Mostrando postagens com marcador 2007. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2007. Mostrar todas as postagens

19 de ago. de 2012

Amor Pervertido

Trage Liefde. Holanda, 2007, 50 minutos, drama. Diretor: Boudewijn Koole.
Um tema delicada e potecialmente muito produtivo torna-se uma pequena bobagem nessa produção alemã que não visa nenhuma crítica social tampouco um bom efeito artístico.

Estava em busca de algum filme com alguma temática que fosse diferente do convencional – não queria nenhuma história de amor melosa, nenhuma família sendo destruída por alguma razão, nenhuma comédia romântica. Baixei esse filme por acaso, esperando que ele me satisfizesse no meu intento de buscar algo novo. Então, ao conferi-lo (sem muitas informações prévias), deparei-me com um tema delicado: incesto.

Esse filme média-metragem produzido pela Alemanha, que é também é conhecido pelo título Com os Olhos Fechados, tradução literal de Mit geschlossenen Augen, aborda a vida de um rapaz que cresceu sem nenhum contato com o pai e que num determinado momento, ao conhecê-lo, tenta uma aproximação, sem que o pai saiba que o rapaz é seu filho. Então, a vida de Felix basicamente se baseia em trabalhar num restaurante, interagir com a avó, com quem mora, conversar com a namorada, com quem não tem segredos e tentar fazer com que o pai lhe tenha alguma afeição.

Começo já dizendo que esse não é um bom filme, ainda que sua premissa seja bastante interessante e o roteiro seja composto de elementos bastante ousados – elementos esses que não são aproveitados de modo produtivo, fazendo com que sua função praticamente se perca dentro dos cinqüenta minutos de exibição. Mas esse não é o único problema dessa produção alemã, já que as atuações também não merecem nenhum grande mérito e a direção parece ter acontecido no modo automático. Com um conjunto de situações como a que vemos nesse filme, o mínimo que se esperava de Boudewijn Koole, o diretor, era que ele mesmo pudesse concretizar o roteiro que ele mesmo escreveu.

Vou me ater à única razão pela qual o filme merece algum crédito: o incesto. Como disse na sinopse, essa é basicamente a história de um filho que busca a afeição do pai, que não lhe reconhece como sendo seu filho. O mais interessante é a inserção da obscura atitude de Felix de não revelar a Johan que ele é seu filho. Por não lhe contar logo – e em momento algum, aliás –, o homem pensa que as suas constantes idas ao bar de que ele é dono tem o intuito do flerte. Então, Johan começa a se deixar seduzir por Felix, que parece indeciso quanto àquilo que ele realmente quer: deseja o carinho do pai, mesmo que isso se consuma sexualmente? Eis o único fator positivo do filme, mas que é mal aproveitado, sem dar ao espectador a possibilidade de conhecer mais sobre o desenvolvimentos das emoções de Felix e também de Johan.

Honestamente, acho que essa se trata de uma obra esquecível. Não afirmo com segurança que vê-la é desnecessário, mas digo sem nenhuma dúvida que esse filme realmente fica aquém do esperado, pois sua abordagem refere-se a algo extremamente delicado e o diretor-roteirista insiste em mantê-la no lugar-comum e na monotonia. Enfim, penso que seja uma obra que sumirá da sua memória em pouco tempo. E só pra constar: o título nacional é extremamente ridículo, por já induzir o espectador a condenar a situação dos personagens!

27 de jan. de 2012

Lucky Blue

Lucky Blue. Suécia, 2007, 30 minutos, drama. Diretor: Håkon Liu.
Assisti a esse curta-metragem e ele não me marcou. Hoje, mal lembro do que ele fala e faz pouquíssimo tempo que eu o conferi.

Por causa da indicação de um colega, eu assisti a esse curta-metragem alemão cujo tema abordado é o relacionamento de dois garotos adolescentes que se conhecem e rapidamente nutrem sentimentos de afeto um pelo outro. O diretor Håkon Liu conseguiu resumir bem a história: o primeiro contato dos garotos parece meio distante, depois, juntos, eles liberam o pássaro que dá título ao filme e, a partir dessa pequena travessura, os dois tornam-se confidentes em algo, já que partilham do erro de ter liberado o passado. Mais tarde se descobrem afins quando um rouba um breve beijo do outro e o diretor soube como captar bem esse momento. Então, vem a negação e, depois, a aceitação – um é afeito ao outro e eles podem admitir isso, mesmo que implicitamente, como na cena final percebemos.

Os atores, que são quatro, estão bem. Tobias Bengtsson e Tom Lofterud, respectivos intérpretes de Olle e Kevin, representam bem seus personagens. Britta Andersson, a tia de Kevin, pareceu-me uma atriz competente, embora eu tenha visto pouco de sua capacidade, já que sua personagem aparece pouquíssimo. A direção de Håkon Liu é correta, sem exageros, sem timidez excessiva – suas tomadas mostram aquilo que necessitamos ver. Considerei este um curta-metragem interessante, que vale a pena ser conferido como curiosidade. Decerto não é a obra mais intensa que já vi, mas mesmo assim consegue cumprir sua pretensão.

