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30 de jun. de 2012

Adaptação


Adaptation. EUA, 2002, 114 minutos, comédia. Diretor: Spike Jonze.
Provavelmente uma das melhores metalinguagens do cinema. Não fosse por Nicolas Cage, o filme seria verdadeiramente perfeito.

Confesso sempre ter havido algo que me fazia querer assistir a esse filme e outro algo – esse facilmente identificável: Nicolas Cage – sempre me refreava. Criar esse especial sobre Meryl Streep foi um grande motivo para finalmente me colocar a frente dessa fita e finalmente conferi-la, somente para descobrir que eu estava bastante enganado ao não tê-la visto antes, sobretudo porque se trata de uma grande obra, dessas que merecem atenção e que não podem não estar presentes na lista dos filmes vistos de algum cinéfilo.

Difícil apresenta a sinopse desse filme porque ela é o filme, literalmente. Charlie Kaufman traz a história de um personagem – ele mesmo – que tenta adaptar um livro chamado The Orchid Thief, escrito pela repórter Susan Orlean, sobre um homem cuja notoriedade aconteceu devido aos constantes roubos de orquídeas, mesmo em reservas nas quais ele definitivamente não poderia entrar. Dois planos se estabelecem: um no qual o personagem Kaufman tenta lidar com sua dificuldade em escrever um roteiro sobre um livro que ele acaba entendendo como inadaptável e outro no qual se apresenta a relação de Susan e John Laroche e as diversas perturbações que surgem ao longo de sua vivência enquanto pesquisador e objeto de pesquisa.

 Chris Cooper e Meryl Streep interpretando John Laroche, o expert em orquídeas, e Susan Orlean, a jornalista que investiga Laroche e seus métodos de colheita de material de análise.

Escrever sobre esse filme não é fácil, sobretudo porque o universo que ele abrange – seja no seu enfoque ou na sua produção – é muito maior do que o conteúdo exclusivamente encerrado no universo cinematográfico. Talvez, para começar, é importante ressaltar que Charles Kaufman, Susan Orlean e John Laroche são personagens verídicos, cujas vidas foram transpostas para as telas, não sem antes sofrerem algumas modificações básicas.  Também considero relevante dizer o livro The Orchid Thief (1998) também é real, já que Orlean realmente se dedicou à pesquisa sobre o cultivo e uso das orquídeas, sobretudo as raras, encontradas por Laroche nas diversas vezes que ele se apropriou de uma espécie praticamente extinta dessa planta. Mais a fundo, é necessário esclarecer que Kaufman já declarou ter verdadeiramente tentado adaptar o livro de Orlean, mas, enfrentando uma dificuldade imensa na transposição do caráter jornalístico da história de Laroche, ele decidiu escrever sobre essa sua dificuldade.

Compreendamos: Charles Kaufman, tentando adaptar um livro que ele julgou inadaptável, decidiu escrever um roteiro sobre ele mesmo, Charles Kaufman, tentando adaptar um livro que ele julga inadaptável. Ousou ainda mais: também escreveu sobre a veracidade acerca das pesquisas de Orlean com Laroche. Não bastando, mais um desafio: duplicar-se na figura do gêmeo inexistente Donald Kaufman (transpondo-o inclusive para a vida real, num processo inverso a tudo o que fez nesse filme, em que trouxe elementos da vida para a arte). Finalizando, deu aos personagens de Susan e John certa ficção, transformando-os em amantes e, mais do que isso, em consumidores de drogas extraídas a partir do extrato das orquídeas.

Spike Jonze, Charles Kaufman e Donald Kaufman (uma vez que o roteiro do filme é dos irmãos, devo atribuir também ao gêmeo os créditos por esse filme) realmente apresentaram uma obra cuja estrutura é, senão inteligentíssima, decerto um dos melhores trabalhos metalingüísticos que o cinema já viu, superando inclusive os trabalhos apresentados em “Cantando na Chuva” (1952), “A Noite Americana” (1973) e “Lembranças de Hollywood” (1990), sendo todos files que, em sua essência, abordam a indústria cinematográfica e o seu relacionamento consigo mesmo, nos mostrando os bastidores, as gravações, o processo artístico por trás do objeto de trabalho que um filme é. Considero essa uma obra simplesmente genial, porque ela não tem medo de transformar a realidade em arte ficcional (basta ver que todos os personagens são reais com histórias remodeladas) e, ainda, fazer o inverso, levando à realidade elementos fictivos. Não é à toa que Donald Kaufman, uma criatura que existe exclusivamente no universo artístico da ficção, mais especificamente nessa obra de 2002, foi nominado ao Oscar pela escrita desse roteiro, juntamente com seu irmão, Charles Kaufman, o “verdadeiro” autor do roteiro.

