30 de jun de 2012

Adaptação


Adaptation. EUA, 2002, 114 minutos, comédia. Diretor: Spike Jonze.
Provavelmente uma das melhores metalinguagens do cinema. Não fosse por Nicolas Cage, o filme seria verdadeiramente perfeito.

Confesso sempre ter havido algo que me fazia querer assistir a esse filme e outro algo – esse facilmente identificável: Nicolas Cage – sempre me refreava. Criar esse especial sobre Meryl Streep foi um grande motivo para finalmente me colocar a frente dessa fita e finalmente conferi-la, somente para descobrir que eu estava bastante enganado ao não tê-la visto antes, sobretudo porque se trata de uma grande obra, dessas que merecem atenção e que não podem não estar presentes na lista dos filmes vistos de algum cinéfilo.

Difícil apresenta a sinopse desse filme porque ela é o filme, literalmente. Charlie Kaufman traz a história de um personagem – ele mesmo – que tenta adaptar um livro chamado The Orchid Thief, escrito pela repórter Susan Orlean, sobre um homem cuja notoriedade aconteceu devido aos constantes roubos de orquídeas, mesmo em reservas nas quais ele definitivamente não poderia entrar. Dois planos se estabelecem: um no qual o personagem Kaufman tenta lidar com sua dificuldade em escrever um roteiro sobre um livro que ele acaba entendendo como inadaptável e outro no qual se apresenta a relação de Susan e John Laroche e as diversas perturbações que surgem ao longo de sua vivência enquanto pesquisador e objeto de pesquisa.

 Chris Cooper e Meryl Streep interpretando John Laroche, o expert em orquídeas, e Susan Orlean, a jornalista que investiga Laroche e seus métodos de colheita de material de análise.

Escrever sobre esse filme não é fácil, sobretudo porque o universo que ele abrange – seja no seu enfoque ou na sua produção – é muito maior do que o conteúdo exclusivamente encerrado no universo cinematográfico. Talvez, para começar, é importante ressaltar que Charles Kaufman, Susan Orlean e John Laroche são personagens verídicos, cujas vidas foram transpostas para as telas, não sem antes sofrerem algumas modificações básicas.  Também considero relevante dizer o livro The Orchid Thief (1998) também é real, já que Orlean realmente se dedicou à pesquisa sobre o cultivo e uso das orquídeas, sobretudo as raras, encontradas por Laroche nas diversas vezes que ele se apropriou de uma espécie praticamente extinta dessa planta. Mais a fundo, é necessário esclarecer que Kaufman já declarou ter verdadeiramente tentado adaptar o livro de Orlean, mas, enfrentando uma dificuldade imensa na transposição do caráter jornalístico da história de Laroche, ele decidiu escrever sobre essa sua dificuldade.

Compreendamos: Charles Kaufman, tentando adaptar um livro que ele julgou inadaptável, decidiu escrever um roteiro sobre ele mesmo, Charles Kaufman, tentando adaptar um livro que ele julga inadaptável. Ousou ainda mais: também escreveu sobre a veracidade acerca das pesquisas de Orlean com Laroche. Não bastando, mais um desafio: duplicar-se na figura do gêmeo inexistente Donald Kaufman (transpondo-o inclusive para a vida real, num processo inverso a tudo o que fez nesse filme, em que trouxe elementos da vida para a arte). Finalizando, deu aos personagens de Susan e John certa ficção, transformando-os em amantes e, mais do que isso, em consumidores de drogas extraídas a partir do extrato das orquídeas.

Spike Jonze, Charles Kaufman e Donald Kaufman (uma vez que o roteiro do filme é dos irmãos, devo atribuir também ao gêmeo os créditos por esse filme) realmente apresentaram uma obra cuja estrutura é, senão inteligentíssima, decerto um dos melhores trabalhos metalingüísticos que o cinema já viu, superando inclusive os trabalhos apresentados em “Cantando na Chuva” (1952), “A Noite Americana” (1973) e “Lembranças de Hollywood” (1990), sendo todos files que, em sua essência, abordam a indústria cinematográfica e o seu relacionamento consigo mesmo, nos mostrando os bastidores, as gravações, o processo artístico por trás do objeto de trabalho que um filme é. Considero essa uma obra simplesmente genial, porque ela não tem medo de transformar a realidade em arte ficcional (basta ver que todos os personagens são reais com histórias remodeladas) e, ainda, fazer o inverso, levando à realidade elementos fictivos. Não é à toa que Donald Kaufman, uma criatura que existe exclusivamente no universo artístico da ficção, mais especificamente nessa obra de 2002, foi nominado ao Oscar pela escrita desse roteiro, juntamente com seu irmão, Charles Kaufman, o “verdadeiro” autor do roteiro.

 Nicolas Cage dando vida aos gêmeos Charles e Donald.

Muito do filme se perderia não houvesse a edição de imagens que, dinamicamente, nos transporta da história dos aparentemente rivais irmãos Kaufman para a história de Susan e sua tentativa de entender que maravilha existe por trás das orquídeas, já que elas são objeto de atenção de um homem que, segundo as expectativas de Orlean, é muito interessante. Gosto especialmente da função da flor nas três histórias indubitavelmente reais: John Laroche, o ladrão de orquídeas, é o que é porque está sempre à procura de espécies raras e/ou em extinção; Susan Orlean, a repórter, viu em Laroche um tema interessante no qual se focar em sua pesquisa; Charles Kaufman, o roteirista, depois de analisado o livro de Orlean, achou-o adequado para uma história cinematográfica. O resultado é esse filme no qual a flor continua sendo o objeto de atenção de todos os personagens, mas gosto especialmente de sua simbologia na história da repórter: depois de acompanhar Laroche e descobrir o máximo que podia sobre sua vida, a repórter queria experimentar a sensação de encontrar um espécime raro da flor, então ela e Laroche saem à procura da inspiradora Orquídea Fantasma, que é um dos maiores tesouros para ele. Quando se deparam com ela, depois de percorrerem um laborioso caminho num pântano, finalmente a encontram – e Orlean se mostra decepcionada, uma vez que, afinal, constata ser apenas uma flor, não muito diferente de qualquer outra orquídea que já tenha visto antes; mais tarde, porém, ela descobrirá ser a orquídea a fonte de uma de suas maiores felicidades: a droga.

Meryl Streep e Chris Cooper com certeza são o ponto alto dessa produção. Acredito que os dois desenvolveram seus personagens de tal modo que é dificílimo não observá-los e crer que eles fazem jus às pessoas reais de que derivam. E eles souberam conquistar o espectador, mesmo que eles retenham características que notadamente os marginalizam. A começar pelo físico de John Laroche – já num primeiro momento, ele nos causa uma impressão estranha, justamente pela falta dos dentes da frente, cujo porquê é mais tarde explicado, causando no espectador uma sensação de agonia, sobretudo por causa do afastamento inicial em relação ao personagem. Já Susan é uma figura que aparentemente nos causa simpatia, mas partilhamos do seu descontentamento ante a tão esperada orquídea. Depois, há uma estranha – e extremamente simpática – união dela com Laroche, resultando num casal estranho, mas maravilhoso, que fica pelado numa casa num rancho cheirando o pó da orquídea e transando.

 Meryl Streep e Spike Jonze nos bastidores do filme.

