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30 de abr. de 2012

A Dama do Cine Shanghai


Brasil, 1987, 115 minutos, thriller. Diretor: Guilherme de Almeida Prado.
Uma obra que realmente merece ser conferida, principalmente pela sua associação com o cinema noir.

Alguns poucos filmes nacionais me chamam bastante a atenção. “A Dama do Cine Shanghai” me cativou justamente pela sua peculiaridade, pois, pelo menos para mim, esse tipo de trama investigativa, cheia de mistérios que retomam as narrativas noir dos cinemas norte-americano e francês. Confesso desde já não ter muita experiência com o cinema nacional e talvez esse seja o motivo do meu fascínio por essa produção de Guilherme de Almeida Prado, diretor cujo único outro filme a que assisti foi “Perfume de Gardênia” (, também no estilo noir, estrelando Christiane Torloni.

O título já diz bastante acerca dessa obra: a dama do cine shanghai é uma personagem quase mítica, que existe em boa parte do filme na abstração da crença. Ela é, a princípio, a personagem de um filme que Lucas, o protagonista da história, vai ver no cinema, lugar onde encontra Suzana, mulher casada e misteriosa, que primeiro flerta e depois foge e, nos constantes e eventuais encontros com Lucas, acaba envolvendo-se e envolvendo a ele numa trama de perseguições e crimes, que parecem nunca se solucionar. Cada vez mais a fundo na relação com as outras personagens que surgem, Lucas percebe que Suzana e a atriz do filme a que ele assistiu têm muito em comum e talvez descobrir o porquê dessa coincidência seja a chave para sair da teia de homicídios.

Antes mesmo de dizer que o grande destaque da história é o tom certo encontrado por Antonio Fagundes (seu personagem tem um quê de romanesco, tangendo às vezes a inverossimilhança), preciso dizer que o realmente me agradou no filme foi a direção de arte e a preocupação do diretor em manter na maior parte das cenas uma luz ou objeto vermelho ou azul, normalmente bastante iluminado por uma iluminação em néon, o que atrai ainda mais a atenção. Mas vai além do néon: mesmo a cortina feita de miçangas azuis, o abajur vermelho que tem no quarto, os lençóis azuis sobre a cama, o biombo de cor amadeirada, quase laranja-avermelhado que podemos ver em cena. Todos esses detalhes – alguns são detalhes mesmo, outros são tão evidentes que esse nome nem é adequado – servem para que a trama seja mais bem estruturada – é inegável que todas aquelas cores parecem intensificar as cenas, atribuindo-lhes mais tensão.

 O segundo encontro eventual de Suzana e Lucas: o inicio de todos os crimes.

A trama, claro, tem seus pontos fracos, principalmente o modo como tudo parece se resolver facilmente, mesmo que anterior à breve resolução houvesse mais de uma hora e meia de detalhes, pistas, crimes e sugestões acontecendo. Ao final, mesmo que vejamos a trama concluída, fica uma impressão de que algo não está claro – ou, caso esteja mesmo claro, algo no roteiro tratou de simplificar um final que notadamente demandaria mais explicações. Além disso, um ou outro momento que parece não fazer sentido na trama, como o fato de Lucas ser um fugitivo da polícia por suspeita de assassinato, mas nunca se esconder verdadeiramente: vemo-lo o tempo todo passeando pela cidade com o carro de Suzana, “coberto”, no máximo por óculos, que, segundo ela, “não têm graus” (risos).

Apesar de um ou outro defeito, a trama realmente me agradou. A narrativa é bastante fluida e isso se deve principalmente aos personagens principais e aos seus intérpretes. Tanto Suzana quanto Lucas são criaturas que nos despertam a curiosidade – ela, sobretudo – e tanto Maitê Proença quanto Antônio Fagundes souberam defender bem as pessoas que interpretam. A atriz não perde em nem um momento a aura de mistério que cerca a personagem, ela consegue olhar compenetrada; o rosto, embora lívido, parece sempre esconder algo – seus olhos, principalmente, não à toa eles são o que restam da fotografia que Lucas encontra depois de encontrar o primeiro homem morto e, inevitavelmente, faz a associação entre a mulher que ama, Suzana, e a atriz do filme “A Dama do Cine Shanghai”, Lana Van, que pode ser a chave para a solução do mistério. Em nenhum momento os atores saem de suas personagens, independentemente do ambiente pelo qual transitam, passando de cenas de crimes novelescos até festas de casamento em chácaras de família, numa cena também novelesca. 

 A Dama do Cine Shanghai: a personagem misteriosa que aparece ao longo de todo o filme.

Estão presentes na trama os elementos essenciais do filme noir: a mulher desejada, cunhada de femme fatale; o crime que envolve o protagonista; a tentativa dele de se provar inocente ou, se culpado (o que não é o caso aqui), escapar dos indícios que o relacionem ao crime; os ambientes naturalmente escuros e os ambientes escurecidos – tudo isso é visto nessa trama, inclusive aquele desfecho no qual paramos para descobrir exatamente como tudo vai acontecer. E o melhor é uma intersecção adorável entre o real e o fictício, como vemos logo no começo do filme, quando vemos o que o personagem vê no filme, dando a impressão, num primeiro momento, de que a trama começa numa coincidência com a trama do filme assistido no filme – ou seja, o efeito de mise en abyme, que notadamente acrescenta charme muito maior à história.

A meu ver, é um filme que deve ser visto e, mesmo que alguns aleguem haver muitos clichês na trama – de fato, há alguns –, merece ser contemplado, pois é um enredo que atrai bastante e se trata de uma produção que consegue agradar mais do que muitos filmes feitos atualmente, que parecem pender em vários gêneros e, não atidos a nenhum em específico, se perdem nas suas próprias propostas. Aqui, claro, vemos o intercâmbio entre o thriller e o romance, mas isso apenas acrescenta ao enredo, em nada o faz perder. Assim, penso que seja um dos filmes que mais merecem nossa visita (e, sobre o diretor, não sei se o considero muito bom, já que, o que esse tem de interessante, “Perfume de Gardênia” tem de ruim).

24 de mar. de 2012

Atração Fatal

Fatal Attraction. EUA, 1987, 124 minutos, thriller. Diretor: Adrian Lyne.
Glenn Close compõe uma personagem de tal modo que nem depois que o filme termina nós somos capazes de nos esquecer dela!



Esse aclamado filme de Adrian Lyne rendeu ao diretor e aos atores excelentes elogios, foi indicado a vários prêmios e – me lembro bem – passava às vezes nas sessões de filmes tarde da noite. E eu sempre fiquei curioso em relação a essa obra; somente há pouco tempo, porém, pude conferi-la e chegar à minha conclusão acerca dela. Posso adiantar que Fatal Attraction me fez constatar três coisas – comentarei sobre elas abaixo.

Dan Gallangher é o advogado de uma editora. Durante o lançamento de um livro, no qual está com a mulher e com um casal de amigos, ele conhece Alex Forest, uma editora transferida recentemente. Algum tempo depois, num final de semana em que a esposa e a filha Ellen viajam para a casa dos pais dela, Dan e Alex têm um encontro casual e passam o final de semana juntos – o que mostra ser uma experiência sexual interessante para ambos. O problema é que Alex não compreende que foi um encontro rápido, sem intenções de se tornarem amantes. Ela então se mostra insistentemente inconveniente quando decide que fará parte da vida de Dan custe o que custar.

A primeira constatação a que cheguei foi: sexo casual pode ser perigoso. E eu não me refiro às doenças! A personagem Alex é provavelmente uma das personagens mais perturbadas do cinema. Ela simplesmente não aceita um não, ela não consegue compreender a realidade que a cerca e os limites que devem ser respeitados. Ela assusta mais ainda por ser absurdamente real. Tenho certeza de que todos conhecem alguém que já se envolveu com uma “Alex”. O que mais me agradou no roteiro foi a preocupação em trabalhar essa personagem, principalmente no quesito psicológico. Vamos analisá-la: primeiro, ela se mostra completamente centrada e madura, tanto é que usa esse argumento para convencer Dan de ir pra cama com ela. “Somos adultos”, ela diz. Depois, ela cobra dele algo que ele não havia lhe prometido, como por exemplo, passar o final de semana todo com ela. Ainda assim, ela consegue convencê-lo de modo muito espontâneo e sensual, o personagem e o espectador são envolvidos pelo charme dela. Destaque especial para a cena em que eles brincam de bola com o cão no parque, uma cena fabulosa! Mais tarde, a personagem surta entre um humor muito variável, que oscila entre a individualidade e o pensamento de incluir Dan em sua vida. Quando ela diz que está grávida, ele afirma que talvez seja a sua última chance de ter uma criança e que a decisão de ir adiante com a gravidez não tem nada a ver com Dan; mais tarde, contraditoriamente, ela fala com convicção que deseja que ele assuma as suas responsabilidades como pai do seu filho e que faça parte da sua vida. Alex é uma criatura perigosa exatamente por ser cuidadosamente invisível: destrói o carro dele sem ser vista, conversa com a mulher dele sem despertar suspeitas. Ela é um perigo sutil que o ronda e que coloca em estado de alerta toda a sua família.

