24 de fev de 2012

O Pequeno Italiano

Publicado originalmente no blog Cinebulição, no "Especial Cinema Russo: 20 anos sem Socialismo".
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Italianetz. Rússia, 2005, 91 minutos, drama. Diretor: Andrei Kravchuk.
Uma obra datada da Rússia pós-socialista que faz uma pequena ode ao seu sistema econômico de governo mais duradouro: o socialismo.

Antes de se começar a falar sobre o filme em si, primeiro preciso agradecer ao Luiz Santiago, que me convidou para escrever a respeito do tema na série de posts intitulada “Especial Cinema Russo: 20 anos sem Socialismo” – vindo dele o convite, é quase impossível não querer fazer, portanto, aceitei a proposta e aqui estou: a falar sobre um período interessante do cinema. Que o cinema soviético – mais especificamente o russo – foi um grande exponencial da arte cinematográfica, ninguém duvida: o seu trajeto ao longo da história da estética fílmica é mesmo interessante e comporta filmes notáveis, desde “O Encouraçado Potemkin” (1925), de Einsestein, até “Nostalgia” (1983), de Andrei Tarkosvky.

Curiosamente, o período que citei acima começa na década de 1920 e termina na de 1980, período no qual o socialismo foi a organização econômica predominante. “O Pequeno Italiano”, de 2005, localiza-se historicamente depois, quando a Rússia já se encontrava há 14 anos incluída no universo capitalista. E, a meu ver, é inegável que Andrei Kravchuk buscou relacionar o seu filme a épocas passadas, estabelecendo um diálogo forte com outro período histórico-político – aquele anterior a 1991, quando a Rússia era marcada pela bandeira vermelha em apoio aos trabalhadores. “O Pequeno Italiano” fala sobre um jovem órfão de seis anos, Vanya Solnstsev, que é escolhido por uma família italiana para ser adotado. A adoção – ter uma família – é o sonho de todas as crianças do orfanato, mesmo dos mais velhos, e aquela notícia deveria causar êxtase no garoto. Isso só não acontece porque, pouco antes da adoção ser efetivada, Vanya vê a mãe biológica de um amigo seu, que já havia sido adotado, ir procurá-lo a fim de reavê-lo, o que já não pode acontecer.

 O jovem Vanya: disposto a tudo para reencontrar a mãe.

Não demora para que o primeiro momento de ruptura se verifique no filme. O simples fato de que o garoto anseia por uma família e, ao mesmo tempo, teme que sua mãe, caso resolva um dia procurá-lo, jamais possa lhe reaver é desastroso demais para que ele se adéqüe àquilo que querem dele. Os italianos, embora pareçam gentis, não podem garantir ao pequeno aquilo que ele quer: o carinho de sua verdadeira mãe. Já aqui vemos o primeiro grande símbolo para a elevação do socialismo – a verdade está na mãe do garoto, em uma russa (e, por conseguinte, carregada das características soviéticas), não no conforto vindo de outro lugar, de um lugar estrangeiro. A jornada do garoto logo começa e ele precisa aprender que deve alcançar tudo, inclusive o que está mais perto dele; desse modo, aprende a ler para poder ler os arquivos nos quais revelam a sua origem. Logo descobre e parte rumo a algo novo – não sem a represália severa dos coordenadores do orfanato, que são responsáveis pela manutenção do contingente e pela transação lucrativa com a adoção das crianças. Mais uma vez: o capitalismo em choque com o socialismo, representado pela figura do menino.

Sua busca não é fácil. Sair da área de conforto – isto é, aventurar-se numa área totalmente desconhecida – para adentrar um mundo novo é perigoso e assim, tanto o personagem quanto o espectador, se desdobram para desviar das jurisdições da busca selvagem pelo capital: de um lado, Vanya e sua veleidade desenfreada de encontrar a mãe; do outro, aqueles que querem capturá-lo a fim de não perdê-lo (que aqui significa perder uma quantia satisfatória de euros). Curioso notar a semiótica do filme e analisar todos os signos ali presentes – na atualidade capitalista do momento (o filme de passa em 2002), o vermelho socialista se mostra em todos os momentos, principalmente como alvo de agressões. A busca do garoto se torna mais segura, ou seja, com menor possibilidade de que fosse facilmente encontrado, quando ele veste, para se disfarçar, uma jaqueta vermelha, a qual mais tarde será roubada por garotos à procura de dinheiro (mais uma vez: o capital versus o social). Vale que nos foquemos também noutro fator curioso: as mulheres que ajudam o garoto são ruivas. Como se vê, uma grande metáfora da situação mostrada.

 Uma cena que nos mostra a vitória do vermelho.

O filme é esperançoso, inegavelmente traz consigo uma leveza que, embora paradoxal à toda situação ali, cabe perfeitamente à trama do garoto que sai à procura dos seus pais. Todo o enredo encobre alegoricamente uma discussão de caráter nacionalista acerca da problemática pós-guerra, quando o mundo se bipolarizou entre Estados Unidos (capitalismo) e União Soviética (socialismo), além de criticar ferozmente um sistema que perturbou a Rússia ao ser implantada, causando, por exemplo, uma crise econômica bruta entre os anos de 1990 e 1995, resultante de quedas no PIB e privatizações desenfreadas. Ainda no universo do filme, podemos perceber características notáveis que o distanciam de filmes também russos, porém de anos anteriores. Se compararmos “O Pequeno Italiano” com filmes anteriores, por exemplo, perceberemos um caráter mais onírico em títulos como “A Infância de Ivan” (1962) e “O Espelho” (1975) do que nessa obra de 2005. Ela consta com uma perspectiva mais realista e objetiva, com foco na concretude, sem muitas fugas à abstração do sonho como forma de estética fílmica. Aqui a história se condensa na dureza da realidade e na leveza das vontades do garoto – são esses os opostos: o querer e o poder, e não exatamente o plano da realidade e o plano da subjetivação inconsciente.

Em pouco mais de uma hora e meia, conhecemos a trajetória aparentemente ininterrupta de Vanya e de todos os elementos fundamentais ao enredo que visam destituí-lo de sua ambição. Uma mãe – aqui representando o autoconhecimento, a busca pelas origens – é o objetivo do garoto e, mesmo no final, quando percebemos outra grande alegoria – a da impunidade à fuga do menino –, não a vemos, provando que o autoconhecimento, qual a mãe, é uma abstração que compete à cada pessoa e que se dá de modos diferentes. Essa obra de Andrei Kravchuk é bastante singela, muito concisa e eficiente na sua mensagem, além de trabalhar bem as questões metafóricas e o trabalho técnico dos atores, em especial o de Kolya Spiridinov, cujo aspecto miúdo se mostra inversamente proporcional à sua capacidade de interpretação. Vemos, nessa produção, uma visão nostálgica de uma época de outrora, já finda, momento no qual o socialismo predominava e, sob o olhar de muitos, resguardava a nação dos males do capital.

