagens sentem sexualmente e não expandir para outros caminhos. Então, resta a Bryce Johnson e Cole Williams apenas mostrarem-se eficientes – e isso eles fazem bem – no único tipo de cena: diálogos sobre sexo. O diretor não foi muito ousado, optou por cenas mais contidas, investiu pouco tanto na sexualidade quanto nos vários modos de retratar a mesma imagem daquele momento da vida dos personagens. Resultou num filme mediano e que, embora entretenha, soa um pouquinho repetido às vezes.

Há erros em Harry + Max e há também acertos. Infelizmente, não há equilíbrio e eu realmente tive a impressão de que os erros são maiores do que os acertos, principalmente no que diz respeito a suavidade dada a uma obra que requeria um teor mais dramático e tenso. Mas, de qualquer modo, Harry + Max me agradou com a sua história e eu me entretive, mas creio que eu estava num dia de bom humor – num outro dia qualquer, eu teria priorizado os defeitos e eu o teria considerado uma obra ruim. Então, cabe a você decidir: veja-o e me fale.

Luís

12 de jun de 2011

Pecados Inocentes

Savage Grace. EUA, 2007, 96 minutos, drama. Diretor: Tom Kalin.
Não se trata de uma obra espetacular, dessas de que sempre nos recordaremos. Trata-se de uma produção mediana, com bons aspectos e a presença muito notável de Julianne Moore, absurdamente linda nesse filme.

O que me atraiu nesse filme, primeiramente, foi a capa dele. Uma capa tão bonita, mostrando uma mulher madura e um adolescente, mais o título “Pecados Inocentes” fez com que eu ativesse meu olhar nela um pouco mais. Então, li o nome da atriz principal: Julianne Moore. Conferi a sinopse no verso do DVD e gostei do que li, me pareceu que renderia um bom drama.

Barbara Baekeland, uma mulher espontânea e alegre, sempre teve com o esposo e com o filho um bom relacionamento. Ela e o filho tinham tanta afinidade que Brooks, seu marido, lhe dizia que o filho acabaria assumindo a posição dele um dia. Desde pequeno, o filho demonstrava tendências a homossexualidade e, ao mesmo tempo, tornou-se bem mais próximo da mãe, tornando-se quase confidentes. Então, com a brusca separação do marido, Barbara começa a entrar num estado de depressão, que a faz agir destrutivamente.

A primeira coisa que concluí ao assistir o filme foi: a sinopse escrita no verso da capa do DVD não corresponde a esse filme. Os personagens são os mesmos, mas o foco da história é bem diferente. Pecados Inocentes é um drama biográfico que busca mostrar a vida de Barbara a partir do momento que seu filho nasceu. Desse modo, somos apresentados à história que começa em 1946, em Nova Iorque, e que retrata a vida dessa mulher até a sua morte, em 1968. Sem a intenção de focar-se exclusivamente no relacionamento incestuoso entre Barbara e o filho, o roteiro do filme mostra o relacionamento dela com a família e o seu caminho em direção autodestruição a partir do momento em que o marido decide abandoná-la. Então, se você que, como eu fiz, busca o filme com o básico intuito de ver o desenvolvimento da relação entre os dois, mude de idéia, porque esse filme é vendido enganosamente.

Com um drama biográfico, o roteiro do filme funciona. Ele consegue bem mostrar as várias situações necessárias para que possamos conhecer várias faces da personagem principal. Conhecemos o seu lado carinhoso, o seu lado divertido, o seu momento espontaneamente agressivo e também conhecemos a sua vertente destrutiva e inconseqüente. Talvez o seu problema resida no fato de que, embora ele vá mostrando os acontecimentos de forma bem resumida, ele parece se arrastar. Na metade do filme, passamos por três estágios da vida de Tony, o filho de Barbara: vemo-lo bebê, criança e adolescente, encaminhando-se para a fase adulta. Eu tive a impressão de que o ritmo até então estava bem interessante, porque eu estava vendo o que era necessário, sem enrolamento. A partir da segunda metade, comecei a ficar meio cansado da súbita lentidão em que o roteiro entrou: a história parecia mostrar muito sem se desenvolver. Enquanto Barbara é personagem central o filme todo, Tony apenas passa a sê-lo a partir da metade – e é justamente quando são mostradas as cenas dele que o filme parece ir bem devagar. Tudo é narrado a partir do seu ponto de vista; entre as cenas, há comentários do personagem sobre como a sua mãe lidava com determinada situação e sobre ele mesmo, incluindo pensamentos que ele tinha e os seus sentimentos em relação às pessoas ao seu redor. Eu honestamente prefiro que as biografias sejam contadas em terceira pessoa – acredito que esse recurso dê a elas mais credibilidade.