Spike Jonze definitivamente transforma essa sua obra em algo verdadeiramente interessante que deve ser visto. Nenhum cinéfilo deve deixar essa obra passar em branco, pois ela definitivamente é uma das melhores produções da última década, e, não bastasse isso, ainda apresenta uma das melhores interpretações de Meryl Streep e, também, um momento interessantíssimo de Chris Cooper, na única interpretação sua nomeada ao Oscar. O grande problema do filme: Nicolas Cage. Afinal, ele sempre atua embasado em cacoetes terríveis que não acrescentam nada à atuação – mas aqui ele consegue não perturbar a trama, está aquém dos outros atores, mas, ainda assim, aceitável e quase satisfatório. O grande mérito está nas atuações de Meryl e Cooper, no roteiro de Kaufman – genial, insisto! – e na direção de Jonze, que soube bem como encaminhar o seu filme para um ritmo interessante, que somente valoriza a trama, que facilmente poderia ter se tornado confusa. A meu ver, este é facilmente um dos meus filmes preferidos e acredito que um dos files preferidos dos cinéfilos também.

28 de jun de 2012

Música do Coração



Music of the Heart. EUA, 1999, 124 min, drama. Diretor: Wes Craven.
Apesar de mediano, o filme tem bons momentos.

Confesso que minha primeira grande surpresa com esse filme foi justamente o fato de ele ter sido dirigido por Wes Craven, diretor cujo nome está associado ao cinema de terror, tendo lançado títulos que são referências, como “Aniversário Macabro” (1972), “Quadrilha de Sádicos” (1977), “A Hora do Pesadelo” (1984), além da saga “Pânico” (1996 - 2011). Praticamente toda a filmografia de Craven é recheada de filmes que definitivamente passeiam longe do gênero de Music of the Heart, filme que, aliás, ele só dirigiu sob a condição de também dirigir o terceiro episódio da série com o ghost face, já que ele queria se livrar da franquia da qual ele e Kevin Williamson foram criadores.

Tendo assinado contrato para dirigir “Pânico 3” (2000), o estúdio finalmente liberou “Música do Coração” (1999), no qual Craven se reuniu com Meryl Streep, Ângela Bassett (que já havia participado de outros filmes do diretor) e com Gloria Estefan, cantora mundialmente reconhecida. O elenco, sob direção de Craven e baseado no roteiro de Pamela Gray, traz a história verdadeira de Roberta Guaspari, dona de casa cuja vida virou de cabeça pra baixo quando seu marido a abandonou e, por incentivo da mãe e de um ex-namorado, decidiu tentar uma vaga como professora de violino numa escola pública, local no qual obteve sucesso e apoio do governo por dez anos. O choque acontece quando se descobre não haver mais incentivo financeiro público para as aulas, implicando no fechamento do curso de violino, o que obriga Roberta e todos os envolvidos no programa de ensino a encontrar meios alternativos de financiar as aulas.


Já no começo do filme percebemos um tom de feel-good movie. Não se pode, em momento algum, pressupor que algo ali vá verdadeiramente dar errado, já que a simples incursão de Roberta numa escola marginalizada (os alunos são, sobretudo, afro-americanos e hispânicos, grupos sociais notadamente desvalorizados nos Estados Unidos) e a imediata antipatia dos alunos faz com que pensemos que, a partir dali, só é possível dar certo e não mais errado do que já está. E é justamente isso: atravessados os problemas iniciais, a personagem se insere de tal modo na vida dos alunos que ao espectador cabe observar qual será, então, o próximo e talvez absoluto, pico de tensão da história. Para mim, a história é claramente dividida em dois grandes atos: o primeiro apresenta as dificuldades de Roberta em se adequar à nova escola, bem como em conquistar os seus alunos e, não por menos, lidar com seus filhos; o segundo bloco se apresenta depois de transcorrida uma hora de fita e ele mostra aquele que se alega o grande plot da narrativa: a luta de todos os envolvidos no programa de ensino de violino para mantê-lo como matéria adjunta no currículo escolar daquela escola.

Vejo a narrativa dividida em dois momentos bastante distintos, porque é perceptível que a primeira parte se encerra próximo à metade do filme. Não è toa que todos os alunos de Roberta, aqueles que inicialmente se mostravam antipáticos com a nova professora, findam sua participação antes do meio da história e retornam depois, justamente como um elemento a mais que une a primeira e a segunda partes. Ambos os atos acontecem tranquilamente e nenhum apresenta nenhum grave problema. De certo modo, o filme é bastante linear, muito constante e satisfatório na sua linearidade, sem nada que perturbe o modo como ele transcorre. Assim, considero essa uma obra de fácil leitura, sobretudo porque ela se trata mais de uma obra sensual (relacionada aos sentidos e ao despertar deles) do que uma obra realmente focada na trajetória da vida da personagem principal ou, ainda, numa dessas produções alicerçados nos diversos símbolos que mantêm o espectador à procura de seus significados.


Talvez o grande êxito do filme seja Meryl Streep e, em poucos momentos, a presença de Angela Bassett, nua interpretação às vezes exagerada, mas, ainda assim, intensa. Meryl, satisfatória, faz com que o espectador se sinta simpatizado pela sua personagem e consegue conduzi-la até o final do filme adequadamente. Se isso serve para valorizar o trabalho da atriz, podemos dizer que ela aprendeu a tocar violino, tendo praticamente seis horas diárias por seis semanas – o empenho lhe rendeu uma indicação ao Oscar, que a fez competir com atrizes como Hilary Sawnk, Annete Bening e Julianne Moore, por, respectivamente, “Meninos Não Choram”, “Beleza Americana” e “Fim de Caso”, todos também de 1999.

Como diretor, Craven não parece ter feito muito – seu filme, grosso modo, é bastante simples e não há que verdadeiramente o faça notar. Suas produções de terror são claramente mais suas do que esse filme, que poderia ter sido dirigido por qualquer outro diretor e que nós provavelmente não notaríamos tanta diferença. Isso não significa que o filme seja ruim, de modo algum. Como eu disse: é uma obra linear que tem seus bons momentos, mas que está longe de ser ruim ou de ser muito boa. Vale a pena conferir. No meu caso valeu a pena porque gosto do trabalho tanto de Meryl quanto de Wes, mesmo que essa parceria não tenha resultado em nenhuma grande maravilha.

26 de jun de 2012

Lembranças de Hollywood


Postcards from the Edge. EUA, 1990, 101 min, comédia. Diretor: Mike Nichols.
Uma comédia simpática cujas estrelas – Streep e MacLaine – realmente mostram humor e diversão ao espectador.

Confesso que minhas expectativas eram outras quando vi esse filme. Antes de vê-lo, eu imaginava uma comédia menos debochada, algo mais sutil e supostamente estiloso, como é o caso das comédias de Jason Reitman. Não que o resultado visto em “Lembranças de Hollywood” (1990) seja inferior às obras do diretor que citei, mas realmente nem sequer tangeu aquilo que eu esperava, passou longe. A comédia apresentada por Nichols é descontraída e sem pretensões, o que a torna ainda mais simpática ao espectador.

Suzanne Vale é uma atriz cuja carreira não vai bem e, para piorar, ela deixa que sua vida pessoal destrua totalmente suas últimas chances de filmar, já que agora ela se entregou aos narcóticos e simplesmente não consegue memorizar suas falas. O resultado: uma overdose que a tira temporariamente da indústria cinematográfica e que ainda a obriga a morar com sua mãe, cujo temperamento realmente não é similar ao de Suzanne e, por conseguinte, sempre gera problemas de entendimento entre as duas.

 Suzana, no momento em que descobre que terá que ficar sob a tutela da mãe.