22 de fev de 2012

Deixa Ela Entrar

Låt Den Rätte Komma In. Suécia, 2008, 115 minutos, terror. Diretor: Tomas Alfredson.
Definitivamente, uma das mais recentes obras sobrevalorizadas.

Desde que o filme foi lançado, muito se tem falado sobre ele. Usualmente, vejo elogios muito intensos sobre essa obra, considerada por muitos como uma perspectiva diferente na hora de conceber uma história de vampiro. Eu queria tê-lo visto há algum tempo, pensando tratar-se de um terror dramático, algo que fosse realmente interessante de se ver. Ao terminar de vê-lo, imediatamente pensei que essa se trata de uma obra extremamente supervalorizada pelos espectadores que a viram.

Talvez a principal razão que atraia seja o fato de esse ser um filme dramático, com uma pequena vertente no terror. Assim, não somos apresentados a uma obra cuja função é nos atemorizar. Assistimos a um filme no qual as relações são discutidas, tanto as humanas quanto as não-humanas. É possível dividir o filme em duas vertentes, considerando a divisão que eu já citei: há o momento no qual é discutida a relação entre Oskar, personagem principal, com os garotos da sua escola, que constantemente o agridem; e há o momento no qual se desenvolve o roteiro a partir da relação entre Oskar e a garota Eli, que mais tarde ele descobrirá ser uma vampira. Vale ressaltar que esses dois temas se intercomunicam muito bem, pois Oskar encontra em Eli e ambos são marginalizados pela sociedade, então ela consegue compreendê-lo bem quando ele lhe conta sobre as atitudes do outros garotos da escola em relação a ele.

O enredo do filme parece bem legal, principalmente porque há uma parte fictícia que envolve um suspense potencialmente interessante. No entanto, acho que nada nesse filme se desenvolve dinamicamente, sendo que o seu ritmo – somado a uma superficialidade de elementos discursivos – incomodou a mim extremamente. Honestamente, não entendo o que motivou tanta gente a adorar esse filme, que, para mim, é bastante mediano, sem chegar a mostrar nada muito novo. A única coisa que eu achei bastante válida foi o relacionamento entre Oskar e Eli, já que ambos rapidamente se atraem por participarem de um mesmo grupo, o dos “excluídos”. E pouco a pouco eles percebem que tem bastante afinidade um com o outro, porque ele consegue entendê-la – inclusive diz amá-la – e ela também o entende. A partir do momento que se estabelece entre eles uma relação recíproca de preservação – ela o ajudando, ele a ajudando –, entendemos também que aquela é uma comunhão entre os dois personagens.

Gosto muito da fotografia do filme. O diretor soube bem como captar as cores e fazê-las contrastá-las na medida correta. Vale ressaltar que mesmo nos momentos em que as cores claras se fazem presentes – como na cena na neve e no piscina – elas não representam algo totalmente positivo. Desse modo, o diretor soube como manter um clima de pessimismo do começo ao fim. Aliás, tenho a impressão de que nada funciona otimistamente nesse filme. Todos os personagens sofrem, causam mal, são afrontados de alguma coisa. Além da fotografia, elogio também a atuação do jovem Kåre Hedebrant, intérprete de Oskar, que realiza um trabalho profundo no que diz respeito à composição do seu personagem – consegui ver nele uma boa dose de trabalho psicológico, o que o auxiliou decerto na criação de Oskar. De resto, não creio que haja muito que se dizer sobre esse filme. Já disse e reafirmo: acho que esse filme seja sobrevalorizada por quem o vê. Ele definitivamente não é tão bom assim.

20 de fev de 2012

Professor Godoy

Brasil, 2009, 15 minutos, drama. Diretor: Gui Ashcar.
Um curta-metragem interessantíssimo, que garante entretenimento e um bom questionamento: vale colocar o desejo pessoal à frente da ética profssional e, com isso, arriscar muitas coisas? Basta um quarto de hora para que o espectador seja influenciado a pensar a respeito.

Esse é um filme curta-metragem nacional, dirigido por Gui Ashcar e estrelado por Roney Fachini e Kauê Telolli, composto como forma de conclusão de curso. Como ultimamente tenho me interessado por curtas-metragens, decidi baixar esse e conferi-lo, a fim de ver se ele era tão bom quanto parecia ser – haja vista que a sua temática havia me chamado a atenção e a sua sinopse indicava tratar-se de uma obra significativa.

E devo dizer que o filme é exatamente isso: uma lição de cinema em poucos minutos. A história do professor Godoy é narrada ao longo de catorze minutos, mas isso é suficiente para que compreendamos a sua rotina e a desautomatização de sua vida a partir do momento em que Felipe, um de seus alunos, começa um jogo de sedução, mandando-lhe bilhetes com pequenos códigos, criando situações para que os dois fiquem sozinhos na sala de aula. Quando disse acima que a temática havia me atraído, não me referia especificamente à propensão à homossexualidade – tema que o curta-metragem sutilmente aborda –, mas me referia às circunstâncias delicadas nas quais o homem está inserido, afinal ele precisa lidar com a ética profissional e, ao mesmo tempo, com os seus próprios desejos.

É necessário dizer que os três envolvidos – Ashcar, Fachini e Telolli – conseguiram compor algo de extremo bom gosto. Na figura do professor, Fachini soube interpretá-lo sem exageros, criando uma personalidade distante e com a meticulosidade de um professor secundário, que deve estar preparado para lidar com a arrogância e impertinência de alguns alunos – como nós próprios podemos ver numa das cenas – e ao mesmo tempo criou uma figura serena e humana, que se encontra diante de uma situação-problema e sem nenhum heroísmo admite não poder resolvê-la. Tanto é que ele não diz nem sim nem não para o garoto, apenas finge ignorar a situação, empurrando-a para frente sem resolvê-la. O garoto, por sua vez, é uma figura quase mítica – ele ao mesmo tempo represente o bem e o mal na vida do professor. O jovem se insinua, demonstra o que quer, é objetivo quanto ao que pensa e não respeita as ordens do professor, que lhe diz para parar com as brincadeiras – e não respeita porque diz saber que a vontade do professor é exatamente oposta àquela que ele diz. É um pequeno jogo de gato e rato que dura um ano letivo, que incendeia a mente do homem.

Professor Godoy não é um debate sobre as escolhas de uma pessoa e o modo como elas podem atingir o seu campo profissional. Também não é um interrogatório sobre a homossexualidade. É uma obra sobre a relação entre duas pessoas, principalmente. Subentende-se aí a ética profissional e a homossexualidade, mas Gui Ashcar soube como não tornar esses dois tópicos assuntos centrais de sua trama e exatamente por isso ele conseguiu criar uma excelente composição artística, capaz de entreter e, ao mesmo tempo, fazer pensar. A somar, há as atuações dos atores, que não erram, não saem do tom e conseguem com isso exercer um fascínio maior no espectador, que durante catorze minutos assiste com extrema curiosidade e ansiedade o que está se desenvolvendo. Definitivamente, em pouco tempo o diretor-roteirista conseguiu reunir todas as informações de que precisávamos para concluir que essa é uma obra muito válida para o nosso cinema.