18 de jun. de 2011

Apagar os Rastros

Quemar las Naves. México, 2007, 100 minutos, drama. Diretor: Francisco Franco Alba.
Este filme foi uma excelente descoberta para mim, achei todos os temas bastante trabalhados e, mesmo que haja um tom meio novelesco em alguns momentos, garante certos questionamentos.
Na busca por filmes que abordassem a sexualidade, eu encontrei essa pequena pérola. Quemar las Naves, filmes mexicano de 2007, é uma obra que consegue reunir todas as boas qualidades do cinema: roteiro denso, atores competentes, direção firme, trilha sonora adequada,fotografia eficiente e, sobretudo, excelente entretenimento para quem gosta de dramas sérios que envolvem personagens complexos.

Os personagens desse longa-metragem são Helena e Sebastián. Eles são dois irmãos, ela mais velha do que ele, que vivem cuidando da mãe doente. Dois acontecimentos marcam drasticamente a vida dos dois: a morte da mãe e a chegada de um novo garoto no colégio. A partir desse momento, suas vidas se desviam daquilo a que estavam acostumados e partem para um rumo inesperado.

Eu não me sinto confortável em dizer que o que há de melhor nessa obra é o roteiro. Cada elemento está tão intrinsecamente relacionado a outro que tudo nesse filme forma um bloco único, que, embora possa ser fragmentado para análise, não pode ser dividido. Ou se gosta do filme ou não se gosta dele, não creio que haja um meio termo. Primeiramente, discorrerei sobre os personagens e as atuações, falarei então do roteiro e da direção, depois da fotografia e trilha sonora e fecho como habitualmente: comentando se acho válido ou não conferir esse filme.

Pouquíssimas vezes, eu vi personagens sendo tratado com tanto carinho. O trabalho de composição deles me fez ficar tenso: eles são completos demais. São personagens que não têm apenas ação; eles também seguem um raciocínio, eles pensam, eles sentem e eles, sobretudo, têm uma maravilhosa formação psicológica. Desse modo, eles são trabalhados por dentro e por fora – e isso é dificílimo no cinema. Helena, por exemplo, é uma garota distorcida entre o ceder e o reter, a linha que separa essas duas ações é tênue e, para ela, às vezes, indiscernível. Ela desistiu da escola e vive em função da mãe e do irmão, cuida deles tanto quanto pode, esforça-se o máximo para agradá-los. De certo modo, por ser esse o seu estilo de vida, ela espera que o irmão lhe retribua e que esteja disponível para ela, que possa lhe ajudar o suportar o peso das mágoas que ela esconde dentro de si. Sente-se protetora dele e o inclui em seus planos, não deseja torná-lo seu amigo-escravo, porém espera que ele tenha sentimentos recíprocos em relação a ela. Num determinado momento, quando Sebastián alcança sua liberdade como pessoa e depreende-se da veia familiar – que basicamente significa não estar sempre ao lado de Helena, a garota passa a viver em função dele e a atenção exagerada que ela dedicava à mãe agora se volta para o irmão.

Sebastián, por sua vez, primeiro vê na irmã uma companhia extremamente positiva e isso fica evidente pelas cenas iniciais, quando ela canta junto com o rádio toca-discos e faz uma performance para o irmão. Há sintonia entre os dois e isso é quase inenarrável. Não há, no entendo, plenitude em relação à afinidade entre eles e é exatamente isso que Sebastián encontra quando um novo garoto chega à escola. Ele vê no rapaz a rebeldia que ele nunca ousou ter, a força que ele jamais descobriu em si, a coragem que extravasa o limite do aceitável. Ele percebe que ele não apenas admira o rapaz pelo que ele é como também o inveja, tentando moldar-se conforme à imagem dele. Assim, eles se tornam amigos e, desta vez, eles são plenos. Há no outro aquilo que falta em um deles, eles são opostos, se diferem bruscamente, porém insistem na relação, embasada numa ternura muda, silenciosa. Sebastián se opõe a todos: diferentemente de Helena, que é explosiva, ele é contido; diferentemente de Juan, que é corajoso e valente, ele é um mero observador; diferentemente de Ismael, filho do médico que tratava a sua mãe doente, que é um rapaz determinado e decidido, ele é instável.

É interessante notar que todos os personagens são carentes. Eles carecem de apego, carecem de amor. Todos se envolvem pelo desejo de sentirem-se completos, todos buscam a auto-estima nos braços de alguém que acreditam querer bem. E as atuações de todos os atores correspondem àquilo que pedem os personagens. Angel Onésimo Nevares, intérprete de Sebastián, me surpreendeu com uma atuação contida e muito bem elaborada, que nos permite adentrar com ele no universo do personagem. Irene Azuela, a Helena, não erra no tom de voz, nem na postura altiva, nem no modo de se portar em cena, outra surpresa boa! Bernardo Benítez, o Juan, compõe um personagem que aparece pouco, mas que tem extrema importância na trama. Esses três atores nos presenteiam com interpretações muito boas, que conciliam as medidas certas de carisma, orgulho e sentimento.