Se o roteiro é muito generoso com Alex, ele falha em outros aspectos. O primeiro de todos refere-se exatamente a Alex: o roteiro a engrandece, mas lhe limita o espaço no filme, tornando-a quase coadjuvante dentro de uma história na qual ela é uma das personagens centrais. O affair entre Dan e Alex é tratado de modo muito insuspeito; Alex está em todos os lugares onde Dan está e os dois têm conversas estranhas na estação de trem, no escritório dele, na rua, no edifício onde ela mora. Na vida real, decerto a esposa dele ficaria sabendo rapidamente de que o marido provavelmente está tendo um caso devido aos boatos que ouviria. Achei o roteiro frágil nesse aspecto. Curiosa a cena em que Alex leva a filha de Dan e Anne para o parque. Fiquei me perguntando: que tipo de escola libera uma criança para alguém que não seja um dos pais ou para alguém que não esteja devidamente autorizado a pegá-la? Outra falha, bem grotesca, do roteiro, que somente teve a intenção de acentuar ainda mais a interpretação dramática da atriz que interpretaria a mãe de Ellen e a esposa de Dan.

A segunda conclusão a qual cheguei é: Michael Douglas pode ser um bom ator. Vi alguns filmes com ele que não me convenceram exatamente de que ele era bom em atuar, mas, ao ver Atração Fatal, concluí que ele é capaz de proporcionar uma interpretação consistente e admirável. Como Dan, ele me fez ficar tenso também, me convenceu de que sentia cada momento de incômodo e angústia. Por isso, eu o elogio. Glenn Close me surpreendeu também, mas eu nunca desconfiei que ela fosse uma atriz pela metade. No entanto, credito à sua personagem o mérito pelo meu apreço. Esse é um daqueles casos em que a personagem é bem maior que a atuação da atriz. Se não fosse Glenn, talvez a atuação fosse um pouco menor – provavelmente diferente -, mas creio que qualquer outra atriz do seu nível que a substituísse estaria bem em cena. Anne Archer não me surpreendeu muito, para mim a sua atuação é aceitável e correta, com pequenas escorregadas, principalmente no que diz respeito ao seu modo tranqüilo de falar mesmo em situações que requeriam um tom de voz mais determinado e agressivo. Não entendi bem o porquê de sua indicação, considerando que vi no seu trabalho apenas o tom correto, nada que a eleve a um patamar que lhe valha uma indicação.

A direção de Adrian Lyne ostenta as nuances de que o filme precisava para se estabelecer como obra cinematográfica recomendável. O diretor soube captar os melhores momentos e melhores ângulos, tanto dos personagens quanto das cenas, independentemente de quais sejam. Nas cenas de sexo, o diretor soube bem como filmar o encontro agressivo, o desejo instantâneo e o êxtase dos personagens; nas cenas de perseguição, como quando Alex vigia a reação de Dan no estacionamento e depois o segue na rua; na cena final, muito bem dirigida e ensaiada, pecando apenas pelo clichê da surpresinha da quase-morte de Alex.

A terceira conclusão a que cheguei é: um telefone com ruído estridente que toca insistentemente ao longo de duas horas de filme consegue irritar qualquer espectador, mesmo o mais calmo deles. Acho que esse é outro problema do filme. No começo, o telefone que toca causa pressão no personagem e no espectador; ficamos pensando que pode ser Alex ligando para atormentar Dan ainda mais. No final, enquanto Dan está agoniado e tenso com o telefone, eu estava simplesmente com vontade de assistir o resto do filme com o mute ligado, de modo a não ter que ouvir aquela porra tocando. Ficou evidente para mim que aquele foi o recurso utilizado para esconder a falta de criatividade do roteirista, que não conseguiu pensar em nada mais assustador do que um telefone que toca. Falo sério, devo ter ouvido aquele irritante “trrrriiiimmm” oitocentas vezes!

Creio que Atração Fatal seja um filme interessante, que rende um entretenimento bom a quem o vê. Não é nenhuma obra-prima, eu mesmo esperava bem mais dele, acreditava que veria um thriller muito maior. Atende às expectativas, mas não chega a ser incrível. Destaque para a boa fotografia e trilha sonora, que acrescentam intensidade maior às grandes cenas do filme. Sabem, depois de ver o filme, o que me ficou na cabeça foi: “com quem será que posso repetir a cena do elevador?”.

20 de mar. de 2012

Disque M para Matar

Dial M for Murder. EUA, 1954, 105 minutos, suspense. Diretor: Alfred Hitchcock.
Um filme que é capaz de deixar o espectador estarrecido com as situações vistas. Todo o conjunto - diretor, elenco, trilha sonora, fotografia - compõem um dos melhores filmes do século passado. Uma verdadeira preciosidade do cinema.

Eu já havia conferido anteriormente o filme Um Crime Perfeito, de 1998 e também baseado na obra teatral de Frederick Knott, e eu realmente tinha gostado da trama. Somente há pouco tempo conferi o obra dirigida por Alfred Hitchcock e facilmente constatei que o seu longa-metragem é, em todos os aspectos, superior à versão lançada 44 anos depois e dirigida por Andrew Davis.

Inquestionavelmente, Dial M for Murder possui um charme eterno. Passaram-se cinqüenta e sete anos desde o seu lançamento e o filme ainda respira juventude e exala o poder cativante de uma obra que jamais envelhecerá. E afirmo sem receios: poucos filmes conseguem sobreviver à ação do tempo e às constantes mudanças pelas quais o cinema passa. Essa obra de Hitchcock não somente manteve a sua aura de magnificência como também serve de referência para outros filmes que estão por vir. Conferi-lo, afinal, é uma lição cinematográfica.

 Grace Kelly, a verdadeira essência do filme.

Todo o suspense dessa produção se baseia numa única intenção: matar a esposa. É exatamente isso que planeja Tony Wendice, personagem de Ray Milland. A morte de seu cônjuge resultaria num quantia considerável de dinheiro, o qual garantiria a ele uma vida bastante tranqüila. Então, ele maquinalmente arquiteta o assassinato de Margot, brilhantemente interpretada por Grace Kelly. Tony chantageia um homem de cuja vida corrupta ele tem conhecimento, convence-o a cometer o crime por dinheiro. Eles, então, decidem dar início ao que consideram ser o crime perfeito.

E devo dizer que o plano de Tony realmente parece ser perfeito. É como se ele realmente conseguisse dominar a prática e enfiá-la na teoria, para depois exteriorizá-la novamente. Eu me senti convencido de que tudo o que ele havia planejado funcionaria, porque parece ser um plano sem falhas. Mas o personagem de Robert Cummings tem razão quando diz que “poderia escrever uma história de assassinato perfeito, mas aí não seria vida real”. Afirma, porém, que acredita no crime perfeito. E todos nós somos convencidos de que também acreditamos no crime brilhante, possível de ser executado sem qualquer margem de erro. O roteiro do filme consegue costurar magnificamente os seus dois atos: o primeiro, no qual conhecemos os personagens e suas vidas – conhecemos o relacionamento adúltero de Margot e as intenções de Tony – e o segundo, após o plano de Tony não ter sido consumado exatamente como ele queria. A história se retroalimenta e esse é o seu mérito maior: parece que sempre estamos diante de um evento novo que torna o evento anterior maior; é como um tornado, sempre girando, sempre maior, muito devastador.

 Momentos antes do crime quase perfeito.

Não cabe unicamente ao roteiro a façanha de ter tornado essa obra inesquecível. Não posso me esquecer de comentar sobre todos os outros aspectos – trilha sonora, fotografia, elenco e direção. Tudo isso forma um conjunto fantástico, que contribui para que o filme seja essa verdadeira conquista para o cinema. Alfred Hitchcock realiza uma performance maravilhosa por trás das câmeras. Ele capta os melhores ângulos do cenário e do elenco, ele arranca dos atores o melhor que eles podem oferecer. Basta olhar a atuação de Grace Kelly para perceber a influência do homem que a dirigia! Hitchcock ainda busca criar no espectador a sensação que têm os personagens e ele realmente consegue fazer isso. Observemos, por exemplo, a cena na qual Margot é atacada – ainda que a vejamos de frente para nós, e, portanto, vemos o seu potencial assassino de frente para nós, é como se estivéssemos na mesma situação que ela, mas conscientes de que corremos perigo. A sua ausência de reação após a tentativa de assassinato nos acomete – sentimo-nos também enrijecidos e sem resposta àquilo que aconteceu, no entanto, nossos corações batem acelerados – tal como acontece com Margot.