19 de fev de 2012

Canções de Amor

Les Chansons d'Amour. França, 2007, 100 minutos. drama musical. Diretor: Christoph Honoré.
A obra transita de modo poético entre as relações amorosas passíveis de acontecer a qualquer pessoa e inevitavelmente encantam o  espectador.


Antes de começar a escrever sobre o filme, devo fazer um agradecimento à Jacqueline (@jactardezinha, no Twitter), que me recomendou o filme e emprestou-o para mim. Como ela é uma profunda admiradora do Louis Garrel, sempre comenta sobre alguns de seus filmes e eu acabo conferindo alguns – como foi o caso desse.

Não conheço muito da filmografia de Christoph Honoré, diretor desse filme, mas pelo pouco que vi, sei que ele é um diretor polêmico. Suas escolhas abordam temas delicados, que podem chocar a parcela conservadora da sociedade. Para exemplificar o quão polêmico ele é, nem preciso citar Minha Mãe, que fala sobre uma mãe que se torna tutora sexual do próprio filho. Posso usar Les Chansons D’Amour. Ao discorrer a respeito das possibilidades do amor e das diferentes maneiras como ele se concretiza, o diretor assume uma posição contrária ao pensamento convencional, que é aquele que define relação amorosa como envolvimento entre um homem e uma mulher.

Fugindo desse paradigma social, somos apresentados ao ménage a trois vivido por Ismael, Alice e Julie. Os três estão envolvidos num relacionamento que é tempestuoso às vezes, mas decididamente é embasado pelo amor e pela segurança, permitindo-os assim continuar juntos, mesmo que o relacionamento deles não seja o mais comum na sociedade. O conflito surge com a morte de Julie, o que provoca uma série de questionamentos por parte de Ismael e de Alice e também da família de Julie. 

 Alice, Julie e Ismael: três personagens que formam um casal.

O filme como exercício cinematográfico funciona muito bem, mas não creio que o seu maior mérito esteja inserido em suas cenas. Elas se tornam um instrumento para atingir o público e o grande destaque do filme está no modo como ele consegue transmitir pensamentos mais amplos às pessoas que o vêem. Numa das cenas, Julie conversa com a sua mãe acerca do relacionamento que tem com Ismael e Alice – ela discorre a respeito de como é estar com duas pessoas na cama, mas em momento nenhum reduz a relação apenas ao sexo. De certa forma, isso serve para mostrar ao público que relações como a deles não se limita ao âmbito sexual, mas também é passível de um envolvimento afetivo e amoroso. Com a morte de Julie, Ismael entra num estado de afastamento da vida social; depois de dormir na casa de um amigo de Alice, que parece interessado nele, Ismael percebe a chance de o amor reacontecer nos braços de Erwann. Então, pouco a pouco, ele se envolve num relacionamento com o rapaz, fazendo com que o público perceba que o amor definitivamente pode acontecer de outro modo.

Vale ressaltar que a força do filme está na gentileza com a qual Honoré o filmou. Em nenhum momento a película choca o espectador, que consegue ser transportado com eficiência para o universo psicológico de Ismael, personagem central. As dores dele são compartilhadas com quem vê o filme, então nós acabamos muito próximos do personagem. As canções de amor citadas que dão título ao filme servem para conduzir o espectador no mundo melodioso das relações pelas quais Ismael passa e as letras das canções servem para que nós possamos compreender um pouco do que significa cada momento para ele. Quando está com Julie e Alice, uma canção revela a dependência que há entre esses personagens, sendo Alice a ponte sobre o riacho que leva Ismael a Julie. Desse modo, percebemos a conexão que há entre eles, nos permitindo compreender que a terceira pessoa é o elemento de estabilidade. Mais tarde, depois que Julie morre, Ismael e Alice cantam juntos uma música na qual falam sobre calar-se e beijar-se, numa amostra de que estão presentes neles a tentativa de reprimir o sentimento de dor com o ato do afeto. Depois, quando Ismael por fim se envolve emocionalmente com Erwann, ela inicia a canção com “lava a minha memória suja por esse rio de lama”, numa referência às suas lembranças que foram deturpadas pela dor; diz também “minha cama parece um bloco de gelo que derrete quando você me abraça”, aludindo à forma purificada como agora ele encara o amor que sente por Erwann. Não penso que seja válido analisar Les Chansons d’Amour apenas com uma perspectiva cinematográfica, haja vista que bosta parte do filme está inserida no universo literário da composição artística no que diz respeito à linguagem – assim, atentar para as letras das canções é fundamental para uma compreensão mais apurada do que o romance tem para mostrar.

 Grégoire Leprince -Ringuet e Louis Garrel protagonizam cenas poéticas, embaladas pela relação vivida pelos seus personagens, que acabam se envolvendo eventualmente e acabam apaixonados.

Não me restam dúvidas de que o destaque do filme é Louis Garrel, que está presente num dos filmes de que eu mais gosto: Os Sonhadores. Decerto sua presença é a que mais chama atenção, até porque a história toda gira em torno de seu personagem. Gosto da segurança que esse ator passa ao atuar e nunca me senti incomodado com alguma de suas atuações. Como Ismael, ele nos apresenta mais uma boa performance, que é muito elogiável. Todos os outros atores estão muito bem em cena, mesmo aqueles cujas funções são secundárias se mostram exemplares. Sem exageros em nenhum das interpretações, creio que Canções de Amor seja um dos filmes que conquistam o espectador também pela veracidade das expressões e sentimentos mostrados.

Considerando todos os aspectos do filme, desde a composição cinematográfica até o passeio literário que nos é permitido por intermédio das letras muito bem elaboradas, esse filme musical me conquistou de um jeito muito interessante. À primeira vista, parece um filme simples – e de fato é. Mas uma análise mais densa nos coloca diante de uma obra séria e densa, de proporções maiores do que aquelas que os nossos olhos enxergam quando o vimos pela primeira vez. Recomendá-lo é o mínimo que eu posso fazer, pois decerto é uma das boas obras de Honoré e também dos atores em cena. Não posso terminar sem dizer que o tema todo do filme é muito bem aproveitado, de modo que vê-lo é um prazer.

