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10 de jan. de 2012

Corra, Lola, Corra

Lola Rennt. Alemanha, 1998, 80 minutos, ação. Diretor: Tom Tykwer.
Um filme bastante dinâmico e divertido, decerto uma das melhores produções alemães. Nos responde à seguinte pergunta: e se aquilo não tivesse acontecido daquele jeito, como seria? Vale conferir, com certeza.

Havia muito tempo que eu queria ver esse filme e esse é mais um dos vários que o Pedro me passou e, por isso, eu o agradeço de novo (e ainda há mais para agradecer). Sempre ouvi pessoas fazendo bons comentários e sempre quis vê-lo. Quando finalmente assisti ao filme, pude concluir que é uma das obras mais interessantes que conferi recentemente.

O filme nos conta a mesma história três vezes, modificando alguns eventos-chave e reconstruindo toda a situação a partir da mudança desses acontecimentos. Lola recebe uma ligação do seu namorado desesperado, que precisa arrumar 100 mil dólares em vinte minutos. Então, temendo que ele tome alguma atitude impulsiva e muito errônea, ela decide ajudá-lo, indo ao seu encontro e tentando encontrar um meio de conseguir o dinheiro.

O desenho animado dá um ar especial a essa obra, tornando-a bem mais divertida.

O grande mérito do filme é exatamente recontar a mesma história mais de uma vez, fazendo com o que espectador acompanhe a trajetória de Lola em três situações diferentes. Vale ressaltar que o que há de mais interessante é o modo como o filme incentiva a nossa curiosidade e ao mesmo tempo sacia uma dúvida: e se pudéssemos reviver alguma coisa de um jeito diferente? Lola nos mostra o que aconteceria. Por exemplo, num primeiro momento, ela desce as escadas desesperadamente, encontra um cachorro feroz no caminho, o que lhe faz hesitar e prossegue o seu caminho, colidindo com pessoas, quase sendo atropelada, interagindo com pessoas na rua. No segundo momento, desde as escadas correndo e cai, fazendo com que se atrase um pouco por causa da queda em si e da perna machucada pelo tombo, fazendo-a correr mancandoo que a atrasa em relação aos mesmos eventos mostrados na primeira sequência. No último momento, ela desce extremamente rápido, adiantando-se em relação às duas vezes anteriores. Então, o filme nos mostra como as coisas poderiam acontecer – e as quais seriam as conseqüências delas – se nós pudéssemos viver um acontecimento e depois revivê-lo, para descobrir qual seria o melhor modo de ele ser concebido.

 Características histriônicas ajudam o filme a conquistar a nossa simpatia.

O modo como o filme brinca com o tempo é realmente muito válido. Cada seqüência tem aproximadamente 20 minutos e, ainda que se repita três vezes, não temos a impressão de que esteja tudo repetido. A história se reinventa dentro de si mesma e os time loops utilizados soam positivamente. Entre cada cena, há um momento introspectivo, decerto não pertencente ao plano real, no qual Lola e Manni, seu namorado, dialogam sobre um assunto delicado – como o relacionamento deles e sobre possíveis dissoluções. Outro fator positivo, além das viagens temporais, é também a mistura de realidade com animação, sendo esse um plano que surge no começo de cada nova seqüência e também nos créditos iniciais, que são bem longos e indicam muito do que haverá no filme. A somar, há o conjunto direção-atuação, que resulta num aspecto muito positivo do filme. Tanto Franka Potente quanto Moritz Bleibtreu, respectivos intérpretes de Lola e Manni, compõem personagens críveis e simpáticos – mesmo ele sendo impulsivo e um pouco irracional, ele conquista a nossa simpatia. O mesmo pode ser dito sobre Lola, que nos cativa com o seu desespero e seu jeito desengonçado de correr – e também de gritar! Tom Tykwer, responsável pelo monótono “Perfume – A História de um Assassino” (2006), aqui nos traz uma obra elogiável e muito interessante, com uma dinâmica excelente e com uma série de características que somente fazer aumentar o apreço do espectador pela obra. Assim, não há como negar que o conjunto seja extremamente válido e que exatamente por isso essa seja uma produção extremamente elogiável.

Sei que valeu a pena ter assistido a esse filme. “Corra, Lola, Corra” é uma produção alemã que merece atenção e que parece bastante recente, embora já tenha completado treze anos. Além de proporcionar um entretenimento muito válido, ele ainda possui aspectos com bastante qualidade e um roteiro que nos faz pensar. Após tê-lo visto, me lembrei de um acontecimento importante e pensei comigo mesmo: e se, nessa situação, tal como aconteceu com Lola, eu tivesse torcido o tornozelo e me atrasado? Aposto que vocês pensarão algo semelhante quando conferirem o filme.

30 de dez. de 2011

Carnage

Carnage. França / Alemanha, 2011, 77 minutos, comédia. Diretor: Roman Polanski.
Um filme singelo, com alguns momentos engraçados, alguns dramáticos e um bom desempenho dos atores em situações bastante inesperadas.

Eu estava ansiosíssimo para assistir ao filme Carnage, ainda sem título definido no Brasil, justamente por causa do maravilhoso elenco e do diretor, que nos trouxe, entre outras obras, a interessante produção “O Bebê de Rosemary”, de 1968, estrelando Mia Farrow num filme de terror genial. Decerto a reunião dos intensos Jodie Foster (“O Silêncio dos Inocentes”), Kate Winslet (“O Leitor”) e Christopher Waltz (“Bastardos Inglórios”) resultaria num filme bastante positivo, mesmo que houvesse com eles o mediano - e às vezes irritante - John C. Reilly (“Chicago”). Pois bem, apesar das minhas ânsias, o filme não estreou aqui na minha cidade nem eu nenhum lugar no Brasil, eu acho; baixei-o, pois, e o conferi.

Toda a parte substancial da história se passa num apartamento e isso acontece praticamente do começo ao fim da trama, havendo apenas um pequeno prefácio e um posfácio, mas que nada acrescentam verdadeiramente à trama. Assim, ficamos focados em pouco mais de uma hora na qual os personagens se reúnem para discutir a situação de seus filhos, já que Zachary, filho de Nancy e Alan (Winslet e Waltz), agrediu Ethan, filho de Penélope e Michael (Foster e Reilly), com um bastão, prejudicando-lhe os nervos dos dentes. O encontro dos pais consiste basicamente em discutir o porquê de aquilo ter acontecido além de tentar encontrar uma alternativa para que os filhos se encontrem e possam se desculpar. Mas o que eles percebem é que eles mesmos não sabem exatamente como lidar com a situação, já que deixam a todo o momento transparecer os seus descontentamentos com a discussão e com o novo rumo que ela toma bem como demonstram os problemas que trazem em seus casamentos.

