Portugal, 1913, 126 páginas (Editora Komedi, 2009). Autor: Mário de Sá-Carneiro.
Uma narrativa pungente que oferece ao leitor um romance policial fabuloso e ainda nos apresenta a um dos mais notáveis triângulos amorosos da literatura modernista.
É perfeitamente possível que se leia essa obra sem o conhecimento do momento histórico-literário do qual ela faz parte. Pode-se lê-la bem, compreendê-la bem, isso é inegável; mas saber precisá-la temporalmente, relacionando-a ao pensamento estético que dominava Portugal logo no começo do século XX é tornar essa narrativa ainda mais fabulosa do que ela já é. Mário de Sá-Carneiro é um autor extremamente importante para a implantação do Modernismo em Portugal, já que ele, em parceira com Fernando Pessoa e Almada-Negreiros, foi responsável pelo lançamento da revista Orpheu em 1915, ano que se tornou marco para o movimento modernista luso.
“A Confissão de Lúcio”, portanto, é pré-modernista se considerarmos o ano da implantação de tal escola em Portugal, mas já se mostra modernista se considerarmos as suas características estéticas de enredo e de discurso. Como se supõe, Lúcio é um personagem importante para a história – é, na verdade, protagonista e narrador dela. Lúcio, logo nas primeiras páginas, afirma ser essa narrativa a sua forma de apresentar sua inocência de um crime pelo qual foi condenado há dez anos de prisão. Mas toda a sua história é, como ele mesmo diz, “a mais perturbadora, a mais incoerente, a menos lúcida” (SÁ-CARNEIRO, 2009, p. 20), pois ela gira em torno de três personagens – ele mesmo, Ricardo Loureiro e Marta –, uma obsessão e muitos momentos de proximidade traiçoeiras.
Para compreender melhor a história, precisamos compreender o homem que Sá-Carneiro busca retratar. Como o ano de sua escrita é 1913, precisamos considerar a situação pela qual passava a população no momento. Portugal havia deixado a Monarquia em 1910 para se tornar República, assim, em apenas três anos, as questões políticas eram extremamente vívidas ainda. Àquele ano, o mundo estava meio abalado com a série de problemas que vinham acontecendo na Europa, África e América, e que, no ano seguinte, explodiu como a Primeira Guerra Mundial. Quanto à arte, expunha-se muito as formalidades parnasianas em contraste com o aparente desapego terreno dos simbolistas; enquanto os primeiros ditavam um rigor sistêmico para a poesia, os segundos retratavam figuras que escapavam aos problemas da vida, recolhendo-se ao plano idealizado. Assim, os novos intelectuais, que enxergavam essas escolas como ultrapassadas e desajustadas temporalmente, propunham uma nova forma de arte, que era justamente aquela na qual se podia falar sobre o homem, sobre as relações humanas, sobre as características próprias de cada região – permitindo, assim, também o uso de linguagem popular, por exemplo. E é nesse grupo que se encontra Mário de Sá-Carneiro.
Como dito acima, havia questões a serem tratadas: a política, a arte, o amor, o amor à política e à arte, a política na arte – inevitavelmente, ocorre a fragmentação do ser, que busca dentro de si todos os suportes para suprir os dilemas com os quais deve lidar. O homem moderno então é obrigado a compreender e a agir, mesmo que isso implique numa dissociação de si. E aí surge o “duplo”, que é um tema bastante trabalhado na literatura modernista. Verifica-se que a relação estabelecida entre Lúcio e Ricardo – o homem por cuja morte Lúcio foi condenado – é associada às suas semelhanças e diferenças como formas complementares. Assim, os medos de um são as coragens do outro; a introversão de um se espelha na extroversão do outro: completam-se, portanto; tornam-se um. “Compreendiam-se perfeitamente as nossas almas – tanto quanto duas almas distintas se podem compreender. E, todavia, éramos duas criaturas muito diversas” (ibidem, p. 50). E isso é importante para que compreendamos a relação desses dois personagens, que, como se evidencia em muitos momentos, não são apenas os melhores amigos, mas, talvez, seja a pessoa melhor amiga de si mesma.