 Nicolas Cage dando vida aos gêmeos Charles e Donald.

Muito do filme se perderia não houvesse a edição de imagens que, dinamicamente, nos transporta da história dos aparentemente rivais irmãos Kaufman para a história de Susan e sua tentativa de entender que maravilha existe por trás das orquídeas, já que elas são objeto de atenção de um homem que, segundo as expectativas de Orlean, é muito interessante. Gosto especialmente da função da flor nas três histórias indubitavelmente reais: John Laroche, o ladrão de orquídeas, é o que é porque está sempre à procura de espécies raras e/ou em extinção; Susan Orlean, a repórter, viu em Laroche um tema interessante no qual se focar em sua pesquisa; Charles Kaufman, o roteirista, depois de analisado o livro de Orlean, achou-o adequado para uma história cinematográfica. O resultado é esse filme no qual a flor continua sendo o objeto de atenção de todos os personagens, mas gosto especialmente de sua simbologia na história da repórter: depois de acompanhar Laroche e descobrir o máximo que podia sobre sua vida, a repórter queria experimentar a sensação de encontrar um espécime raro da flor, então ela e Laroche saem à procura da inspiradora Orquídea Fantasma, que é um dos maiores tesouros para ele. Quando se deparam com ela, depois de percorrerem um laborioso caminho num pântano, finalmente a encontram – e Orlean se mostra decepcionada, uma vez que, afinal, constata ser apenas uma flor, não muito diferente de qualquer outra orquídea que já tenha visto antes; mais tarde, porém, ela descobrirá ser a orquídea a fonte de uma de suas maiores felicidades: a droga.

Meryl Streep e Chris Cooper com certeza são o ponto alto dessa produção. Acredito que os dois desenvolveram seus personagens de tal modo que é dificílimo não observá-los e crer que eles fazem jus às pessoas reais de que derivam. E eles souberam conquistar o espectador, mesmo que eles retenham características que notadamente os marginalizam. A começar pelo físico de John Laroche – já num primeiro momento, ele nos causa uma impressão estranha, justamente pela falta dos dentes da frente, cujo porquê é mais tarde explicado, causando no espectador uma sensação de agonia, sobretudo por causa do afastamento inicial em relação ao personagem. Já Susan é uma figura que aparentemente nos causa simpatia, mas partilhamos do seu descontentamento ante a tão esperada orquídea. Depois, há uma estranha – e extremamente simpática – união dela com Laroche, resultando num casal estranho, mas maravilhoso, que fica pelado numa casa num rancho cheirando o pó da orquídea e transando.

 Meryl Streep e Spike Jonze nos bastidores do filme.

Spike Jonze definitivamente transforma essa sua obra em algo verdadeiramente interessante que deve ser visto. Nenhum cinéfilo deve deixar essa obra passar em branco, pois ela definitivamente é uma das melhores produções da última década, e, não bastasse isso, ainda apresenta uma das melhores interpretações de Meryl Streep e, também, um momento interessantíssimo de Chris Cooper, na única interpretação sua nomeada ao Oscar. O grande problema do filme: Nicolas Cage. Afinal, ele sempre atua embasado em cacoetes terríveis que não acrescentam nada à atuação – mas aqui ele consegue não perturbar a trama, está aquém dos outros atores, mas, ainda assim, aceitável e quase satisfatório. O grande mérito está nas atuações de Meryl e Cooper, no roteiro de Kaufman – genial, insisto! – e na direção de Jonze, que soube bem como encaminhar o seu filme para um ritmo interessante, que somente valoriza a trama, que facilmente poderia ter se tornado confusa. A meu ver, este é facilmente um dos meus filmes preferidos e acredito que um dos files preferidos dos cinéfilos também.

7 de jan. de 2011

Ken Park

Ken Park. EUA, 2002, 96 minutos. Drama.
Larry Clark conseguiu criar uma obra que choca por sua superficialidade, exibe sexo descontextualizado e incomoda - com razão - as pessoas que buscam um filme mais sério e denso, com algum tipo de crítica social.