 Quatro pessoas e um suposto encontro "civilizado".

Talvez a característica mais notável seja o fato de que todos estão ali desconfortáveis por estar ali. Nem mesmo os anfitriões estão totalmente à vontade naquela conversa, que percorre caminhos tortuosos à medida que eles passam mais tempo juntos. Cabe ainda apontar a evidente desatenção de Alan, que fica falando no celular devido ao seu trabalho, o que apenas prolonga a estadia do casal convidado na casa do outro casal - e o que apenas acrescenta ainda mais tensão e incômodo aos outros três personagens, que, num determinado momento, já se mostram bastante irritados com aquela situação de constante interrupção. Curioso notar a rápida mudança de comportamento dos interessados - a princípio, a calmaria e a compreensão parece predominar, não sem acompanhá-las também alguma dose de tensão, mas logo, em parte por causa da insistência de Michael para que tomassem café ou comessem torta ou ainda comesse pizza faz com que os dois casais fiquem por mais tempo juntos, dividindo algumas experiências e discutindo assuntos paralelos - como o fato de os homens terem sido “líderes de gangues” quando pré-adolescentes e o recente abandono do hamster da família Longstreet por Michael -, que inevitavelmente levam a discussões mais pesadas a respeito da índole de cada um dos personagens.

Nota-se com facilidade que não há como culpar os pré-adolescentes pela briga que tiveram quando seus próprios pais não conseguem chegar a um acordo pacífico, discutindo um casal com o outro e ainda entre si mesmo. Mais interessante do quando Nancy discute com Michael ou Penélope com Alan é quando Nany e Penélope discutem com seus respectivos maridos, criando aí um clima que trespassa a rincha do “meu filho agrediu ao seu”. Percebemos que os personagens vivem problemas de alicerce mesmo e trazem consigo incômodos que pouco têm a ver com a situação problemática vivida por Zachary e Ethan no parque. Como percebemos ao longo do filme, a carnificina sugerida no título original e no meio de um diálogo entre Penélope e Alan, não precisa acontecer num espaço aberto, com as pessoas armadas com bastões ou cercadas por gangues - ela pode perfeitamente acontecer numa sala de estar, entre pessoas ditas civilizadas, enquanto se servem aperitivos e bom uísque - puro malte 18 anos - e cercados por tulipas amarelas e revistas de história de arte e de culturas não-ocidentais. 

 Nancy depois de ter vomitado e estragado as revistas de arte de Penélope e também a roupa do marido.


Me vem uma dúvida quanto à categoria a que o filme pertence. Parece que o drama é a principal característica dele, mas percebo que, na verdade, os elementos do filme o levam a uma tensão dramática que reside não apenas nas situações em si, mas também nesses próprios elementos. Por exemplo, Nancy passa mal devido a dores no estômago e, para ajudá-la, Penélope lhe oferece coca-cola quente, o que, notoriamente, não é uma idéia muito sábia; o resultado: Nancy vomita na sala, sujando Alan e Penélope além de deixar a sala imunda - isso para não falar das revistas de arte da anfitriã - e com mau cheiro. A situação é hilária, principalmente pelo vômito absurdamente inesperado e pelo resultado daquilo: Alan se irrita com o outro casal, por ter ficado oferecendo comida a todo o tempo e também com a esposa, que sujou a roupa com a qual ela compareceria a uma entrevista àquela tarde; Penélope fica enfurecida pelo que aconteceu às suas revistas, Nancy fica totalmente envergonhada pelo que houve e Michael se mostra o único a tentar intermediar a situação, tornando-a um pouco mais suave. Vemos claramente que o cômico e o dramático confluem, havendo bom humor no drama bem como há tensão na vertente cômica.

Como disse no primeiro parágrafo, os atores Kate Winslet, Jodie Foster e Christopher Waltz mostram-se bastante competentes e John C. Reilly, o único mediano do elenco, consegue sustentar-se nesse filme, embora esteja aquém dos colegas de elenco. Não se pode negar que o ponto forte do elenco são as duas mulheres, que praticamente definem todo o andamento do filme, com direito a dois bons momentos, que é quando Nancy discute com Michael a respeito de ele tê-la acusado de negligenciar a educação do filho quando ele mesmo havia abandonado um animal indefeso à sorte, o que provavelmente o levaria à morte, e depois quando Penélope e Michael discutem a respeito de suas perspectivas de vida, numa atuação arrepiantemente singela, que me provou o porquê de Foster ter conquistado uma indicação ao Globo de Ouro e o que me fez pensar bastante se ela, talvez, considerando evidentemente todo o conjunto de sua atuação nesse filme, não merecia a quinta indicação ao Oscar, ao lado dos potenciais nomes de Viola Davis, Michelle Williams, Glenn Close e Meryl Streep. Mas tão humilde que está a divulgação dessa produção que decerto ela não estará entre as indicadas.

 Jodie Foster e Kate Winslet: a vertente dramática e a vertente cômica, respectivamente.

Roman Polanski conseguiu construir uma verdadeira selvageria em ambiente urbano. Nem mesmo o aspecto extremamente cívico do apartamento fez com que seus personagens agissem também cívica e pacificamente, embora eles aleguem isso umas duas vezes. O diretor foi sensato também em não estender a história do que o necessário: em 77 minutos, ou seja, uma hora e dezessete minutos, vemos todos os problemas dos personagens naquele que eles garantem ser “o pior dia” da vida deles. Também devo elogiar o cuidado em não caracterizar os personagens, uma vez que aqui o trabalho entre diretor e elenco foi fundamental para que não víssemos os personagens como criaturas inverossímeis - e isso definitivamente não acontece: somos absurdamente capazes de nos enxergarmos nas atitudes deles. Polanski, pra acentuar o humor do filme, até aparece num cameo: é ele o vizinho que abre a porta quando Nancy está gritando no corredor dos apartamentos. Enfim, o misto de humor e drama me cativou, embora eu não ache que seja essa a melhor interpretação desses atores nem ache que esse seja o melhor filme de Polanski. Mas me soou inegável que seja uma obra interessante para se assistir e, ainda, para ver o excelentemente desempenho de Jodie Foster, que há algum tempo não me impressionava.