Esse efeito também é conquistado pelo jogo de luz que Hitchcock obtém: o contraste entre o claro e o escuro é fundamental para criar o clima de suspense que é necessário para que o filme se encaixe dentro desse gênero. E o diretor sabe bem com captar isso, aproveitando também o espaço em cena. Logo após cravar a tesoura nas costas de seu assassino (vou chamá-lo assim, ainda que o termo não seja adequado para a situação), Margot permanece parado ao lado do corpo inerte do homem. A câmera não se move, permanece focando os dois – a luz iluminando a mulher, o homem deitado na escuridão; ele representando o perigo, ela, a inocência. Não è à toa que a claridade incide nela e que a dualidade bem versus mal esteja representada em antagonismo evidente. Momentos depois, a câmera brevemente acompanha os movimentos de Margot e ela se afasta do homem morto – em nenhum momento, porém, um dos personagens saem de cena: ela, já bastante longe dele, continua iluminada pela luz enquanto ele permanece na escuridão. São exatamente nesses momentos, nos quais Hitchcock capta o cenário de modo teatral, abrangendo a sua amplitude máxima, que percebemos com maior ênfase o quanto a fotografia do filme é muito bonita e poderosa. Me surpreende que não tenham concedido a esse filme pelo menos indicações nas categorias de direção de arte, melhor montagem ou mesmo melhor fotografia – não posso, porém, me esquecer de que no mesmo ano em que Disque M para Matar poderia concorrer, outro filme de Hitchcock chamou a atenção das premiações: Janela Indiscreta.

 Momentos próximos do embate final.

Depois de assistir a esse filme, para sempre me lembrarei dos fantásticos olhos azuis de Grace Kelly. A sua postura em cena me diz que ele foi muito bem dirigida, mas o modo como o seu olhar penetra e revela suas emoções me garante que ela é uma ótima atriz. Não há como tirar os olhos dela e quando está acompanhada, acabamos não notando os outros atores em cena – nossa atenção está voltada exclusivamente para ela. Ray Milland também não deixa a desejar, sua personificação é bastante convincente e até assustadora – exatamente porque ele consegue demonstrar medo e autocontrole ao mesmo tempo. Os atores coadjuvantes Robert Cummings e Patrick Allen também dão o suporte de que o roteiro precisa para se firmar. Ambos os atores concebem boas interpretações, no tom certo, sem exagerar nem diminuir a entonação necessária para que sejam críveis em cena. Assim, sem muita hesitação, alego que o elenco é muito bom.

Hitchcock cria uma obra maravilhosa, na qual os defeitos – se existem – são imperceptíveis. O suspense criado ao longo do filme é realmente elogiável e a cada momento é apresentado algo novo, de modo que nossa atenção fica o tempo todo focada no conjunto de maravilhas que esse filme possui. Se quiserem ver uma obra realmente boa, vejam Disque M para Matar, decerto não se arrependerão, porque, como disse lá em cima, essa produção é uma lição de cinema.

20 de jan. de 2012

O Gosto da Vingança

Dalkomhan insaeng. Coréia do Sul, 2005, 120 minutos, policial. Diretor: Jee-woon Kim.Com um grande exemplo de fotografia e com bons momentos, essa narrativa é um prato cheio para espectadores que adoram uma boa história de vingança.



Curiosamente, esse filme me proporcionou uma decepção a princípio e depois uma grande satisfação. Ao tentar baixar “I Spit on Your Grave”, eu acabei baixando “Bittersweet Life” por engano – e me senti muito frustrado e irritado por ter pegado o filme errado. Decidi, no entanto, que, embora tivesse baixado o filme errado, não deixaria de vê-lo só por causa disso. E ao conferi-lo eu percebi que fiz muito, já que O Gosto da Vingança é uma obra bastante interessante.

Gosto muito de como os coreanos são explícitos na violência que mostram. Gosto mais ainda porque acho que eles conseguem ser agressivos de um modo artístico; o impacto provocado é muito diferente de outros tipos de violência, como, por exemplo, aquela a que somos apresentados em Irreversível. A vingança do título se refere àquela que o personagem Kim Sun-woo opta por fazer depois de ser severamente punido por descumprir uma ordem do seu chefe direto. O mafioso desconfiava que a sua namorada tinha um amante e incumbiu Sun-woo de vigiá-la; se as suas suspeitas se confirmassem, ele deveria matar tanto a garota quanto o amante dela. Diante dessa verdade, Sun-woo opta por não matá-los e lhes propões que jamais se vejam de novo. Tal atitude, no entanto, faz com que ele se torne alvo da ira do chefe.

Estando bem longe dos filmes de coreanos que vimos na TV, onde o entretenimento predominante é uma série equivocada de chutes, socos e onomatopéias estranhas, O Gosto da Vingança é embasado numa qualidade muito mais artística e profissional. Desde o começo já fiquei impressionado com a qualidade técnica da fotografia, que é muito bem elaborada e proporciona ao espectador uma visão muito nítida e clara de tudo o que acontece. A fotografia é tão boa que até contrasta com o que vemos em cena, principalmente quando o que é mostrado são as lutas. Decerto a sonoplastia também tem uma função muito poderosa, já que, aliada à fotografia, permite que o espectador quase se sinta em cena. Gosto principalmente do momento final em que há uma mistura excelente de cores, sons e ritmo – tanto pela cena em si quanto pela trilha sonora, que embala muito bem uma impactante cena de chacina.

Ainda que eu tenha gostado do enredo – e do filme como um todo -, não penso que o ponto forte do filme seja a sua história. De certo, é bastante comum o que vemos e até mesmo convencional, já que segue a linearidade padrão dos filmes de vingança: o mocinho toma uma atitude que pensa ser a certa e acaba descobrindo o quão inconveniente pode ser quando se desrespeita uma regra. Depois, dá a volta por cima ao promover uma verdadeira vingança contra aqueles que lhe fizeram mal. Já vimos isso em muitos filmes, só para citar alguns: Kill Bill, Gladiador, A Vingança de Jennifer e todos do Chuck Norris. É claro que é a abordagem que torna esses filmes diferentes e os dois primeiros que eu citei – que foram respectivamente dirigidos por Tarantino e por Ridley Scott – são amostras de que histórias já muito mostradas podem ser muito interessantes. O Gosto da Vingança atinge mais o espectador por aquilo que ele vê e ouve, tal como comentei no parágrafo acima. A história também tem o seu lado interessante, mas definitivamente fica aquém do mérito conquistado pelos elementos técnicos já citados.

A direção de Kim Jin-Woon me pareceu boa, principalmente porque ele soube como escolher entre os melhores ângulos e quais os melhores modos de captar a essência do seu filme. A vingança de Sun-woo é compartilhada com o espectador e muito disso se deve à direção eficiente e à boa atuação de Lee Byung-hun, ator principal do filme. Considerando essa obra como um todo, não me restam dúvidas de que seja mesmo uma produção muito válida e que merece ser vista, porque nela estão inclusos elementos que fazem com que um filme possa assumidamente ser chamado de bom. Recomendo que o vejam, desde que estejam preparados para uma boa dose de violência explícita, que inclui pauladas no rosto, esmagamento de membros e balas na cabeça.

16 de jan. de 2012

Perfect Blue

Pâfekuto Burû. Japão, 1997, 81 minutos, thriller. Diretor: Satoshi Kon.
Uma animação bastante adulta, que nos faz fugir do senso de que toda animação é “bonitinha”, e ainda muito bem desenvolvida, nos remete a dois filmes interessantes do cinema norte-americano.

Depois de assistir a “Tokyo Godfathers” (2003), eu fiquei interessado em conhecer mais animações japonesas, principalmente porque elas parecem sair do senso comum que as animações norte-americanas tendem a oferecer. Só para que tenham uma idéia, a animação supracitada tem em seu enredo três protagonistas, sendo um velho bêbado, uma adolescente rebelde e um travesti, todos os eles moradores de rua que encontram uma criança e decidem cuidar dela - bastante ousado, certo? Perfect Blue nos traz a história de Mima, uma garota que decide sair do grupo Cham, banda musical com a qual trabalha há um ano e meio, para se dedicar à carreira de atriz, abandonando, assim, a imagem de ídolo pop. A contragosto da mãe, das colegas de trabalho e dos agentes publicitários, Mima adentra o universo da atuação e descobre que o maior perigo reside na insatisfação dos fãs, havendo um deles capaz inclusive de querer puni-la pela sua “traição”.

Como vocês perceberam, a animação aborda o perigo que a vida de Mima sofre a partir do momento em que ela toma uma atitude que é mal compreendida pelos seus fãs. Podemos perceber que isso é bastante real e o filme não foge ao realismo de mostrar a visão dos fãs em relação aos seus ídolos. Mima também não tarda a perceber que a sua escolha a tornou um alvo de maníacos, já que numa das suas primeiras gravações no set de um seriado de suspense uma carta endereçada a ela explode, ferindo o seu agente. Mais tarde, descobrirá haver uma página na Internet na qual alguém se finge passar por ela, contando a rotina da estrela - o que surpreende a atriz é o fato de a pessoa saber exatamente cada movimento seu, desde as coisas que ela compra no supermercado até o que ela faz em seu quarto. Assim, ela percebe que ela pode verdadeiramente estar em perigo e o medo acaba tomando totalmente conta dela.