Após vê-lo apresentado pelo Hugo, do Cinema - Filmes e Seriados (clique aqui para ver), eu fiquei curioso para conhecer essa obra. Ao pesquisar sobre ela, outro fato me chamou a atenção: Larry Clark, o diretor desse longa-metragem, tem também outro filme bastante polêmico em seu currículo. Curiosamente, ambas as obras têm enfoque no cenário adolescentes e nos problemas em torno dos jovens, principalmente a respeito da sexualidade. Lendo breves sinopses, concluí que Ken Park poderia ser um bom filme. E poderia mesmo.

O acerto do filme é mínimo. Ele mostra grupos não-esterotipados e pouco comuns de jovens: uma garota bem "acesa" que vive sob a guarda religiosa do pai; um garoto que se envolve com a namorada e com a mãe dela; um garoto rejeitado pelo pai, que o trata de modo rude, assumindo que o filho seja homossexual; um garoto que vê sua privacidade invadida pelos avós, com quem mora. Por fim, há Ken Park - personagem título do filme que logo no começo se suicida diante de todos do colégio. Esse aspecto do filme é interessante, pois ele retrata a vida de tipos difíceis e esse poderia ser o motivo principal para a concepção de uma boa obra cinematográfica.

Cada personagem tem seu momento em cena e todos têm suas vidas contadas parcialmente, já que todo o filme se passa em um dia. Porém, pelo excesso de personagens, é difícil contar com eficiência a história de todos sem que surja um tom de superficialidade, pois parece muito coincidente que todos passem por tudo o que passam no mesmo dia. Um pensamento fica em nossa mente: são amigos porque são rejeitados pela sociedade? Mesmo que pensemos assim e concluamos que seja isso mesmo, é improvável que todos aqueles eventos aconteçam simultaneamente com todos eles. Compreendi o intento do diretor: mostrar um retrato da vida dos quatro jovens. Isso explica o porquê de exibir um dia na vida deles, ou seja, tal como numa fotografia, o que se registra é apenas um momento e não uma sequência grande deles. O roteiro poderia ser muito bom; não o é, no entanto. E isso se deve exatamente ao pouco que é mostrado e ao tanto que é deixado para se subentender - assim, toda e qualquer densidade parece pouca, tornando o filme apenas "mais um" e dispensável.

Muitos se chocam com as cenas de sexo. Alguns até as consideram explícitas - e algumas são mesmo. No entanto, não acho que elas atrapalhem o desenvolvimento do filme e a nota baixa que eu dei à obra decerto não está relacionada à pronografia e ao erotismo exibidos. De certa forma, a maneira crua como o sexo é mostrado - com direito a cenas de sexo oral e ménage à trois - intensifica a proposta do diretor, porém não surte o efeito desejado, já que elas pareçam bastante descontextualizadas. Um bom exemplo é a cena em que Tate se masturba enquanto se enforca e, ao mesmo tempo, vê um vídeo de duas tenistas em plena disputa: o que poderia ser uma cena interessante se torna desnecessária e feia e isso resulta na raiva que alguns sentem pelo filme.

Honestamente, eu o acho um filme infeliz. Principalmente quanto ao roteiro e à abordagem da trama.  Não há nada que valha realmente a pena e até mesmo o título parece não ser justificado ao longo da exibição. Larry Clark não mostra nada que seja verdadeiramente produtivo aos olhos de quem vê o filme e acho que não seria totalmente estranho se esse filme ficasse esquecido nas prateleiras das locadoras. Vejam-no somente se estiverem com muita curiosidade. Caso contrário, abstenham-se simplesmente de conferi-lo.

10 de dez. de 2010

Cálculo Mortal

Murder by Numbers. EUA, 2002, 120 minutos. Suspense.
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Uma vez, estava passeando pelas prateleiras da locadora e acabei pegando esse filme. Esses dias, decidi revê-lo. Um dos motivos principais por eu gostar desse filme é a presença de Sandra Bullock, que desta vez optou pro atuar num filme que fuja do gênero ao qual ela quase sempre está envolvida: comédias românticas e/ou romances. Não somente atuou como também dirigiu esse thriller, que fala sobre dois adolescentes de comportamentos bastante diferentes que decidem orquestrar um crime incapaz de ser solucionado. O crime começa a ser analisado por Cassie e Sam, ela já experiente e ele novato, e aos poucos eles descobrem que tudo parece realmente complicado demais...

