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4 de jun. de 2011

Três Formas de Amar

Threesome. EUA, 1994, 93 minutos, comédia romântica. Diretor: Andrew Fleming.
Ainda que os personagens sejam imaturos e tenham atitudes que me incomodem, acredito que esse seja um filme que conseguem agradar o espectador e deverti-lo com a sua proposta - é o tipo de filme que se vê facilmente duas vezes.

Estava buscando ultimamente filmes que retratem relacionamentos a três e, quando bati os olhos num filme cujo título original é Threesome, eu rapidamente baixei para conferi-lo. Em nem um momento eu esperei uma grande surpresa desse filme e talvez seja exatamente por isso que eu tenha me surpreendido tanto com essa obra.

Eddie e Stuart dividem o quarto do dormitório da moradia do campus da universidade onde estudam. A terceira pessoa a dividir o espaço, que chega algum tempo depois os surpreende: é uma garota. Como os quartos não são mistos, um erro burocrático acabou colocando Alex junto com dois rapazes. Aos poucos, surge entre eles uma ligação e eles se envolvem numa relação a três.

Três Formas de Amar tem um roteiro leve e sua intenção não é promover um debate sobre o quão correto é manter uma relação sentimental ou sexual com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. É apenas uma comédia de ares sutis que mostra como a vida dos personagens se desenvolve a partir do momento em que eles se vêem apaixonados uns pelos outros. E o que torna o filme bem interessante é exatamente isso: eles são amigos, são amantes, são pessoas comuns. Os três jovens são bem naturais e esse é o ponto-chave para fazer com que o espectador se identifique com a situação deles e até mesmo com eles. Admito: não é muito fácil se identificar com Stuart – o personagem é birrento, estereotipado, meio irritante, mas acabei gostando dele também. O ar de cumplicidade existente entre eles faz com que haja uma transferência: um personagem legal demais, como Eddie, transfere um pouco da nossa simpatia por ele para Stuart.

De tudo o que mais vi no filme, o que mais me agradou foi a amizade dos personagens. Surge entre eles uma afinidade muito interessante, que os coloca bem próximos e os permite compartilhar de alegrias e tristezas. Foi essa a sensação que tive: eles sabem como compartilhar. E não têm vergonha disso! Eddie, por exemplo, primeiro aprender a amar para depois se sentir atraído por eles; Alex se sente atraída primeiro, mas depois passa a amar mais; Stuart, por sua vez, permanece atraído e amando. Então vem o sexo e, em princípio, intensifica essa proximidade deles. Destaque para a bonita cena no lago, em que os três personagens começam a se beijar delicadamente, todos nus, e Eddie comenta que os três representam uma Eva pós-moderna com dois Adões, banidos do paraíso e condenados a vagar pelo deserto. A afinidade mais a cumplicidade que há entre eles tornam-nos melhores, elevados quase espiritualmente e eu me senti bem observando essa relação a três.

O filme ainda conta com momentos engraçados. Não se limita ao suave, busca às vezes o exagerado e rende boas cenas. Morri de rir – o que é muito incomum – quando Alex deita na mesa da biblioteca e pede para Eddie ler pra ela e então começa a se esfregar na mesa, em posições absurdas, enquanto Eddie lê e, ao mesmo tempo, a olha com uma expressão de espanto. Para finalizar, depois de se contorcer inteira, Alex diz: “Nossa, adoro palavras difíceis”. Mais tarde, quando Stuart está fazendo sexo oral em Alex, que fala ao telefone com Eddie, ela pede que ele lhe diga algumas palavras bem grandes e, enquanto Stuart continua a fazer sexo oral nela, ela começa a entrar em êxtase com as palavras de Eddie. Morri de rir de novo com essa cena, principalmente pela tara dela por palavras grandes e de uso pouco comum. Os sonhos que ela narra pra Eddie também são maravilhosas fontes de riso: ela sonhou que estava no deserto, vestindo biquíni de pele, enquanto Eddie era um açougueiro que estava com lingüiças. Fantástico, ri de novo! Talvez eu estivesse num bom humor ou talvez o filme seja mesmo engraçadinho, mas o fato é que eu gostei dessas cenas de humor.