15 de fev de 2012

A Dama de Ferro

The Iron Lady. RU / França, 2011, 104 minutos, drama. Diretora: Phyllida Lloyd.Ainda que o filme seja irregular, acredito que Meryl Streep nos presenteou com a melhor interpretação da sua carreira.
Sempre que Meryl estrela um filme, todos os cinéfilos anseiam em conferi-lo: provavelmente a atuação dela merecerá comentários de destaque acerca do filme. O porquê já é bastante conhecido: a atriz é extremamente eficiente em imitar sotaques, em mimetizar personalidades históricas, em trazer à vida personagens extremamente marcantes, basta que nos lembremos de suas atuações em “As Pontes de Madison” (1995), “O Diabo Veste Prada” (2006) e “Dúvida” (2008) – só para exemplificar a diversidade dela.

Mas Meryl Streep também é muito boa em interpretar pessoas reais, como aconteceu em “Silkwood – Retrato de uma Coragem” (1983), “Entre Dois Amores” (1985), “Adaptação” (2002) e “Julie e Julia” (2009), filmes nos quais ela interpretou respectivamente Karen Silkwood, Karen Blixen, Susan Orlean e Julia Child. Agora, em 2011, foi a vez de a história da primeira-ministra britânica ter a sua história contada: Margaret Thatcher, que após um atentado ao qual sobreviveu recebeu o epíteto de “Dama de Ferro”, se tornou a primeira mulher a comanda o Reino Unido e fez com que a nação inglesa passasse por problemas muito grandes antes de enfim reverter as situações danosas, causando então o seu reconhecimento como líder eficiente.

Um dos muitos discursos de impacto do filme.

Haverá críticas ferozes à estrutura do filme, principalmente reclamando sobre a escolha de mostrar a história a partir de Thatcher já em idade avançada e sofrendo devaneios em vez de narrar linearmente, do começo para o fim. Mas creio que são injustificadas as críticas, já que o filme não parece querer ser a biografia tradicional. Eu diria que se assemelha mais àquilo que Sofia Coppola quis fazer em “Maria Antonieta” (2006): simplesmente mostrar as situações cotidianas de Thatcher, justamente por isso não vemos o caráter documental de muitos cinetextos. Sendo o foco do filme a velhice da personagem, tudo o que é mostrado é um flashback daquilo pelo que a personagem passou e as situações que viveu e, portanto, não se esquadra exatamente nos típicos filmes cinebiográficos.

Se há um ponto a favor da estrutura – justamente a opção por narrar com ênfase na idade já avançada –, há também um ponto contra ela: acabamos por conhecer os fatos em intensidade absurdamente menor do que os conheceríamos se a narrativa fosse linear. O caráter subjetivo afeta de tal modo que o filme – se fosse bom – sofreria o mal da ausência de drama, já que a opção por narrá-lo conforme às lembranças da personagem faz com que nós sintamos que se trata mais de sensibilidade dela do que de tensão da cena: por exemplo, o embate entre Thatcher e seus adversários parece tenso porque foi tenso ou porque a personagem se recorda desse modo? A subjetividade também tem seu lado positivo: parece que nós nos aproximamos da personagem em vez de simplesmente vê-la como objeto de estudo, como aconteceria se a história fosse estruturada de modo documental, como é o caso do chatíssimo “Capote” (2005).

Meryl Streep é a alma do filme. E digo isso sem medo, já que ela traz uma performance tão assombrosa que nós nem sequer conseguimos atribuir mérito ao trabalho de maquiagem, que, ainda assim, é excepcional. A pele enrugada, as pálpebras caídas, as pintas nas mãos – tudo isso advém do excelente trabalho da equipe de maquiagem do filme, que conseguiu eficiente transformar Meryl Streep, na casa dos 60 anos, em uma senhora vinte anos mais velha. No entanto, o olhar baixo, a boca trêmula, as mãos falhas, são trabalho da magnífica interpretação da atriz, que deu o máximo de si para compor essa que é, a meu ver, a melhor interpretação de sua carreira, superando até mesmo Sofia Zawistowski, do filme “A Escolha de Sofia” (1982).

Uma das amostras do declínio da carreira política.


Não vou ficar reiterando que o filme não é dos melhores, porque ele não é mesmo, e quem assistiu “Mamma Mia!” (2008), o primeiro filme de Phyllida Lloyd, sabe bem que a diretora não tem ainda porte para trabalhar com uma cinebiografia, principalmente porque o seu filme anterior, adaptado de uma peça de teatro, já apresenta algumas dificuldades técnicas que acabam “desapercebidas” pelo humor do filme – humor que aqui não existe, logo os problemas se tornam mais evidentes. Thatcher é uma senhora que vive sob efeitos de sua própria mente e fica assistindo a um marido bonachão – um Jim Broadbent gasto e sem grandes funções senão a de divertir o espectador, o que, aliás, não acontece. E o roteiro também falha nas suas recorrentes tentativas de tornar Thatcher uma figura memorável; o problema disso é justamente a teatralidade de suas falas, chegando a um ponto muito shakespeariano na sua vida pessoal e muito dramatúrgico do século XX na sua vida profissional – o tempo todo ela desfere frases de impacto, seja de ordem motivacional para os seus companheiros de trabalho, seja de ordem social, sugerindo reformas a fim de agradar tanto o partido quanto o povo.

Explicações faltam à trama. Aqui e acolá fica um vazio, uma sensação de que algo deixou de ser explorado. No entanto, a interpretação de Meryl Streep é o que permanece em nossa cabeça – impossível não se lembrar dela, em idade tenra ou já idosa, nos seus momentos de sanidade ou nos de devaneio – sempre a brilhar, mostrando que o filme é apenas mais uma amostra de que ela é uma grande atriz – e que merece o Oscar dessa vez! Não sou tão ferrenho quanto alguns colegas cinéfilos e garanto que, se o filme é esquecível pela direção e roteiro, com certeza é memorável pela atriz principal.

13 de fev de 2012

O Artista

The Artist. França / Bélgica, 2011, 96 minutos, drama. Diretor: Michel Hazanavicius.
Um verdadeiro elogio ao cinema.


Não é surpresa que filmes mudos precederam os chamados “filmes sonoros” e, durante muito tempo, principalmente no seu início, o cinema trazia filmes sem som ao público: a sonoplastia se fazia pelo acompanhamento de uma orquestra que, também presente na sala de cinema, era responsável por produzir o som que acompanharia as cenas. De meados da década de 1910 até meados da década de 1930, era assim que o espectador assistia às produções lançadas: sentado numa poltrona numa sala, com músicos orquestrando uma sinfonia enquanto cartelas apareciam esporadicamente para ilustrar alguma fala dos personagens. Ainda que “O Cantor de Jazz”, de 1927, tenha modificado essa estrutura predominante no momento – a dos filmes não-falados –, as cores vieram algum tempo depois: o primeiro filme a ser produzido em cores, i.e., não mais em preto e branco, foi “Vaidade e Beleza”, datado de 1935. E assim o cinema foi “evoluindo”, acrescentando elementos que num primeiro momento não eram comportados em cena.