O roteiro reúne magistralmente situações que engrandecem e desenvolvem os personagens. O enredo não se repete, não pára: é sempre um contínuo crescente, sempre nos mostrando eventos novos e fazendo com que nós sejamos capazes de nos envolver com cada acontecimento. Há também magníficas alusões culturais, como quando o grupo da classe chama o novo garoto de Scarface e como quando Helena lê um livro para a mãe: O Morro dos Ventos Uivantes – o que remete mais uma vez ao que eu disse acima, sobre todos os personagens serem carentes. A trilha sonora, muito bem editada, toca canções que combinam perfeitamente com a cena. Analisemos, por exemplo, a canção que embala a personagem Helena. “Um dia, vou embora / não voltarei jamais / Sei que devo continuar minha vida / em outro lugar”, é a seqüência de versos cantada por Helena e isso corresponde a tudo aquilo pelo que a personagem vive: a esperança de uma vida nova, em outro lugar, fazendo aquilo que lhe agrada. A trilha sonora funciona como um elemento catártico, pois ela puxa para si a carga dramática por que cada personagem passa.

Repetindo: Quemas las Naves é uma pequena pérola do cinema. Um filme que deve ser visto, que merece uma conferida minuciosa, que requer a atenção de um bom cinéfilo, disposto a descobrir uma nova obra interessante. Não é um filme sobre crianças, nem sobre draminha bobo. É uma produção séria e densa sobre as vontades humanas, desde as mais elevadoras quanto as mais autodestrutivas. Vou recomendá-lo mais uma vez, para que tenham a certeza de que eu realmente gostei dessa obra. Vejam-na não uma vez, mas mais do que isso: depreendam-na em todos os seus sentidos, enxerguem-na nas entrelinhas. Vale a pena, com certeza.

12 de jun. de 2011

Pecados Inocentes

Savage Grace. EUA, 2007, 96 minutos, drama. Diretor: Tom Kalin.
Não se trata de uma obra espetacular, dessas de que sempre nos recordaremos. Trata-se de uma produção mediana, com bons aspectos e a presença muito notável de Julianne Moore, absurdamente linda nesse filme.

O que me atraiu nesse filme, primeiramente, foi a capa dele. Uma capa tão bonita, mostrando uma mulher madura e um adolescente, mais o título “Pecados Inocentes” fez com que eu ativesse meu olhar nela um pouco mais. Então, li o nome da atriz principal: Julianne Moore. Conferi a sinopse no verso do DVD e gostei do que li, me pareceu que renderia um bom drama.

Barbara Baekeland, uma mulher espontânea e alegre, sempre teve com o esposo e com o filho um bom relacionamento. Ela e o filho tinham tanta afinidade que Brooks, seu marido, lhe dizia que o filho acabaria assumindo a posição dele um dia. Desde pequeno, o filho demonstrava tendências a homossexualidade e, ao mesmo tempo, tornou-se bem mais próximo da mãe, tornando-se quase confidentes. Então, com a brusca separação do marido, Barbara começa a entrar num estado de depressão, que a faz agir destrutivamente.

A primeira coisa que concluí ao assistir o filme foi: a sinopse escrita no verso da capa do DVD não corresponde a esse filme. Os personagens são os mesmos, mas o foco da história é bem diferente. Pecados Inocentes é um drama biográfico que busca mostrar a vida de Barbara a partir do momento que seu filho nasceu. Desse modo, somos apresentados à história que começa em 1946, em Nova Iorque, e que retrata a vida dessa mulher até a sua morte, em 1968. Sem a intenção de focar-se exclusivamente no relacionamento incestuoso entre Barbara e o filho, o roteiro do filme mostra o relacionamento dela com a família e o seu caminho em direção autodestruição a partir do momento em que o marido decide abandoná-la. Então, se você que, como eu fiz, busca o filme com o básico intuito de ver o desenvolvimento da relação entre os dois, mude de idéia, porque esse filme é vendido enganosamente.

Com um drama biográfico, o roteiro do filme funciona. Ele consegue bem mostrar as várias situações necessárias para que possamos conhecer várias faces da personagem principal. Conhecemos o seu lado carinhoso, o seu lado divertido, o seu momento espontaneamente agressivo e também conhecemos a sua vertente destrutiva e inconseqüente. Talvez o seu problema resida no fato de que, embora ele vá mostrando os acontecimentos de forma bem resumida, ele parece se arrastar. Na metade do filme, passamos por três estágios da vida de Tony, o filho de Barbara: vemo-lo bebê, criança e adolescente, encaminhando-se para a fase adulta. Eu tive a impressão de que o ritmo até então estava bem interessante, porque eu estava vendo o que era necessário, sem enrolamento. A partir da segunda metade, comecei a ficar meio cansado da súbita lentidão em que o roteiro entrou: a história parecia mostrar muito sem se desenvolver. Enquanto Barbara é personagem central o filme todo, Tony apenas passa a sê-lo a partir da metade – e é justamente quando são mostradas as cenas dele que o filme parece ir bem devagar. Tudo é narrado a partir do seu ponto de vista; entre as cenas, há comentários do personagem sobre como a sua mãe lidava com determinada situação e sobre ele mesmo, incluindo pensamentos que ele tinha e os seus sentimentos em relação às pessoas ao seu redor. Eu honestamente prefiro que as biografias sejam contadas em terceira pessoa – acredito que esse recurso dê a elas mais credibilidade.