As personalidades dos personagens não exigem muito dos atores, então a interpretação deles é bem mediana, sem nenhum atrativo em específico. De qualquer modo, Três Formas de Amar não requer nenhuma interpretação digna de indicação ao Oscar, então creio que o trabalho desses atores seja válido dentro de suas proporções. Dos três, o destaque maior é de Josh Charles, intérprete de Eddie, não apenas porque ele parece ser o mais racional dos personagens como ele também me pareceu ser o menos cheio de estereótipos – ele é também o personagem mais redondo e, em função disso, a atuação do ator é a mais complexa.

Trata-se de uma obra interessante, bastante suave, que mostra o relacionamento deles sem impor caráter crítico. A história é contada de forma leve, conquistando o nosso carisma e esse é a qualidade máxima do filme: fazer com que nos identifiquemos com os personagens e suas situações. Decerto vale a pena ser visto, principalmente quando o que se procura é apenas se divertir, sem a pretensão de ver uma grande obra cinematográfica. Válido para se ver sozinho ou acompanhado...

29 de jan. de 2011

A Linguagem Secreta do Cinema

The Secret Language of Film. EUA, 1994, 197 páginas (Editora Nova Fronteira - 1ª edição especial, de 2006). Autor: Jean-Claude Carrière.
Esse é definitivamente um livro que todo cinéfilo deveria ler.

Esse livro se trata de uma das preciosidades que esporadicamente encontramos nas nossas buscas literárias. Como o meu projeto da faculdade envolve literatura e cinema, acabei diante desse título notável, escrito pelo roteirista francês Jean-Claude Carrière, famoso pelas suas muitas obras, como, por exemplo, Belle de Jour, dirigida pelo espanhol Luis Buñuel. Carrière pouco a pouco introduz o espectador ao mundo do cinema. Ou, pelo menos, a uma parte desse grandioso mundo. O autor vai nos contando a respeito de suas experiências com o cinema e aquilo que aprendeu com as gravações das quais participou. Seu enfoque não é exclusivamente no modo como a linguagem cinematográfica é concebida – o autor propõe também uma análise do ponto de vista do espectador, tornando então o livro muito mais interessante, pois ele dá uma amostra do pensamento do diretor e também do espectador, compreendendo ambos os lados que se comunicam.

É claro que o mais divertido são as curiosidades que ele conta a nós. Por exemplo, ele nos revela alguns acontecimentos por trás dos sets de filmagem, aborda um pouco das características mentais de quem recebe uma mensagem emitida por uma cena. Quanto ao primeiro aspecto, ele cita um acontecimento engraçado a respeito do filme Belle de Jour: numa das cenas, um homem mostra algo numa caixinha e uma prostituta é bastante convicta ao negar-lhe; então, o homem mostra a Séverine, personagem de Catherine Deneuve, e ela aceita prontamente. Na verdade, ninguém sabia ao certo o que havia na caixinha – nem mesmo o diretor e o roteirista. A cena servia para aprofundar a lascívia de Séverine. Um dia, então, o roteirista teve contato com um laosiano e segue a passagem: "[...] o homem contou-me que, outrora, algumas requintadas senhoras laosianas costumavam atar um grande besouro com uma fina corrente de ouro e colocá-lo no clitóris, durante o ato sexual. A agitação das muitas pernas da criatura produzia um grau indescritível de prazer adicional” (p. 86).

Com todos os seus anos de experiências, o roteirista ainda explica como alguns filmes causam estranhamento no espectador, por uma série de motivos – às vezes, a passagem do tempo parece disforme (por exemplo, há uma cena durante o dia, intercalando duas cenas extensas durante a noite; se a cena durante o dia for curta demais, o efeito obtido é incômodo), às vezes é o posicionamento da câmera e as direções descritas (se um personagem diz que vai pro leste e anda para a esquerda, lado que o espectador assume ser oeste). Comenta também sobre alguns pequenos detalhes que cabem à equipe técnica de um filme. Numa das passagens, Carrière comenta que a equipe de direção de arte estava riscando as paredes e o roteirista perguntou o porquê; a ele foi explicado que os personagens que viviam naquele ambiente eram muito pobres e nem sempre podiam pagar o aluguel, aí quando pressentiam que seriam despejados ou quando recebiam o aviso do despejo, eles tentavam fugir com alguns de seus móveis, que arranhavam as paredes. O roteirista comenta que, sem aqueles detalhes, muito do efeito estético teria sido perdido naquela cena.