Não se trata esse texto de um panorama do cinema e a introdução acima tem um motivo: “O Artista”, datado de 2011, é um filme em preto e – caras de espanto –, sem falas! Isso quer dizer que a produção se assemelha àquelas que eram produzidas quando o cinema ainda engatinhava: a história de George Valentin, um grande astro do cinema mudo, nos é contada num filme que não apenas remete, mas também se adéqua a um período histórico bastante diferente do que vivemos agora. A obra em questão aborda já a carreira consolidada do artista do título: o protagonista é um ator talentoso cuja carreira dificilmente poderia ser melhor – ele é influente, vive cercado de atenção de atores iniciantes, diretores e produtores e os seus filmes chamam a atenção. No entanto, tudo se reverte, afinal, chega o ano de 1928 e produções faladas têm surgido, fazendo com que todos os intérpretes do “cinema mudo” se tornem velharias – o público agora quer ouvi-los em vez de vê-los fazendo momices. O casamento já não vai bem, o orgulho não lhe permite aceitar o novo gosto estético pelo som, a raiva lhe obriga a se afastar de Peppy Miller, garota que ele eventualmente ajudou há algum tempo, na época em que ele tinha influência e ela era apenas uma figurante – agora o grande nome dos estúdios e do público é o dela.

O encontro inusitado entre George e Peppy: a moça atravessa a barreira sem querer e acaba perto do seu astro preferido.

Existem filmes metalingüísticos que têm tudo para dar certo. Outros, embora tenham potencial, se arriscam demais caminhando num bosque perigoso. No primeiro caso, está “Nine” (2009), musical da Rob Marshall que deveria, no mínimo, considerando todo o elenco e o corpo técnico, ser um filme inigualável, já que a sua proposta é maravilhosa, mesmo que seu resultado seja, grosso e bem polido modo, insatisfatório. No segundo grupo se encontra The Artist, produção franco-belga, que ousou bastante ao trazer uma obra com tais características: em preto-e-branco e muda. Longe de mim dizer que filmes assim sejam ruins – tampouco quero sugerir que filmes antigos sejam inferiores aos atuais; mas considerando o status quo, é de imaginar que o filme possa arrecadar pouca renda, posto que as pessoas decerto o preterirão a uma obra que esteja dentro dos padrões de cinema já consolidados atualmente.

Lá na década de 1950, mais especificamente no ano de 1952, Gene Kelly, Debbie Reynolds e Donald O’Connor trouxeram as telas um dos filmes metalingüísticos que eu mais gosto (depois de “A Noite Americana” (1970), do Truffaut): o musical “Cantando na Chuva” é uma excelente alegoria da transição do cinema mudo para o cinema falado. Mas “O Artista” vai além: sua força expressiva é conquistada quando ele aborda o cinema falado sem usar falas; a pergunta que nos cabe é: como tão brilhantemente falar sobre a voz, a fala, sem usar ela própria – a voz? Analogicamente, é como um pintor abordar o poder das cores usando somente preto e branco. E o filme não se estende desnecessariamente, seja na sua narrativa, seja na impressão que causa ao espectador – estamos tão envolvidos que a história dos personagens acontece sem que nos cansemos, numa clara amostra de que, desde que estejamos abertos às características desse filme, podemos muito bem ter tanto entretenimento como se estivéssemos assistindo a um filme nos moldes atuais.

Peppy já com a carreira em alta, todos os olhos voltados para ela e para a inovação do cinema falado.

Não bastassem esses pontos positivos, ainda há dois atores extremamente eficientes em conduzir a história e nos envolver em seus dramas pessoas. Tanto Jean Dujardin quanto Bérénice Bejo nos provam que atuação, embora auxiliada pela voz, não depende exclusivamente dela – nem sequer depende dela: ambos trazem personagens densos em situações dramáticas maravilhosas e os defendem assombrosamente bem. Basta observar o carisma de George no sorriso de Jean – o ator sorri com alegria indubitável e, por conseguinte, também o espectador sorri. Já o eterno torpor de Peppy é transmitido extremamente puro a quem vê, provando que Bérénice não mediu esforços para que nós nos sentíssemos como ela, ou seja, sempre à procura da restauração daquilo que deu errado e que supostamente é sua culpa. E conforme o filme acontece e vemos as trajetórias opostas dos personagens – a ascensão de Peppy e a queda de George –, percebemos cada vez mais os atores intensificando a vida dos personagens, até chegar num ponto em que um sorriso e um olhar triste se tornam extremamente desesperadores de tão belo que são representados.

E para não dizer que não há som, afirmo que a trilha sonora que acompanha todo o filme é ótima, dando mais intensidade à trama e, devido a uma cena inicial na qual vemos a orquestra tocando e acompanhando o filme, temos ainda mais a impressão de estarmos mesmo ante um filme produzido na década de 1920. E pra não dizer que não há falas, só cartelas esporádicas, no final há uma surpresa que desestabiliza o espectador, tão genial que é. Decerto é uma das melhores produções recentes, um desses filmes que merecem toda a nossa atenção e que devem ser vistos, revistos e analisados com muita atenção, porque tudo nele, além de funcional e significativo no universo cinematográfico e também no universo da arte, é charmoso e divertido – inclusive o cão, que conquista nossa simpatia assim como George e Peppy.

6 de fev de 2012

Albert Nobbs

RU / Irlanda, 2011, 113 minutos, drama. Diretor: Rodrigo Garcia.
O filme, por si só não é muito interessante, mas a interpretação magnífica de Glenn Close faz valer a pena conferir a essa produção anglo-irlandesa.

O filme surgiu já com os boatos de que Glenn Close seria, mais uma vez, aplaudida pela seu trabalho cinematográfico pela atuação em “Albert Nobbs”, filme cuja temática é trabalhada em cima da crítica à falta de espaço decente dado às mulheres no começo do século na Irlanda. A atriz, que fora indicada cinco vezes na década de 1980 ao Oscar – mas que jamais ganhara –, surpreendeu ao auxiliar também na composição do roteiro e ao escrever a canção-tema Lay Your Head Down, a cuja letra foi agregada a melodia de Brian Byrne. A somar, Close também produziu o filme.

Todo esse empenho realmente indica que a atriz estava decidida a se fazer notar novamente no universo cinematográfico, de onde estava relativamente sumida, já que nos últimos anos estava quase exclusivamente dedicada à série de televisão “Damages”, da qual participa desde 2007. É justamente com Albert Nobbs – uma mulher que se traveste de homem para poder ter mais liberdade numa sociedade machista – que Glenn retorna ao cinema e, ainda, nos presenteia com uma belíssima interpretação, que, embora menor do que seus grandes feitos como “Atração Fatal” (1987) e “Ligações Perigosas” (1988), vale a pena observar.