A história não é assim tão nova. Muitos outros filmes já abordaram supostos "crimes perfeitos", mas apesar de não ser supercriativo, Cálculo Mortal é um filme interessante, capaz de render bons momentos de entretenimento. A escolha do elenco foi bem importante, afinal os astores Ryan Gosling e Michael Pitt já tem aparências antagônicas. No filme, estão em sincronia e concebem uma afinidade surpreendente entre os personagens, que cambiam entre a amizade e o romance. Ainda que não seja explícita, fica clara a relação homossexual entre eles, principalmente quando percebemos a maneira gentil e romântica com a qual Richard acaricia o rosto de Justin. Só faltou um beijo pra selar o compromisso dos garotos. Cassie certamente era a pedra no sapato deles. Já li alegações de que o filme peca por ela desconfiar deles sem motivo. Acredito que aquilo que faz com que ela rapidamente desconfie é a experiência que ela tem, não somente como investigadora, mas também como pessoa, uma vez que ela guarda aquele segredo bem mal desenvolvido ao longo do filme.

O que mais empolga no filme é o desenvolver da investigação. Os garotos são realmente espertos e devem ter visto bastante CSI antes de planejar aquele crime. A convicção de Cassie provém primeiramente do fato de o "perfil não se encaixar no perfil", como ela mesma diz. É só uma questão de tempo até ela relacionar os dois, o que acaba acontecendo. Praticamente dura metade do filme a investigação, depois o resto corresponde à tentativa de conectá-los efetivamente à cena do crime, que se mostra bastante complicado. O roteiro se desenvolve lento, intercalando o caso que os policiais tentam desvendar, o desenrolar da vida pessoal dos dois garotos e, a somar, o envolvimento romântico entre Cassie e Sam e ainda os problemas que ela enfrenta. Quanto à atuação, elas certamente são interessantes, com destaque para o complexo Justin, numa interpretação interessante de Micharl Pitt - que já parece estranho sem trejeitos de nenhum personagem. Ryan Gosling faz o típico sedutor - sua presença é notável, sua fala é macia, seu jeito conquista. Sandra Bullock em nada lembra as mocinhas românticas dos seus filmes anteriores. Mesmo que sorria às vezes e que faça algumas piadinhas, sua personagem é essencialmente fechada e distante, caracterizando uma interpretação mais sóbria e séria, mostrando que Bullock é carismática mesmo quando não está digirindo ônibus a 100km/h ou esperando que homens acordem ou ainda vivendo policiais em concursos de beleza. Ben Chaplin dá um bom suporte às cenas, mas é inegável que ele some quando está ao lado de Bulloock.

Cálculo Mortal definitivamente não é melhor filme de suspense que você vai ver, mas vê-lo garante bom entretenimento e uma boa dose de raciocínio, já que o espectador precisa compreender algumas coisas junto com os investigadores. Certamente é um filme válido para se ver numa noite de chuva ou numa noite em que você quer pensar, mas sem se desgastar com teorias complicadíssimas.

26 de nov. de 2010

Longe do Paraíso

Far From Heaven. EUA, 2002, 111 minutos. Drama.
Indicado a 4 Academy Awards: Melhor Atriz, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora.
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Primeiro: o que me levou a assistir a esse filme foi o tema dela e a indicação de Julianne Moore ao Oscar. O filme fala sobre uma mulher casada e com dois filhos cujo tempo se divide entre atender as necessidades do marido e dos filhos, promover festas e eventos sociais, dar entrevista a revistas locais sobre comportamento, etc. Um dia, ao levar o jantar para o marido, ela o encontra aos beijos com outro homem e descobre a partir daquele momento que sua vida não era tão boa como ela imaginava que fosse.