É muito relevante para a história mostrar as cenas em que Barbara se mostra muito próxima do filme, ao ponto de percebemos que há, entre os dois, confidências silenciosas. Dou destaque à cena em que o garoto está tomando banho e os pais encontram François dormindo na cama deles – o que sugere que os garotos provavelmente dormiram juntos (embora, pela idade do garoto, creio que o sugerido foi dormir mesmo, ainda que saibamos que isso quer dizer a propensão à homossexualidade da qual falei no começo). Mais tarde, há uma cena de três personagens na cama – Barbara, um rapaz e Tony, nessa ordem – num envolvimento sexual bastante cúmplice e tenro. Assim, nós realmente temos a noção de que há entre a mulher e o filho a afinidade necessária para que houvesse mesmo uma relação amorosa e sexual. E é justamente quando esse momento chega que o roteiro estraga o filme: o tal relacionamento incestuoso que é vendido como assunto principal do que filme só acontece no final do filme – e só há uma cena, bem curta, que mostra o que aconteceu entre eles. A partir daí, o roteiro falha totalmente ao mostrar algo muito simplório, que exigia uma atenção bem maior. Os personagens parecem extremamente indiferentes ao que aconteceu com eles; como se não lhes tivesse feito bem ou mal, como se não tivesse significado nada. Depois, Tony toma uma atitude que provém de uma mente profundamente perturbada, mas o roteiro não havia mostrado antes que o grau de sua insanidade era tão grande. Eu tive apenas a impressão de que ele era um garoto triste, não que ultrapassa a linha da racionalidade. Posso depreender que, ao considerar tudo pelo que ele passou, seja aceitável a sua ação de livrar-se um peso, como ele mesmo diz, mas mesmo assim acho que era obrigação do diretor de incluir uma amostra do quão perigoso o garoto se tornara. Só para constar: achei que o clímax foi totalmente anticlimático, já que deixou muito a desejar.

Nem preciso dizer o motivo pelo qual vale a pena ver o filme: Julianne Moore. Me impressiono com a beleza dessa atriz. Não apenas a sua beleza física, mas também a sua beleza artística – mesmo em filmes ruins ou medianos, como é o caso desse, Julianne Moore se mostra sempre eficiente. Como Barbara, sua atuação é bem correta e ela nos mostra com eficácia os altos e baixos da personagem. Não sei o que pensam os outros cinéfilos, mas eu gostei muito mesmo da sua interpretação e eu facilmente a indicaria ao Oscar, mesmo com o grande problema que ela enfrenta pela má direção nos minutos finais. Eddie Redmayne, o intérprete de Tony, infelizmente está aquém das expectativas – sua atuação é muito chata e o ator parece não estar fazendo nada em cena a não ser ficar com uma expressão que seja naturalmente sua. Stephen Ducane e Elena Anaya, intérpretes de Brooks e Blanca, têm participações pequenas demais pra influir efeito negativo ou positivo no filme, mas mesmo assim estão corretos.

Não faço a mínima idéia do pensamento que passou pela cabeça da pessoa que escolheu o título nacional de “Savage Grace”, mas decerto a pessoa achou que apelar pelo recurso poético de criar antítese seria legal e nomeou o filme de tal modo. Lamentável, é o que eu digo. Não sei qual é a inocência dos personagens nem sei como ela se une aos seus pecados – só sei que isso implica um pensamento que é bem diferente do que o filme mostra. Vou explicar: juro que pensei que os personagens, por pura atração, que é involuntária (logo não é premeditada e por isso, talvez, considerada inocente), começaram o relacionamento incestuoso. Nada disso. O que acontece entre eles é impulsivo e totalmente consciente e voluntário; se o pecado existe, a inocência, não – e o título acaba não significa nada, como muitos títulos que conhecemos.

Eu honestamente achei que se trata de um filme interessante. Não é uma grande obra, é apenas mediano, mas mesmo assim merece ser conferido, principalmente pela excelente interpretação de Julianne Moore, que está belíssima. O filme pode cansar a alguns, porque ele realmente não é muito dinâmico, porém é capaz de entreter se você não o conferir com uma visão muito crítica.

Luís

10 de jun. de 2011

Bramadero

Bramadero. México, 2007, 22 minutos, drama. Diretor: Julián Hernández.
Sabe quando você percebe a existência de uma boa proposta, mas vê que ela se perde totalmente dentro da criação de uma obra? Pois é exatamente isso que acontece com esse curta-metragem mexicano.

Bramadero é uma obra que conta a história do envolvimento de dois rapazes que estão num lugar deserto, embora estejam no meio da área urbana. O encontro deles num prédio em construção dura um dia todo e lá estão podem fazer o que quiserem, inclusive envolver-se sexualmente sem receios e sem pudores.