A filha drogada é Meryl Streep, a mãe teatral e melodramática é Shirley MacLaine e pode-se dizer que ambas fazem trabalho interessante aqui, principalmente porque a harmonia entre as duas é perfeita! Realmente parece que elas se divertem o tempo todo em cena, mesmo quando a cena é dramática e tensa. Talvez seja esse o mérito dessa produção de Mike Nichols: um filme humorado que sabe manter seu humor. E o enredo todo percorre uma trilha que não o deixa sair do único tom predominante, o que ajuda bastante e o que corrobora a despretensão – apesar de alguns momentos dramáticos, é notável que é a vertente cômica que alicerça a obra.

Há algo no roteiro que soa meio preguiçoso, como se, por ser uma comédia, não houvesse necessidade de maior aprimoramento na condução da narrativa. Parece, às vezes, que a história de Suzana é bastante enfadonha, o que prejudica um pouco o desempenho de Meryl Streep, pois temos a nítida impressão de que ela está se repetindo. Mas rapidamente o enredo volta a melhorar, transitando entre os problemas da atriz com seu trabalho (que é a parte ais chatinha) e seus problemas com a mãe, que é mesmo o ápice do filme. De certo modo, isso me entristece um pouco, porque justamente a parte metalingüística – um filme em cujo enredo há amostras da produção de um filme – não se mostra tão interessante assim. Mas pelo menos compensa com os desentendimentos familiares que sempre ocorrem entre as personagens.

 
Se Nichols faz mais uma parceria com Meryl e tira dela bons resultados, creio que certamente seu maior mérito seja Shirley MacLaine, que honestamente me soa muito mais interessante em sua interpretação do que Meryl, já muito hypada para concorrer ao Oscar – não é à toa que seu nome completa lista na ausência de uma potência interpretativa. MacLaine compõe uma personagem indubitavelmente teatral em sua personalidade, que está sempre agindo como se estivesse num palco, mesmo estando somente ela e sua filha, Dóris se porta de modo histriônico, seja para o cômico ou para o dramático. Gosto especialmente da cena em que ela está esperando a filha voltar de um rendez-vous e, com a chegada de Suzana, começa a reclamar sobre a falta de atenção da filha, que não lhe dedica qualquer respeito e que sempre a deixa preocupa; decerto uma cena maravilhosa.

Fico pensando que o filme parece não demandar um roteiro elaborado, talvez sua grande força seja nas atrizes, assim o filme sucede êxito. Não se trata de uma grande obra e acho que ela nunca quis sê-lo, queria apenas entreter o espectador, que se diverte com os diálogos entre Suzana e sua mãe. Em tempo, o filme é baseado na perturbadora relação entre Debbie Reynolds e sua filha Carrie Fisher, respectivamente a atriz de “Cantando na Chuva” (1952) e a Princesa Leia, dos episódios quarto, quinto e sexto da saga “Star Wars” (1977-1983). Reynolds inclusive queria para si, justamente por tratar-se de si, a personagem Dóris, que acabou nas mãos de MacLaine, para o descontentamento daquela. Outra descontente foi Lana Turner, já que há uma fala no roteiro em que Dóris sugere que ela nunca foi uma mãe ruim, era só a filha compará-la como outras, como Turner. Um filme, enfim, singelo, divertido, que causou sua parcela de polêmica, que rendeu a Meryl Streep mais uma indicação e que, possivelmente, será esquecido depois de algum tempo.

24 de jun de 2012

Um Grito no Escuro


Evil Angels. Austrália / EUA, 1988, 122 min, drama. Diretor: Fred Schepisi.
O mérito do filme está na interpretação de Meryl Streep e Sam Neill, já que seu roteiro é bastante confuso e o resultado final é apenas mediano.

Fiquei bastante interessado na história de Lindy Chamberlain quando ouvi sua história. Erros judiciais não são incomuns, embora pouco debatidos, e creio haver inúmeras pessoas cuja liberdade foi tomada – em alguns casos, até mesmo pessoas cujas vidas foram cortadas – justamente por causa de ausência de provas que sejam capazes de efetivamente inocentar ou culpar um réu. Recentemente, o cinema nos apresentou a história de Betty Anne White no filme “Uma Vida pela Verdade” (2010), no qual uma mulher se esforçava arduamente para provar que seu irmão fora injustamente condenado. Acredito que exemplos assim – na vida real ou na arte – não sejam difíceis de encontrar.

O caso do casal Chamberlain é ainda mais curioso, porque a situação dramática deles se tornou uma paródia involuntária e também porque a história em si parece absurda. Depois de algum tempo num acampamento com a família (o marido, dois filhos pequenos e um bebê), Lindy Chamberlain constata, ao ouvir o choro de Azaria, sua filha de nove meses, que a criança não está mais no berço na tenda onde ela a havia colocado. Ao ver próximo da tenda alguns dingos e estado de agitação, a senhora Chamberlain não teve dúvida: o dingo havia comido sua criança. E justamente essa frase tão difundida – no original, “the dingo ate my babe”, com o sotaque australiano fazendo jus à sua nacionalidade – acabou tornando a situação extremamente debochada. Tendo dado várias entrevistas acerca do evento, sempre alegando serem os lobos os responsáveis pela morte da sua filha, Lindy acabou alvo de especulação e deboche: os animais, afinal, sempre fizeram parte da fauna australiana e nunca se registrou caso de ataque de dingo – a frase, então, tornou-se sinônimo para esconder algo que foi feito de errado e cujo responsável decerto não é o outro.

 O constante confronto com a mídia: as dessa já devido ao julgamento no qual era acusada de assassinar sua própria filha.

A frase é conhecida e associada ao filme, embora em nenhum momento Meryl Streep, intérprete de Lindy Chamberlain, a pronuncie. Na verdade, ela afirma, alto e claramente, apesar do seu notável desespero, que o “dingo took the babe”. E constatamos, afinal, não ser mentira, principalmente porque hoje já sabemos que Chamberlain deduzira corretamente e sua criança, afinal, havia sido tomada pelos lobos. Curioso pensar que isso ocorreu em 1980, sendo o filme de oito anos depois (portanto, 1988), quando já se haviam removidos as acusações contra os Chamberlain, mas somente em 2012, 24 anos depois de liberta, que finalmente se tornou legal a versão do casal, tornando Lindy e Michael livres de todas as acusações e inocentados efetivamente do crime.

Voltando agora ao filme em si e me focando exclusivamente nele, é bastante fácil para o espectador se colocar na situação dos australianos ante as declarações do casal cuja filha foi morta, principalmente pelo seu comportamento em relação aos eventos. Mas, também, não sei até que ponto o roteiro buscava atingir esse nível de proximidade com uma possível realidade e até que ponto ele é confuso mesmo, porque parece que o casal não está nem um pouco abalado com a perda de filha que sempre quiseram e, não obstante, ainda se mostram em fartura daquela situação proveitosa que a todo o momento os coloca na mídia. Os argumentos são vários: não se entristeceriam, porque, afinal, aquilo havia sido vontade de Deus (vale lembrar, em tempo, que o casal é religioso); também aproveitariam a situação, como eles mesmos afirmam, para advertir outros pais incautos, justamente para que a situação não se repita. A bagunça é tanta no roteiro que é realmente difícil dizer quais são as verdadeiras circunstâncias nas quais o casal se vê inserido – o próprio espectador põe em questionamento as ações de Lindy e Michael.