Inquestionavelmente, trata-se de uma obra que todos os cinéfilos deveriam ler, porque a sua abordagem é realmente muito interessante. Não apenas pelas curiosidades, mas também pelo muito que Carrière tem a contar sobre a sua vida pessoal e sobre os seus envolvimentos profissionais com grandes nomes do cinema, como Luis Buñuel, Hitchcock, etc. Decerto, um livro que merece estar nas nossas estantes.

18 de nov. de 2010

Pulp Fiction: Tempo de Violência

Pulp Fiction. EUA, 1994, 154 minutos. Drama / Policial.
Ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Original e indicado às categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (John Travolta), Melhor Ator e Atriz Coadjuvantes (Samuel L. Jackson e Uma Thurman) e Melhor Montagem.
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Nessa resenha, vou simplesmente elogiar tanto quanto puder esse filme de Tarantino. Muitos poderão dizer que gostei do filme, porque gosto do diretor, mas o fato é que Pulp Fiction é uma obra extremamente complexa e ampla. Não somente é uma das melhores obras de Tarantino - há, aliás, alguma que não seja boa? -, como também é uma excelente amostra do talento dos atores.

Acredito que a esse filme apresenta situações envolventes dentro de todos os gêneros, não apenas o dramático e o policial. Vemos um pouco de comédia, humor, suspense, ação - tudo numa única obra. Como os mafiosos Vincent e Jules, John Travolta e Samuel L. Jackson - possivelmente na melhor de suas atuações -, compõem uma dupla realmente fabulosa, que choca o espectador com a frieza com a qual lidam com seu trabalho. Ao mesmo tempo, nos surpreendem com momentos incríveis: que matador recitaria passagens da Bíblia antes de dar vários tiros na pessoa que catequizava momentos antes? A somar, há a confusa participação de Mia Wallace, personagem de Uma Thurman. A mulher representa a catarse de Vincent Vega e também o perigo com o qual ele lida. Por sua vez, ele representa certo assombro a ela: tratá-lo como amigo ou como subordinado do seu marido? Bruce Willis é, de certa forma, o intérprete cujo personagem passa por mais problemas: é obrigado a adminstrar os problemas provindos de com o acordo que ele não cumpriu, um relógio pelo qual tem afeição e, mais tarde, com o próprio chefão. Os personagens parecem não ter muita conexão, mas o roteiro brilhante de Tarantino os coloca num ciclo retorcido, conectando-os brilhantemente.

Cada personagem tem seu momento de destaque e todos - principais ou coadjuvantes - são importante para que possamos intricar a trama, compreendo o exato momento em que uma determinada cena aconteceu. O elenco do filme está em perfeita sincronia e na minha opinião o grande destaque vai para Uma Thurman, que está excelente no papel que lhe rendeu, até hoje, sua única indicação ao prêmio. Sua Mia é uma personagem de gestos e expressões, de presença firme e imponente. Em cena, ela atrai os olhares e no episódio entre Vincent e Mia, ela é a personagem principal. Destaque também para John Travolta, extremamente expressivo, certamente num dos melhores papéis de sua carreira. Pulp Fiction ainda conta com a presença do próprio Tarantino, num trecho próximo ao final do filme. Bruce Willis continua com o seu jeito canastrão, mas até dele Tarantino conseguiu tirar o tom certo de seu personagem. Com o seu jeito característico de editar seus filmes, Tarantino obriga o espectador a pensar e encaixar as partes vistas nos lugares a que pertencem. A obra tem uma ordem cronológica não-linear, o que aumenta ainda mais o meu apreço pela produção. Os episódios que são mostrados para nós são fragmentados e cabe a nós enxergá-lo em sua totalidade, conforme acontecerão cronologicamente.

Muitos podem se questionar a respeito do título do filme. É importante ressaltar que o "tempo de violência" é um subtítulo acrescido, não presente no nome original do filme. "Pulp" é um termo que designa o material rudimentar e pouco durável de revistinhas lançadas a partir da década de 20 e eram voltadas para a classe social popular. Como os autores sérios trabalhavam para outro tipo de revistas, as "pulps" eram escritas por homens sem grande cultura literária, de forma que os temas abordados eram aqueles comuns às pessoas daquela classe: sexualidade, violência, crime, etc. Como alcançável um grande público, as "pulps" foram as primeiras revistas a se tornarem filmes e foram sumindo com a aproximação da Segunda Guerra Mundial.