16 de mar. de 2011

Tempestade de Verão

Sommersturm. Alemanha, 2004, 98 minutos, drama. Diretor: Marco Kreuzpaintner.
Ainda que não seja inesquecível, essa produção alemã consegue apresentar uma história interessante e também proporcionar alguns momentos de questionamento ao espectador.

Eu sempre achei que a temática homossexual no universo cinematográfica pode render boas histórias e pode – se tudo for composto adequadamente – ajudar no combate ao preconceito. Há filmes muitos interessantes que são capazes de fazer com que os homófobos compreendam que ser gay não é estigmatizar-se em atitudes vulgares, mas amar a alguém que seja do mesmo sexo. Me sinto obrigado a citar três títulos que têm essa capacidade: O Segredo de Brokeback Mountain, sobre o romance entre dois cowboys, e Meninos Não Choram e Assunto de Meninas, sobre o relacionamento entre duas meninas.

Tobi e Achim são amigos há algum tempo e entre eles não há timidez. Suas brincadeiras são bastantes e liberais e, de tão íntimos, são capazes até de se masturbar um na frente do outro. Surge, então, um impasse: como Tobi pode dizer a Achim que o ama sem que isso danifique a relação estável de confiança que há entre eles? Para intensificar o problema, Achim começa a namorar Sandra e Tobi se vê envolvido forçosamente com Anke, amiga de Sandra.

Decerto, o roteiro do filme tinha tudo para ser uma grande obra. Não imaginava que seria uma grande obra cinematográfica, mas a história de Tempestade de Verão poderia render uma excelente parte do universo de filmes bons que abordam a homossexualidade. Os roteiristas, Thomas Bahmann e Marco Kreuzpaintner – sendo este também o diretor, optam por algo bem sutil e leve, que mostra os problemas pelos quais Tobi passa, porém que não se aprofunda totalmente nos vários dilemas que ele enfrenta. Se por um lado, não se aprofundar é um pode ter sido um erro, por outro, é um acerto, afinal o tom suave é inerente ao filme e torná-lo um drama intenso talvez não fosse a melhor alternativa. Cabe ao leitor, então, depreender todas as questões que são feitas a fundo pelo personagem principal.

Uma característica boa do roteiro é não se focar apenas em Tobi. Conhecemos um pouco de todos os adolescentes que o cercam e um pouco dos dilemas de cada um. Sabemos do desejo de Anke por Tobi e como ela reage ao não saber exatamente se ele retribui o afeto ou não. Conhecemos os problemas de Sandra com o próprio corpo, o que a impede de entregar-se totalmente a Achim, melhor amigo de Tobi. Georg, um amigo de Tobi e Achim, me pareceu bastante misterioso, mas nele vemos a passagem de alguém preconceituoso para alguém que é capaz de interações convencionais – ignorando a opção sexual da pessoa com quem ele conversa. Gostei principalmente de Georg porque acho que nele há uma noção implícita de como é a vida de um gay enrustido. Embora não seja dito no filme que o personagem seja homossexual, acredito firmemente que ele seja. E isso torna a sua análise ainda mais interessante, pois tenho para mim que ele seja um homossexual que, para afastar dúvidas alheias quanto à sua própria opção sexual, finge desgostar de gays. Tanto é que, mais tarde, quando ele conversa com um personagem abertamente homossexual e de segundas intenções bastante explícitas, ele se porta sem qualquer problema e quando o personagem o beija, ele reage mal, talvez instintivamente, a fim de proteger a reputação de heterossexual que ele buscava manter.

Logo depois de assistir ao filme, eu cheguei à conclusão de que não havia gostado dele. Achei que os gays assumidos do filme – no caso, um time de atletas da “QueerSchlang” – eram muito pejorativos, afinal dois eram muito afeminados, outro só pensava em sexo. Mas, analisando com atenção – não o filme, mas o meu próprio pensamento -, concluí que não havia nada errado ali, afinal, tal como há heterossexuais machões e outros cujas mentes são apenas voltadas para o sexo, tem que haver isso em relação ao homossexuais também. E, numa das cenas do filme, podemos ver que há também um gay que é bem romântico e não-estereotipado, o que representa uma excelente noção de sociedade composta por Bahmann e Kreuzpaintner: há heterossexuais e homossexuais num mesmo ambiente e há, entre todos, vários tipos sociais sendo representados: ninfomaníacos, infantilizados, vulgares, sensatos, românticos, etc.

Acredito que não haja características contra esse filme. Tempestade de Verão é uma obra suave, que apresenta questionamentos interessantes quanto às atitudes que devem ser tomadas e sobre como as relações são modificadas de acordo com a visão que uma pessoa tem sobre outra pessoa. Tempestade de Verão é uma produção alemã que merece ser vista por dois motivos: prmeiro, porque é uma obra muito válida dentro desse gênero de filme; segundo, para sair do mundinho hollywoodiano. Não posso finalizar esse texto sem antes agradecer ao Ewerton, dono do blog Cereja do Bolo, já que foi ele quem me recomendou e emprestou o filme para que eu assistisse. Recomendo, além de ver o filme, que confiram o blog dele – lá há relatos e crônicas interessantes de sua própria autoria.

18 de jan. de 2011

Marcas da Violência

A History of Violence. EUA, 2005, 95 minutos. Drama.
Viggo Mortensen e Maria Bello em perfeita sintonia, num filme que mantém um clima de suspense interessante e ainda nos faz desconfiar até mesmo de quem conhecemos há muito tempo.

Como a cerimônia escolhida para ser debatida no mês de junho do ano passado no blog Um Oscar por Mês foi a 78ª edição, ou seja, a cerimônia de 2006, eu assisti Marcas da Violência para poder comparar a atuação de William Hurt com a dos outros atores também indicados naquela categoria. Visando basicamente vê-lo em cena, me surpreendi com um enredo bastante interessante, que capta a atenção do espectador e que mostra sem grandes devaneios o quão perigoso pode ser estar ao lado de alguém cujo passado é desconhecido.

Tom Stall é o dono de uma cafeteria no centro da cidade e um dia, ao tentar proteger os clientes de sua loja, acaba assassinando dois homens que invadiram o seu estabelecimento com más intenções. A partir de então, é aclamado como herói local e, para sua surpresa, se torna alvo de um sujeito estranho, que começa a rodear Tom e sua família, acusando-o de ser outra pessoa, alguém de passado sujo. Então, a simples desconfiança toma proporções gritantes quando a perseguição à família se torna mais intensa e fica difícil saber em quem se deve acreditar.