Ainda é necessário que encontremos mais pontos nessa história que levará a outra interpretação. Lúcio e Ricardo são duplos: vemo-los muito evidentemente como duas pessoas, mas, tão próximo que são e tão complementares suas atitudes, é difícil dizê-los distintos, como Lúcio mesmo faz. Compreendem-se perfeitamente, porém – e que duas pessoas são totalmente capazes de se entender? Uma série de indícios nos leva a diversas suposições, inclusive a de que Lúcio, envolvido consigo mesmo criou a figura de Ricardo e, estendendo-o à Marta, fragmentou uma criatura imaginada. Ricardo, a Lúcio num determinado momento, fala:
- Sabe, você, Lúcio, que tive hoje uma bizarra alucinação? Foi à tarde. Deviam ser quatro horas... Escrevera o meu último verso. Saí do escritório. Dirigi-me para o meu quarto... Por acaso olhei para o espelho do guarda-vestidos e não me vi refletido nele! Era verdade! Via tudo em redor de mim, via tudo quanto me cercava projetado no espelho. Só não via a minha imagem... Ah! Não calcula o meu espanto... a sensação misteriosa que me varou... (ibidem, p. 81).
Ricardo por vezes parece não se fixar como pessoa de verdade, apenas como uma figura imaginária para si próprio; quanto a Lúcio, parece–lhe fabular, uma criatura quase moralizante e, curiosamente, de comportamento inverso à moral do momento. Com o decorrer da trama, é-nos introduzida nova personagem: Marta, esposa de Ricardo. Ela, como se vê, parece ainda mais ilusória do que o esposo, chegando a ponto de ser uma criatura mítica. Nota-se que ela parece existir somente no universo dos personagens, cabendo a interessante curiosidade a seu respeito, numa observação feita por Lúcio:
“[...] uma noite achei-me perguntando a mim próprio: - Mas no fim das costas quem é esta mulher?... Pois eu ignorava tudo a seu respeito. Donde surgira? Quando a encontrara o poeta [Ricardo]? [...] Em face de mim nunca fizera a mínima alusão ao seu passado. Nunca falara de um parente, de uma sua amiga. E, por parte de Ricardo, o mesmo silêncio, o mesmo inexplicável silêncio...” (ibidem, p. 67).
Mais tarde, acentuando o clima de mistério acerca de Marta, Lúcio acrescenta, que, enquanto ouvia uma música belíssima, viu “a figura de Marta dissipar-se, esbater-se, som a som, até que desapareceu por completo” (ibidem, p. 70). E o mais interessante é perceber o modo como pouco a pouco os três personagens se envolvem num romance que delineia caminhos muito tortuosos - é difícil saber a quem Lúcio verdadeiramente ama: a Marta, com quem ele se relaciona, ou a Ricardo, cuja esposa serve de ponte entre os dois? E conforme a leitura vai caminhando, vamos percebendo que Mário de Sá-Carneiro não temeu abordar assuntos delicados, como a homossexualidade, sugerindo a todo os momentos que pode haver entre os personagens algo mais do que uma simplesmente amizade.
Talvez o mais marcante para mim seja justamente esse elemento na trama: a dubiedade do relacionamento entre Lúcio e Ricardo, até porque, como vi, a Marta é figura bastante ilusória, ora oriunda de Ricardo, ora de Lúcio - estes dois, aliás, para mim, são na verdade a mesma pessoa. Toda a trama é, a meu ver, uma grande metáfora sobre a homossexualidade e os desdobramentos que o homem do começo do século passado precisava passar para poder sobreviver consigo mesmo. Lúcio e Ricardo são representações do homem: o primeiro é o homem heterossexual e figura apreciada na sociedade enquanto o segundo faz parte do submundo. Vemos ao longo de toda a trama que Lúcio é o mais contido, mais reservado, sua sexualidade não é questionada por nós; já Ricardo representa o homem em conflito por não poder ser amigo de um homem senão o possuindo (nas suas próprias palavras). E os dois representam o que o homossexual deve ser àquela época: ainda que sua essência seja conflituosa (Ricardo), ele deve sempre estar acima de suspeitas (Lúcio). Aí surge Marta, como uma extensão de Ricardo, a fim de relacionar-se com Lúcio, mostrando que o elo que permite a dois homens estarem juntos é uma mulher: não fosse uma figura feminina a intermediar a relação, decerto já teria havido suspeitas sobre os dois - ou, a meu ver, sobre o um, qualquer que seja, Ricardo ou Lúcio.
Foi o meu grande livro de 2011 - li-o rapidamente, muito voraz, tomando inúmeras notas a respeito de momentos interessantes do livro. Eu realmente o recomendo a todos que querem aventurar-se numa narrativa policial interessante, cheia de mistérios e dotada de uma qualidade narrativa quase inominável. Não consigo nem sequer descrevê-lo bem e analisá-lo com eficiência cansaria a paciência de vocês bem como me faria utilizar 300 linhas escrevendo. Encerro dizendo que é decerto um dos melhores livros que vocês lerão - ou, pelo menos, eu pelo menos acredito que será.
Referência bibliográfica:
SÁ-CARNEIRO, Mário de. A confissão de Lúcio. Campinas: Komedi, 2009.