É muito relevante para a história mostrar as cenas em que Barbara se mostra muito próxima do filme, ao ponto de percebemos que há, entre os dois, confidências silenciosas. Dou destaque à cena em que o garoto está tomando banho e os pais encontram François dormindo na cama deles – o que sugere que os garotos provavelmente dormiram juntos (embora, pela idade do garoto, creio que o sugerido foi dormir mesmo, ainda que saibamos que isso quer dizer a propensão à homossexualidade da qual falei no começo). Mais tarde, há uma cena de três personagens na cama – Barbara, um rapaz e Tony, nessa ordem – num envolvimento sexual bastante cúmplice e tenro. Assim, nós realmente temos a noção de que há entre a mulher e o filho a afinidade necessária para que houvesse mesmo uma relação amorosa e sexual. E é justamente quando esse momento chega que o roteiro estraga o filme: o tal relacionamento incestuoso que é vendido como assunto principal do que filme só acontece no final do filme – e só há uma cena, bem curta, que mostra o que aconteceu entre eles. A partir daí, o roteiro falha totalmente ao mostrar algo muito simplório, que exigia uma atenção bem maior. Os personagens parecem extremamente indiferentes ao que aconteceu com eles; como se não lhes tivesse feito bem ou mal, como se não tivesse significado nada. Depois, Tony toma uma atitude que provém de uma mente profundamente perturbada, mas o roteiro não havia mostrado antes que o grau de sua insanidade era tão grande. Eu tive apenas a impressão de que ele era um garoto triste, não que ultrapassa a linha da racionalidade. Posso depreender que, ao considerar tudo pelo que ele passou, seja aceitável a sua ação de livrar-se um peso, como ele mesmo diz, mas mesmo assim acho que era obrigação do diretor de incluir uma amostra do quão perigoso o garoto se tornara. Só para constar: achei que o clímax foi totalmente anticlimático, já que deixou muito a desejar.

Nem preciso dizer o motivo pelo qual vale a pena ver o filme: Julianne Moore. Me impressiono com a beleza dessa atriz. Não apenas a sua beleza física, mas também a sua beleza artística – mesmo em filmes ruins ou medianos, como é o caso desse, Julianne Moore se mostra sempre eficiente. Como Barbara, sua atuação é bem correta e ela nos mostra com eficácia os altos e baixos da personagem. Não sei o que pensam os outros cinéfilos, mas eu gostei muito mesmo da sua interpretação e eu facilmente a indicaria ao Oscar, mesmo com o grande problema que ela enfrenta pela má direção nos minutos finais. Eddie Redmayne, o intérprete de Tony, infelizmente está aquém das expectativas – sua atuação é muito chata e o ator parece não estar fazendo nada em cena a não ser ficar com uma expressão que seja naturalmente sua. Stephen Ducane e Elena Anaya, intérpretes de Brooks e Blanca, têm participações pequenas demais pra influir efeito negativo ou positivo no filme, mas mesmo assim estão corretos.

Não faço a mínima idéia do pensamento que passou pela cabeça da pessoa que escolheu o título nacional de “Savage Grace”, mas decerto a pessoa achou que apelar pelo recurso poético de criar antítese seria legal e nomeou o filme de tal modo. Lamentável, é o que eu digo. Não sei qual é a inocência dos personagens nem sei como ela se une aos seus pecados – só sei que isso implica um pensamento que é bem diferente do que o filme mostra. Vou explicar: juro que pensei que os personagens, por pura atração, que é involuntária (logo não é premeditada e por isso, talvez, considerada inocente), começaram o relacionamento incestuoso. Nada disso. O que acontece entre eles é impulsivo e totalmente consciente e voluntário; se o pecado existe, a inocência, não – e o título acaba não significa nada, como muitos títulos que conhecemos.