O roteiro confuso com informações extensas e cansativas parece ser reforçado pela direção bastante apática de Fred Schepisi, que faz do seu filme uma obra bastante comum e, às vezes, monótona. Só não totalmente esgotante porque Streep e Neill, que dão vida ao casal protagonista, conseguem lidar muito bem com os seus momentos em cena e, enfim, usam o que podem ao seu favor. Só tomamos conhecimento da dor do casal, graças aos atores, nas cenas do tribunal, quando eles se mostram introspectivos, mas bastante firmes – Lindy várias vezes afirma que não quer prolongar aquilo e que gostaria de responder rapidamente às questões que lhe fazem, mesmo que isso implique ouvir constantes acusações horrendas de crimes que ela certamente não cometeu. Em vez de chorar em prantos, os olhos marejados de Meryl Streep provam o caráter da personagem: talvez duvidosa, mas certamente verdadeira ali. 

 Confiram aqui um exemplo de deboche da famosa frase de Lindy Chamberlain.

Schepisi se estende nos momentos que não são necessários, já que o forte do filme é, afinal, os momentos no tribunal. Tudo o que vem antes, com exceção da constatação do sumiço da criança, é bobagem desmedida, que só serve para alongar a produção, que, a meu ver, facilmente poderia ter meia hora a menos sem qualquer prejuízo à linha narrativa. Até que cheguem as cenas do tribunal, quando finalmente percebemos o foco do filme – as recorrentes argumentações de uma família acerca daquilo que eles julgam verdadeiro –, tudo o que vemos é um enredo que parece não saber para onde vai, já que opta por mostrar a tragédia da família, o reerguimento dela, os novos caminhos traçados, tudo isso posto de jeito desordenado e inapropriado. Não houvesse ali os atores, sobretudo Streep, decerto o filme cairia de tal modo que talvez nem se pudesse conferi-lo.

Um pouco em desuso atualmente, a frase máxima dessa obra ainda carrega o seu tom sarcástico. Os céticos podem simplesmente colocá-la no youtube para ver o jeito como todos faze questão de torná-la cômica. Se os australianos já não conseguiam acreditar nela com segurança, porque o histórico de agressões de dingo parecia não corroborar aquela afirmação, o comportamento histriônico e midiático do casal também não ajudou e são praticamente esses os dois pontos que permeiam o filme, que não atinge nível elevado nem abordando um assunto polêmico, como é a questão das condenações inadequadas e, ainda, dos assassínios disfarçados, que hoje sabemos não ser aplicável em relação aos Chamberlain.

22 de jun de 2012

Ironweed


Ironweed. EUA, 1987, 136 minutos, drama. Diretor: Hector Babenco.
Jack Nicholson e Meryl Streep - dois dos maiores atores da atualidade não conseguem tornar essa produção interessante.

Hector Babenco já havia proporcionado pelo menos dois grandes títulos ao cinema, sendo eles “O Beijo da Mulher-Aranha” e “Pixote - A Lei dos Mais Fracos”, sendo esse último um título vindo de uma co-produção entre Estados Unidos e Brasil, chegando inclusive à lista dos indicados e premiados do Oscar no ano de 1986. Em 1987, o diretor traz às telas a história escrita por William Kennedy em seu romance homônimo a respeito de duas pessoas que tiveram uma vida bem sucedida, mas que, à época registrada, no ano de 1938, se tornaram dois mendigos que mal conseguem sobreviver.

Dois dos maiores intérpretes da atualidade - Jack Nicholson e Meryl Streep - dão vida a Francis e Helen, que carregam consigo tristeza pelo que lhes aconteceu no passado e com que ele não conseguem lidar, nem mesmo esquecer. Ele, há 22 anos, deixou que o filho pequeno caísse ao chão, levando-o à morte - acontecimento que Annie, sua esposa, manteve omisso, permitindo então que ele não fosse visto com maus olhos, fosse pelos parentes ou pelos amigos; afinal, como ela mesma disse, não havia sido culpa nem dele nem dela, não havia por que espalhar dando margem a interpretações equivocadas ou propositadamente más. Helen, por sua vez, foi uma grande cantora das rádios, colecionava fãs, e era a herdeira do dinheiro de sua família; o irmão, porém, roubou-lhe tudo, deixando-a miserável, sem ter como se virar - inevitavelmente foi às ruas, onde passou a viver e onde, ao acaso, encontrou Francis, que estava doente e de quem cuidou, tornando-se assim companheira dele.

 Um pequeno brinde, mesmo sem saber onde dormirão à noite ou ainda se sobreviverão ao frio.

Acredito que esse foi o apenas o segundo filme a que eu assisti em que não vi Jack Nicholson interpretando um sujeito “peculiar” ou radical, como as criaturas por ele interpretadas nos filmes “Batman - O Retorno”, “O Iluminado”, “Um Estranho no Ninho”. O seu personagem é tão seguramente banal que é inevitável não gostar dele, não acho simpático, mesmo quando ele, por desespero, num misto de raiva e humilhação, dá umas chacoalhadas em Helen, por ela portar-se de modo mesquinho. A interpretação dele é bastante convincente e não me surpreende que ele tenha chegado em 1988 à sua nona indicação ao Oscar pelo seu desempenho em Ironweed, mesmo sendo o filme uma das obras mais potencialmente chatas a que já assisti. Os dramas pessoais de Francis só não se tornam maiores e mais interessantes, porque estão inseridos num filme sem vida, de desenvolvimento lento demais para pouco enredo; fosse de outro modo, decerto teríamos as nossas emoções bem mais acessíveis à história.

Pode-se dizer o mesmo de Meryl Streep, embora, a meu ver, sua interpretação é menor que a dele, assim como o seu espaço em cena, que parece bastante limitado, não cabendo a ela o tempo adequado para que sua personagem possa se desenvolver. A parte do enredo na qual ela é inserida é bastante pífia, tornando-a uma ranzinza que fica murmurando e gemendo para lá e para cá, havendo apenas uma pequena cena logo no começo que dá alguma amplitude psicológica a Helen, fazendo assim com que nós nos aproximemos um pouco mais dela - mas, como já disse, o filme chato não permite que compreendamos mais a situação da co-protagonista. A Academia se rendeu ao talento de Meryl em transformar sua pequena participação em uma atuação notável, mesmo que bastante simples e nem tão grande a ponto de merecer uma indicação ao Oscar. Mas, afinal, estamos falando do ano de 1988, quando blasfemaram ao indicar “Nos Bastidores da Notícia” como Melhor Filme; não havia por que não colocar Meryl como uma das melhores atrizes do ano.

 Catarse falha: nem o momento mais trágico gera emoção no espectador.

Falta um lampejo de vida à história de Hector Babenco, que se mostrou mais apto nos seus filmes anteriores. A história é cansativa, deveras lentas, o filme escorre, faltando a ele um ritmo mais aguçado. Qualquer amador sabe que é necessário fazer com que haja velocidade numa composição artística, seja filme, história em quadrinhos ou poesia. Encha os quadrinhos com muitos balões e veremos rapidamente uma dificuldade na leitura e compreensão; componha uma poesia cheia de palavras de significados pouco conhecidos, obrigando o espectador a procurar no dicionário a cada duas três sílabas poéticas e haverá notadamente desinteresse. É justamente esse problema que acontece em Ironweed, cujos tradutores nem sequer souberam como transpor o título original para uma adaptação em português a fim de torná-lo mais atrativo. Como apontei, as histórias de Francis e Helen parecem potencialmente interessantes, mas se mostram aborrecedoras devido à lentidão do filme, que ultrapassa duas horas embora nós tenhamos a sensação de que vimos material para apenas quarenta minutos. E a pergunta que fica é: o filme foi esticado?