Tudo no filme é muito válido e coerente: o gênero das revistinhas têm tudo a ver com a proposta do filme que, por sua vez, tem tudo a ver com aquilo com que Taratino gosta de trabalhar. Tudo aqui funciona bem e nós presenciamos uma obra extreamente ágil, com ótimos diálogos - destaque especial para aquele entre Mia e Vincent -, boas cenas de violência e outras tantas de humor. As sete nominações que o filme recebeu apenas mostram o quão bom ele é. Vale realmente a pena vê-lo.

5 de ago. de 2010

Uma Casa no Fim do Mundo

A Home at the End of the World. EUA, 1994, 347 páginas. Drama.
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 Antes de tudo, gostaria de agradecer à Jacqueline por me recomendar e emprestar esse livro. Discutíamos sobre relacionamentos a três e sobre como eles podem ou não dar certo e então ela me falou desse livro, se prontificou a me emprestá-lo e, por causa dela, pude conferir essa obra literária que é, no mínimo, elogiável.


Jon e Bobby são crianças nos anos 60 e eles ainda não se conhecem. O primeiro vive o conforto de uma família que lhe conforta carinhosamente nos braços do pai e no metodismo inflexível da mãe; Bobby, por sua vez, é iniciado aos nove anos no uso da maconha e vê em seu irmão um verdadeiro herói. Tudo se desestrutura quando Carlton, irmão de Bobby, morre tragicamente num acidente doméstico e a família do garoto se desestrutura totalmente: a mãe morre depois por depressão e o pai se mantém alheio ao filho que lhe restou. Já adolescentes, Bobby é um garoto solitário e Jon é tagarela, casualmente acabam se aproximando e descobrindo um no outro qualidades que queriam para si. Tornaram-se amigos, mesmo com o receio familiar que os pais de Jon sustentavam pelo novo amigo. Descobriram-se mais íntimos, enamoram-se. Depois de um tempo separados e já adultos, Bobby vai morar com Jon e Clare, mulher mais velha que divide o apartamento com o amigo. Aos poucos, os três descobrem-se numa tumultuada relação a três, que implica vários questionamentos e decisões difíceis.

Pela sinopse que eu fiz, vocês podem contar três personagens, creditando a dois deles – Jon e Bobby – a categoria de protagonistas. Mas a narrativa de Michael Cunningham, autor do livro, é muito mais ousada: ela dá voz a quatro personagens, tornando-se todos principais. Desse modo, conhecemos Jon, Bobby, Clare e Alice, mãe de Jon. O livro é todo estruturado na narrativa dessas pessoas, sendo, portanto, narrado em primeira pessoa. Isso permite que o leitor se identifique com os quatro e permite que conheçamos os pontos de vista de todos os envolvidos nesse romance. Cada personagem comenta não apenas sobre os medos que lhe cerca como também falam sobre as alegrias e momentos de felicidade por que passa, comenta sobre a relação que tem com a sua própria vida. É possível a nós conhecer os personagens a partir do seu interior. Por exemplo, primeiro o autor se ocupa em narrar os pensamentos e sensações dos personagens. Logo no primeiro capítulo, Jon, ainda criança, nos narra o quanto se sente confortável nos braços do pai e fala sobre o quanto se sente atraído pelo conforto que aqueles braços lhe proporcionam; noutra passagem, ela comenta sobre como se sentia ao olhar no espelho: nem homem nem mulher, ele não se via numa figura masculina nem em uma feminina. Bobby, por sua vez, admite o quanto admira o irmão, figura importantíssima na sua infância e companhia da qual jamais se desligaria, mesmo depois da morte do irmão. Clare – que entra na história somente na terceira parte do livro, quando os personagens já são adultos – discorre sobre a importância que a sua família teve na formação do seu caráter e o modo como ele é capaz de lidar com a relação a três que vive com Bobby e Jon. Alice, aparentemente de menos importância na história, aborda vários assuntos de sua vida: o casamento acomodado, as preocupações com o filho, a esperança de uma vida fora da monotonia habitual.