Eu honestamente achei que se trata de um filme interessante. Não é uma grande obra, é apenas mediano, mas mesmo assim merece ser conferido, principalmente pela excelente interpretação de Julianne Moore, que está belíssima. O filme pode cansar a alguns, porque ele realmente não é muito dinâmico, porém é capaz de entreter se você não o conferir com uma visão muito crítica.

Luís

10 de jun de 2011

Bramadero

Bramadero. México, 2007, 22 minutos, drama. Diretor: Julián Hernández.
Sabe quando você percebe a existência de uma boa proposta, mas vê que ela se perde totalmente dentro da criação de uma obra? Pois é exatamente isso que acontece com esse curta-metragem mexicano.

Bramadero é uma obra que conta a história do envolvimento de dois rapazes que estão num lugar deserto, embora estejam no meio da área urbana. O encontro deles num prédio em construção dura um dia todo e lá estão podem fazer o que quiserem, inclusive envolver-se sexualmente sem receios e sem pudores.

Aparentemente se trata de uma obra interessante e válida, mas após conferi-la eu fiquei em dúvida sobre o que eu achei. Encontrei apenas um ponto positivo e opto por falar dele agora, antes de comentar sobre o que há de ruim nessa produção. Há algo encantador no modo como Julián Hernández captou o silêncio dos personagens. Nem Hansen nem Jonás falam, eles apenas se olham, se encaram e então se relacionam. Sem meias-palavras. A somar, há a captura do local onde eles estão. De certo modo, tive a impressão de que os dois têm muito espaço para fazer tudo o que quiserem, ainda assim estão presos naquele espaço, que se torna o mundo deles – se repararmos nas paredes, há pichações registrando cenas sexuais, o que corrobora o domínio deles sobre o lugar, ou melhor, o domínio do lugar sobre eles. Assim, o diretor consegue captar simultaneamente a amplitude e o reduto daquele espaço compartilhado.

Não digo, porém, que o que citei acima seja mérito do filme. Talvez nem seja, talvez só tenha sido uma coincidência, porque o curta-metragem é realmente estranho. Eu entendi qual é o foco dele: mostrar basicamente o envolvimento sexual entre dois homens. Mas há algo incômodo no filme, porque tive a impressão de que ele todo é composto com o único intento de chocar o espectador. Essa obra tem apenas 22 minutos e em mais de metade dele são os homens transando – transando explicitamente, só pra constar. E também as atitudes deles parecem controversas e não encontrei uma explicação aceitável para isso – ou o filme é simplesmente ruim ou ele é simbólico demais para que eu pudesse compreendê-lo.

Acredito que o erro do filme reside no seu excesso – tanto exibicionismo incomoda, porque parece vazio. Não parece haver conteúdo nas cenas de sexo e nas cenas em que não há sexo parece haver algo a ser dito, mas isso nunca se conclui. Infelizmente, acaba por tornar-se um curta-metragem abaixo da média. A parte boa é que não irrita tanto o espectador, haja vista que tem menos de meia hora e a perda de tempo não é tão grande.

8 de jun de 2011

Pânico

Scream. EUA, 1996, 116 minutos, suspense. Diretor: Wes Craven.
Trata-se, para mim, de uma obra interessante e muito válida, ainda que possua alguns pequenos defeitos. O gênero terror é discutido numa metalinguagem excepcional.

O ano era 1996 e todos os filmes de terror do momento provinham de inúmeras sequências de franquias já bastante conhecidas – e muitas delas bastante gastas – nas quais jovens eram atormentados por um assassino muito peculiar: as garras nos dedos, no caso de Nightmare on Elm Street; a máscara de hóquei, em Friday the 13th; o rosto especialmente branco de Michael Myers, de Halloween. É válido notar que, dentre os filmes produzidos entre a década de 1970 e o meio da década de 1990, todos os assassinos eram conhecidos pelo público e todos eles possuíam características que pareciam torná-los invencíveis, mesmo que fossem essencialmente humanos, como é o caso de Michael Myers, Leatherface e o grupo de indivíduos estranhos de The Hill Have Eyes.