 O grupo Cham cantando para os seus milhares de fãs (e para alguns maníacos também).

Já no começo do filme conhecemos o fã maluco de Mima: um homem mal encarado, silente e preciso, que conseguiu o cargo de segurança nos shows da banda Cham e que, assim, pode ficar mais perto de seu ídolo, mesmo sem jamais ter lhe falado - o que, mais tarde, descobriremos ser uma verdade parcial, uma vez que descobrimos que o homem é louco o suficiente para comandar “O Quarto de Mima” (aquele site que comentei acima) além de acreditar que a garota - a Mima verdadeira, a estrela da música, não a atriz traidora - lhe manda e-mails que lhe dizem para agir contra a farsante que está na televisão. Vemos nele uma espécie de Annie Wilkes, de “Louca Obsessão” (1990), que faz de tudo para invadir a vida de Paul Sheldon, seu escritor preferido, chegando a ponto de atentar contra sua vida quando descobre que ele assassinou a sua personagem favorita no seu romance recém-publicado. A morte de Misery no romance, para Annie, representa a saída de Mima da banda, para o fã maluco daqui. Ainda há o fato de que os dois vivem uma espécie de bovarismo: Annie e o fã, tão aficionados que são, respectivamente, por Misery e por Mima, acabam vivendo a vida de seus ídolos, acreditando a partir de um momento que eles mesmos são os seus ídolos. Penso que o romance de Yoshikazu Takeuchi, que deu origem a Pâfekuto burû, pode ter se inspirado em parte pelo romance Misery, de Stephen King.

Mima também se vê ameaçada, o que gera nela um conflito psicológico muito grande, causando-lhe uma espécie de fragmentação e colocando-a diante de imagens alucinatórias. Ela começa, dado os constantes choques, a se enxergar como ela-mesma, a atriz e mocinha da história, e ela-outra, que ainda pertence à banda Cham e que é vilã. Não há mais paz em sua vida e é difícil para ela distinguir ficção de realidade, havendo momentos em que as duas confluem e ela não sabe mais se a vida que vive é a sua (ela-mesma), a de cantora (ela-outra) ou, ainda, a da personagem que ela interpreta no seriado, que foi estuprada e que sofre de transtorno dissociativo. É por esse aspecto que o filme nos remete ao posterior “Cisne Negro” (2010), que nos fala sobre uma bailarina tão empenhada em ser a melhor para conseguir o papel principal no balé O Lago dos Cisnes, que acaba duplicada na figura dela mesma - Odile, o cisne branco - e a outra - Odete, o cisne negro.

 Mima atuando numa das cenas mais difíceis de sua carreira: um estupro.

Talvez o grande problema do filme seja a repetição de muitas cenas, que parecem fazer com que a história não se desenvolva muito e que seu alicerce seja a repetição, o que não é verdade, mas que, inegavelmente, causa essa impressão no espectador, principalmente na realização do seu segundo terço de filme. E o final, bastante interessante, é seguido por uma cena de otimismo que não condiz com a trama e que, no fim, parece ter sido posta ali somente para mascarar o fato de que, já naquele estágio de medo, Mima não poderia simplesmente se reabilitar e ficar bem. Um erro que incomoda, não nego, mas que não destrói tudo o que havia sido mostrado anteriormente, até porque há uma descoberta interessante: a de que o suposto vilão não é verdadeiramente o vilão.

Honestamente, acredito que esse filme seja válido para se assistir, ainda que eu prefira outros títulos japoneses em animação, como o citado no começo desse texto. Mas reforço que poder assistir a esse filme e ainda ser remetido a dois filmes interessantes do cinema é mesmo muito válido, além de podermos conhecer um pouco mais do que o Japão tem a oferecer, além dos filmes de terror que já estão banalizados, seja por eles próprios ou pelas notórias refilmagens estadunidenses.

2 de jan. de 2012

Cega Obsessão

Môjû. Japão, 1969, 86 minutos, thriller. Diretor: Yasuzo Masumura.
Da Síndrome de Estocolmo à loucura - o filme percorre excelentemente esse percurso.

Não fosse o Pedro, colega com quem divido a casa, ter me falado a respeito desse filme e insistido para que eu o visse, eu decerto teria deixado passar uma produção japonesa terror psicológico superior a muitas das produções recentes. Antes de fazer engrenar a resenha, aproveito para agradecê-lo por me ter feito conhecer essa produção do final da década de 1960, a qual aborda a vida de um artista cego que vive com a mãe, que um dia ajuda-o a seqüestrar uma moça a fim de que ela se torne modelo para uma das esculturas do rapaz.

Aki é uma modelo famosa, cujo corpo serve de material para a obra de um escultor que a cultua. Michio, um jovem cego, freqüenta o museu de artes no qual as esculturas do outro estão expostas e admira ininterruptamente as formas de Aki, tocando-as na estátua, acariciando-as e, assim, passando a nutrir um sentimento de vontade pela garota, a quem um dia consegue capturar, fingindo-se de massagista. Leva-a para a sua casa e suas ações são acolhidas pela mãe, que consente com o seqüestro e ajuda-o com a moça, mantendo-a presa pelo tempo em que ele deverá esculpi-la.

 A gradual degradação dos personagem os une no desejo de terem um ao outro com violência.

É evidente que duas das maiores preocupações do roteiro é caracterizar como positivo o jovem escultor e, ao mesmo tempo, mostrar o desespero da moça em relação à situação na qual se encontra. É necessário que nos deparemos com essas duas situações para que, com o passar da história, não a achemos incoerente. A obsessão do rapaz pela moça é mostrado mais como amor distorcido do que como fonte de perigo - o filme nos força a pensar que a atitude dele seria a única para que ele pudesse, afinal, tê-la como objeto para produção artística era tudo que ele sempre quis; assim, os fins justificam os meios e o seqüestro não se nos mostra tão cruel quanto parece. Por outro lado - o lado dela -, há o completo desespero de não saber no que aquilo resultará e se ela será mesmo liberta após o fim daquele processo que, sob a perspectiva dela, é tortura. A personagem tem uma dúvida que não existe para o espectador: enquanto ela teme ficar ali para sempre presa, nós sabemos que ele cumprirá a sua promessa, já que, como disse, o roteiro se ocupou em nos mostrar que o rapaz, apesar de sua atitude extremista, é dotado de boas intenções, logo, não haveria por que não deixá-la ir.

Cabe ressaltar que as inúmeras tentativas de fuga de Aki, a modelo, são contrapostas semanticamente pela arte do ambiente no qual ela está. Soam bastante cênicas as cenas nas quais Aki corre, em desespero, de Michio - os dois percorrem o imenso espaço do ateliê dele, pulando esculturas imensas, escalando corpos nus feitos de gesso, cercadas pela nudez das figuras ali esculpidas. Como se nota, nem mesmo a fuga dela parece tão negativa; vemo-la, às vezes, quase a divertir-se naquele parque escuro e amedrontador. Acerca dessa ambiência, vale também apontar a figura da mãe do rapaz, que se mostra perigosa e ferrenha tanto para a jovem quanto para o rapaz, já que ela traz consigo a imagem da opressão, quase numa abstração de sua própria figura - às vezes, parece que ela está em todos os lugares para vigiar e reprimir. Aliás, penso que a intérprete da mãe seja a atriz mais empenhada ali, sua participação é mesmo muito bem trabalhada e atriz não deixa a desejar. Dar o máximo de si não acontece o tempo todo com Eiji Funakoshi e Mako Midori, intérpretes de Michio e Aki, respectivamente, mas, inegavelmente, ambos fazem um bom trabalho.

 Próximo do final, já totalmente entregues à loucura.

O grande auge do roteiro não se encontra nos desencontros de Aki e Michio, mas sim no momento de comunhão entre os dois - ela, por fim, cede e se entrega a ele gradualmente a partir do momento em que decide fingir-se de apaixonada para poder fugir. A estratégia falha e a situação fica revertida - ele acaba mesmo entregue a ela. A famosa Síndrome de Estocolmo: a prisioneira que passa a amar o seqüestrador, escolhendo, no final, ficar ao seu lado a ter sua liberdade de volta. E verificamos que os dois, agora totalmente envolvidos um com outro - eles têm apenas um ao outro -, entregam a uma desumanização desenfreada, na qual a identificação com a figura do outro é fundamental. O clímax acontece pouco a pouco e o seu ápice é a extrema loucura, na qual as ações são desproporcionais às suas conseqüências e os personagens já cercados pelos seus desejos mais instintivos pela dor levam ao extremo o seu ato de amar.

