Pâfekuto Burû. Japão, 1997, 81 minutos, thriller. Diretor: Satoshi Kon.
Uma animação bastante adulta, que nos faz fugir do senso de que toda animação é “bonitinha”, e ainda muito bem desenvolvida, nos remete a dois filmes interessantes do cinema norte-americano.
Depois de assistir a “Tokyo Godfathers” (2003), eu fiquei interessado em conhecer mais animações japonesas, principalmente porque elas parecem sair do senso comum que as animações norte-americanas tendem a oferecer. Só para que tenham uma idéia, a animação supracitada tem em seu enredo três protagonistas, sendo um velho bêbado, uma adolescente rebelde e um travesti, todos os eles moradores de rua que encontram uma criança e decidem cuidar dela - bastante ousado, certo? Perfect Blue nos traz a história de Mima, uma garota que decide sair do grupo Cham, banda musical com a qual trabalha há um ano e meio, para se dedicar à carreira de atriz, abandonando, assim, a imagem de ídolo pop. A contragosto da mãe, das colegas de trabalho e dos agentes publicitários, Mima adentra o universo da atuação e descobre que o maior perigo reside na insatisfação dos fãs, havendo um deles capaz inclusive de querer puni-la pela sua “traição”.
Como vocês perceberam, a animação aborda o perigo que a vida de Mima sofre a partir do momento em que ela toma uma atitude que é mal compreendida pelos seus fãs. Podemos perceber que isso é bastante real e o filme não foge ao realismo de mostrar a visão dos fãs em relação aos seus ídolos. Mima também não tarda a perceber que a sua escolha a tornou um alvo de maníacos, já que numa das suas primeiras gravações no set de um seriado de suspense uma carta endereçada a ela explode, ferindo o seu agente. Mais tarde, descobrirá haver uma página na Internet na qual alguém se finge passar por ela, contando a rotina da estrela - o que surpreende a atriz é o fato de a pessoa saber exatamente cada movimento seu, desde as coisas que ela compra no supermercado até o que ela faz em seu quarto. Assim, ela percebe que ela pode verdadeiramente estar em perigo e o medo acaba tomando totalmente conta dela.
O grupo Cham cantando para os seus milhares de fãs (e para alguns maníacos também).
Já no começo do filme conhecemos o fã maluco de Mima: um homem mal encarado, silente e preciso, que conseguiu o cargo de segurança nos shows da banda Cham e que, assim, pode ficar mais perto de seu ídolo, mesmo sem jamais ter lhe falado - o que, mais tarde, descobriremos ser uma verdade parcial, uma vez que descobrimos que o homem é louco o suficiente para comandar “O Quarto de Mima” (aquele site que comentei acima) além de acreditar que a garota - a Mima verdadeira, a estrela da música, não a atriz traidora - lhe manda e-mails que lhe dizem para agir contra a farsante que está na televisão. Vemos nele uma espécie de Annie Wilkes, de “Louca Obsessão” (1990), que faz de tudo para invadir a vida de Paul Sheldon, seu escritor preferido, chegando a ponto de atentar contra sua vida quando descobre que ele assassinou a sua personagem favorita no seu romance recém-publicado. A morte de Misery no romance, para Annie, representa a saída de Mima da banda, para o fã maluco daqui. Ainda há o fato de que os dois vivem uma espécie de bovarismo: Annie e o fã, tão aficionados que são, respectivamente, por Misery e por Mima, acabam vivendo a vida de seus ídolos, acreditando a partir de um momento que eles mesmos são os seus ídolos. Penso que o romance de Yoshikazu Takeuchi, que deu origem a Pâfekuto burû, pode ter se inspirado em parte pelo romance Misery, de Stephen King.
Mima também se vê ameaçada, o que gera nela um conflito psicológico muito grande, causando-lhe uma espécie de fragmentação e colocando-a diante de imagens alucinatórias. Ela começa, dado os constantes choques, a se enxergar como ela-mesma, a atriz e mocinha da história, e ela-outra, que ainda pertence à banda Cham e que é vilã. Não há mais paz em sua vida e é difícil para ela distinguir ficção de realidade, havendo momentos em que as duas confluem e ela não sabe mais se a vida que vive é a sua (ela-mesma), a de cantora (ela-outra) ou, ainda, a da personagem que ela interpreta no seriado, que foi estuprada e que sofre de transtorno dissociativo. É por esse aspecto que o filme nos remete ao posterior “Cisne Negro” (2010), que nos fala sobre uma bailarina tão empenhada em ser a melhor para conseguir o papel principal no balé O Lago dos Cisnes, que acaba duplicada na figura dela mesma - Odile, o cisne branco - e a outra - Odete, o cisne negro.
Mima atuando numa das cenas mais difíceis de sua carreira: um estupro.
Talvez o grande problema do filme seja a repetição de muitas cenas, que parecem fazer com que a história não se desenvolva muito e que seu alicerce seja a repetição, o que não é verdade, mas que, inegavelmente, causa essa impressão no espectador, principalmente na realização do seu segundo terço de filme. E o final, bastante interessante, é seguido por uma cena de otimismo que não condiz com a trama e que, no fim, parece ter sido posta ali somente para mascarar o fato de que, já naquele estágio de medo, Mima não poderia simplesmente se reabilitar e ficar bem. Um erro que incomoda, não nego, mas que não destrói tudo o que havia sido mostrado anteriormente, até porque há uma descoberta interessante: a de que o suposto vilão não é verdadeiramente o vilão.
Honestamente, acredito que esse filme seja válido para se assistir, ainda que eu prefira outros títulos japoneses em animação, como o citado no começo desse texto. Mas reforço que poder assistir a esse filme e ainda ser remetido a dois filmes interessantes do cinema é mesmo muito válido, além de podermos conhecer um pouco mais do que o Japão tem a oferecer, além dos filmes de terror que já estão banalizados, seja por eles próprios ou pelas notórias refilmagens estadunidenses.