Ao assistirmos à produção de Wes Craven, escrita por Kevin Williamson, perceberemos que o assassino não difere muito dos seus outros colegas de matança – ele é muito obstinado, difícil de matar, parece estar em todo lugar, é assombrosamente rápido (ainda que burro, muitas vezes). A diferença notável está no fato de que Sidney Prescott, a personagem protagonista, é perturbada por inúmeros assassinatos que envolvem seus amigos sem que ela – ou nós, espectadores – saibamos quem é o responsável pelos crimes. A máscara de ghostface não apenas cria uma característica especificadora à série Pânico como também impede de que saibamos quem é o assassino. Quando o passado de Sid é revirado, principalmente no que diz respeito à morte brutal de sua mãe um ano antes, tanto o espectador quanto os personagens encontram-se na mais completa escuridão, em evidente oposição à situação exibida nos outros filmes, quando sabemos quem Freddy Kruger, Jason Voorhees, Chucky são e do que eles são capazes de fazer.

No universo ginasial apresentado por Williamson, conhecemos os personagens e parte de suas mentalidades. Todos adolescentes, vemos a garota traumatizada, a sua melhor amiga, o namorado estúpido da melhor amiga, o namorado da protagonista e, ainda, o garoto que entende tudo sobre filmes de terror e que é capaz de guiar os outros nas situações de esclarecimentos. A somar, há o xerife local e um repórter bastante oportunista, que visa qualquer tipo de benefício à custa de outras pessoas. Inequivocamente, esses sete elementos serão colocados à prova quando um assassino resolver revolver o passado e trazer à tona a problemática da morte da mãe da personagem principal, que vive atormentada pelo que aconteceu à sua mãe. Figura importante na história é também à do assassino, que é composto de modo diferente da maioria dos que lhe precederam: ele não é movido exclusivamente por instintos; ele age racionalmente, premeditadamente, seguindo um padrão e deixando pistas que permitam levar à sua identificação.

Pânico, então, nos apresenta uma história de histeria entre personagens que estão prestes a morrer e um assassino disposto a fazer mais vítimas. Paralelamente, há também uma notável linguagem autoexplicativa no roteiro, que explica as concepções básicas de filmes de terror – curiosamente bem colocadas num filme de terror. Logo na cena introdutória, vemos um diálogo no qual Casey e o assassino conversam pelo telefone; ele está notavelmente interessado na opinião dela a respeito de filmes de terror e acaba propondo um quiz, que lhe valerá a vida. Os diálogos são muito bem estruturados de modo a apresentar aspectos dos filmes desse gênero – percebe-se interessantemente a inclusão das regras de como se sobreviver num filme de terror e algumas situações irônicas, como aquela em que Sid diz ao telefone que jamais correria para o andar de cima em vez de ir pra fora da casa só para depois precisar correr para o andar de cima, haja vista que havia trancado a porta e não a conseguia abrir.

As figuras de poder da trama estão focadas em duas personagens: Sidney Prescott e Gale Weathers, respectivamente interpretadas por Neve Campbell e Courtney Cox-Arquette (que, à época da produção do primeiro filme, não carregava o sobrenome do ator David Arquette, com quem veio a se casar). A primeira é a heroína mais desaventurada do cinema de horror: passou por quatro filmes de intensas perseguições e muitas lutas. Se afirmamos que os vilões são, às vezes, quase sobre-humanos, não há muita margem de erro se dissermos que Sidney Prescott também é. Gale é também mocinha, como se verificará no longo da série, mas ela é inevitavelmente uma personagem intragável a princípio. É exatamente essa oposição que a torna tão interessante quanto Sidney – a meu ver, talvez até mais interessante! Não creio que haja, apesar de eu achar as personagens interessantes, espaço para grandes atuações e efetivas demonstrações do talento das atrizes – ou mesmo dos atores, de um modo geral. Pânico é uma produção que choca pelo seu visual e pelo seu efeito estético: o assassino é bastante irônico e muito humano, tanto é que não é nem um pouco difícil despistá-lo.