Confesso que o primeiro fator que me deixou feliz foi a escolha dos atores. Viggo Mortensen e Maria Bello, logo no começo, já parecem estar em harmonia, e isso causou a minha rápida simpatia. Não creio que sejam dois grandes atores, mas admito que o entrosamento deles em cena é realmente muito bom e isso perdura do início ao fim do filme. O roteiro prima pela dinâmica, então somos surpreendidos rapidamente com o mote que dará sentido a toda a trama. O mais interessante na construção da história é a ampla divergência inicial; são sugeridas, mesmo que implicitamente, três possibilidades: Tom Stall está sendo confundido, Tom Stall é um cidadão sendo apoiado pelo sistema de proteção à testemunha (e isso implica no fato de que ele deve ter presenciado ou mesmo participado de algum crime) ou mesmo que Tom Stall é Joey, o sujeito que Carl Fogarty procura. Todos essas possibilidades fazem com que a família toda esteja insegura, afinal a qualquer momento uma revelação - ou mesmo uma ação decorrente dessa revelação - poderia afetar para sempre todos os membros envolvidos na trama.

[Parágrafo com bastante spoilers] O que mais me interessou no filme é a dualidade dos personagens. Todos têm dois lados, o bom e o ruim. Tomemos como exemplo o próprio Tom Stall, que é também Joey - o sujeito por quem Fogarty procura. Podemos ver nele os dois lados bastante explícitos: enquanto Tom, ele é um homem honesto, de fala calma, voz macia e totalmente atensioso à família; como Joey, ele é agressivo e ágil e absurdamente impiedoso. O mesmo se aplica ao seu filho, Jack, que no começo busca resoluções através de diálogos, mas depois se torna agressivo e questiona com selavgeria não apenas a função enquanto membro familiar, mas também investe pesadamente contra aqueles que lhe desagradam. Talvez o melhor momento para mostrar o quanto os personagens são movidos pelos seus instintos - e aí fica evidente a dualidade que os rege - seja a cena em que Tom e Edie fazem sexo. No primeiro momento em que isso ocorre, a relação deles é consumida totalmente pela ternura e pela paixão, percebemos isso até mesmo pelo modo como ela se veste (adolescente, provavelmente representando inexperiência); já no segundo momento, há entre eles sexo agressivo e rude, sem toques de gentileza, movidos pelo tesão apenas, caracterizando o seu sexo como animalesco. Essa cena, talvez, seja a melhor do filme - decerto é aquela da qual mais gosto.

Marcas da Violência é um filme cujo título ficaria bem melhor se traduzido literalmente: um histórico de violência. Isso talvez se adeque melhor a tudo que o filme tem a mostrar. O que me deixou realmente surpreso foi a atuação de Maria Bello. Como Edie, esposa de Tom, ela se mostra muito eficiente - não foi à toa que o Golden Globe a nomeou como Melhor Atriz Dramática em Papel Principal. Aliás, outra coisa que me chamou a atenção foi a atuação de William Hurt - como a Academia pôde indicá-lo por uma atuação tão simplista e comum como aquela? Ao lado dos outros atores, ele se mostra totalmente apagado. A sua participação na história de vida violenta de Joey é fundamental, mas até a simples imagem de Joey é mais impressionante que a sua.

Marcas da Violência é um filme que merece ser visto. Muitos podem achá-lo simples demais, talvez até um pouco exagerado, mas eu não vejo nada de absurdo nele. Não duvido nada de que haja muitas pessoas que convivem com Joyes e Tom Stalls e que desconhecem esse fato e que, por conta disso, acabam dormindo com o inimigo achei que o momento fosse bom para uma alusão infame a outro filme. Não hesitaria em conferi-lo mais uma vez, porque ele realmente me entreteve com a sua história e é uma obra que passa despercebida, mas que deveria ser recomendada pelas pessoas que trabalham em locadoras quando os clientes pedem por bons filmes.

28 de out. de 2010

A Última Estação


The Last Station. Alemanha / Reino Unido / Rússia, 2009, 112 minutos. Drama.
Indicado a 2 Oscar: Melhor Atriz (Helen Mirren) e Melhor Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)
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Cinebiografias são muito comuns e anualmente muitas delas são lançadas; algumas passam despercebidas enquanto outras chamam muito atenção. The Last Station nos conta sobre o último ano de vida de Lev Tolstoi e a forma como a sua doutrina influenciava sua própria vida e a vida de seus familiares, inclusive sua esposa, Sofia. Paralelamente, a história de Valentin contada: a forma como se torna um tolstoiano e como isso interferiu em sua construção psicológica.

A Última Estação parece ser um daqueles filmes em que uma incursão sócio-política acontece em meio às características fílmicas principais de uma produção cinematográfica. E isso de certo modo acontece, mas numa intensidade bem menor do que eu imaginei. Até porque, como filme, A Última Estação não me surpreendeu muito, haja vista que só me atraíram as atuações – as de Hellen Mirren e de James McAvoy –, porque o roteiro, a direção, a fotografia e todo o resto não me agradaram totalmente. Muito do filme está embasado nos pensamentos de Tolstoi e na sua corrente filosófica e isso é discutido do começo ao fim, uma vez que é esse o mote do filme, é esse aspecto do roteiro que interliga todos os eventos. Creio que seja necessário compreender um pouco dessa filosofia para que as coisas façam mais sentido ao longo da obra.

Como cinema, acho difícil dizer que esse filme me agradou. Consegui ver neles alguns bons aspectos, mas não houve nada que me fizesse querer vê-lo de novo ou mesmo querer recomendá-lo a alguém. A história abordada pelo roteiro é muito maçante, poucas coisas parecem acontecer e os acontecimentos sempre são circunstantes às crises de histeria de Sofia. Assim, parece mesmo que as quase duas horas de filme servem apenas para mostrar os dramas (às vezes, aparentemente superficiais) da personagem feminina principal. O filme se torna bastante monótono por causa disso, parece que não há o que mostrar além do que descrevi acima. Se por um lado o roteiro é falho, por outro, as atuações são muito boas. Hellen Mirren, indicada ao Oscar como Lead Actress, realmente concebe uma interpretação elogiável. Como a esposa de Tolstoi, Mirren se mostra exemplar, mesmo que, em alguns momentos, sua atuação pareça um pouco exagerada – isso, no entanto, se deve à direção estranha de Michael Hoffman, que peca um pouco ao dirigir. James McAvoy, que co-protagoniza a obra, também se mostra igualmente eficiente em sua atuação. Quanto a esse ator, devo mesmo dizer que gosto dele e penso que ele seja um potencial grande nome, porque se envolve em boas obras e se revelou um bom ator. Creio que ele apenas não foi tão reconhecido pelo seu desempenho porque dos nomes consideravelmente mais fortes de Mirren e de Plummer. Caso isso não tive acontecido, ele decerto teria conquistado um espaço entre os indicados. Christopher Plummer, como Tolstoi, não me convenceu muito e penso honestamente que sua indicação seja por motivos políticos – a Academia simplesmente queria se sentir bem por nunca tê-lo indicado anteriormente.

