Profumo di Donna. Itália,
1974, 103 minutos, comédia. Diretor: Dino Risi.
Uma obra subvalorizada, mas com extremas qualidades.
Quando falamos o título “Perfume
de Mulher”, inevitavelmente somos remetidos à produção de 1992 estrelando Al
Pacino no papel principal e que contém a famosa cena de tango. Não penso que
seja recorrente pensar no título italiano de 1974 que é a primeira adaptação
cinematográfica do romance literário Il
buio e Il miele (1969), do autor Giovanni Arpino, que narra a história de
dois personagens, um jovem rapaz e um ex-capitão, agora cego, que quer viajar a
Roma para visitar um amigo e resolver alguns problemas.
Não demora e a trama se inicia.
Uma senhora cumprimenta um jovem rapaz pela sua pontualidade, o que já nos
começa a nos aproximar de um dos protagonistas. Ela, ao recebê-lo em sua casa,
introduz um novo personagem: um homem maduro, já passado dos cinqüenta anos,
cego devido à guerra. A função do jovem é cuidar do senhor – acerca do qual ela
adverte: sempre chamá-lo de signor,
nunca de capitão – e guiá-lo na viagem que ele fará a Roma, passando por
algumas outras cidades no caminho.
O título do filme é extremamente
apropriado ao filme e, mais ainda, ao personagem Fausto, que é o homem cego. A
cegueira, como se sabe, acentuou-lhe outros sentidos, tornando-o extremamente
esperto quanto aos barulhos que ouve e, sobretudo, quando aos cheiros que
sente. E o perfume das mulheres na rua o inebria, deixando-o guiar-se pelo odor
das mulheres por quem ele tem desejos sexuais. Aliás, a construção dessa
personagem é interessantíssima, especialmente porque ele, apesar de rabugento,
é bastante carismático, e penso que seu carisma se dê também pela sua
sagacidade em relação àquilo que o cerca. O tempo todo, o personagem lança comentários
irônicos e fica expondo ao jovem Giovanni, que ele insistentemente chama de
Ciccio, aquilo em que ele acredita que o menino está pensando – e, para
desgosto do jovem, na maior parte das vezes, ele tem razão.
A primeira imagem de Fausto
decerto é incômoda, ainda que a cena que o apresenta traga consigo bastante
humor: o homem já se mostra exaurido daquela vivência rotineira e não hesita em
mostra para o garoto o quão pouco disposto está em tornar o convívio mais
fácil. Ao passear pelo cômodo de sua casa, quase tropeçando em seu gato, afirma
com veemência que o único intuito do animal é odiá-lo e tentar fazê-lo
tropeçar, o que nunca conseguirá. Depois, ignorando a apresentação do menino,
lhe diz com clareza que não o chamará pelo nome, mas sim pelo nome que ele
prefere – Ciccio –, pois sempre chamara assim todos os seus acompanhantes
anteriores. A autossuficiência do personagem se dá pelo uso de sua bengala, dos
seus ouvidos e do seu nariz – este, aliás, um verdadeiro órgão farejador. Toda
a franqueza – às vezes, quase rudimentar – do homem se opõe à timidez do rapaz
que o acompanha, sempre envergonhado e sem saber como agir ante alguns
acontecimentos e sempre curioso acerca das manias do seu patrão.
O primeiro episódio marcante é a
tentativa de Ciccio de descrever uma mulher a Fausto. O homem lhe pergunta como
são os cabelos, os quadris, a altura, até o tamanho do pé – o curioso é que
ele, cego, é capaz perfeitamente de identificar um travesti pelas descrições do
garoto, que, inocente, pensa tratar-se mesmo de uma mulher. Num beco cheio de
prostitutas, o homem se perde num orgasmo olfativo, até sentir o cheiro daquela
que ele quer levar pra cama – por uma boa quantia, que justifique a completa
abstenção da mulher com quem se deitar em relação às suas condições físicas (o
ex-capitão não tem uma ao também). A partir de então, a viagem dos dois se dá
mais por desventuras do que por coisas boas, ocorrendo sempre pequenos atritos
entre o garoto e ele, principalmente por causa do comportamento do patrão, que
não lhe chama pelo nome, lhe perturba com perguntas acerca de sua sexualidade e
relacionamentos, e, ainda, num dado momento, ofende a namorada do rapaz,
dizendo que ele é inocente em acreditar que ela é ingênua, que ela se trata, na
verdade, de uma puttana.
Penso que grande parte da
qualidade da obra se deva à excelente atuação de Vittorio Gassman, que
magnificamente personifica uma personagem que tem tudo para conquistar nossa
antipatia, mas que, contraditoriamente, somente nos conquista a cada nova cena.
A interpretação é tão contundente que lamento sua não-nominação nas cerimônias
do Oscar de 1976, ano no qual o filme conquistou duas vagas entre os indicados,
nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme Estrangeiro. E de modo
algum a interpretação de Alessandro Momo, intérprete de Ciccio, é ineficiente,
tornando-o igualmente um destaque nessa obra. Dino Risi consegue recolher o
melhor de cada ator e consegue apresentar humor mesmo sem ser exagerado – fica
aqui a ressalva a respeito de uma ou outra cena, mas o filme como um todo é
muito linear e satisfatório, intercalando bons momentos cômicos ao longo de
toda sua primeira metade e bons momentos dramáticos do meio para frente.
Acredito que nós cinéfilos devamos olhar para essa
obra, analisá-la, pois decerto há algum grande problema nesse foco bastante
crítico na obra de Martin Brest, estrelada por Al Pacino e Chris O’Donnel,
enquanto essa produção italiana carece de olhares mais cautos e mais
interessados em descobrir mais de suas qualidades. Assim como “Duas Mulheres”
(1960), de Vittorio De Sica, esse filme da década de 1970 tem muito a oferecer,
sendo, portanto, totalmente recomendável. Não creio que os cinéfilos devam
ficar sem conferir o filme – nem tanto pelo filme em si, mas principalmente
pela atuação dos atores principais, que são verdadeiramente interessantíssimas.