O autor não se equivocou ao compor o relacionamento de Jon, Clare e Bobby se sem focar naquilo a que estão sujeitos os relacionamentos como esse: a sensação de exclusão. Os personagens mantêm relacionamentos sexuais entre si, mantêm afeição e também se amam – mas de formas diferentes. Cunningham acertou ao mostrar que, embora o sexo admita três pessoas, no amor só cabem duas. O amor é uma estrada estreitas e por elas só passam duas pessoas por vez. Assim, sabemos que, mesmo que façam sexo e se sintam afeitos um ao outro, eles não se amam de modo a ficar os três protegidos. Bobby e Jon se amam fraternalmente, amam-se de tal modo que o sexo não interfere no sentimento e assim eles perceptivelmente continuarão pelo resto de suas vidas. Bobby e Clare também se amam, mas se amam como homem e mulher, e, mesmo sentindo extremo carinho um pelo outro, têm noção de que um dia aquilo pode acabar. Jon e Clare partilham do sentimento de carinho, amam-se também fraternalmente, chegam a ser confidentes – mas, tal como o relacionamento de Bobby e Clare, sabem que um dia pode acabar. Desse modo, se Jon sobra no quesito intensidade sexual, Clare sobre no quesito “durar para sempre”. Vivenciando esse sentimento e tendo-o como base para as suas ações, os dois personagens tomam decisões muito fortes e decisivas, como no momento em que Jon decide se desvincular do triângulo no meio do livro e, mais tarde, quando Clare opta por fazer o mesmo.

A personagem de Alice representa, muito provavelmente, a figura da sociedade observando o relacionamento dos três. Ela é uma mulher que se casou por não ter motivos para não se casar e manteve-se num casamento por muitos anos, até que o marido morreu e ela, então, pôde começar a viver como queria. Desde que seu filho era adolescente, ela já sentia impulsos de sair de sua vida cotidiana – tanto é que se aventurou a se juntar ao filho, Jon, e ao melhor amigo dele, Bobby, nas longas noites em que os dois – eventualmente os três – se entregavam às viagens lisérgicas. Assim, ela busca o tempo todo um escapismo psicológico, quer se sentir diferente de quem é. Diante da descoberta do relacionamento entre Bobby e Jon – numa das cenas mais tensas do livro –, Alice passa a lidar com a situação do melhor modo que consegue, pois ela, como ela mesma admite no livro, já havia notado que o filho era “diferente”. Muito mais tarde, ela diz para Jon que ele deveria investir num relacionamento sério, mesmo diante das argumentações do rapaz de que ele, Bobby e Clare vivem um relacionamento sério. O autor quis talvez mostrar um pouco da hipocrisia que embasa a sociedade: as pessoas, mesmo aquelas que buscam o tempo todo fugir do lugar-comum que assola as suas vidas, não são capazes de aceitar aquilo que lhes foge muito do convencional. Aceitam a homossexualidade porque ela já está consolidada na nossa cultura, mas temem relações que sejam diferentes daquelas a que estamos habituados.

Admito que Uma Casa no Fim do Mundo não é o melhor livro que eu já li, mas vejo nele muita qualidade para recomendar a todas as pessoas que buscam uma boa obra literária, capaz de propor excelentes questionamentos sobre diversos assuntos: amor, amizade, laços de ternura, impulsividade, entre outros. Tudo nesse livro parece muito bem conectado e cada estágio – infância, adolescência e idade adulta – representa uma série nova de reflexões. Eu, particularmente, adorei a adolescência, momento que mais me chamou a atenção exatamente por ser quando os garotos descobrem que se amam além do jeito como dois amigos normalmente se amam. Creio que vocês devam conferir esse livro, provavelmente um dos melhores que eu li esse ano. Recomendo que o leiam com atenção, tomem nota das passagens importantes, releiam-nas, absorvam o máximo possível. Embora não seja livro de auto-ajuda, pode acabar dando grandes dicas de como se portar diante de situações complexas – como, por exemplo, relações a três.

Luís

18 de jun. de 2010

A Fraternidade é Vermelha

Rouge. França, 1994, 94 minutos. Drama.
Foi indicado a três Academy Awards, nas categorias Melhor Direção, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia.
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Este é o último filme da Trilogia das Cores, embora tenha sido o primeiro a que assisti. Já havia lido críticas boas e outras ruins sobre esse filme; uns alegavam haver poesia na obra, outros alegavam haver monotonia. Eu acho que há os dois, mas na medida certa, de forma que o espectador compreenda toda a situação e possa se aprofundar nas situações que o filme mostra. Acima de tudo, o enredo aborda o lado psicológico da relação entre os dois personagens principais.