De um modo geral, penso que haja pouco que tenha me feito querer assistir a esse filme. Pouco mesmo, confesso. Fora as atuações de Mirren e de McAvoy, o resto é muito mediano. Como eu disse no começo, não tenho vontade de recomendá-lo mesmo, então deixo que vocês decidam se querem ou não vê-lo.

19 de set. de 2010

Diários de Motocicleta

The Motorcycle Diaries. EUA, 2004, 118 minutos. Drama

Indicado a dois Academy Awards, nas categorias Melhor Canção Original (Al Otro Lado Del Rio) e Melhor Roteiro Original.
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Diria tratar-se do terceiro filme espanhol a que assisto essa semana, mas não sei se posso considerá-lo assim, afinal o filme é estadunidense, com atores mexicanos e dirigido por um brasileiro. Se leram as análises de E Sua Mãe Também e Tapas, perceberão que citei o charme castelhano da produção; aqui, talvez por ser produzido nos Estados Unidos, segue a linha americana de drama. Assim, tal como muitos bons dramas que vêm de lá, Diários de Motocicleta se revela um excelente drama, que narra a viagem que Ernesto Guevara e Tomás Granado, dois jovens amigos, decidem fazer saindo de Buenos Aires, indo até o extremo sul do continente e depois indo ao extremo norte de motocicleta.

Certamente o roteiro do filme é muito bom, então, tenho que admitir que a indicação ao prêmio fica mais do que justificável ao longo da obra. A maneira como tudo é abordado faz com que o espectador acompanhe a viagem, os prazes e os desprazeres que ela provoca; tudo isso acontece de uma maneira simples, porém muito eficiente. Diários de Motocicleta nos mostra que, embora a jornada seja pessoal, com fins particulares, Guevara e Granado dispõe de humildade o bastante para ajudar a todos que necessitam. As cenas são vistas de maneira bastante objetiva, sem muitas metáforas, sem grandes adornos; desta maneira, nós conseguimos nos apegar aos personagens e aos seus idealismos sem nos confundirmos com outros elementos presentes ao mesmo tempo. Além da história em si - e de outros aspectos sobre os quais falarei mais abaixo -, os efeitos técnicos são muito bons: o filme tem uma edição muito eficiente, que, embora corte trechos da viagem, não interrompe o clima das cenas, dando sempre uma linearidade, conectando-as com as censas anteriores, mesmo que estas não sejam imediatamente anteriores em relação à cronologia; a fotografia também é muito bem utilizada, nos proporcionando a visão de belas paisagens, como aquelas no Chile invernoso, com as estradas e árvores cobertas de neve. A trilha sonora é interessante e a música principal tem muito a ver com os princípios idealistas dos personagens. Para exemplificar, uma das passagens da canção diz sobre todo creo que no todo está perdido. Que melhor frase para justificar o ação de Che ao final do filme? Aliás, recomendo que baixem a música e a ouçam: tão bonita, belamente interpretada por Jorge Drexler. Al Otro Lado del Rio foi a primeira canção em espanhol a concorrer à categoria Melhor Canção Original.

Acho um pouco difícil falar sobre a atuação dos atores, pois a viagem é a verdadeira protagonista, não eles. Há muito ouço falar de Gael Garcia Bernal, mas apenas recentemente dediquei atenção à sua capacidade interpretativa, sendo esse o segundo filme que me volto para analisá-lo. O primeiro fora E Sua Mãe Também e, antes desse, assisti a Ensaio Sobre a Cegueira, porém, não me ative o suficiente para percebê-lo de maneira efeitva na obra. Sem dúvida, é um ator muito competente, que trabalha com seriedade e que nãod eixa a desejar. Como Che Guevara, duvido que haja como repreendê-lo, pois se percebe o quanto o ator dedicou-se ao personagem. Em parceria, Rodrigo de La Serna, mesmo que um pouco apagado ao lado de Bernal, compõe Granado de maneira bem simpática, tornando-o um ótimo companheiro ao sempre honesto e solidário Ernesto. Walter Salles, em seu primeiro filme cuja língua predominante não é a língua portuguesa, conduz os atores muito bem e não acredito haver erros na sua direção. Como ainda não vi os diretores que concorreram ao Oscar em 2005, não posso afirmar se essa direção lhe valeria ou não uma indicação, pois preciso compará-lo aos outros. Mas definitivamente é um dos melhores diretores que o Brasil possui e muitas estrelas famosas estiveram sob seu comando, como Fernanda Montenegro, em Central do Brasil.

Não posso deixar de recomendá-lo, pois é um filme muito agradável, muito bem construído, com ótimas cenas e atuações extremamente satisfatórias. É importante notar a viagem em si, porque ela é um personagem à parte: ela molda os sentimentos e atitudes dos jovens Guevara e Granado e os modificam ao longo do trajeto. O ritmo lento pode ser um incômodo para alguns, mas definitivamente é um filme que eu recomendo às pessoas que gostam de bons filmes.

4 de set. de 2010

A Identidade Bourne

The Bourne Identity. EUA, 2002, 118 minutos. Ação.
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Demorei muito para que eu visse esse filme. Quando todos já gostavam dele ou o detestavam, eu ainda não tinha uma opinião acerca dessa obra. Então, quando o Hugo, do Cinema - Filmes e Seriados, comentou que prefere as cenas de ação dessa trilogia às cenas de ação de O Procurado, eu decidi que tinha que ver para comprovar e, por fim, poder dizer que eu também tinha visto a trilogia.

Um rapaz é encontrado jogado no mar e depois de trazido para dentro de uma embarcação, o médico do barco descobre que o homem possui, sob a pele, um chip. Sem ter noção de quem é, esse homem, que despois descobrirá ser Jason Bourne, sai em busca de informações a respeito do que aconteceu com ele. Em seu caminho, descobrirá que está sendo caçado e que cuidado é essencial para que não morra.