Talvez seja a loucura dos personagens o elemento que dá ao filme o seu requinte, assim como a bela fotografia e o ambiente perturbador no qual estão inseridos. A perda da sanidade é o grande atrativo do filme e, no final, a perda do discernimento é o grande mote do enredo - desde a ação de seqüestrar até a escola de, no final, por prazer, mutilar-se pouco a pouco, entregues à dor. O filme retrata assombrosamente dois humanos que abrem mão de sua condição de seres racionais, para, racionalmente, trilhar caminhos diferentes daqueles que se espera que eles sigam. A direção de Yasuzo traz um ritmo lento, mas essencial à integração do espectador à história; destaque para os excelentes momentos de conflito entre Aki e Michio e também para a presença de Noriko Sengoku, a mãe. Creio que a melhor parte dessa composição cinematográfica, é o seu contexto histórico, já que a produção foi apresentada numa época em que o Japão estava fortemente relacionado ao drama da tensão sexual (lembremo-nos de que “O Império dos Sentidos” é da mesma década e percorre o porn aesthetics) enquanto paralelamente se via muitos filmes mais restritos à cultura do país, mostrando as artes marciais, por exemplo. A meu ver, é um grande filme que merece ser conferio. E, mais uma vez, agradeço ao Pedro por tê-lo me apresentado.

20 de dez. de 2011

A Pele que Habito

 La Piel que Habito. Espanha, 2011, 115 minutos, thriller. Diretor: Pedro Almodóvar.

Quando todos elogiavam sem parar o filme, duvidei de sua qualidade aparentemente inquestionável. Ao vê-lo, concluí tratar-se de uma das melhores obras do Almodóvar!

Sou fã de Almodóvar e usualmente encontro em suas obras um deleite magnífico, seja num roteiro excelente que trabalha o psicológico dos personagens, seja em sua direção não-conservadora e bastante ousada. Vemos temas bastante delicados em suas obras, como incesto, estupro, adultério - mas, honestamente, penso que seja com La Piel que Habito que Almodóvar trouxe a sua maior polêmica. A obra não-linear nos apresenta um médico-cirurgião que se encontra obcecado por sua magnífica pesquisa: uma pele resistente que substitui - ou melhor, se sobrepõem - a pele verdadeira, possibilitando, como vemos, reconstituições da face ou, ainda, modificação dela.

Acredito que será difícil discorrer acerca do roteiro, porque muito do filme se constrói e ele todo é o seu próprio mote. Assim, é difícil apontar partes “essenciais” dele sem dar spoilers, mas adianto desde já que é inevitável não revelar detalhes reveladores do filme - se você ainda não viu, recomendo não continuar a leitura. Pois bem, a primeira meia hora do filme é justamente aquela na qual se verifica a semente da dúvida que nos é implantada: parece que tudo o que está ali está deveras concluso e não há o que acrescentar, assim, ao término do primeiro quarto de filme, ficamos pensando no que virá a seguir e quais novas informações serão acrescentadas àquilo que já vimos. Basicamente, temos conhecimento de que o Dr. Robert mantém uma garota em cativeiro, embora a relação deles não seja exatamente a de carcereiro e prisioneiro. A curiosidade do espectador é causada justamente por essa dubiedade na relação dos dois e, ainda, pela presença curiosa de Marília, a governanta da casa, que, lá pelos trinta minutos, confessa à Vera, a encarcerada, um pouco da história de Robert e o porquê de ela, Vera, ter sido confundida com Gal, a esposa falecida do médico.

 Vera e Robert, perto do clímax final.

A mistura de flashback com o ar de mistério da narrativa da governanta estende a curiosidade de Vera ao espectador. Somos, naquele momento, todos ouvintes atentos do que a senhora tem a dizer. Num corte, finda-se o “primeiro ato” e somos levados ao passado, seis anos antes da narrativa que dá início ao filme e seis anos depois da morte de Gal, a esposa de Robert. Lá conhecemos um evento que transtornou Norma, filha de Robert, levando-a à morte por suicídio e fazendo com que Robert se encontra, por fim, na decisão que o levaria a extremos e a qual Vera está relacionada. Confesso que achei os trinta primeiros minutos bastantes mornos e prolongados, embora, obviamente, houvesse aquela característica almodovariana que prende o espectador ao que está sendo narrado. Não fosse também o charme de Antonio Banderas, eu teria achado o prólogo bastante comum - algo que definitivamente não combina com o diretor. Então, o novo ato trás consigo uma amostra valente de perspectivas: primeiro vemos o pensamento de Robert acerca da situação, depois vemos o que verdadeiramente aconteceu (algo semelhante acontece em Atonement). Daí pra frente a história deslancha e conhecemos por fim o homem sem escrúpulos que o médico é e o seu plano de vingança, que, como veremos, se encerra muito shakespeariano (quem conhece as pessoas desse autor sabe do que eu falo).

Honestamente, a sua vingança é, a meu ver, um das mais geniais já realizadas. A transformação de Vicente, o suposto estuprador de sua filha, em Vera é um dos argumentos mais assustadores e mais bem trabalhados que eu já vi em cena. Interessante também notar que há aqui um jogo de verdades que frustram e amedrontam o espectador: Vicente não estuprou Norma, filha de Robert, logo não cabia que fosse punido por esse crime, já que ele não chegou a acontecer; por outro lado, Vicente é a pessoa que causou o distúrbio em Norma, fazendo-a achar que seu pai (que a encontrou inconsciente) fosse seu agressor. Assim, ainda que responsável por algo, não era responsável por tudo pelo que Robert o acusava - mas, afinal, foi ele que indiretamente levou a garota à morte, então, sob a perspectiva de Robert, nada mais justo do que ele se transformar numa garota. Assim que o espectador descobre qual é a cirurgia realizada em Vicente, tudo vem à tona de modo intragável - constatamos, pois, que Vera é na verdade Vicente e que ela própria já não se vê como homem devido aos seis anos que passou enfurnada na casa do cirurgião.

 Um dos momentos mais importantes do primeiro ato do filme: o Tigre, antes de descobrir Vera.

Se o roteiro tem sua primeira meia hora bastante morna, a direção de Almodóvar e os atores fazem questão de suprir a carência do argumento fílmico. Em pouco tempo, as atuações se tornam ainda mais notáveis, principalmente a de Jan Cornet e Elena Anaya, que parecem bem mostrar os dois lados da moeda: o medo que de tão imenso chega a ser impassível de expressão e o acatamento inevitável. Ambos trazem interpretações seguras, sem cacoetes, muito densas e próprias - já não estivessem as temporadas de premiações tão fechadas como aparentemente estão, eu acredito haver um espaço pelo menos para ela. Banderas traz consigo um charme e segurança em cena bem mais maduros - inevitável não se surpreender com sua voz firme, sua postura cênica marcante. Se fosse isso uma peça teatral, mesmo ele longe da ribalta, ainda o veríamos viril, tão potente é sua atuação aqui. E Almodóvar conseguiu me seduzir com o charme tenebroso do seu filme, de uma história de desejo às avessas - é quase penumbroso o caminhar de Vicente até transformar em Vera e ainda mais penumbroso o relacionamento que se estabelece entre ela e Robert: vemos quase uma síndrome de Estocolmo, mas, a somar mais suspense, verificamos não sê-lo.

Quando todos comentavam a maravilha desse filme, eu suspeitei. Se todos falam muito bem, ou é um filme grandioso ou é loucura massificada. E curiosamente me deparei com um filme verdadeiramente bom, que impressiona e choca paralelamente, dada a sua composição cheia de qualidade. Essa obra de Almodóvar é um exercício de cinema - um produção para não ser esquecida e para ser revista várias vezes.

22 de nov. de 2011

Drive

Drive. EUA, 2011, 100 minutos, thriller. Diretor: Nicolas Winding Refn.
Um filme de refinamento que, na sua arte contida, parece oscilar entre o muito bom e o apenas satisfatório.

Mal o filme foi lançado e há diversos rumores a respeito dele: talvez conquiste várias indicações nas próximas temporadas de prêmios, talvez dê a Ryan Gosling a sua segunda indicação ao Oscar, entre outros assuntos. Mas, sobretudo – e não se trata de um boato –, o filme tem sido considerado como um dos melhores lançados recentemente, ocupando, até a data de escrita dessa resenha, a centésima trigésima sétima (137ª) posição entre os 250 melhores filmes listados pelo IMDB.

A história do dublê anônimo de Hollywood nos é contada pouco a pouco: a sua profissão, a sua relação com uma vizinha e com o filho pequeno dela, por quem passa a desenvolver um carinho especial, o seu trabalho nas horas vagas, como mecânico – e principalmente a sua escolha por ajudar o marido ex-prisioneiro de Irene, a vizinha, que, devido às dívidas contraídas na prisão, deve pagar o que deve a fim de manter sua família viva.