O sexo é um assunto bastante debatido hoje em dia, mas é inevitável não chocar as pessoas quando a abordagem é a homossexualidade. Assim, achei interessante ver esse filme porque ele não foca exatamente um relacionamento homossexual, mas na transformação causada pela descoberta de que alguém próximo tenha essa preferência. Longe do Paraíso contextualiza bem essa situação: a personagem de Julianne Moore segue uma vida exemplar e se enquadra no modelo-padrão de dama da high society. Como agir frente à revelação de que seu marido seja gay? Temos ainda que considerar que essa discussão torna-se ainda mais perigosa quando pensamos no ano em que os personagens estão inseridos. Se hoje já é difícil conversar abertamente sobre sexualidade e seus derivados, imagine como devia ser na década de 1950. A discussão que o filme propõe não pára por aí. A somar, há o pequeno "problema" na relação gentil entre Cathleen e Raymond, o seu jardineiro: ele é negro. Numa sociedade na qual os negros devem estar num patamar inferior, como manter-se fora do alvo das fofocas se se relaciona bem com um empregado que é negro? Numa época em que a segregação é clara, tratar-se com carinho é sinônimo de ser consdescendente, de modo a enteder que o negro - por ser negro - desrespeita a alguma norma da sociedade.

O filme é eficiente ao mostrar bem todos os aspectos pelos quais Cathleen, a personagem de Julianne Moore, passa.  Primeiro, o choque em relação à descoberta que fez sobre o marido; depois o relacionamento conturbado com o jardineiro. Inquestionavelmente, ela se choca ao saber do marido, mas permanece ao seu lado devido à crença de que, sendo doente e precisando de ajuda, eles podem voltar a ser felizes. Vale ressaltar que até 1986, homossexualidade era considerada patologia nos registros médicos. Dessa maneira, no ano de 1958, ser homossexual consistia em ser portador de um desvio de saúde. Dado o fato, cabia à boa esposa acompanhar o marido em seu processo de recuperação, mesmo ele percebendo que se tratava de um tratamento inútil. De tal maneira fonte de vergonha, era necessário manter tudo em segredo. Envolve-se amigavelmente com o jardineiro, tornando-se sua amiga, sobretudo. Nele encontra a fuga necessária para os seus problemas e, uma vez com ele, não se lembra de todos os problemas que encontra em casa. Pouco a pouco, percebe uma inversão de valores: as aparências enganam e a verdade se esconde. Não somente a homossexualidade e o preconceito estão expostos no filme, mas ele também aborda a fraqueza da sociedade. A pessoa ideal é aquela que presta caridade, ajuda as pessoas, convive bem com os outros - desde que esses "outros" sejam brancos. Temos ainda inserido no contexto do filme a grave hipocrisia das pessoas, que cada vez mais ampliam a diferença que se faz entre negros e brancos - desconsiderando, obviamente, que são todos iguais.

O destaque especial vai para a atuação de Julianne Moore, que em 2002 estava num dos melhores anos de sua carreira. Grande destaque para ela no filme As Horas e Longe do Paraíso. Tanto é que recebeu dupla indicação ao Oscar, por este como lead actress e por aquele como supporting actress. Eu confesso que sua interpretação realmente não me tocou como sua ótima personificação de Laura Brown, de As Horas, mas vê-la tão simpática e meiga em meio a um tumulto de sentimentos realmente valeu o tempo que dediquei a ver o filme. Sua performance é simples, bastante correta. Eu realmente não vi grandes cenas que favorecessem uma atuação mais densa, mas, ainda assim, Julianne Moore fez um trabalho notável. Já Dennis Quaid e Dennis Haysbert tornam-se pequenas figuras na trama - o segundo tem maior destaque, principalmente nas cenas em que o foco é Cathleen. Pode parecer estranho, mas é isso: nas cenas com ela, ele se destaca. Devo acrescentar também que o título é de extrema importância e é supercontextualizado: sua vida era perfeita até que ela descobriu não ser feliz e, como se não bastasse, virar alvo dos comentários das pessoas e chegar ao ponto de ver sua melhor amiga se afastar. Assim, ela estava realmente longe do paraíso em que pensava viver. Acredito que devido a direção simplória, o filme não atingiu o seu ápice. O tema debatido é tratado com muita suavidade, como se não houvesse consequências. Minha interpretação tornou-se mais potente do que aquilo que o filme mostra e, ao terminar de vê-lo, contentei-me mais com o que discorri do que com vi.

Acho que Longe do Paraíso seja um filme mediano. Ele tinha forças e elementos que o tornariam grandioso, mas se limitou as divagações emocionais da personagem principal e não abordou bem os vários outros elementos, que estão presentes, porém em intensidade menor do que poderia estar. Ainda assim, ele permite uma boa discussão e é por isso que eu o recomendo. Também vale a pena por ver Julianne Moore tão bela, tão simpática... Curioso que as duas indicações que a atriz recebeu foi por interpretar personagens com problemas familiares, que vivem mais ou menos na mesma época...