Todo mundo sabe que minha preferência é por dramas, mas eu tenho umas recaídas constantes por filmes assim e gosto de ver perseguições de carros, tiros, muita violência - e por isso gosto também de filmes como Kill Bill, Busca Implacável e, como citado acima, O Procurado. Sei diferenciar bem as funções dos filmes e eu os avalio conforme o gênero em que estão. Dessa maneira, afirmo com segurança que A Identidade Bourne é um filme muito bom dentro de seu gênero, porque consegue fazer o espectador entrar no clima da perseguição e ainda pode ver boas cenas de luta. O roteiro do filme começa bem: tal como o personagem, o espectador não conhece muito, mas sabe que há um grande perigo acerca do personagem principal, afinal, por que haveria de ter um chip escondido sob a pele de alguém? De maneira ágil, com algumas cenas intercaladas, o roteiro vai nos apresentando a cilada na qual Bourne está. Logo nos primeiros trinta minutos, ele já descobre o seu nome, mas ainda não sabe quem ao certo ele é e por que está sendo perseguido. Só no quarto final de filme é que nós realmente sabemos tudo, mas, sem que o filme perca o fôlego, nos entretemos normalmente até que seja feita a descoberta.

Matt Damon não é um dos meus atores preferidos, mas ele está muito bem como Jason Bourne. Expressão concisa com a racionalidade do personagem, atos necessários e calculadas - o ator soube como incorporar o personagem e transmitir bem toda a segurança e a insegurança pelas quais Bourne passa. Acho que minha opinião foi mais favorável também porque o ator causa certa simpatia, mesmo que não sorria muito. Franka Potente também está bem em seu papel e, em atuação, está no mesmo nível que Damon. Só não achei que havia química entre o casal principal e algumas cenas, principalmente as de romance, soavam incoerente tanto com o filme quanto com os atores. Julia Stiles, que também não é nenhuma suntuosa atriz, ficou com uma personagem de significância perceptível na teoria, mas que na prática, ou seja, conforme o filme a mostra, não tem serventia nenhuma. Ainda assim, é bom ver um rosto bonito em cena - mesmo que isso não sirva pra nada. Clive Owen, em sua pequena participação, não mostra muito do seu talento. Ele apenas serve como figurante ou, sendo mais justo, como ator quaternário.

A ediçãod e imagens é realmente muito boa e isso faz com que a dinâmica do filme seja ainda maior. Os efeitos sonoros não são exagerados e não deixam o espectador semi-surdo e isso é definitivamente uma qualidade num filme em que há batidas de carro, tiros, etc. O filme possui boas cenas de ação e é capaz de entreter o espectador, que gostará daquilo que vê. As duas horas parecem durar menos e, com isso, o filme ganha mais, já que dificilmente alguém vai querer apertar flash-forward. Na minha opinião, O Procurado tem cenas mais exageradas de ação, mas, de qualquer maneira, o filme também possui um aspecto mais exagerado, logo, as cenas são coerentes com a proposta do filme. Em A Identidade Bourne, que procura mostrar algo mais sério, a sua proposta também é cumprida e, no final, fiquei bastante satisfeito, porque esperava um filme menor, menos divertido. Acho que vale a pena ver.

20 de jul. de 2010

Bastardos Inglórios

Inglorious Basterds. EUA, 2009, 153 minutos. Drama / Guerra.
Indicado a 8 Academy Awards e vencedor na categoria Melhor Ator Coadjuvante (Christopher Waltz).
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Havia algum tempo que Tarantino não causava boatos. A Academia havia lhe reconhecido o excelente trabalho realizado em 1994, quando indicou Pulp Fiction a sete prêmios, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Quinze anos depois, Tarantino consegue o êxito de tantas indicações novamente e das oito indicações conquistadas por Inglorious Bastards, creio que as mais significativas sejam a de direção e de roteiro – o que nos mostra que o diretor é bom tanto com a história quanto com a maneira como lida com os atores.

A história do filme brinca com a história de um dos episódios mais marcantes pelo qual a humanidade já passou: a ascensão nazista. Um grupo de soldados judeus decide se vingar de todos os nazistas e, liderado pelo tenente Aldo Raime, eles partem com o intuito de encontrar o coronel Hans Landa e, no caminho, pretendem matar o maior número de nazistas possível.

Eu gostei bastante do roteiro do filme, mas honestamente não pude relacioná-lo rapidamente a Tarantino. Somente quando o filme se aproximou de seus momentos finais é que eu então pude sobrepor a personalidade do diretor à personalidade daquele roteiro sadista. Provavelmente, os outros cinéfilos discordarão de mim, mas creio que Bastardos Inglórios, embora tenha uma vertente cômica, é o filme mais sério de Quentin Tarantino. E essa impressão que eu tive não ficou apenas registrada pelo modo como o diretor compôs o roteiro, mas também pelo modo como ele conduziu o seu filme – a câmera parecia convencional demais, quase instruída pelo método-padrão de cinema. Senti saudades daqueles ângulos legais visto em filmes como Kill Bill ou mesmo Pulp Fiction. Como todos os seus filmes, Bastardos Inglórios é bem extenso, com mais de duas horas e, pela primeira vez, eu tive a impressão de que o filme não se desenvolvia. Credito essa sensação à quantidade de personagens – todos são muito importantes e todos têm as suas histórias brevemente contadas, o que prolonga o filme desnecessariamente. Se vocês se lembram de Kill Bill, decerto entenderão o que eu digo: apenas uma personagem, a Noiva, tem sua vida mostrada, de modo que as informações que temos sobre os outros provém das cenas mostradas a partir da ótica da Noiva (com exceção da história de O-Ren Ishii). Acredito que teria me agradado mais saber apenas sobre um personagem – o tenente Raime ou Shoshana, por exemplo – a conhecer um pouco de cada pessoa que aparece em cena.