Considerando todo o modo como a obra se compõe, acredito que Scream seja um título que valha a pena ver. Não apenas pelo seu conteúdo, que eu acho bastante divertido, mas também pelo seu impacto na época e que, ainda hoje, gera efeitos, principalmente quando consideramos que, depois de 11 anos desde a última sequência (Pânico 3, em 2000), foi lançado a terceira continuação dessa série iniciada em 1996. Enredo divertido, clímax na medida certa, trilha sonora bem aplicada (alguém é capaz de esquecer Red Right Hand tocando?) – enfim, um filme que marcou uma geração e que ainda é capaz de atrair a nossa atenção.

6 de jun de 2011

Inverso do Cinema: Legião

Para trazer a vocês uma amostra de filme ruim, convidei a minha amiga Ciça, que já colaborou aqui algumas vezes. Agradeço a ela por ter aceitado falar um pouco sobre um filme que tenha visto e o qual tenha detestado - a fim de partilhar um pouco de sua experiência cinematográfica desprazerosa conosco.
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Quando recebi o e-mail que me convidava para colaborar mais uma vez com o blog Literatura e Cinema, na sessão Inverso do Cinema, já logo comecei a vasculhar minha mente tentando me lembrar de algum filme ruim que havia assistido recentemente. Em pouco tempo consegui me lembrar de vários, porque, por sinal, não ando dando sorte nas minhas escolhas na locadora...mas nenhum era tão trágico a ponto de ser completamente o oposto do que buscamos em um filme. Mas, como eu ainda tinha algum tempo para escrever minha crítica, não me preocupei tanto.
 
 Então, alguns dias depois, resolvo assistir ao filme Legião, que já estava gravado na minha TV há um certo tempo, e que eu já ensaiara locar várias vezes, mas ainda não o tinha feito. A vantagem de ter escolhido assistir a esse filme: encontrei o objeto para minha crítica! E só.
 

 A proposta da produção não é de todo ruim, apesar de nem um pouco inédita. Basicamente, Deus se cansa da humanidade, que só faz destruir o que ele construiu, e envia um exército de anjos para nos exterminar. Ou seja, o filme retrata o Apocalipse, com uma ideia mais agressiva e revoltada.
  
Através da sinopse, o filme atrai o espectador, pois, apesar de batido, o tema sempre acaba rendendo um bom entretenimento. Mas o problema começa junto com o filme. A história se inicia com o arcanjo Miguel “caindo” na Terra e cortando suas asas para se tornar (ou parecer) um humano comum. Porém, devo admitir, demorei algumas cenas para entender o que estava acontecendo. Não apenas por causa do meu raciocínio lento, mas a péssima iluminação da cena inicial dificultou um pouco a compreensão dessa passagem. Logo após, o filme já nos leva para uma lanchonete de beira de estrada, literalmente no meio do nada, como manda o figurino de um suspense bem clichê. Na lanchonete trabalham um homem já não tão jovem, uma garçonete grávida, outro rapaz que a defende de todos com unhas e dentes, e seu pai, dono do estabelecimento e de uma personalidade extremamente rude. O pobre rapaz cuida da garçonete como se fosse pai de seu filho (detalhe importante: ele não é), sendo criticado e zombado por todos, inclusive pela própria moça, e sendo duramente repreendido por seu pai.
  
Em uma tarde de pouco movimento na lanchonete, com apenas uma família aguardando o carro ser consertado pelo filho do dono do local e um homem usando o telefone, algumas coisas estranhas começam a ocorrer. A televisão perde o sinal, e nenhum telefone ou rádio funcionam. Surge então, uma frágil e sorridente senhora, que é atendida pela garçonete grávida. Porém, ao se dirigir à gestante, a idosa altera grosseiramente seu comportamento, dizendo coisas assustadoras sobre o bebê que iria nascer, e começa a agredir verbalmente também a mãe da família presente no local. Quando o marido desta levanta para defendê-la, a velhinha cria dentes afiados, ataca o pescoço do homem, e sai escalando as paredes, até levar um tiro do dono do estabelecimento. Esta cena logo nos faz pensar que algum tipo de demônio quer a criança prestes a nascer, e que outras criaturas do mal surgirão para buscá-la.
  