Sabemos pouco a respeito desse stunt man – nem sequer conhecemos seu nome. Sabemos que ele é muito bom no que faz, seja como dublê ou como motorista para assaltantes, que é outro trabalho que ele esporadicamente faz. E ele afirma que não carrega armas, logo não mata ninguém. Mas essa é uma afirmação que se mostrará falsa ao longo da trama, já que ele eventualmente acaba sendo obrigado a dar uns tiros ou até mesmo pisotear brutalmente a cabeça de um indivíduo. A história, no entanto, não se foca exclusivamente nessa situação brutal pela qual ele passa; vemos também o desenvolvimento da relação dele com Irene, que, qual ele, se envolve e cria expectativas em relação àquilo que poderão viver juntos.

Não nego que haja no filme algo de requintado. A direção de Refn me parece lenta e cansativa demais, no entanto os elementos presentes em cena, bem como a atuação de Gosling ou a fotografia do filme são realmente impressionantes. Quando penso no filme em fotografias – numa série de quadros sendo apresentados e assim criando a narrativa –, eu o enxergo maravilhoso, decerto uma das melhores obras que o cinema já apresentou. No entanto, vê-lo em movimento, vendo acontecendo linearmente, numa velocidade que, em oposição a si mesma, é antiveloz, me incomodou bastante, principalmente porque isso me deixou em dúvida quanto ao que o filme pretende mostrar.

Não sei exatamente o que me incomodou. O roteiro parece conciso no que diz respeito ao envolvimento entre Irene e o personagem principal, no entanto me pareceu muito desnecessariamente extenso quando se refere àquilo que parece ser o “tema” do filme. Assim, nem o refinamento da câmera de Refn recupera o prolixidade do desenvolvimento da trama, que, pouco a pouco, parece se ensimesmar e mostrar pouquíssima coisa nova ou relevante.

Aí vejo tantos cinéfilos adorando o filme, cultuando-o como uma das mais recentes jóias do cinema. Não sei como me posicionar, já que, como disse, penso que o filme oscile bastante e que, no final, seja simplesmente interessante, mas nada que realmente faça com que você se impressione. No máximo, poderia apontar a atuação de Ryan Gosling como essencial para o que há de marcante nessa obra, mas, mesmo assim, considerá-la como uma promissora candidata ao Oscar 2012 me parece meio precipitado.

16 de nov. de 2011

Reféns

Trespass. EUA, 2011, 91 minutos, thriller. Diretor: Joel Schumacher.
Um verdadeiro filme-bomba com história duvidosa, desenvolvimento confuso, um ator em atuação sofrível, uma atriz que não se sabe por que está ali e mais uma série de elementos que apenas irritam o espectador em vez de entretê-lo.

Sou fã de Nicole Kidman e não nego isso. Mesmo que ache que a produção pode ser estranha, como é o caso de A Feiticeira, eu ínsito em vê-la mesmo assim, talvez eu acabe surpreso e, pensando nisso, acabo me deparando com filmes-bombas, como é o caso desse. Não fui ao cinema inocentemente - afinal, embora estivesse interessado em Nicole Kidman, também estava consciente de quem era o lead actor e de quem era o diretor - e, honestamente, não sou muito fã do trabalho de nenhum deles.

Ao ler a sinopse, já pude imaginar as coisas que surgiriam ao longo do tempo em que Kyle e Sarah fossem mantidos presos como reféns de um assalto à casa deles: decerto haveria momentos de extremamente fragilidade nos quais os personagens relevariam segredos que perturbaria ainda mais a situação na qual se encontravam; também previ grandes palavras de amor, ditas de um personagem a outro; sendo isso pouco, assumi que haveria alguma identificação amorosa ou afetiva de um assaltante para com um personagem, como acontece em The Panic Room. E, tão previsível que esse filme é, há exatamente tudo isso que eu citei e, infelizmente, esses elementos não servem para muita coisa nessa trama, que pouquíssimo informa e que apenas mostra atitudes estranhas e incoerentes por parte de todos os personagens.

 Nicole Kidman na verdadeira relação-problema que dá mote a esse filme ruim.

Aliás, os personagens. Esses merecem um foco especial, porque eles são figuras realmente misteriosas nesse filme, tão misteriosos e obscuros que suas atitudes beiram a estupidez de qual modo que transcende ela própria - a estupidez. Não há como entendê-los e, conseqüentemente, não há como simpatizar com algo tão prepotente como Kyle (mas isso também se deve à má atuação de Nicolas Cage), assim como é impossível simpatizar com Avery, a filha do casal, ou com Sarah. O mais interessante é perceber uma das cenas iniciais, assim que começa o assalto: Kyle é agredido e imediatamente grita para Sarah correr. Subentende-se: “não venha pra cá, corra pra fora da casa”; ela, evidentemente, não faz isso e acaba correndo em direção aos bandidos, que a pegam. Tudo bem, pensamos, um erro de principiante; ela, afinal, não imaginaria que lhe houvessem invadido a casa e capturado seu marido. Depois, quando a filha chega inesperadamente de uma festa, os bandidos a seguram também como refém, e isso aumenta os instintos de proteção de Kyle e Sarah, que parecem dispostos a inverter a situação. Sarah, oportunamente - embora numa cena que não se entende o porquê da existência -, rouba uma seringa contendo uma anestesia extremamente poderosa, em quantidade suficiente para matar. Aí, ela consegue fazer de um dos bandidos seu refém somente para liberá-lo dois minutos depois enquanto nós nos perguntamos por que diabos ela fez aquilo. A resistência de Kyle em abrir o cofre, no qual não há nada, é outro mistério - por que não mostrá-lo logo e dar a desculpa já no começo, evitando toda a agressão pela qual passariam?

O roteiro de Karl Gajdusek realmente não se preocupa em tornar nada coerente. É um dos filmes mais incoerentes a que já assisti. Difícil entender o gosto dos personagens por correr na floresta que cerca a casa, difícil entender a mulher que auxilia os bandidos, já que ela se comporta escrotamente ao longo de todo o filme, não entendi o uso da seringa que deveria matar e não mata, as várias vezes em que os bandidos se agridem sem motivo, as tentativas de romance que surgem aqui e lá, principalmente envolvendo Sarah e um dos bandidos, qualquer que seja. Tenho certeza de que esse roteirista escreveu tudo isso só de brincadeira, porque, desde o princípio, percebeu o tom de brincadeira desse filme de Schumacher (aliás, conhecendo o diretor, já se pode facilmente supor que será bem em tom de brincadeira o filme). O único problema é que o espectador é o último a perceber que essa obra não deve ser levada a sério.

 Uma das muitas cenas repetidas do filme.

O problema de Nicole Kidman não é sua má atuação, até porque ela está bastante coerente dentro do possível (com exceção das cenas em que finge ser lutadora ou em que corre pelo mato). O problema é unicamente a sua presença nesse filme - ela não deveria estar ali, evidentemente, principalmente num momento de sua carreira na qual assumimos que ela, por fim, deu a volta por cima, ainda mais com a recente indicação ao Oscar pelo magnífico Rabbit Hole. Liana Liberato e Cam Gigandet apenas estão ali, em atuações no automático, fazendo o mínimo que se espera deles, sem, no entanto, apresentar deficiências notáveis no seu trabalho. Nicolas Cage é o verdadeiro trunfo ao inverso de Trespass - é ridícula sua atuação, uma das coisas mais medíocres e infelizes que vi ultimamente, tudo nele está errado, infinitamente errado: vejam a cena em que ele perde os óculos, vejam quando ele leva um tiro na perda, quando é arrastado para fora da casa no final do filme, abomino tudo o que vi!

Joel Shumacher (risos desde já) realmente nos ofereceu um verdadeiro presente de grego, que consegue ser ainda mais notável do que o desastre Batman and Robin, o qual ainda pode ser considerado um filme divertidinho. A sua direção poderia facilmente ser apontada como uma das piores de 2011, porque ele conseguiu reunir sofrivelmente inúmeros problemas. Aqueles flashbacks são tenebrosos, assim como a edição que sobrepõe o rosto de um personagem a uma cena qualquer, como se isso acrescentasse drama ou ritmo a tudo de ridículo que estamos assistindo. Fiquei impressionado com esse filme, tanto que ele me motivou a conhecer mais títulos dirigidos por esse diretor que, honestamente, tanto me incomoda, já que ele próprio, como acontece aqui, não consegue oferecer aquilo que propõe.

18 de mai. de 2011

Um Clarão nas Trevas

Wait Until Dark. EUA, 1967, 108 minutos, drama. Diretor: Terence Young.
Para mim, trata-se de uma das melhores interpretações de Audrey Hepburn e eu não hesitaria muito em colocá-la como uma das minhas três preferidas!