4 de set. de 2010

A Identidade Bourne

The Bourne Identity. EUA, 2002, 118 minutos. Ação.
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Demorei muito para que eu visse esse filme. Quando todos já gostavam dele ou o detestavam, eu ainda não tinha uma opinião acerca dessa obra. Então, quando o Hugo, do Cinema - Filmes e Seriados, comentou que prefere as cenas de ação dessa trilogia às cenas de ação de O Procurado, eu decidi que tinha que ver para comprovar e, por fim, poder dizer que eu também tinha visto a trilogia.

Um rapaz é encontrado jogado no mar e depois de trazido para dentro de uma embarcação, o médico do barco descobre que o homem possui, sob a pele, um chip. Sem ter noção de quem é, esse homem, que despois descobrirá ser Jason Bourne, sai em busca de informações a respeito do que aconteceu com ele. Em seu caminho, descobrirá que está sendo caçado e que cuidado é essencial para que não morra.

Todo mundo sabe que minha preferência é por dramas, mas eu tenho umas recaídas constantes por filmes assim e gosto de ver perseguições de carros, tiros, muita violência - e por isso gosto também de filmes como Kill Bill, Busca Implacável e, como citado acima, O Procurado. Sei diferenciar bem as funções dos filmes e eu os avalio conforme o gênero em que estão. Dessa maneira, afirmo com segurança que A Identidade Bourne é um filme muito bom dentro de seu gênero, porque consegue fazer o espectador entrar no clima da perseguição e ainda pode ver boas cenas de luta. O roteiro do filme começa bem: tal como o personagem, o espectador não conhece muito, mas sabe que há um grande perigo acerca do personagem principal, afinal, por que haveria de ter um chip escondido sob a pele de alguém? De maneira ágil, com algumas cenas intercaladas, o roteiro vai nos apresentando a cilada na qual Bourne está. Logo nos primeiros trinta minutos, ele já descobre o seu nome, mas ainda não sabe quem ao certo ele é e por que está sendo perseguido. Só no quarto final de filme é que nós realmente sabemos tudo, mas, sem que o filme perca o fôlego, nos entretemos normalmente até que seja feita a descoberta.

Matt Damon não é um dos meus atores preferidos, mas ele está muito bem como Jason Bourne. Expressão concisa com a racionalidade do personagem, atos necessários e calculadas - o ator soube como incorporar o personagem e transmitir bem toda a segurança e a insegurança pelas quais Bourne passa. Acho que minha opinião foi mais favorável também porque o ator causa certa simpatia, mesmo que não sorria muito. Franka Potente também está bem em seu papel e, em atuação, está no mesmo nível que Damon. Só não achei que havia química entre o casal principal e algumas cenas, principalmente as de romance, soavam incoerente tanto com o filme quanto com os atores. Julia Stiles, que também não é nenhuma suntuosa atriz, ficou com uma personagem de significância perceptível na teoria, mas que na prática, ou seja, conforme o filme a mostra, não tem serventia nenhuma. Ainda assim, é bom ver um rosto bonito em cena - mesmo que isso não sirva pra nada. Clive Owen, em sua pequena participação, não mostra muito do seu talento. Ele apenas serve como figurante ou, sendo mais justo, como ator quaternário.

A ediçãod e imagens é realmente muito boa e isso faz com que a dinâmica do filme seja ainda maior. Os efeitos sonoros não são exagerados e não deixam o espectador semi-surdo e isso é definitivamente uma qualidade num filme em que há batidas de carro, tiros, etc. O filme possui boas cenas de ação e é capaz de entreter o espectador, que gostará daquilo que vê. As duas horas parecem durar menos e, com isso, o filme ganha mais, já que dificilmente alguém vai querer apertar flash-forward. Na minha opinião, O Procurado tem cenas mais exageradas de ação, mas, de qualquer maneira, o filme também possui um aspecto mais exagerado, logo, as cenas são coerentes com a proposta do filme. Em A Identidade Bourne, que procura mostrar algo mais sério, a sua proposta também é cumprida e, no final, fiquei bastante satisfeito, porque esperava um filme menor, menos divertido. Acho que vale a pena ver.