Mas, eis que surge o arcanjo Miguel para esclarecer as dúvidas dos espectadores. Ele aparece na lanchonete munido de diversos tipos de armamentos, e explica que Deus enviou seus soldados-anjos para exterminarem a raça humana. Ou seja, a idosa estava possuída por um anjo, e não por um espírito do mal, como nos parece a princípio. Miguel explica também que o bebê que aquela humilde jovem carrega no ventre é a salvação da humanidade. Ok... mas por quê? Seria a criança um novo messias? Mas, para salvar os homens, ele teria que confrontar a vontade de Deus, fazendo uma imagem não muito boa de um messias. Enfim, este ponto não é esclarecido pelo filme. Fico com a conclusão de que ele foi escolhido no “uni-duni-tê” para dar continuidade ao mundo como conhecemos e ponto.
 
Miguel também confessa que foi escalado para comandar nosso extermínio, mas que ele aprendeu a amar os homens e que não seria capaz de fazê-lo, indo dessa forma contra as ordens de Deus, que é exposto no filme como um general cruel e impiedoso. No decorrer do filme a batalha acontece, sem qualquer mudança de cenário. Tudo se passa dentro ou nos arredores da lanchonete. Começam a surgir outras pessoas tomadas por anjos exterminadores, de todos os lugares, e dirigindo-se unicamente àquele estabelecimento. Há um ponto no filme em que os personagens fazem somente mirar nas pessoas e atirar, no melhor estilo Resident Evil. Por fim, após uma ilustre aparição do próprio anjo Gabriel, e uma batalha (um tanto quanto mortal demais) com o arcanjo Miguel, os anjos maus, por se encontrarem em clara vantagem, acabam aniquilando todos os presentes na lanchonete. Exceto, é claro, a garçonete e seu bebê, que nasce em meio à confusão, e seu fiel protetor.
  
Uma proposta cinematográfica que tinha tudo para ser bem desenvolvida, trabalhando com temas polêmicos e provocativos, acaba indo por água abaixo por, ao que me parece, pura preguiça do diretor. Uma produção que conta com Dennis Quaid (O Dia depois de Amanhã) e Paul Bettany (O Código da Vinci) no elenco deveria ser louvável apenas pelas figuras escaladas, mas estes atores, que costumam comover em suas interpretações, ficaram patéticos tendo que desenvolver os papéis que lhes foram dados. Os efeitos de transformação das pessoas em monstros-anjinhos chegam a ser hilários, apesar de bens feitos. Como todos os outros elementos do filme, este é mais um aspecto batido que mostra a falta de criatividade dos criadores. Os seres criam uns dentes afiados e os olhos ficam pretos, e nada mais. Há uma lista imensa de filmes de zumbis, ou vampiros, ou possuídos, em que os vilões da história se encaixam perfeitamente na descrição acima.


 Legião acaba por ser aquele tipo de filme que você não vê a hora que acabe, pra desligar logo a TV e ir fazer outra coisa. O que nos mantém assistindo até o final é a curiosidade de saber o que vai acontecer afinal com o tal bebê salvador da humanidade. Infelizmente, para a decepção de quem bravamente aguarda até o final, a resposta é: nada. Para quem procura um entretenimento despretensioso, sem maiores expectativas, recomendo. Já para aqueles que procuram, através de um filme, fugir por algumas horas da realidade do nosso dia-a-dia (assim como eu), recomendo que passem longe, ou leiam um livro.

por Cecília

4 de jun de 2011

Três Formas de Amar

Threesome. EUA, 1994, 93 minutos, comédia romântica. Diretor: Andrew Fleming.
Ainda que os personagens sejam imaturos e tenham atitudes que me incomodem, acredito que esse seja um filme que conseguem agradar o espectador e deverti-lo com a sua proposta - é o tipo de filme que se vê facilmente duas vezes.