Nem mesmo os momentos oníricos de Francis alicerçam o interesse do público. Os seus devaneios e as suas alucinações, que deveriam trazer maior profundidade ao personagem, acabam por limitá-lo a um “será que sou louco?”. A questão dos mendigos que morrem por falta de proteção também é rapidamente esquecida bem como a discussão acerca do preconceito sofrido por eles quando as pessoas nem sequer sabem que motivos os levaram àquela vida que, segundo Helen, às vezes nem corresponde à “dignidade humana”. Estamos falando de Hector Babenco, Jack Nicholson e Meryl Streep: três pessoas extremamente competentes que não dão ao filme ares de qualidade. Infelizmente, o filme é esquecível e a sua sutileza poética acaba sendo desmerecida pela falha de execução do diretor.

20 de jun de 2012

As indicações ao Oscar de Meryl Streep (parte 2)


Dando continuidade ao post no qual comentei as sete primeiras indicações da atriz, seguem as outras dez indicações que compõem o currículo de Meryl Streep.

1989 – Um Grito no Escuro (1988)
8ª indicação: Melhor Atriz


O sotaque australiano rendeu à Meryl Streep sua oitava indicação - e, curiosamente, mais uma delas interpretando uma personage verídica, que nesse caso é Linda Chamberlhain, uma mulher cujo bebê é morto por um dingo e que acaba sendo condenada pela morte da criança justamente pela ausência de provas. Se o filme é mediano, decerto as interpretações de Streep e Neill não são e a presença cênica da atriz é tão grande que ela fez por merecer estar entre as indicadas. Contida às vezes, noutras vezes explosiva, a atriz soube conduzir bem sua personagem e tornou-a interessante, o que é meio difícil com o roteiro duvidoso.

1991 – Lembranças de Hollywood (1990)
9ª indicação: Melhor Atriz


Bom humor define a interpretação da atriz nesse filme. Linearidade também. Não entendo a indicação de Meryl nesse ano, considerando que sua participação aqui é apenas satisfatória, sem nada que realmente chame a atenção na sua atuação como uma atriz de Hollywood que vive chapada e que acaba voltando a viver com a mãe, com quem não se dá bem. Aliás, a mãe, Shirley MacLaine, merecia muito mais ser lembrada pela Academia do que Streep, que, apesar de divertida, está bastante aquém de suas outras interpretações e de suas concorrentes daquele ano.

1996 – As Pontes de Madison (1995)
10ª indicação: Melhor Atriz


Trata-se de uma das interpretações mais emocionais que já vi e, com certeza, aquela que indubitavelmente deve ser nominada e, talvez, até mesmo premiada. Não conheço o desempenho de Susan Sarandon em “Os Últimos Passos de um Homem” (1995), que se sagrou vencedora, mas acredito que ele deva ser muito mais perfeito que o de Meryl, pois a interpretação desta é realmente magnífica. Só de me lembrar do filme, me dá vontade de revê-lo inúmeras vezes, só para vê-la olhar-se no espelho, admirando-se, ou então para ver a sua indecisão em sair do carro do marido e ir correndo em direção ao homem com quem quer passar o resto de sua vida.

1999 – Um Amor Verdadeiro (1998)
11ª indicação: Melhor Atriz


Filme razoável no qual Streep definitivamente não é protagonista e sua indicação na categoria principal, mais do que mostrar o quanto a Academia gosta dela, nos faz crer que ela é um tapa-buraco extremamente eficiente: na ausência de um quinto nome na lista de indicações, basta colocar o dela e não haverá erro, já que sua interpretação jamais será ruim, no máximo linear e comum, como é o caso desse filme no qual ela interpreta uma matriarca que se descobre com câncer e cuja doença reúne os familiares, exaltando as deficiências naquela família. Para mim, em seu lugar, Renée Zellweger poderia facilmente ter sido indicada.

2000 – Música do Coração (1999)
12ª indicação: Melhor Atriz


Pela obviedade desse filme que mostra a batalha de uma professora de violino por manter o seu projeto em vigor, Streep empatou com Hepburn no número de indicações e concorreu com interpretações estupendas, como as de Julianne Moore, Hilary Swank (a vencedora) e Anette Bening. O único filme que não é de terror dirigido por Wes Craven garantiu uma participação interessante de Meryl Streep, que torna o filme mais interessante de ser visto. Ainda que sua interpretação tenha seus bons momentos, é apenas linear, e mais uma vez me ficou a sensação de que ela estava ali completando a lista porque a Academia não encontrou ninguém melhor para indicar.

2003 – Adaptação (2002)
13ª indicação: Melhor Atriz Coadjuvante


Poderia ter sido também por “As Horas” (2002), mas foi pela sua participação no filme estranho e genial de Spike Jonze que Streep conseguiu bater o recorde de indicações dentre os intérpretes. E o fez merecidamente, já que sua atuação como Susan Orlean é maravilhosa, dessas que misturam todos os sentimentos possíveis e apresentam-lhes com eficiência – ora triste, ora bem humorada, ora toda sentimental. E ainda nesse ano, como já havia acontecido em 1980, quando Meryl disputou o prêmio com uma colega de trabalho, aqui ela divide espaço com Julianne Moore, sua parceria no filme de Daldry. Justíssima a indicação, principalmente por se tratar de uma das interpretações mais completas da atriz.

2007 – O Diabo Veste Prada (2006)
14ª indicação: Melhor Atriz


Evidente que Meryl Streep dá vida a uma personagem coadjuvante nesse filme. Miranda Pristley, a chefe-dragão, é o elemento que causa empecilhos na vida de Andy Sachs, interpretada por Anne Hathway, a verdadeira atriz principal. Penso que, mais do que uma indicação, Streep teria aqui conquistado o seu terceiro Oscar, pois de fato é um dos seus grandes momentos no cinema. Pena que estava indicada na categoria errada, o que acaba justificando premiar uma atriz que fosse mesmo lead actress. Mas definitivamente meu referencial para chefe cuzão mudou: antes era apenas aquele que cobrava demais, agora é também aquele que simplesmente te despreza.

2009 – Dúvida (2008)
15ª indicação: Melhor Atriz


Padre Flynn diz categórico que “a dúvida pode ser um elo tão forte e perigoso quanto a certeza”. Se a irmã James convive com a dúvida, a irmã Aloysius, personagem de Streep, convive com a certeza abrasadora de que o padre é pederasta e pedófilo. Muitos dizem que sua interpretação é exagerada, mas eu realmente a vejo como adequada, sem grandes exageros e totalmente digna de uma indicação, sendo esse outro grande momento seu no cinema. Destaque especial para a cena na qual ela conversa com a senhora Miller e se choca com as opiniões da mãe do garoto que supostamente vem sendo aliciado pelo padre.

2010 – Julie & Julia (2009)
16ª indicação: Melhor Atriz


O grande escândalo: uma atriz como Meryl Streep perdeu o Oscar para Sandra Bullock, atriz mediana em filme mediano. Mas essa indicação de Meryl, a meu ver, é simplesmente como aquela acontecida em 1991 e em 1998, com a diferença que o filme de 2009 é ainda mais mediano que os outros dois com os quais comparei. Filme chato, atuação chata, mesmo que ela tenha ficado bastante parecida com a personagem que interpreta (trata-se de mais uma indicação por interpretar uma personagem real). Eu nem sequer a indicaria por esse filme.