Aparentemente se trata de uma obra interessante e válida, mas após conferi-la eu fiquei em dúvida sobre o que eu achei. Encontrei apenas um ponto positivo e opto por falar dele agora, antes de comentar sobre o que há de ruim nessa produção. Há algo encantador no modo como Julián Hernández captou o silêncio dos personagens. Nem Hansen nem Jonás falam, eles apenas se olham, se encaram e então se relacionam. Sem meias-palavras. A somar, há a captura do local onde eles estão. De certo modo, tive a impressão de que os dois têm muito espaço para fazer tudo o que quiserem, ainda assim estão presos naquele espaço, que se torna o mundo deles – se repararmos nas paredes, há pichações registrando cenas sexuais, o que corrobora o domínio deles sobre o lugar, ou melhor, o domínio do lugar sobre eles. Assim, o diretor consegue captar simultaneamente a amplitude e o reduto daquele espaço compartilhado.

Não digo, porém, que o que citei acima seja mérito do filme. Talvez nem seja, talvez só tenha sido uma coincidência, porque o curta-metragem é realmente estranho. Eu entendi qual é o foco dele: mostrar basicamente o envolvimento sexual entre dois homens. Mas há algo incômodo no filme, porque tive a impressão de que ele todo é composto com o único intento de chocar o espectador. Essa obra tem apenas 22 minutos e em mais de metade dele são os homens transando – transando explicitamente, só pra constar. E também as atitudes deles parecem controversas e não encontrei uma explicação aceitável para isso – ou o filme é simplesmente ruim ou ele é simbólico demais para que eu pudesse compreendê-lo.

Acredito que o erro do filme reside no seu excesso – tanto exibicionismo incomoda, porque parece vazio. Não parece haver conteúdo nas cenas de sexo e nas cenas em que não há sexo parece haver algo a ser dito, mas isso nunca se conclui. Infelizmente, acaba por tornar-se um curta-metragem abaixo da média. A parte boa é que não irrita tanto o espectador, haja vista que tem menos de meia hora e a perda de tempo não é tão grande.

2 de fev. de 2011

Café com Leite

Brasil, 2007, 20 minutos, drama. Diretor: Daniel Ribeiro.
Se todos os filmes nacionais produzidos fossem como esse curta-metragem, decerto a nossa indústria cinematográfica seria bem mais elogiada.

Esse é mais um dos filmes que provém da minha incursão pelo mundo dos filmes curtas-metragens nacionais. Só me interei por essa obra por dois motivos muitos básicos: a quantidade de pessoas que queriam vê-lo no site Filmow e a sua capa, que mostra dois rapazes e uma criança entre eles. Fiquei curioso para saber como esse tema seria desenvolvido e eu acabei baixando o curta para conferi-lo.

Admito que não me decepcionei. Nem um pouco, para ser sincero. Gostei do modo como Daniel Ribeiro, o diretor, concebeu a sua obra e como ele a trabalhou de modo que ela não ficasse melodramática nem superficial e muito menos que ficasse parecendo um culto à homossexualidade. Conhecemos, então, a história dos namorados Marcos e Danilo é alterada quando a morte dos pais de Danilo faz com que ele fique responsável pelo irmão Lucas, um garoto muito apegado a ele.

Acho que o que mais me chamou a atenção nessa produção foi a sua qualidade fílmica. Parece inegável que a qualidade das filmagens realmente é a primeira característica que nos chama a atenção – logo na primeira cena percebemos que foi usada uma câmera profissional. Isso, para mim, soou bastante curioso, haja vista que os curtas-metragens anteriormentes vistos por mim, à exceção fica por conta de Lucky Blue, tinha uma imagem desastrosa. Logo depois, a primeira cena por si só já me impressionou. Daniel Ribeiro soube registrar os atores Daniel Tavares e Diego Torraca em cena sem lhes atribuir quaisquer características vulgares, depreciativas, melosas ou mesmo exageradas – a cena é de uma sutileza crível e totalmente aceitável. Não há como não pensarmos que eles formam um casal bonito e desde o começo já somos conquistados pela simpatia deles. Penso também que a sintonia entre os atores tenha sido um fator fundamental para que essa produção nacional tenha sido tão funcional. O ator-mirim Eduardo Melo também faz jus à qualidade dos outros dois atores e não deixa a desejar em nenhum momento – os três juntos compõem um elenco que é, no mínimo, elogiável.

Penso que o grande acerto tenha sido não dramatizar em excesso, sem, porém, dramatizar de menos e cair na superficialidade. Aqui, podemos perceber o tom certo em todos os momentos e ao longo de vinte minutos o espectador pode acompanhar uma história quase tragicômica, na qual se misturam elementos dramáticos, como a perda dos pais e o distanciamento aparente entre Marcos e Danilo, e elementos mais cômicos, como a cena final, na qual Danilo e Lucas estão em perfeita comunhão, falando sobre videogames e testando o tempo correto do micro-ondas para chegar à temperatura ideal do leite. Destaque especial para a cena em que Marcos e Lucas conversam num parque – uma amostra clara de que uma criança é capaz de entender que o amor se realiza de várias formas e que por isso o preconceito é desnecessário. Acredito que esse momento acrescente um charme a mais à trama.