Embora muitos digam que o filme seja de Brad Pitt e Christoph Waltz, eu penso que a obra dá mais valor às personagens femininas, que, infelizmente, aparecem pouco. Shoshana, magnificamente interpretada por Mélanie Laurent, é uma mulher bastante forte e determinada – e isso somente se intensifica quando vemos as expressões firmes da atriz que a interpreta. Posso dizer o mesmo de Diane Kruger: magnífica. Sua personagem tem muita importância na trama, mas o espaço dedicado a ela é pequeno e mesmo assim a atriz me surpreendeu em sua atuação. Por elas, digo que esse é um filme no qual as personagens secundárias ganharam totalmente a minha simpatia. Christoph Waltz foi o grande destaque dos circuitos de premiação com a sua interpretação. Honestamente, não me identifiquei com ela e realmente não acho que o seu trabalho tenha sido maior que qualquer uma das atrizes que citei. Eu nem sequer sei se eu o indicaria! Sua interpretação, em minha opinião, é apenas correta. Mas como eu não sei como foi o desempenho de todos os atores que concorreram cm Waltz, ainda é cedo pra dizer que achei justa ou não a sua vitória. Brad Pitt e o seu sotaque arrastado me agradaram. Não achei nenhuma maravilha de atuação, mas confesso que gostei do que foi apresentado. Considerando todos os filmes de Tarantino, o elenco dessa produção é o que mais me pareceu desajustado para uma obra desse diretor, mas, de qualquer forma, o filme me parece desajustado e incompatível com o humor ácido dele.

Decerto devo recomendar Bastardos Inglórios: é uma boa obra, rende bons momentos e consegue entreter. Mas, como disse antes, não pude me identificar totalmente com ele, embora lhe reconheça todos os méritos – boa fotografia, trilha sonora envolvente, bem humorado, roteiro inteligente. Assistam-no e tirem as suas próprias conclusões.

Luís

4 de jul. de 2010

Gran Torino

Gran Torino. EUA, 2008, 116 minutos. Drama.
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Clint Eastwood na direção de duas obras lançadas esse ano. A primeira, A Troca, rendeu à atriz principal uma indicação ao Oscar, mas, contraditoriamente, dividiu os espectadores entre os que gostaram e os que não gostaram. Gran Torino é o segundo filme. E este fez com que a maioria apreciasse a condução de Eastwood, diretor que aprendi a admirar depois de conhecer um de seus trabalhos, que, ainda hoje, é um dos meus favoritos.

Walter Kowalski é um veterano da Guerra da Coreia extremamente preconceituoso, que vive em conflito com todos, inclusive seus filhos. Numa noite, surpreende um vizinho coreano tentando roubar seu carro Gran Torino e, com uma arma, ele o expulsa dali. Dias depois, uma gangue hmong (etnia coreana) promove uma bringa em frente à casa dos vizinhos de Walt, o que faz com que ele interfira e, mesmo sem querer, acabe protegendo o jovem que tentou roubar seu carro. Pouco depois, em outra oportunidade, ele ajuda mais uma vez outro membro da família, o que faz com que se aproxime dos coreanos. A partir desse momento, Walt se vê obrigado a rever suas concepções a respeito da amizade e companheirismo, tendo sua vida transformada por causa daquilo que passou a sentir.

Gran Torino tem como plano de fundo a aprendizagem. O principal fator dramático no filme é a transformação da repulsa em simpatia e a maneira como todos os personagens agem está embasada nos princípios da aceitação do próximo. A diversidade é um elemento importante na vida e o roteiro do filme a mostra de duas formas bem diferentes: mostra-a primeira sob a perspectiva do preconceito, na qual Walt vê apenas o que o difere de seus vizinhos; e depois a mostra sob a perspectiva da união, o que permite ao personagem principal respeitar os outros, independentemente de suas antigas experiências e conceitos anteriores. A mudança que o personagem sofre é banal, todos nós a conhecemos e, por isso, podemos nos aproximar ainda mais daquilo que sente Walt. Conhecemo-la porque é hábito da maioria ter maus pensamentos sobre uma pessoa até conhecê-la melhor e concluir que estava errado. É isso que acontece nesse filme e essa situação simples transforma-o em algo bem maior, bem denso. Todos aqueles que assistiram ao filme Menina de Ouro, também dirigido por Eastwood (e no qual também atua), decerto se identificarão com Gran Torino, uma vez que as passagens comportamentais são quase as mesmas, nos proporcionando momentos positivos de reflexão.

A direção, como costuma ser, é muito eficiente e Clint consegue pegar o que há de melhor em cada ator e em cada situação, sempre com ótimos ângulos de câmera, procurando nos colocar lado a lado com os personagens, aproximando-nos daquilo que vemos. Não somente como diretor, mas também atuando, Clint se mostra eficiente. Ao interpretar o difícil Walt, cujo temperamento é complicado, o diretor-ator realiza um trabalho competente, que mistura humor, drama e amor fraterno - no casod e Walt, praticamente paternal. Ahney Her e Bee Vang, intérpretes de Sue e Thao, foram bem dirigidos e nos mostram grandes momentos em parceira com Eastwood.

De certa maneira, achei-o bem parecido com Menina de Ouro: nos dois há transformação emocional, há primeira contraste para depois surgir a semelhança, há o comportamento fraterno e a busca pela felicidade alheia. Gran Torino, apesar das semelhanças, fica aquém do outro que citei, mas definitivamente é um filme bem interessante que merece ser visto por todos, afinal, é uma obra madura, com excelente direção e uma mensagem bem realista: nem todo bem é alcançado com bondade e, principalmente, isso não é obtido sem dor.

Luís
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24 de jun. de 2010

Paradise Now

Paradise Now. França, Alemanha, Israel e Holanda; 2005, 90 minutos. Drama.
Foi considerado o 18º filme não-estadunidense mais importante da década.
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Paradise Now é um filme realmente interessante, cuja temática foge àquilo a que estamos acostumados a assistir. Já vimos homossexuais, negros, mulheres submissas, adolescentes grávidas, estupros muito realistas, efeitos especiais incríveis. Mas tivemos algum contanto com o mundo onde os homens andam com quilos de bomba em torno do corpo prestes a se explodir e matar inúmeras pessoas, inocentes ou não, ao seu redor?

Não sei quanto a todos vocês, mas eu nunca tinha visto um filme direcionado a esse tema tão delicado, que, dependendo de como for abordado, torna-se algo voltado para o fanatismo, com o intuito de alienar quem assiste. Por outro lado, se a abordagem for fraca, o enredo se assemelha às histórias cujo objetivo é indecifrável e, consequentemente, não conseguimos ter uma boa imagem da produção. Paradise Now, felizmente, não se enquadra em nenhum desses gêneros, firmando-se como uma obra extremanete inteligente, que dá enfoque, principalmente, às relações humanas e às ideologias nas quais os personagens acreditam. Considero que seja um grande desafio para alguém que escreve sobre o filme - como eu estou fazendo - conseguir separar os dois tópicos que citei acima, porque definitivamente o relacionamento entre os personagens está diretamente ligado à maneira como são capazes de encontrar força em suas vontades a ponto de realmente querer seguir em frente, mesmo sabendo que suas atitudes resultarão na perda da vida.