2012 – A Dama de Ferro (2011)
17ª indicação: Melhor Atriz - venceu


Finalmente o tão esperado terceiro Oscar, que poderia ter vindo um pouco antes. Um hiato de 29 anos separa o segundo do terceiro prêmio e os fãs comemoram a estatueta concedida à atriz que interpretou Margaret Thatcher num filme cuja função é exclusivamente valorizar Meryl Streep, já que seu roteiro não é muito focado em apresentar o período conhecido como thatcherismo. Para mim, é indubitavelmente a melhor performance da atriz, a mais eficiente em qualquer aspecto que se possa avaliar e consegue ser tão completa e até mais complexa que aquilo que ela concebeu em “As Pontes de Madison” (1995) e “Adaptação” (2002). Confesso que fiquei felicíssimo com sua vitória, justamente porque tinha a impressão de que lhe tirar esse Oscar seria um dos maiores roubos que poderia acontecer na história da Academia, tão grande quanto ou ainda maior que aquele que aconteceu em 2006, quando Witherspoon venceu Huffman na categoria principalmente de atuação feminina.

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Não acredito que as indicações se encerrarão. Aliás, com o lançamento de Hope Springs, já em pós-produção, e com o lançamento de August: Osage County, no qual partilha cena com Julia Roberts, penso que mais indicações virão, e por que não um quarto Oscar? É evidente que Meryl, enquanto fizer filmes, se mostrará extremamente dedicada, o que lhe possibilitará novas indicações (por merecimento ou por tapar buraco) e talvez prêmios. Só resta esperar.

18 de jun de 2012

Entre Dois Amores


 
Out of Africa. EUA, 1985, 161 minutos, drama. Diretor: Sidney Pollack.
Ainda que o seu ritmo lento possa parecer um empecilho, o filme é um grande épico que nos apresenta magnificamente à vida intensa e perturbada de Karen Blixen.

Isak Dinesen é um nome pouco estudado da literatura e mesmo seu nome verdadeiro, Karen von Blixen-Finecke, não se trata de uma referência literária precisa, até mesmo para muitos estudiosos das artes. Em 1985, com Meryl Streep no papel da dinamarquesa Karen Christenze Dinesen, que eventualmente se casaria para herdar o título de baronesa, Sidney Pollack apresentou um épico de quase três horas de duração, no qual praticamente toda a trajetória amorosa da personagem fosse mostrada.

Se Blixen, cujo futuro marido Bror von Blixen, é um dos objetos dessa narrativa, com certeza o outro objeto é o atual Quênia, local para onde Blixen se mudou após se casar com seu primo. Um casamento arranjado, como se vê, mas nem por isso uma relação exclusivamente desarmoniosa, apesar dos grandes problemas de aproximação que Karen Bror descobrem existir. A história, assim, tem seu alicerce sobre dois personagens: Karen e a África. Se o ambiente no livro de Aluísio Azevedo, “O Cortiço” (1890) – ou seja, o próprio cortiço – é personagem fundamental para a história, o mesmo se pode dizer da África para a narrativa de “Entre Dois Amores”, que, a meu ver, alude ao cenário e ao segundo amor de Blixen.


Vemos aqui, sem medo, um Quênia não-Quênia: notadamente percebemos tratar-se do cenário africano, das amplitudes áridas e selvagens do continente, e não especificamente da cultura local, apesar de ela ser apresentada na obra. Um dos primeiros amores da baronesa, com certeza, foi a imensidão daquelas terras que tanto se distinguem da gélida Dinamarca, local de onde ela saíra. E a natureza é grafada nesse filme tão pictoricamente que é difícil apontar claramente quando se trata de uma representação objetiva de uma representação subjetiva, tamanha a proximidade da câmera com o olhar de Blixen, sempre admirado, mesmo já tendo se passado muitos anos desde a sua chegada àquelas terras – até mesmo o título do filme alude à sua tristeza de saber que estará para sempre fora da África, já que todos os seus investimentos, num determinado momento, mostraram-se fracassados.

Meryl Streep define bem a mulher de ferro que sua personagem é. Ela transita facilmente entre as obrigatoriedades como dona de casa e as obrigatoriedades de ser uma dona de terra daquele lugar. O marido sempre ausente, satisfatoriamente defendido por Klaus Maria Brandauer, apesar de sua condição – ou seja, de sua ausência –, torna-se um objeto de desejo, não à toa Blixen considera ter filhos e não hesita em ir ela mesma levar os mantimentos que ele havia pedido: ela cruzou territórios perigosos, enfrentou intempéries várias, mas, por fim, para surpresa de todos, chegou ao seu destino – ao encontro do marido, que, eventualmente, devido aos seus encontros com outras mulheres, lhe passou sífilis, doença que perturbaria para sempre a vida da baronesa. E Robert Redford, o aventureiro Denys, surge na história registrando o segundo amor de Karen: é ele o homem a quem ela se dedicará fielmente e que a demoverá de certas idéias, instaurando-lhes outras na cabeça.


Sidney Pollack constrói uma obra bastante correta, sem exageros e sem fraquezas. Mesmo o ritmo lento, que alguns podem julgar monótono, serve para conduzir a trama de modo que suas pontas sejam amarradas e, pouco a pouco, nos permitam construir mentalmente a figura que a baronesa é. Mais ainda, Pollack conseguiu extrair de seus atores momentos extremamente satisfatórios, transformando seu filme numa obra bastante linear e simétrica, sobretudo: não é mais interessante o começo que o fim, não é mais ágil o final que o começo – trata-se de uma trama cujo percurso se faz lento e preciso, dotado de poesia intrínseca. E acho que a obra é bastante poética quando analisamos os seus elementos: a clausura da casa de Karen em oposição à vastidão queniana, o escuro dos interiores em oposição ao alaranjado e claro dos exteriores.

Mais interessante a obra fica se analisarmos a questão do amor, sugerida no título nacional (como vemos, não se trata de uma tradução literal): se a África representa um dos seus amores e, por conseqüência, toda a sua grandeza de cores áridas e a liberdade associada àquelas terras de perigo, Denys representa o segundo amor da baronesa e, em oposição à liberdade, ele representa o confinamento, o convencional e a introspecção. Basta nos lembrarmos de quando os dois têm uma discussão e ela claramente apresenta suas vontades: gostaria que ele fosse dela, que estivesse mais com ela e que viajasse menos e que ele fizesse com que ela sentisse que os dois eram mesmo um do outro. E ele, em resposta, argumenta que não pode ser assim o relacionamento dos dois – eles são, afinal, livres, qual aquele cenário no qual vivem.


“Entre Dois Amores” (1985) não é uma novela melodramática nem um discurso frio – as próprias cores da película ajudam a não permitir que ele o seja. Trata-se de uma narrativa sóbria que mostra satisfatoriamente o trajeto de Karen Von Blixen-Finecke em terras africanas, às quais nunca mais voltou desde que de lá partira, e serve excelentemente como material extra para consulta àqueles que são ou ficaram interessados pela história dessa escritora que se tornou famosa pela sua dedicação aos nativos do Quênia e à literatura, sendo os seus títulos mais famosos o livro de contos Anecdotes of Destiny (1958) e Out of Africa (1937), que é o romance autobiográfico que deu origem a esse filme. Talvez, se não valer exclusivamente pela estesia de ver Meryl Streep magnificamente com um sotaque dinamarquês, o filme vale para conhecer um pouco mais do período (trata-se dos últimos anos do Quênia como colônia britânica) e da mulher que Blixen foi (lembrando-se também que ela é a única mulher a já ter sido convidada para beber no Muthaiga Country Club, um bar somente para homens).