A história se inicia e nós conhecemos a rotina de Albert Nobbs, um mordomo que trabalha no hotel da Sra. Baker, uma mulher que abusa dos seus empregados visando o maior lucro possível. Nobbs, que na verdade é uma mulher, sonha em abrir seu próprio negócio e poder tomar parte naquilo que acredita ser seu por direito: pretende casar-se, morar na sua própria casa, e, enfim, não depender mais do trabalho como garçom no hotel. Num momento desventurado, na companhia de Page, o pintor contratado para pintar uma sala do hotel, Nobbs se descuida e revela que é mulher, descobrindo, pouco depois, que o Sr. Page é, também, do sexo feminino.

Gleen Close e Mia Wasikowska dão vida a Albert e a Helen, interesse amoroso do "rapaz".

Praticamente, a história se divide em três linhas de ação, sendo que a primeira é aquela na qual conhecemos a vida de Nobbs e o seu comportamento sempre submisso a fim de evitar complicações maiores que o levariam a revelar seu verdadeiro gênero. A segunda linha narrativa é aquela que nos mostra o romance entre Helen Dorse, uma das empregadas, e Joe, um rapaz interesseiro, que quer ir para os Estados Unidos e, para isso, está disposto a tudo, inclusive se aproveitar da bondade de Albert Nobbs. Por fim, a terceira unidade de ação é aquela que nos leva ao conhecimento da vida de Page e é como conhecemos de onde advém o súbito desejo que Nobbs sente de ter um lar e viver como as famílias normalmente vivem. As narrativas principais são a primeira e a segunda, porque são elas que dão corpo à história, elas que fazem com que a história siga a trajetória que tem. Assim, tanto Glenn Close quanto Mia Wasikowska protagonizam a trama, sendo que os seus núcleos são extremamente importantes para a trama e são eles que trazem momentos de maior tensão emocional à história.

De um modo geral, o filme acontece de modo muito linear, quase previsível. Não há grandes surpresas no roteiro, não há nada que seja assombrosamente elogiável na história nem nada que fuja a um senso comum que parece predominar do começo ao fim. Enfim, não é pelo roteiro que o filme chama a nossa atenção, apesar de o trabalho de Glenn Close e John Banville não seja de modo algum desagradável. Talvez o momento máximo da história seja quando Nobbs e Page saem, pela primeira vez, vestidos de mulher, usando vestidos longos, relembrando-se da época em que eram efetivamente mulheres. Ainda que previsível, a semântica da situação é tão forte que inevitavelmente choca o espectador e traz consigo uma vaga de emoção muito forte.

As interpretações indicadas ao Oscar de Glenn Close e Janet McTeer.

Indicado ao Oscar pelo trabalho de maquiagem, não se pode negar que o esforço dos maquiadores é realmente notável, principalmente no que diz respeito à transformação de Glenn Close em Albert Nobbs, que é verdadeiramente incrível! A atriz ficou praticamente irreconhecível, tendo muitas das suas características modificadas, desde o cabelo até o formato do rosto, das orelhas, resultando numa mudança extremamente valiosa e fundamental para que o espectador creia mais na verossimilhança da história, que realmente alcança bom nível devido à maquiagem. Curioso notar a indicação de Glenn Close, sendo ela uma das várias atrizes que receberam indicações por atuar como uma pessoa do sexo oposto – Alberts Nobbs é uma mulher que se faz passar por homem; Bree, de “Transamérica” (2005), é um homem que pretende se transformar em mulher; Brandon Teena, de “Meninos Não Choram” (1999), é mulher, lésbica, que se passa por homem para namorar. Se Glenn Close ficou excelente transfigurada, Janet McTeer ficou assombrosamente feminina, apesar da altura (1,85m) – é impossível crer que as pessoas por tanto tempo a tomaram por homem.

Pode parecer que o filme seja bem comum, e acredito que seja mesmo. No entanto, toda a essência do filme reside na interpretação madura e muito bem focada da atriz principal, que consegue eficiente transpor em emoção tudo que o personagem sente, fazendo com que tudo aflore com extrema facilidade – mas não sem dor, já que há um incômodo persistente que trespassa a vida toda de Albert Nobbs. Glenn Close fez por merecer a sua indicação e, infelizmente, parece que concorre com atrizes em momentos mais “relevantes” pro cinema, como Viola Davis, duvidosamente cultuada por “Histórias Cruzadas” (2011), e Meryl Streep, com quem Glenn já concorreu duas outras vezes no passado.

Não fosse a criação eficaz de Glenn Close, o filme seria menor, quase banal o suficiente para que não lhe déssemos muita atenção. No entanto, garanto que vale a pena ser visto, senão por ele per si, pelo que a atriz tem a nos oferecer. E se trata de uma história emocional, mesmo que mais à paisana: sem exageros melodramáticos, a história transcorre bem, numa linearidade assistível.

4 de fev de 2012

Maurice

Maurice. Reino Unido, 1987, 153 minutos, drama. Diretor: James Ivory.
De narrativa lenta e de tema incômodo, o filme discorre a respeito da vida de Maurice de modo interessante, deixando um sabor agridoce após o seu fim.

A obra cinematográfica provém do romance inglês escrito por E.M. Foster e publicado em 1971, após a morte do escritor, que também escreveu outros títulos que viriam a ser adaptados, como “Uma Janela para o Amor” (1908), “Retorno a Howards End” (1910) e “Passagem para Índia” (1924), transformados em filmes respectivamente em 1985, 1992 e 1984. Sua obra “Maurice” retrata a história do jovem que dá título ao livro, um rapaz da alta sociedade que estudou em Cambridge, onde conheceu Clive, por quem desenvolveria uma paixão que seria, feliz ou infelizmente correspondida.

A doçura do filme se limita a uns poucos momentos, que são justamente aqueles nos quais Maurice e Clive - inspirados em pessoas reais - se dedicam ao amor sem culpa, bastante infantil, cheio de idílio e, sobretudo, puro, porque Clive acredita que enquanto eles souberem que se amam e estiverem juntos sem “blasfemar” desse sentimento, mantendo-o platônico e, portanto, constante. Habituados a uma sociedade na qual a homossexualidade é crime, os personagens mantêm os seus sentimentos às escuras, revelando-o somente para si mesmos e, ainda num primeiro momento, meio receoso por parte de Maurice, que parece atormentado a princípio pelo que sente por Clive, esse tão direto em suas palavras.

O romance dos personagens se desenvolve lentamente, sempre tão presente um na vida do outro que parece não importa o platonismo daquela relação. Os dois atravessam a primeira década, passando por 1909, quando se conhecem; chegando a 1910, quando já são amigos bem próximos; e, por fim, adentrando a nova década, tão moralista e perigosa quantos os anos anteriores - 1911 marca o ano em que a caça aos homossexuais se torna mais noticiada e 1912 faz com que um dos amigos de Clive e Maurice seja preso por pederastia ou, como dito à época, comportamento imoral. Isso desperta em Clive a noção de que eles precisam se privar da relação que têm e que precisa se afastar, evitar aproximações que possam gerar dúvida sobre eles. E é a partir daí que começa a sensação de amargor que predominará o filme até o seu final, apesar de quase happy ending.