Estava buscando ultimamente filmes que retratem relacionamentos a três e, quando bati os olhos num filme cujo título original é Threesome, eu rapidamente baixei para conferi-lo. Em nem um momento eu esperei uma grande surpresa desse filme e talvez seja exatamente por isso que eu tenha me surpreendido tanto com essa obra.

Eddie e Stuart dividem o quarto do dormitório da moradia do campus da universidade onde estudam. A terceira pessoa a dividir o espaço, que chega algum tempo depois os surpreende: é uma garota. Como os quartos não são mistos, um erro burocrático acabou colocando Alex junto com dois rapazes. Aos poucos, surge entre eles uma ligação e eles se envolvem numa relação a três.

Três Formas de Amar tem um roteiro leve e sua intenção não é promover um debate sobre o quão correto é manter uma relação sentimental ou sexual com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. É apenas uma comédia de ares sutis que mostra como a vida dos personagens se desenvolve a partir do momento em que eles se vêem apaixonados uns pelos outros. E o que torna o filme bem interessante é exatamente isso: eles são amigos, são amantes, são pessoas comuns. Os três jovens são bem naturais e esse é o ponto-chave para fazer com que o espectador se identifique com a situação deles e até mesmo com eles. Admito: não é muito fácil se identificar com Stuart – o personagem é birrento, estereotipado, meio irritante, mas acabei gostando dele também. O ar de cumplicidade existente entre eles faz com que haja uma transferência: um personagem legal demais, como Eddie, transfere um pouco da nossa simpatia por ele para Stuart.

De tudo o que mais vi no filme, o que mais me agradou foi a amizade dos personagens. Surge entre eles uma afinidade muito interessante, que os coloca bem próximos e os permite compartilhar de alegrias e tristezas. Foi essa a sensação que tive: eles sabem como compartilhar. E não têm vergonha disso! Eddie, por exemplo, primeiro aprender a amar para depois se sentir atraído por eles; Alex se sente atraída primeiro, mas depois passa a amar mais; Stuart, por sua vez, permanece atraído e amando. Então vem o sexo e, em princípio, intensifica essa proximidade deles. Destaque para a bonita cena no lago, em que os três personagens começam a se beijar delicadamente, todos nus, e Eddie comenta que os três representam uma Eva pós-moderna com dois Adões, banidos do paraíso e condenados a vagar pelo deserto. A afinidade mais a cumplicidade que há entre eles tornam-nos melhores, elevados quase espiritualmente e eu me senti bem observando essa relação a três.

O filme ainda conta com momentos engraçados. Não se limita ao suave, busca às vezes o exagerado e rende boas cenas. Morri de rir – o que é muito incomum – quando Alex deita na mesa da biblioteca e pede para Eddie ler pra ela e então começa a se esfregar na mesa, em posições absurdas, enquanto Eddie lê e, ao mesmo tempo, a olha com uma expressão de espanto. Para finalizar, depois de se contorcer inteira, Alex diz: “Nossa, adoro palavras difíceis”. Mais tarde, quando Stuart está fazendo sexo oral em Alex, que fala ao telefone com Eddie, ela pede que ele lhe diga algumas palavras bem grandes e, enquanto Stuart continua a fazer sexo oral nela, ela começa a entrar em êxtase com as palavras de Eddie. Morri de rir de novo com essa cena, principalmente pela tara dela por palavras grandes e de uso pouco comum. Os sonhos que ela narra pra Eddie também são maravilhosas fontes de riso: ela sonhou que estava no deserto, vestindo biquíni de pele, enquanto Eddie era um açougueiro que estava com lingüiças. Fantástico, ri de novo! Talvez eu estivesse num bom humor ou talvez o filme seja mesmo engraçadinho, mas o fato é que eu gostei dessas cenas de humor.