13 de jun de 2012

Silkwood - Retrato de uma Coragem


Silkwood. EUA, 1983, 130 minutos, drama. Diretor: Mike Nichols.
Karen Silkwood, personagem verídica, é retratada numa narrativa intensa e de gênero híbrido – ora drama, ora thriller, ora romance –, o que a torna mais interessante.

Karen Silkwood era operária numa usina nuclear cujos métodos de trabalho não eram completamente adequados. A descoberta fez com que a mulher saísse à procura de quem pudesse oferecer algum tipo de esclarecimento em relação àquela situação e, mais do que isso, fazer algo em ajuda aos operários da empresa. Numa tarde, saiu para encontrar um repórter a quem faria denúncias formais – nunca mais retornou e sua morte foi registrada apenas como um acidente de trânsito.

A sinopse acima está relacionada à biografia de Karen Silkwood, personagem verídica que foi uma das primeiras sindicalistas a se posicionar contra a opressão de uma grande empresa e, mais do que isso, a atrair a atenção das outras pessoas para o seu trabalho e para as necessidades que ele demandava. Uma das cenas mais tensas do filme, quando Karen vai sair do laboratório e o alarme dispara, indicando que seu nível de radiação está superior ao aceitável, realmente aconteceu, e, de um modo geral, o filme é tido uma narrativa fiel aos acontecimentos na vida dessa personagem.


E pouco mais de duas horas, Mike Nichols discorre acerca dessa personagem e da relação dela com tudo ao seu redor. Vemo-la obstinada em sua causa, não à toa que seu relacionamento com Drew Stephens, seu parceiro com quem divide a casa e a cama, e também não à toa acaba afastada de Dolly, amiga com quem também divide a casa e por que muito preza. Acredito que o melhor do filme sejam as atuações, Nichols conseguiu fazer com que todos os atores surpreendessem em suas personagens, sobretudo a dupla Meryl-Cher, ambas nominadas ao Oscar merecidamente. Se há alguma característica ruim na obra – e mesmo não assim não é verdadeiramente rui – é a sua longa duração, já que tenho a impressão de que seu conteúdo não justifica demasiada extensão, principalmente porque alguns aspectos da vida de Silkwood ficam à margem da narrativa, como é o caso de sua família, os filhos que deixou com o esposo para poder ir trabalhar na usina nuclear etc.

De um modo geral, a narrativa é bastante eficiente na sua proposta de mostrar a trajetória da protagonista. trata-se de um filme mais descritivo do que emocional, então isso pode incomodar alguns espectadores, mas acredito que o filme sobressaia no campo das biografias, já que se trata de uma obra bastante sólida no roteiro (apesar de aspectos isolados que não o favorecem) e extremamente eficaz no conjunto direção-atuação. Não nego que me surpreendi bastante com Cher, numa interpretação pequena, as extremamente significativa, especialmente porque ela soube dar o tom certo à sua personagem, cuja personalidade parece associada àquele clima bucólico no qual mora – a cena em que Dolly e Silkwood conversam no banco é simplesmente belíssima, mostrando a proximidade entre as duas. 

 
Existe uma tensão sempre crescente, principalmente depois da primeira vez que vemos o alarme soar quando Karen vai sair do laboratório. Daí pra frente, temos sempre a impressão de que a personagem está prestes a morrer e, mesmo quando visita médicos, há aquela sensação de que ela é objeto de uma conspiração imensa, mas silenciosa. Nichols cria um clima interessante que percorre o filme e o torna um bom entretenimento – mais do que isso, as atrizes o tornam uma boa obra e o seu conteúdo faz com que ele seja um filme que devamos assistir para conhecer um pouco mais sobre a indústria nuclear e os perigos que definitivamente nos rondam.

11 de jun de 2012

A Escolha do Sofia


Sophie’s Choice. EUA / RU, 1982, 150 minutos, drama. Diretor: Alan J. Pakula.
Trata-se de um filme de trajetória agridoce que perturba o espectador.

Penso que a escolha feita por Sofia seja um dos grandes dilemas cinematográficos. Impossível não ouvir o título desse filme e ser remetido à tristeza que se impôs na vida de Sofia, personagem interpretada por Meryl Streep, cuja vida é marcada por uma série de altos e baixos, sendo que o seu passado – e, evidentemente, a escolha por ela feita – resulta na maior depressão de sua vida e que é capaz de instaurar a agonia até mesmo no espectador que acompanha ao filme.

Penso que seja difícil apresentar uma sinopse completa e eficiente para esse filme. Tenho a impressão de que ele se resume em si mesmo, sem tirar nem por, tamanha a força de seu enredo. Sofia é uma mulher polonesa de cerca de 30 anos que vive nos Estados Unidos junto com Nathan, seu companheiro. A vida do casal é modificada com a chegada de Stingo, um jovem que pouco a pouco se aproxima dos dois e que vai descobrindo o plano de fundo da história da personagem-título, desde as experiências dela com a II Guerra Mundial até o porquê de ela se relacionar com Nathan, cujo temperamento é extremamente variável, chegando inclusive à agressividade.



Penso que antes mesmo do roteiro, nota-se o nome de Meryl Streep e o modo como ele está associado ao filme, já que essa obra rendeu à atriz, em 1983, seu segundo Oscar, dessa vez como atriz principal (o anterior havia sido conquistado três anos antes, pela sua participação como atriz secundária no filme “Kramer vs. Kramer”, de 1979). Se a história do filme não fosse por si só bastante pesada e o seu roteiro não fosse bem conduzido, decerto o espectador ficaria exclusivamente à mercê da atriz, que conduz a trama com extrema habilidade, passando dos bons aos maus momentos, das alegrias parciais às súbitas ondas de tristeza – não acho que seja a sua melhor interpretação, mas não duvido de que seja um de seus momentos mais marcantes no cinema.

A personagem Sofia é bastante complexa. Difícil compreender perfeitamente suas motivações, o que a faz efetivamente permanecer ao lado de Nathan e, mais ainda, difícil conseguir saber como é a relação dela consigo mesma e com a escolha que ela fez – escolha essa que, embora todos saibamos qual é, só é vista ao final da película, sendo praticamente uma das últimas cenas. De perseguida e torturada até o momento no qual a vemos na presença de Stingo, parece que a personagem se livrou de um dos piores momentos de sua vida, mas o nome do filme está ali para não nos deixar esquecer, nem mesmo por um momento, que o maior drama da personagem talvez não tenha sido às situações pelas quais ela foi obrigada a passar, mas sim aquele no qual ela tomou uma decisão que a afetaria para sempre, mesmo depois que aquela “fase ruim” passasse.

O roteiro não se compõe exclusivamente de Sofia, ainda que sua personagem seja a central e o seu conflito o mais notável. Vemos também Nathan, cujo temperamento instável faz com que fiquemos o tempo todo apreensivos, e a proximidade de Sofia com Stingo somente intensifica o nosso receio de que algo ruim possa acontecer a qualquer minuto. O triângulo que se forma entre os personagens é bastante confuso, principalmente porque parece meio nebulosa a relação entre eles, já que não se sabe se Nathan percebe as investidas de Stingo e, ao mesmo tempo, me soou meio complicado perceber o que significa a interação entre os personagens masculinos, havendo uma vibração amorosa entre eles também.