Se perguntassem a mim que personagem de Audrey Hepburn é a mais marcante, eu não hesitaria em responder: Susy Hendrix, de Wait Until Dark. Se me perguntassem que filme estrelado por essa atriz é o meu preferido, eu teria dúvidas entre alguns títulos – entre eles, Um Clarão nas Trevas. Começo assim minha resenha porque realmente penso que essa produção seja um marco na carreira dessa atriz.

Usualmente, os títulos fazem alusão a algum elemento da obra – é necessário que seja assim para que se estabeleça uma relação de coerência entre o título e o assunto abordado na história. Ainda que o título nacional não seja uma tradução literal do original – e, conseqüentemente, carregue uma intenção diferente –, penso que ambos os títulos são eficientes na sua finalidade de retratar o drama de Susy, que ficou cega recentemente e que busca sua independência, já que seu marido se recusa a deixá-la se tratar como uma mulher debilitada. As “trevas” ou a “escuridão” – do original dark – acontecem na noite em que, sozinha em casa, Susy é surpreendida por bandidos que buscam uma boneca cheia de heroína que seu marido trouxe para casa por engano.

O primeiro pensamento que o espectador tem é muito óbvio. Sabe-se que bandidos entram em casa e fazem renderem-se até mesmo homens capazes de enfrentá-los sem grandes esforços – como então uma pessoa recém-adaptada à sua deficiência visual é capaz de impedir três homens? É evidentemente que o filme, diferentemente desse pensamento potencial do espectador, caminha contrário ao senso-comum e a história apresentada é embasada numa série de argumentos que vão construindo a narrativa delicada dessa trama. Primeiro: os bandidos não são estúpidos e agem racionalmente; precisam considerar inúmeros fatores, como o fato de a boneca não estar mais nada casa e a mulher cega recusar-se a ajudar caso esteja ameaçada. Segundo: a vigente debilidade de Susy – como acontece com a maioria das pessoas – aguça os outros sensos, permitindo então que, embora não veja efetivamente, ela tenha uma ótima noção de sons, cheiros e, indiretamente, veja eficientemente. Terceiro: o roteiro se ocupa de expor argumentos que constroem a história através da dubiedade – os bandidos apresentam perigo a Susy ou ela, já consciente do risco que corre, oferece perigo a eles? Todos os bandidos são realmente ruins ou são intercambiáveis a ponto de, no final, ceder à causa de Susy?

Para mim, o auge do filme está na associação entre roteiro, atuações e direção. Equiparo-os porque os enxergo no mesmo nível de eficiência – e são todos muito bem desenvolvidos ao longo da trama. A respeito do roteiro, como já comentei, é muito eficaz na composição dos personagens e das situações propostas ao longo do filme – nada soa incoerente ou exagerado, nada está solto e as propostas (roubo da boneca) e contrapropostas (reação da personagem ao roubo) encaixam-se muito bem, completando-se. Terence Younger, mais conhecido por alguns filmes da série 007, não erra na direção: concentra-se em manter o clima do filme do começo ao fim, permitindo ao espectador bons momentos de entretenimento e bons momentos de clímax intenso. Nas mãos de outro diretor, o terror experimentado por Susy Hendrix se tornaria um show ridículo de sustos; em suas mãos, percebemos o desespero no qual a personagem se encontra e achamos as situações deveras reais – e exatamente por isso ainda mais perturbadoras.

Creio, porém, que o maior elogio deva ir à Audrey Hepburn, que se dedicou intensamente a essa produção. Não se pode negar isso quando a vemos em cena: sua participação nesse filme serviu para que interrompesse categoricamente sua carreira de muitos filmes de sucesso para poder então cuidar da família. Interpretando Susy Hendrix, Audrey provou que não é uma atriz de mocinhas delicadas, que vivem principalmente de romance – como Sabrina, do filme homônimo. A atriz, aliás, já havia provado estar associada a personagens de extrema crítica social – Gabrielle van der Mal e Karen Wright, de The Nun’s Story e The Children’s Hour, respectivamente -; com esse filme, porém, ela prova também estar perfeitamente apta para atuar em qualquer gênero, haja vista que nesse único filme ela reúne todos os elementos necessários para definir-lhe como uma atriz excepcional: sabe convencer-nos de que está feliz, de que está triste, de que tem medo e, sobretudo, de que experimenta uma das mais terríveis situações de sua vida. E faz tudo isso com o olhar – qualidade brilhante! Tenho suspeitas de que o Oscar de 1968 lhe fugiu das mãos de modo questionável – estaria Katharine Hepburn mesmo muito mais eficiente em Guess Who’s Coming to Dinner do que Audrey Hepburn em Wait Until Dark?

Se um filme se faz com vários elementos associados, não me restam dúvidas de que essa produção pode ser considerada como uma obra memorável. Todos os elementos confluem para a criação de um filme fantástico e, para mim, é exatamente isso que nos é apresentado: todos nós decerto nos lembraremos da tensão existente na tentativa de “criar as trevas” e de desligar a geladeira da tomada. Quem assistiu ao filme decerto saberá a que me refiro; aos que não viram ainda, recomendo que vejam tão logo que puderem – é um obra inesquecível!

20 de fev. de 2011

Cisne Negro

Black Swan. EUA, 2010, 108 minutos, suspense. Diretor: Darren Aronofsky.
Natalie Portman nos mostra o porquê de ser considerada uma boa atriz - decerto uma das que mais tem se destacado nos últimos anos. E Aronofsky nos mostra que sabe dirigir bem um elenco.

Com a aproximação da 83ª edição dos Academy Awards, todos os cinéfilos estão fazendo suas apostas para saber quem ganhará o prêmio máximo do cinema e também os outros prêmios relevantes da indústria cinematográfica, como o Globo de Ouro, SAG Awards, etc. O que mais tem chamado a atenção para esse filme é a presença de Natalie Portman, atriz jovem que desde cedo tem realizado bons trabalhos e que tem mostrado a todos que é provavelmente uma das melhores atrizes de sua geração. A somar, não podemos nos esquecer de citar o diretor do filme: Darren Aronofsky, que, por sua vez, é decerto um dos melhores diretores atuantes. Não podemos deixar de lhe dar os devidos créditos pelos bons filmes Réquiem para um Sonho, de 2000, e O Lutador, de 2008 – sendo esses dois títulos merecedores de atenção.

Então, em 2010, há a junção desses dois nomes e um filme que mostra os bastidores de um grande balé, uma versão da história de Odette, princesa que é enfeitiçada e vira cisne – a famosa história de O Lago dos Cisnes, que vocês provavelmente conhecem bem, tanto pela nossa própria cultura, que às vezes alude a esse repertório como pelo próprio cinema, haja vista que todo ano vemos a boneca Barbie interpretando uma versão muito comercial desse balé. Somos apresentados à história de Nina, uma moça de 28 anos que se dedica arduamente à dança e que aspira à posição principal na adaptação que Thomas, diretor de uma grande academia de dança. Porém, tudo parece mais complicado quando ela começa a perceber que Lily, outra bailarina, está competindo com ela pela personagem máxima do balé. Então, pouco a pouco, conforme se esforça ainda mais, experimenta coisas novas e ainda lida com a mãe, que lhe trata com muita severidade e cobrança, Nina não tem mais a certeza se o que presencia é real ou falso.

Não nego que o melhor que o filme tem é a presença de Natalie Portman. A atriz realmente concebe uma interpretação atenciosa, na qual mínimos detalhes não são esquecidos. Os seus olhares, os seus gestos – toda a sua postura em cena contribui para uma atuação elogiável. O modo como a atriz entrou em sua personagem é mesmo incrível e posso dizer que o filme funciona em sua maior parte pela excelente composição feita por Portman, que não se limitou em nenhum momento. Sua atuação ainda reforça algo muito interessante no roteiro do filme, escrito por três pessoas, sendo duas delas estreantes – em alguns momentos, temos a impressão de que o que acontece é real, noutros momentos concluímos que é imaginação da personagem. A relação do roteiro com a atriz principal funciona muito bem, pois um parece corroborar o outro. Ora o roteiro nos mostra uma coisa e a atriz acompanha com sua atuação, dando a entender algo; ora a atriz toma outro caminho, e o roteiro a acompanha, desfazendo aquela sensação anterior. O roteiro não mostra exatamente o que são todas as coisas que a personagem vê – o espectador então está livre para abrir a sua mente e depreender muitas coisas. Eu mesmo cheguei a pensar que se tratava de estresse traumático, por causa da relação dolorosa entre Nina e sua mãe; depois considerei esquizofrenia, haja vista que a personagem ouve e vê coisas que não estão necessariamente no plano da realidade. No final, não soube exatamente a que pensamento me ater.