Gostaria que todos os filmes nacionais de longa-metragem fossem tão eficientes em seu discurso quanto esse curta-metragem. Daniel Ribeiro sabe registrar bons momentos em cena. Depois de assistir a esse filme, procurei mais sobre o diretor e encontrei outra produção que ele dirigiu – A Mona do Lotação, uma paródia evidente, e extremamente engraçada, à obra de Nelson Rodrigues. Acho válido citá-la, pois provavelmente não farei uma resenha exclusivamente para ela aqui no blog. Retomando o que eu dizia: Café com Leite merece uma conferida atenta e, ao meu ver, merece também alguns elogios – ao elenco, ao roteiro, ao diretor, à qualidade cinematográfica. E espero conhecer mais obras com esses atores e mais produções desse diretor.

18 de set. de 2010

Leões e Cordeiros

Lions for Lambs, 2007, 83 minutos. Drama.

________________________________

Assim que vi esse filme, pensei que a presença de Tom Cruise e Meryl Streep fizessem com que ele fosse extremamente interessante, ainda mais com a sinopse que li, na qual o senador interpretado por Cruise tenta convencer uma jornalista a expandir suas estratégias de combate; paralelo a esse evento, um professor tenta auxiliar um de seus alunos a dar um caminho melhor aos estudos, usando para exemplificar dois jovens que um dia tiveram aula com ele e que naquele momento estavam lutando pelo país.

O rumo nos parece muito bom no começo, principalmente porque todos os personagens estão de certa conectados um ao outro ou pelos menos à história do outro. Assim, podemos ver o quão entrelaçados estão os personagens e como as palavras soam esperançosas e ao mesmo tempo falsas diante das adversidades que as situações proporcionam. Isso é eficientemente perceptível nas cenas em que o senador explica passo a passo à jornalista a respeito de suas técnicas, numa tentativa de fazê-la cultuar o seu plano; porém, no Iraque, o espectador vê a forma como o plano falha consideravelmente à medida que o senador o eleva a um nível de infalibidade inexistente. O roteiro na minha opinião não é tão elaborado, pois dispensa bons momentos que poderiam ter sido trabalhados a fim de captar a densidade da emoção de cada personagem. As cenas intercaladas proporcionam certa expectatitva, mas se as considerarmos em sua totalidade, percebemos que elas não mostram nada novo, apenas se repetem incansavelmente.

Não acredito que esse seja um filme que dê chances para os atores, pois as cenas limitam as atuações a meros diálogos, que, tal como as cenas em si, soam sempre repetidos. Isso se torna muito visível nos takes em que Meryl Streep e Tom Cruise estão, pois a mesma fala é dita usando sinônimos. Ainda assim, acho que Cruise se mostrou bem no papel do senador, se diferenciando um pouco da monotonia dos outros personagens. O mais inútil é Todd, já que o ator Andrew Garfield fez o possível para dar um caráter soberbo e irritante ao seu personagem e as suas falas não acrescentam anda ao filme, apenas dispersam o espectador, que pouco a pouco se cansa do que vê. Robert Redford, já experiente na direção de filmes - tendo, inclusive, sido premiado com o Academy Awards em 1981 por Gente Como a Gente -, parece buscar se expressar pouco na linha narrativa pela qual optou, fragmentando tanto o filme que a todo tempo a cena anterior é retomada; ou seja, em uma hora e vinte minutos, vemos o que poderíamos ver em vinte minutos. Não posso deixar de dizer, porém, que alguns diálogos são extremamente fortes, causando no espectador uma sensação de confidência, que soa cruel quando as cenas de guerra seguem siretamente às cenas em que ocorre a entrevista. O auge de Leões e Cordeiros, cujo título é bastante interessante e faz menção a vários eventos do filme, são os momentos em que vemos os jovens na guerra e o rápido flashback no qual eles se mostram obstinados a fazer algo realmente melhor, considerando que isso signifique alitar-se ao exército.

Eu realmente não penso que esse é um filme para não ser visto, mas não tenho bons argumentos para fazê-los vê-lo. De aproveitável nesse filme, são as cenas de guerra, que somam, no máximo, um quarto do tempo total. Meryl Streep, Tom Cruise e até mesmo Robert Redford não são bem aproveitados, mas o filme não é um desastre - nem de longe o é. O título original - cujo sentido se perdeu na tradução - faz ótimas alusões a algumas breves cenas e também expressam bem o significado de algumas passagens; cabe ao espectador analisá-lo.

12 de set. de 2010

Zodíaco

Zodiac. EUA, 2007, 157 minutos. Suspense.