Ao longo de 150 minutos, Alan J. Pakula consegue impressionar o espectador com a narrativa, principalmente nos momentos mais tensos, como as cenas nas quais Sofia está no campo de concentração e Meryl Streep se apresenta praticamente destruída. Um colega meu comentou que esperava um filme mais emocional, que fizesse chorar, menos monótono – quanto a isso, posso concordar apenas com o último comentário, já que acho que falta mesmo certo ritmo ao filme, que poderia ter sua história contado num tempo mais curto, com alguma velocidade a mais, mas a meu ver se trata de uma obra emocional se caráter também descritivo: não é à toa que vemos tantas cenas dos problemas enfrentados nos campos de concentração.

A grande cena do filme – a escolha – foi gravada numa única vez e ela é dolorosa, sendo potencialmente o que mais marca o filme, principalmente porque é ali que vemos a total entrega da atriz principal ao personagem. Há, no entanto, grandes outros momentos que se unem e transformam essa obra numa produção elogiável: Kevin Kline faz por merecer as atenções, dada a sua performance pungente, que infelizmente não recebeu nominação ao Oscar; Peter MacNicol também não fica a desejar, ainda que por vezes suma ao lado dos seus colegas (a culpa não é toda do ator: seu personagem é menos interessante que os outros dois); Pakula extraiu o máximo dos seus atores e conseguiu atribuir ao filme um caráter que, apesar de mórbido, causa certo fascínio – não é à toa que há tantos fãs que irrevogavelmente acham que esse é um dos melhores filmes do cinema. Enfim, é uma opção para gostos variados: para quem gosta de Meryl Streep, para quem gosta do tema (Segunda Guerra Mundial), para que gosta de triângulos amorosos perturbados etc.

9 de jun de 2012

A Mulher do Tenente Francês


The French Lieutenant’s Woman. Reino Unido, 1981, 124 minutos, drama. Diretor: Karel Reisz.
Potencialmente, uma das interpretações mais pungentes de Meryl Streep num enredo que cativa o espectador.

O filme dentro do filme. Não se trata de uma característica em comum nos roteiros cinematográficos, afinal a linguagem falando dela mesma – no caso, o cinema falando dele mesmo – é um recurso metalingüístico já bastante explorado e sempre revolve a curiosidade do espectador em relação a determinados assuntos. Nesse filme, de 1981 estrelado por Meryl Streep e Jeremy Irons, vemos o uso desse recurso: na trama, o livro “A Mulher do Tenente Francês” (1969), de John Fowles, é adaptado no filme de mesmo nome no qual os atores Anna e Mike interpretam os protagonistas do romance literário Sara e Charles, respectivamente, uma moça marginalizada na sociedade inglesa na qual vive e um biólogo que eventualmente se apaixona por ela.

Têm-se dois plots nesse filme, ou, como vejo, uma trama central (o romance entre Sara e Charles) e uma história secundária, que mostra os atores Anna e Mike desenvolvendo as personagens do livro, mas, apesar de a diferença na narrativa ser nítida, o ápice do filme é justamente conseguir mesclá-las num único enredo, no qual os personagens de Anna e Mike, os atores, se confundem com os personagens Sara e Charles, do filme que estão fazendo. Percebemo-los em épocas notadamente distintas – os atores que gravam o filme vivem a contemporaneidade enquanto os personagens interpretados por eles encontram-se no século XIX, época na qual as convenções morais eram bastantes ferrenhas e, sendo assim, eram as principais causas dos problemas de Sara. Antes de dar continuidade, penso que seja importante ressaltar a importância dos trabalhos de Meryl Streep e Jeremy Irons nesse filme, porque eles conseguem com eficiência apresentar distinções entre as duas personagens que interpretam e conseguem ministrar bem as doses de drama e de humor a cada seqüência filmada, garantindo assim que não nos confundamos em relação a quem estamos vendo, mesmo que, como no caso de Mike / Charles, haja uma notável comunhão entre os personagens nos momentos finais da história. 


A mulher do tenente francês é uma mulher cuja vida parece bifurcada entre esperar e sofrer. Sua espera, como todos dizem, é por um homem que a tornou o que ela é, e seu sofrimento, segundo ela mesma, é por se ter casado com a vergonha ante os acontecimentos que lhe surgiram na vida, fazendo-a ser o que ela é e fazendo-a ser aquilo que os outros pensam que ela seja. Charles, em frente à figura misteriosa de Sara, não consegue manter-se firme na sua proposta de somente ajudá-la e pouco a pouco cede às pressão internas, enamorando-se gradualmente dela, aproximando-se de tal modo que se veria irrefreável mais tarde, principalmente porque toda a sua vida seria transformada por causa do seu amor com uma mulher julgada mundana e, sobretudo, pelo cancelamento do seu casamento com Ernestina, nobre da região cuja família e extremamente influente.

Penso que a qualidade do filme se deve mais à atuação dos atores principais do que ao seu roteiro, direção ou mesmo sua fotografia, que é muito interessante, intercalando bons momentos sombrio à história que é narrada. Meryl Streep com certeza concebe uma interpretação que mistura angústia e alívio, em momentos marcados e eficientes, em situações fundamentais a continuidade da trama. A atriz consegue realmente mostrar eficácia e paixão à sua interpretação, basta vê-la como Sara, toda resignada e passional em situações que realmente a estrangulam o tempo todo e não lhe permitem sair da clausura moral na qual vive. Jeremy Irons também oferece uma interpretação bastante sólida, principalmente como Charles, e faz o espectador compreender perfeitamente a relação entre ele e Sara e o porquê de ele tão suavemente ceder aos encantos daquela mulher misteriosa. 


Não nego que meu principal atrativo pelo filme era conhecer, a princípio, que conexões e faria entre as duas histórias mostradas e de que forma as personagens do filme estrelados por Anna e Mike interfeririam na vida dos atores. E é notável que parecem as histórias caminharem em sentidos opostos: se a situação de Sara e Charles fica cada vez mais difícil, a situação de Anna e Mika parece bastante fácil, apesar de ambos serem casados e, qual os personagens no filme que rodam, não devessem por motivos morais estabelecer tão comunhão.

A obra não é confusa, apesar das duas narrativas, na abstração, se embaralharem. Digo “abstração”, porque é evidente na trama que cada uma é muito distinta da outra, Karel Reisz fez questão de não torná-las uma só justamente para que não se perdesse a estética de cada subtrama. Mas é evidente que há um momento no qual as duas narrativas se unem, associando-se – a última cena do filme nos prova isso. O diretor conseguiu arrancar de seus atores excelentes interpretações e, mais do que isso, conseguiu unir excelentes características ao filme – sua fotografia e direção de arte são elogiáveis, basta ver as cenas que irremediavelmente nos remetem às poesias bucólicas, com a melancolia crescente num misto de confidência e apreciação em meio ao verde brando do bosque; também as cenas em que Sara fica no caminho de pedras que leva ao mar, observando o mar, supostamente esperando o amado regressar, apesar de saber impossível o seu retorno. Reisz realmente nos trouxe uma obra pungente, que, embora com alguns problemas na execução da parte final, consegue manter o espectador atento à trama, ansioso pelo que virá depois, sem desgrudar os olhos, sobretudo, da excelência cênica de Meryl Streep, irrepreensível. Se a trama não chamar a atenção, vale pelo menos para conferir o desempenho do casal Streep-Irons, que realmente são a alma dessa produção.