James Wilby e Hugh Grant  protagonizam um amor que começa na adolescência e perdura a vida toda.
Grande parte do sucesso do primeiro ato do filme - aquele que vai do começo ao fim da relação entre Clive e Maurice - se dá pela interpretação de Hugh Grant, bastante maduro em sua atuação, nos presenteando com uma das suas atuações mais simpáticas e carismáticas. Sua atuação com Clive nos faz rapidamente entender o porquê de Maurice, interpretado por James Wilby, ter tão facilmente se apaixonado por aquele rapaz de idéias libertárias e de sorriso tão espontaneamente lindo. A história nesses primeiros anos se sustenta justamente pela delicadeza de que tudo é mostrado: os abraços dos personagens, os seus passeios pelos campos, os segredos que eles trocam bem como os sorrisos que são códigos muito significativos compreendidos somente pelos dois. James Ivory, que também foi o responsável por outras duas adaptações de livros de Foster, retratou eficientemente bem a relação de carinho existente entre os dois, finalizando o seu primeiro ato fílmico muito bem, deixando-nos com a introdução do pesar que seria mostrado a partir de então.

A verdadeira essência do filme é o incômodo que perduraria na vida de Maurice, que viu o amigo se casando com Anne e que não podia mais expor seus sentimentos senão a um psicólogo, que o aconselha a não morar mais na Inglaterra bruta que considera a relação entre dois homens como um crime. Maurice se vê dividido entre as constantes idas ao campo, onde fica na casa de Clive, presença que tanto o incomoda, já que há entre os dois algo pendente - tanto o personagem quanto o espectador sabem que Clive tem por ele ainda muito mais do que apenas simpatia e que quando os dois conversam há um indizível amor latejando tanto num quanto noutro. E a somar, surge um terceiro personagem, um rapaz que trabalha para Clive, alguém que reacende em Maurice a vontade de dividir as coisas com alguém especial. Inegável que existe entre Maurice e o rapazinho, bem mais jovem e cheio de expectativas, apesar de classe social, muitos desejos em comum, a principiar pela vontade de quererem um ao outro.

Maurice finalmente encontra quem o quer sem medo de assumir o amor que sentem.
O novo romance da obra não torna o filme menos incômodo. O fato de Maurice e o rapaz não poderem assumir publicamente seu amor perdura o filme todo e continua ferindo o espectador, uma vez que esse conhece as conseqüências que surgirão caso aquele amor seja descoberto, mas, ainda assim, torce para que eles possam expor abertamente o que sentem - é, no fim, o que melhor poderia acontecer ao personagem protagonista dessa trama, que, como ele mesmo diz num determinado momento, sempre se sentiu assim, sempre foi um “indizível” (homossexual), e toda vida precisou ficar encoberto. Ivory também conduz bem essa parte da trama, fazendo com que, assim, ambos os aspectos fundamentais dessa narrativa confluam numa mesma linha, unindo assim o charme indiscutível do primeiro momento e a dor do segundo momento, fechando o segundo ato utilizando-se da própria história e também do carisma de Rupert Graves, que defende bem o camponês sonhador Scudder, sendo ele quase o contraponto da objetividade quase rude de Maurice.

O diretor nos traz um final que é, no mínimo, perturbador. Não pela sua essência, que é, aliás, muito bonita e faz com que sintamos que houve finalmente justiça, mas justamente pelo que não vem depois, pelo filme acabando com a suposição de que eles darão certo - a pergunta que cabe a nós é: e a sociedade destrutiva daquele começo de século conseguiu por fim admiti-los? Considerando que a nossa sociedade, cem anos depois, não é capaz de aceitar, creio que os dois personagens tiveram uma vida difícil, bastante reclusa, e abrindo mãos de inúmeras coisas - seus trabalhos, suas famílias, talvez até grande amigos. E também nos perguntamos a respeito de Clive - como será que ele enxergou a “vitória” do amigo?

A única coisa no filme que não me convenceu foi James Wilby, que me pareceu meio inadequado desde o começo. Algo nele me incomoda, talvez a sua aparência sempre plácida, mesmo quando as situações requerem expressões mais dramáticas - falta senti-lo vivenciando as experiências do seu personagem, não simplesmente acompanhando-as como fazemos nós, os espectadores. Rupert Graves e Hugh Grant, no entanto, como já disse, são bastante envolventes, suas atuações nos convencem e, a somar, James Ivory parece tirar dos atores mais elegância e emoção. O pequeno incômodo com o protagonista, porém, não me faz deixar de recomendar essa obra, que é bastante interessante, apesar de bastante longa - talvez, desnecessariamente longa. As duas horas e meia de filme não incomodam, mas decerto poderiam ser reduzida a apenas duas horas e, ainda assim, a história seria eficientemente exibida. Um filme que vale a pena, com certeza.

2 de fev de 2012

Do Começo ao Fim

Brasil, 2009, 100 minutos, drama. Diretor: Aluisio Abranches.
Uma proposta interessante, mas um desenvolvimento de roteiro assombrosamente inverossímil.

“Eu te amo porque você precisa de amor”. – Francisco.

Não há como negar que o cinema nacional tem aumentado exponencialmente o seu empenho em produzir obras interessantes. Vários títulos têm surgido e os temas têm sido variados: alguns abordando personalidades famosas (Cazuza e Jean Charles, por exemplo), outros com temas convencionais (como Divã) - o mais interessante, no entanto, são as temáticas mais corajosas, como os recentes "Verônica" (2009), que aponta uma série de problemas relacionados ao ensino, à segurança, à sociedade, e "Do Começo ao Fim", do mesmo ano, que aborda um relacionamento homossexual incestuoso.

Antes de mais nada, quero explicitar algo em relação ao comentário que acabei de fazer. Por "temática corajosa", me refiro apenas ao mote do filme e não à maneira como ele foi concebida. Independentemente de acharem ou não o filme bom, não é concebível considerá-lo convencional, já que o seu tema é extremamente forte e, ainda que visível e "palpável" em nossa sociedade, tratado como inexistente. Devo também dizer que sou aberto a todo tipo de relação, desde que, evidentemente, ela seja consensual em relação a todas as partes envolvidas - por isso considero válido o envolvimento entre os irmãos de "Do Começo ao Fim" (mas não me agrada a situação proposta em "Cama de Gato" (2002), na qual três jovens estupram uma moça). Acho importante apresentar esse comentário, assim nenhum leitor pode interpretar a minha opinião em relação ao filme como preconceituosa - seja em relação à conduta homossexual ou à conduta incestuosa.