As personalidades dos personagens não exigem muito dos atores, então a interpretação deles é bem mediana, sem nenhum atrativo em específico. De qualquer modo, Três Formas de Amar não requer nenhuma interpretação digna de indicação ao Oscar, então creio que o trabalho desses atores seja válido dentro de suas proporções. Dos três, o destaque maior é de Josh Charles, intérprete de Eddie, não apenas porque ele parece ser o mais racional dos personagens como ele também me pareceu ser o menos cheio de estereótipos – ele é também o personagem mais redondo e, em função disso, a atuação do ator é a mais complexa.

Trata-se de uma obra interessante, bastante suave, que mostra o relacionamento deles sem impor caráter crítico. A história é contada de forma leve, conquistando o nosso carisma e esse é a qualidade máxima do filme: fazer com que nos identifiquemos com os personagens e suas situações. Decerto vale a pena ser visto, principalmente quando o que se procura é apenas se divertir, sem a pretensão de ver uma grande obra cinematográfica. Válido para se ver sozinho ou acompanhado...

2 de jun de 2011

A Luta pela Esperança

Cinderella Man. EUA, 2005, 154 minutos, drama. Dirigido por Ron Howard.
Um filme de boxe bastante monótono, sem muito o que mostrar e extremamente apelativo: tenta nos convencer pela emoção em vez de nos fazer gostar do desenvolvimento da história e da identificação com os personagens.
O cinema realmente tem uma proximidade muito grande com a realidade. Isso é tão verdadeiro que anualmente vários filmes cinebiográficos são lançados e Cinderella Man – título original de A Luta pela Esperança – é mais um exemplo de filmes desse gênero. O personagem principal é Jimmy Braddock, boxeador famoso que fez muita fama por ter vencido várias lutas sem ter sido nocauteado. Com a Grande Depressão, acontecida em 1929, Braddock passou por momentos de dificuldades e teve que abandonar sua carreira de lutador para sustentar a família. Mais tarde, voltou aos ringues com a esperança de vencer um dos mais fortes lutadores do momento.


Os filmes cinebiográficos correm o risco de exagerar na quão dramática tornam a vida do personagem retratado. A Luta pela Esperança é um filme que comete esse erro. Parece que há pouco para mostrar, mas, ao mesmo tempo, somos apresentados a muitas cenas dramáticas que só servem para que nós nos sintamos forçados a nos emocionar – e evidentemente não nos emocionamos. Essa insistência em mostrar cenas de grande carga dramática parece totalmente desajustada e chega a incomodar. E o erro maior é investir no drama como tapa-buraco: quando não havia mais o que mostrar – e havia pouquíssimo para ser exibido -, as longas cenas melosas se tornaram a aposta de Ron Howard. Eu gosto de drama, admito. Mas ver duas horas e meia de drama excessivo e forçado me incomodou.

O ator coadjuvante Paul Giamatti é decerto o melhor que há no filme. Sua atuação é correta, sem exageros, sem erros. Quando ele aprece em cena, estando ao lado de Russel Crowe ou ao lado de Renée Zellweger, ele rouba a cena e atrai os nossos olhares. A sua indicação ao Oscar me pareceu muito justa e ela se mostrou ainda mais adequada porque, no ano anterior, Giamatti havia sido ignorado pela academia, que não o indicou por Sideways. O casal principal – Crowe e Zellweger – me parece muito incomum. Não consegui em momento nenhum me identificar com eles e acho que eles não tinham a química suficiente para convencerem como um casal. Russel Crowe já havia mostrado ser um ator talentoso, mas, como Braddock, ele está muito mediano e infelizmente não me satisfez. Já Renée Zellweger é o tipo de atriz que embasa sua interpretação em caras-e-bocas. Ela se mostrou talentosa em outros filmes – em alguns poucos, eu devo ressaltar -, mas, em A Luta pela Esperança, ela é apenas umas caretas de choro e uma voz resmungada.

Eu acredito que Cinderella Man é o tipo de filme que, por tentar comover demais, acaba errando na dose e incomoda. Tudo é excessivo, desde a preocupação do roteiro até a duração do filme. Enfim, eu não recomendo que assistam a esse filme, a não ser que realmente sejam fãs do personagem retratado. Não me entreteve, me cansou e eu realmente só senti que valeu a pena pela interpretação de Giamatti, que, infelizmente, aparece pouco.