_______________________________________

Zodíaco é um filme baseado no livro de Robert Graysmith, que também é personagem desse longa-metragem. Quando comprei o livro e o li, há uns quatro anos, fiquei ansioso para ver a produção cinematográfica, pois imaginei quão distorcidos ficariam os arquivos que são mostrados no livro; imaginei que eles se preocupariam principalmente em adotar medidas que induzam o espectador a chegar à conclusão acerca de quem é o Zodíaco e, o que seria mais desesperador, nos revelar quem ele é. Digo isso porque, para aqueles que não sabem, o livro nos traz uma série de evidências, anotações, cartas, etc., mas no final não revela quem é o assassino, até porque ainda hoje não se sabe quem cometeu todos aqueles crimes.

Descobri que o filme não somente é uma boa obra de cinema como também é uma adaptação bastante fiel. Jake Gyllenhall, à frente do elenco, já que interpreta Graysmith, faz jus à sua escolha como protagonista, pois não deixa a desejar durante as cenas; podemos perceber os vários sentimentos e desejos ao mesmo tempo no personagem. Vemo-lo obsessivo, a fim de encontrar respostas que ajudem a completar o quebra-cabeça que levará ao Sodíaco e também o vemos amedrontado, invadindo territórios alheios, os quais ele não conhece e que podem levá-lo a um dano maior. Mark Rufallo, de Ensaio Sobre a Cegueira, interpreta um detetive que investiga os crimes, quase sempre sem chegar a um resultado, prologando muito o processo investigativo. Rufallo não parece muito diferente de com está em outros filmes, numa atuação bastante morna, às vezes repetitiva e o timbre da sua voz, que deveria nos fazer pensar que ela se deve ao desânimo de não encontrar o assassino acaba nos fazendo pensar que é preguiça em demasia do ator, pois realmente parece que ele não estava com vontade de atuar. Chloë Sevigny certamente está presente no filme para fazer um favor a algum amigo que produziu o filme, provavelmente ser receber cachê; em duas horas e trinta e sete minutos de filme, ela aparece em menos de cinco minutos e tem três ou quatro falas. Dado o fato, não me considero apto a analisar tão pífia atuação. Gostei bastante da atuação de Robert Downey Jr, o Homem de Ferro, cujo interpretar se assemelha ao de Gyllenhall; ainda que não participe tanto quanto o seu companheiro de cena, não se deixa limitar facilmente e dá um caráter bastante realista ao seu personagem.

Zodíaco tem o clima certo para um bom thriller investigativo. A fotografia sombria adquire aspecto ameaçador mesmo nos momentos mais simples e o fato de desconhecermos o assassino nos faz pensar que a qualquer momento Graysmith pode estar diante dele sem saber disso. A trilha sonora do filme auxilia, criando bons momentos, mas penso que seja realmente a fotografia interessante e as cenas de mortes que dão uim charme extra. Acreditamos que veremos atitudes extremamente sádicas, como tortura, mas o mais próximo disso que o assassino chega é esfaquear o namorado na frente da namorada. Porém, a cena inicial abre a produção de maneira interessante, numa ótima sequência, muito bem editada, nos permitindo ver vários ângulos e, por fim, os disparos que Zodíaco dá contra o casal. Na minha opinião, não é um filme modinha - aquele tipo que se espalha rapidamente e do qual todo mundo gosta - ; é um filme pra um grupo mais seleto de pessoas que gostam de cinema. Não quero, porém, compará-lo a outros filmes do mesmo gênero como O Silêncio dos Inocentes; diria que se parece mais com Caçadores de Mente, embora poucos conheçam esse filme.

Considerando todos os aspectos, talvez o que único que desagrada seja a duração do filme, que, como especifiquei acima, é bastante longa. Aqueles que lhe assistem por causa de Sevigny se decepcionam; então, eu recomendo o filme se você gosta de uma boa investigação e gosta de finais inconclusivos. Recomendo também que leiam o livro no qual o filme foi inspirado, pois também vale a pena. Logo talvez o comentaremos aqui.

1 de ago. de 2010

Na Natureza Selvagem

A Cecília já esteve aqui no Blog Literatura e Cinema várias vezes. Cmentou comigo um livro, fez um artigo comigo a respeito de um dos nossos escritor preferidos - Stephen King -, e desta vez ela vem mais uma vez para falar sobre um filme, ao qual assistimos em janeiro desse ano, quando ela me ajudou a analisar cerca de 30 títulos. Segue abaixo as nossas resenhas e ela, embora já seja parte da história dessa blog, é a convidada especial de hoje.


Into the Wild. EUA, 2007, 140 minutos. Drama.
Indicado a 2 Academy Awards, incluindo Melhor Ator Coadjuvante.
_____________________________________

Atire a primeira pedra quem nunca pensou, num momento mínimo de raiva adolescente que fosse, em fugir de casa, em deixar tudo para trás: as regras, as ordens dos pais, os costumes, as reuniões familiares de domingo...

Chris McCandless faz exatamente isso. Abre mão de seu conforto, de sua família rica e estruturada, de seu próprio dinheiro, de uma carreira promissora, e parte em uma aventura "na natureza nelvagem". Porém, seus motivos são muito mais fortes do que mera rebeldia adolescente. Chris se cansa da mentira que é sua vida; se cansa de viver de aparências, de status, de o motivo de tudo ser o dinheiro e a imagem.