Valentine é uma moça ocupada, cuja vida é dividida entre os trabalhos que faz como modelo e as aulas de ballet. Pretende mudar-se para Londres, o namorado está. Numa noite, ao atropelar uma cachorra, ela decide levá-lo ao seu dono (o endereço está escrito na coleira) e acaba conhecendo um juiz excêntrico que ouve as conversas telefônicas de seus vizinhos através de um equipamento que tem em sua casa.

Certamente, a Fraternidade É Vermelha é um daqueles filmes que você tem que rever, para que você possa ter a certeza de que o compreendeu completamente. As histórias se conectam de tal maneira que o espectador fica em dúvida acerca do que é passado, do que é presente e do que é uma história paralela, aparentemente sem conexões com o que vemos entre Valentine e o Juiz. Não pensem, porém, que essa incerteza se dá pelo fato de que o filme tenha um roteiro mal estruturado, que por si não consegue manter a clareza do que está sendo mostrado. Pelo contrário: tudo que vemos é exibido com bastante determinação, ficando muito bem posicionado na obra. Ainda assim, quando concluímos de conferi-lo, temos aquela sensação de que não compreendemos algo e que vamos esperar uma ou duas semanas para revê-lo, a fim de pôr fim às dúvidas. Não há dúvidas de que esse é um marketing interessante, mas eu não acho que as intenções do diretor seja a de transformar sua obra num planfeto, mas sim de poetizá-la o suficiente a ponto de o espectador aspirar a muito mais do que conseguiu na primeira vez que viu o filme.

É importante notar a importância da cor durante a projeção do filme. O vermelho, em suas mais variadas nuances - mas preferencialmente o vermelho vivo e exagerado - está presente o tempo todo, desde pequenos objetos ao fundo, que complementam o cenário, quanto sendo exibido de maneira extremamente chamativa e atraente. É possível também relacionar a cor aos sentimentos dos personagens: em alguns momentos em que Valentine se sente com problemas em relação ao namorado, que está em Londres, o vermelho se mostra esmagador ao redor dela, impondo sua tonalidade viva às emoções fragilizadas da personagem que, pouco a pouco, começa a simpatizar pelo Juiz. O espectador mais atento vai perceber que pouquíssimas vezes a cor aparece quando a personagem está com o Juiz, pois ele não é tão emotivo quanto ela. É como se as características de um anulasse a do outro e, para representar isso, as cores se tornam mais amenas e os personagens - que representam a superficiliade, enquanto a cor representa a profundidade - se tornam o destaque da cena e nossos olhos voltam-se para eles. Me aprofundando um pouco mais, pude perceber que as cores relacionam-se não somente com as emoções de cada personagem, mas também com a ênfase que cada um recebe. Se a fragilidade de Valentine é oprimida pelo vermelho berrante, a frieza do Juiz é demonstrado pelos tons escuros de sua casa, já que na maioria dos cenas os atores estão na penumbra e são parcialmente vistos. Quando o Juiz finalmente decide expor um pouco de si, um acontecimento ocorre e, por fim, há claridade, numa óbvia alusão à exposição de sentimentos que ele está prestes a fazer.

Eu recomendo totalmente esse filme, pois ele consegue mostrar de maneira muito metafórica - o que é um ponto extremamente positivo a seu favor - a relação de duas personagens completamente diferentes, mas que são capazes de nutrir certo apreço uma pela outra. Quando o filme termina, ficamos em choque por três motivos: primeiro quando percebemos a verdadeira relação entre as histórias; segundo quando vemos a linda fotografia a que a cena faz alusão e, terceiro e último, quando nos vem aquela ânsia por saber o que acontecerá a partir daquele momento e como os personagens se reencontrarão.

Esse é um filme francês muito denso, com ótimas interpretações, um roteiro significativamente inteligente, fotografia expecional, dando enfoque à coloração avermelhada e à polissemia de seu significado na obra. Sem contar que o diretor - cujo nome não sei escrever - conduz maravilhosamente toda a drama, semd eixar pontas soltas, sem exagerar naquilo que quer mostrar e sem estragar momentos do filme com um ritmo muito rápido ou muito devagar. Certamente, é um dos melhores filmes a que assisti em setembro.

Luís
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