Darren Aronofsky soube bem como utilizar as cores no filme. Se perceberem, verão que ele usa tons muito semelhantes em alguns momentos e que isso causa uma sensação incômoda no espectador. Reparem no quarto de Nina, com muitas cores claras, detalhes em rosa se destacando – chega a ser incômodo imaginá-la tão profissional e ao mesmo tempo tão infantil. E ver aquele quarto nos obriga a pensar em sua mãe, pois conhecemos a relação das duas e o modo como a mãe infantiliza a filha. O contraste entre o claro e o escuro é usado o tempo todo, desde cenas simples – como as idas e vindas de Nina no metrô – como nas cenas em que ela está nos ensaios. Reparem como o personagem de Vincent Cassel, Thomas, parece se opor à Nina – ela com roupas claras, tons cinzas; ele sempre com roupas pretas, sempre agressivo e muito firme. Aronofsky soube também como captar essas vertentes dos atores, soube como explorar cada um deles em suas várias cenas. Destaque especial para a coadjuvante Barbara Hershey, que compõe brilhantemente a mãe de Nina, uma mulher que abdicou da dança para poder ter sua filha e cuidar dela e que, exatamente por isso, trata com muita cobrança – cobrança disfarçada, o que é ainda pior – a sua filha.

Acho importante ressaltar as qualidades do filme sem exagerar no tom. Ainda que seja uma boa obra, eu penso que ela esteja aquém das obras anteriores do diretor, considerando os dois títulos que citei no primeiro parágrafo. Para mim, Cisne Negro tem o seu valor para o cinema, mas é importante não supervalorizá-lo, como já estão fazendo por aí – o mesmo tem acontecido com o filme mais recente de Fincher, A Rede Social. Black Swan decerto representa uma obra memorável na carreira de Natalie Portman, juntamente com outras personagens fortes já interpretadas por essa atriz, como Evey Hammond, de V from Vendetta, e Alice, de Closer. Vale ainda comentar que, como Nina, Portman consegue inclusive ocultar sua parceira de cena, Mila Kunis, que interpreta sua rival Lily.

14 de fev. de 2011

A Outra Volta do Parafuso

The Turn of the Screw. Inglaterra, 1890, 176 páginas, suspense. Autor: Henry James.
Uma linguagem muito adulta capaz de transportar o leitor para o universo psicológico da personagem principal e nos faz acompanhar com ela todos os seus medos.

Henry James, responsável por algumas narrativas bastante famosas, como The Wings of the Dove – adaptado para o cinema em 1997 com o título (nacional) de Asas do Amor–, publicou em 1898 uma obra que geraria divergência nas opiniões. Quanto à sua qualidade, todos admitiam ser inquestionável. Mas aquilo que realmente diferenciava as opiniões provinha da dualidade e ambigüidade da obra, que permitia mais de uma interpretação. Tal como As Asas da Pomba, A Outra Volta do Parafuso também foi adaptado para o cinema – várias vezes, inclusive! –, sendo a versão mais conhecida aquela de 1961, com Deborah Kerr como srta. Giddens.

Os críticos adoraram a obra e a principal diversão em relação a ela é descobrir de onde provinha o terror que assombra a personagem Giddens, uma jovem moça de 20 anos que vai se tornar preceptora de duas crianças, Flora e Miles, numa casa em Bly. Convencida pelo tio das crianças de que ela deveria se responsabilizar totalmente pelos seus sobrinhos – e que nunca deveria incomodá-lo com perturbações relacionadas a eles –, Giddens começa a se desesperar quando, já na casa de campo há alguns dias, começa a perceber presenças estranhas de duas pessoas que racionalmente não deveriam estar ali, haja vista que já estavam mortas. E a situação parece piorar ainda mais quando ela desconfia de que sejam as crianças os alvos daquelas aparições.

Existe na história uma dualidade fascinante entre a objetividade e a subjetividade. Elas se misturam, moldado a história numa massa às vezes indiscernível: às vezes, parece tudo é extremamente palpável, enquanto outras vezes a situação toda parece decorrer da mente doente da srta. Giddens. E isso causa uma ambigüidade muito interessante na obra, de modo que podemos trabalhar a interpretação de dois modos muito distintos, na qual se pode seguir a linha de pensamento da realidade dos fantasmas e a linha de pensamento da sanidade da preceptora. Particularmente, em relação ao livro, eu acredito que o tom de realidade tenha sido, para mim, mais aparente – e, portanto, eu acredito que tudo aquilo tenha de fato acontecido, mesmo que, em alguns momentos, eu tenha questionado se Giddens não era, talvez, esquizofrênica. Logo no começo do livro, pouco antes de ver pela primeira vez o fantasma de Peter Quint, Giddens afirma: “um dos pensamentos que me acompanhavam nessas caminhadas [...] era que seria tão encantador como num conto encantador se eu me encontrasse subitamente com alguém” (2010, p. 37). Como ela mesma havia dito antes, nunca ficara longe de sua família e estava, como depreendemos, encantada por alguém, de modo que, quem sabe, as visões dos fantasmas fossem conseqüência de sua necessidade de deparar com pessoas novas, numa situação em que ela pudesse provar-se digna de estar “num conto encantador”. Porém, as suas descrições extremamente específicas de Peter Quint, o empregado da casa de caráter duvidoso que havia morrido, são por demasiado precisas e não há qualquer indício que ela o tenha já visto antes, seja por foto, por alguma pintura, ou por algum comentário anterior feito por algum empregado a ele. Até Giddens vê-lo no alto da torre, ele parecia simplesmente não existir no universo daquela mulher. Como ela pôde então, sem antes ter conhecimento de fisionomia, tê-lo descrito se, de fato, não tivesse visto o seu espectro?

A característica mais marcante dessa obra é o uso do recurso do fluxo de consciência, técnica empregada por muitos autores modernos e que tomaria grande destaque no ano de 1925, com a publicação de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Definitivamente, nós conhecemos essa história por dois planos: o psicológico, que se desenvolve a partir das suposições, pensamentos e temores da srta. Giddens, e físico, que é aquele no qual vemos as ações dos personagens e elas servem como catalisadoras para reforçar a grandiosidade do plano psicológico. Srta. Giddens supõe que as crianças estejam em perigo e elas, como se corroborassem os seus pensamentos, agem estranhamente. Flora desaparece num determinado momento, de um modo muito improvável, porém inquestionável, haja vista que tal evento é presenciado também por Mrs. Grove, uma das empregadas da casa. Miles, num episódio marcante, sai da casa e fica no jardim, já quando deveria estar dormindo, sem propósito algum, a não ser, como ele mesmo disse, para que ela achasse que ele era mau.

Ocorre, às vezes, uma intersecção desses dois planos, criando momentos em que o sobrenatural parece muito aguçado e definitivamente compartilhado por todos os personagens. Isso é obtido por muitos recursos, como fugiras de linguagem capazes de estarrecer: há um momento de extrema sinestesia, quando Giddens e Miles estão conversando no quarto do garoto e ela afirma: “A resposta ao meu apelo foi instantânea, mas veio sob a forma de violenta rajada de vento, de uma golfada de ar gelado que sacudiu todo o quarto” (2010, p. 132) – isso imediatamente anterior à confissão de Miles de que havia sido ele o responsável por assoprar a vela e apagá-la, quando Giddens supunha ser uma conseqüência advinda de todo aquele vento. A janela, como ela mesma comprova, estava fechada. Aí, cabe ao leitor perguntar-se exatamente o que aconteceu, haja vista que, segundo a descrição de Giddens, há uma série de fatores em simultaneidade: a rajada de vento, o ar gelado, a escuridão do quarto, um grito que ela ouve e supõe provir de Miles.

Devo dizer que essa narrativa de Henry James é por demais envolvente, não me restam dúvidas de que seja uma das grandes obras a trabalhar com o fluxo de consciência e ser capaz de arremessar o leitor para dentro do universo aparentemente irracional e assombrada das personagens desse livro, que vivem em constantes augúrios, sempre acompanhados de recursos narrativos que engrandecem o discurso. Ainda que em momento nenhum tenhamos algum conhecimento efetivo e comprovado sobre o passado de Peter Quint e srta. Jessel, a mulher que anteriormente cuidava das crianças e que se enamorara de Quint – são eles os fantasmas da história –, não duvidamos em momento algum de que eles sejam realmente maus e isso se deve ao excelente argumetum ad hominem empregado ao longo da trama, na qual as personagens atacam diretamente o caráter dos fantasmas a fim de caracterizá-los como perigosos. Henry James conseguiu reunir numa narrativa relativamente curta – nem chega a duzentas páginas – toda a composição maravilhosa, cheia de suspense. Mais de 60 anos depois, John Mortimer, William Archibald e Truman Capote – o último, autor de Bonequinha de Luxo – adaptaram esse livro para o cinema e ele se tornou Os Inocentes, com Deborah Kerr no elenco. Indubitavelmente, isso reforçou a dubiedade presente no livro, haja vista que o filme é exponencialmente mais ambíguo do que o livro, que, para mim, é um dos melhores já lidos!

Bibliografia:
JAMES, Henry. A outra volta do parafuso. Tradução de Brenno Silveira. São Paulo: Abril, 2010.