Como perceberam, o filme narra a trajetória de irmãos que se tornam amantes. O título faz alusão à vida deles, desde o momento em que eles se tinham apenas como irmãos e, partir de então, como eles foram evoluindo esse sentimento até constantarem que estavam apaixonados e que se queriam também numa vertente sexual e não apenas emocional - amam-se como um casal, não estando conectados apenas pelo laço fraterno. O "fim", não sei a que se refere, já que essa obra não se preocupa em mostrar o fim explicitamente - aliás, nem sequer é feita uma alusão a algum momento ou situação que possam definir o fim como "fim".

Devo dizer que eu gostei do roteiro por um motivo: praticamente metade da história é dedicada aos personagens enquanto crianças. É narrado, na primeira cena do filme, o modo como eles se "conhecem": Thomás, que ficara duas semanas de olhos fechados depois de ter nascido, viu o irmão tão logo que decidira abri-los. Nesse momento, há uma metáfora interessante, comentada pelo narrador, na qual é dito que Julieta, a mãe de Thomás e Francisco, não se preocupara quando o filho não abriu os olhos, pois sabia que ele o faria quando achasse certo. E, então, é dito de modo taxativo, mesmo que coberto por um tom muito amistoso, de que a Thomás fora concedido o livre-arbítrio. Essa é uma amostra clara de que os pais do garoto respeitariam as suas vontades e necessidades, aceitando-as mesmo que inesperadas e respeitando-as logo. Muitos reclamaram de que era desnecessário "desperdiçar" metade do filme para traçar essa trajetória; afinal, "ninguém está interessado neles como irmãos". Concordo no que diz respeito ao tempo gasto no detalhamento da relações das crianças - se houvesse uma redução, provavelmente haveria uma dinâmica maior no filme. E eu nem por um momento reclamei deles enquanto garotinhos - creio que seja necessário para o espectador primeiro conhecê-los como irmãos, para depois conhecê-los como amantes - mostrar como o amor fraternal se tornou amor matrimonial.

As falhas, porém, são como o título: do começo ao fim. Enquanto crianças, os garotos mantêm um envolvimento fraternal, apenas. Foi visível para mim que eles se amavam como um irmão ama o outro. Não há, em nenhum momento enquanto as filmagens mostram os atores-mirins, insinuações de quaisquer naturezas sexuais. Provavelmente isso se deve ao fato de que o diretor trabalhava com crianças, o que dificultaria uma cena de caráter mais ousado. Considerando o fato de que eles se comportam do mesmo modo o tempo todo, achei incoerente a cena em que Julieta, a mãe dos garotos, os olha e simplesmente descobre que eles são mais do que irmãos. É como se Julieta tivesse tido um insight e, naquele momento singular, tivesse decidido que os filhos eram gays. Infelizmente, o problema de trabalhar com criança e optar pela sutileza durante as filmagens fez com que isso destoasse da minha percepção de realidade.

Mais tarde, quando os garotos crescem e se tornam homens - e, portanto, têm a sua visão de mundo já bem estruturada -, o filme declara abertamente a relação homossexual e incestuosa dos dois. Isso é feito, porém, numa cena que está totalmente desencaixada do roteiro, uma cena feita exclusivamente para dar um tom poético à nudez dos atores em cena. Honestamente, eu a enxerguei sem qualquer propósito, considerei-a substituível, principalmente pelo momento no qual foi inserida. Voltando de um funeral, a câmera filma de cima, mostrando quatro personagens na sala. Rosa, a empregada, sai de cena; depois, o pai dos garotos também sai. Ficam os dois, que começam a tirar as roupas, num contexto claramente sexual. Como puderam colocar essa cena nesse trecho lacônico da obra? Muito questionável.

Esse, contudo, não é o grande problema. A segunda metade é simplesmente inverossímil; nela, não há nada em que seja realmente possível de se acreditar. Os personagens, que são irmãos, gays e mantêm uma relação entre si - repetindo: homossexuais e incestuosos -, não encontram quaisquer obstáculos para a consumação de seu envolvimento amoroso. Os pais simplesmente aceitam a relação; não a questionam, não se opõem. Não quero com isso dizer que a oposição e o questionamento deveriam provir da concepção de que a união deles seja errada; a reação primeiramente negativa dos pais deveria provir do fato de que eles estão inseridos numa sociedade que vê relações como a dos jovens como errôneas e, ainda, pecaminosas. Hoje é possível dizer que haja mais aceitação em relação aos homossexuais - o respeito, porém, ainda não existe majoritariamente -, mas é inquestionável que o incesto definitivamente não é bem visto. Numa entrevista, li que o diretor do filme não queria "levantar bandeiras, apenas contar uma história de amor". Isso, no entanto, acarretou uma série de inverossimilhanças, já que a leveza com a qual esse romance foi abordado toma como base uma sociedade extremamente utópica, na qual todos os relacionamentos são aceitos - se vocês vivem no mesmo mundo que eu, evidente que sabem que essa sociedade não é a nossa.

Quanto à vertente cinematográfica - principalmente no que diz respeito aos aspectos técnicos -, devo dizer que não achei a obra notável. No máximo, posso fazer um elogio à fotografia, a qual considerei boa e relevante, dando um charme a mais ao filme. A trilha sonora, cujo efeito é positivo em alguns poucos momentos, não se faz notar em muitos outros; trato-a, portanto, como insatisfatória quanto à sua intenção de causar efeito estético no espectador. A direção é turva e duvidosa, de mau gosto no que diz respeito à forma como a história dos personagens foi concebida pela alienação do diretor, que temeu ousar e mostrar algo realmente convincente. As atuações, lamento dizer, são instáveis e não me convenceram o tempo todo - Júlia Lemmertz é a que me parece melhor, mas, mesmo assim, está numa atuação muito mediana, beirando o insatisfatório. Fábio Assunção é um mero figurante, já que sua participação na película é mínima e quase irrelevante. Os estreantes, Rafael Cardoso e João Gabriel Vasconcellos, não fazem um trabalho maravilhoso, até porque não há muito que fazer, pois seus personagens não são desenvolvidos a ponto de permitir que os atores os trabalhem bem. Não culpo, porém, apenas os roteiros – acho ainda assim que os atores poderiam ter se empenhado mais. As crianças são muito espontâneas e elas me passaram a credibilidade do afeto que sentiam uma pela outra, mas isso não salva o filme no quesito atuação.

Eu sei que há os defensores do filme – há aqueles que digam que essa é uma história de amor e por isso é contada com essa suavidade. Não duvido de que seja uma história de amor; apenas não há verossimilhança em toda a narrativa. Uma professora minha uma vez comentou que “vidas em equilíbrio não dão história”, e o problema do filme consiste no fato de que tudo na vida dos personagens é excelente, de modo que não há qualquer conflito. Não o achei totalmente ruim, me entretive um pouco, mas definitivamente não achei uma obra válida, capaz de expressar com eficiência os dilemas do envolvimento dos personagens.