As crenças, muitas vezes, são tidas como imutáveis e impenetráveis, mas nessa produção as interferências externas conseguem reconstruir a todos os momentos as perspectivas dos personagens. Concluí que muito do filme se deve à escolha dos atores, principalmente da coadjuvante Lubna Azabal, intérprete de Suha. Cabe a ela intervir pelos dois amigos que, desde pequenos muito unidos, decidem morrer juntos em nome daqueles tantos que sofreram pela ocupação de Israel no território palestino. Percebemos o quão coadjuvante a personagem é pela sua pequena participação; no entanto, quando está em cena, consegue reestruturar os pensamentos dos outros conforme seu desejo. Eu não digo isso somente porque acredito mais na racionalidade dela do que na deles. Afirmo isso com convição por Paradise Now não é um filme que tenta te fazer escolher entre o lado menos radical e o mais radical; ele se empenha em apresentar ambos os lados da situação de uma maneira muito apartidária e isso faz com que o espectador conheça tudo sem se ocupar em julgar, em torcer o nariz. Não enxergamos insensatez nas atitudes de Khaled e Said, porque conseguimos enxergar a imensa convicção que eles têm em sua maneira de conseguir justiça e que a única maneira de ganhar a causa é se explodindo.

Em uma hora e meia, pode-se perceber a grandiosidade do filme por meio das várias abordagens que consegue nos apresentar: não somente o radicalismo dos jovens, mas também à crítica a estrutura social e econômica da região, na qual - como em todos os lugares - os ricos ficam à margem de toda a marginalidade e crueldade que há. A justiça não acontece de forma igual e numa rápida passagem, isso fica bem definido numa discussão entre Said e Suha, que é filha do homem mais poderoso da região e que, por tal condição, não tem muito conhecimento acerca da complexidade em que vivem os jovens Kalhed e Said, cujas famílias foram vítimas dos mal tratos consequentes da ocupação israelense e cujos pais fizeram o mesmo que eles estavam prestes a fazer.

Eu definitivamente recomendo Paradise Now! Achei curioso o fato de não terem traduzido o título, deixando-o como no original. Eu, particularmente, prefiro a sonoridade do título em inglês do que como soaria se tivesse sido traduzido literalmente. Fiquei bastante contente também que não tenham acrescentado um subtítulo medíocre, cuja finalidade seja explicado o termo que o antecede e, ao mesmo tempo, explicar um pouco do filme. Acredito, porém, que alguns espectadores, muito nacionalistas, talvez, não se interessem pelo nome dessa produção, porque admito que ela revela pouco, mas tem total coerência com o filme todo. Principalmente na cena final, percebemos o quão fundamental é o advérbio de tempo - tempo imediato, aliás - que foi usado: porque o paraíso é agora.

Luís

16 de jun. de 2010

Duplex

Duplex, 2003, 89 minutos. Comédia.

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Esse filme já passou na TV e muitas pessoas falaram sobre ele para mim. Disseram que era legal, engraçado, etc. Duplex traz Drew Barrymore e Ben Stiller com casal protagonista, que encontra um apartamento bastante agradável, onde decidem morar. Porém, a inquilina que mora na parte de cima do apartamento não os deixa em paz, atormentando-os de diversas maneiras. À medida que a velha os inferniza, o casal passa a sentir mais vontade de tirá-la de lá.

Eu não posso dizer que gosto de Ben Stiller, porque eu acho que ele definitivamente não é o tipo de ator do qual eu gosto. Acho que ele é muito pra baixo, não consegue incorporar o personagem direito e, por isso, desde sempre vem atuando como ele mesmo. Já Drew é talentosa e gosto dela, embora sua filmogradia tenha qualidade irregular. Em Duplex, no entanto, os dois atores, que também são produtores desse longa, parecem combinar perfeitamente, formando um casal bastante agradável. Pelo menos, eles conseguem nos convencer nos minutos iniciais. Aliás, os primeiros dez minutos são aqueles em que o espectador realmente ri; a não ser que esteja aberto a situações embaraçosas e constrangedoras completamente ausente de humor que começam a surgir ao longo do filme. Com disse, é no início que está o charme da comédia, que é quando o tom cômico acontece através da seriedade, principalmente quando a velha começa a falar sobre datas, deixando o casal perplexo com a sua possível idade.

A partir daí, o exagero começa e as cenas ficam cada vez mais absurdas, incluindo explosões, choques, tiros de arpão, etc. Acredito que se a sutileza tivesse se mantido, seria bem mais engraçado. A atuação dos atores corresponde ao que se espera numa comédia: não há grandes momentos em que podemos vê-los atuando, a maioria das cenas se compõe de cenas que tentam provocar risos e, vez ou outra, arranca um sorriso bobo de quem assiste. O único elemento a quem recomendo atenção especial é na velha, interpretada Eileen Essel, que consegue mostrar muito bem o lado maligno das velhinhas; sempre com aqueles comentários pseudo-maldosos escondidos sob outros comentários, delírios estúpidos, pedidos incabíveis e aquela delicadeza forjada de porta enferrujada. O problema é que ainda conseguimos encontrar certo humor enquanto a velhinha continua sendo uma "velhinha", mas aos poucos, conforme ela começa a agir como se tivesse planejado tudo, vai ficando mais incoerente. O que quero dizer por "planejar tudo" é que começamos a ter a impressão de que tudo é proposital e não ingenuamente como no começo, embora nós saibamos que nenhuma pessoa pode ser tão lerda quanto a velha e que, logo, tudo o que faz é porque quer fazer.

Tenho que fazer um comentário bastante positivo: num momento do filme, quando Alex e Nancy estão prester a consumar o ato do amor - transar, para ser mais claro -, eles colocam para tocar uma música brasileira! Adoro isso... Duplex, para mim, é um filme que começa bem, mas aos poucos perde o interesse do espectador. Porém, não é ruim; no entanto, não posso dizer que o filme me agradou totalmente, pois isso definitivamente não aconteceu. Acho que é um bom filme para uma noite qualquer, sem expectativas; contudo, não é uma obra para se ver duas ou três vezes. Uma basta.

Luís
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