Parte então em busca de sua essência, da essência de todo ser humano, que é o instinto de sobreviver por seus meios próprios, ter que caçar para se alimentar, dormir ao relento e se proteger dos animais que habitam a natureza.

Seu objetivo é chegar até o Alaska. Em seu caminho ele conhece locais, pessoas, situações, faz amizades valiosas, deixa-as para trás... tudo em prol de sua "grande aventura".

Com o codinome de Alexander Supertramp (Superandarilho, na tradução), Chris passa por diversos lugares deixando sua marca. Não apenas sua assinatura em portas de banheiro, mas principalmente no coração das pessoas.

Tudo é registrado por ele em seu diário. Seus procedimentos de caça, de subsistência, seus meios de se manter "confortável", ou o que isso signifique no meio da selva. E Chris, por mais adversidades que encontrasse, jamais pensava em abandonar sua meta.

O filme possui uma atmosfera envolvente de rebeldia, de primitivismo, que acaba por nos provocar, nos faz querer conhecer pessoalmente a situação. Como seria largar tudo e partir em uma jornada onde a única maneira de sobreviver é fazer uso dos nossos instintos mais primários?

Supertramp consegue sobreviver por dois anos viajando pelos EUA, adaptando-se ao clima e às condições de cada local em que se alojava. Usava de sua própria experiência para aperfeiçoar suas técnicas.

Analisando a história sob esse olhar, nos parece algo surreal, totalmente fictício, um sonho do roteirista. O que mais nos surpreende na história é o fato dela ser baseada em fatos reais. Não apenas uma história inspirada em alguém real, mas verdadeiramente baseada na realidade. O diário realmente foi escrito, as inscrições em banheiros, portas, as pessoas...

A obra mexe com nossos mais profundos questionamentos. Rebelar-se contra a sociedade e criar um meio próprio de vida. Sem consumo, sem escolas, sem regras, sem política, sem mentiras... Chris McCandless conseguiu tal feito, com certo sucesso. Mas até que ponto conseguiríamos fazer o mesmo? O que aconteceria se nos aproximássemos da natureza para dela e com ela convivermos? Talvez seja um instinto que todos possuímos, mas nos falta a coragem para fazê-lo aflorar.

Cecília
____________________________________

Depois que todos me falaram o quão bom esse filme era, eu me sentia obrigado a conferi-lo. Baseado em uma história real e tendo, aparentemente, conquistado a todas as pessoas, Na Natureza Selvagem conta a história de Christopher McCandles, um rapaz aventureiro que desistiu de tudo o que tinha para seguir numa jornada de libertação até o Alasca. Com aspectos técnicos muito bons e boa qualidade astística, esse filme faz jus a todos os elogios que recebe.

A princípio, dois fatos me agradaram: não ver Sean Penn atuando e ver Marcia Gay Harden como coadjuvante. Nunca vi um filme no qual ela seja coadjuvante que não tenha sido bom. No caso desse, ela mal aparece, mas ainda assim marca presença. Aproveito para dizer: Sean Penn deveria parar de atuar e dedicar-se unicamente à direção, já que seu punho firme e sua excelente escolha de foco fez com que esse se torna não somente um culto à atitude de Chris - ou Alexander Superandarilho -, mas também uma homenagem à paisagem ao seu redor. Sean Penn captou com toda a eficiência que ele não tem como ator a vida de Chris desde a sua vida reprimida perto dos pais até a sua ruptura libertária

O grande efeito que o filme causa no espectador é uma sensação de admiração e, sobretudo, aproximação. Ver tudo o que se desenvolve em cena é praticamente participar do filme e estar ao lado do personagem principal. Dentre todos as pessoas que Chris conhece ao longo de sua jornada, podemos sentir que nós poderíamos tê-lo conhecido, poderíamos ter cruzado com ele. Essa inclusão muito bem programada inquestionavelmente conquista o espectador rapidamente. Eu apenas não entendi o porquê de a Academia ter ignorado um filme tão bom como esse. Indicou-o a apenas duas categorias quando poderia tê-lo indicado a pelo menos mais três: Melhor Fotografia, Melhor Ator (Emile Hirsh) e Melhor Diretor (Sean Penn). Considerando que Juno concorreu a Melhor Filme e que Na Natureza Selvagem é superior, então acredito que poderia ter recebido ainda uma outra indicação, desta vez para o prêmio máximo, Melhor Filme!

Ainda que eu tenha tido a impressão de que há mais ficção do realidade nessa obra, não posso deixar de considerá-la uma trama muito boa, com doses equilibradas de emoção, aventura, romance e drama. Apesar de ter mais de duas horas, quase nem percebemos, tamanho o entretenimento. A grande surpresa do filme fica por conta daquele final, já que não exatamente aquilo que esperávamos... a realidade parece tornar-se fatídica ali.

Luís
___________________

30 de jun. de 2010

Um Crime Americano

An American Crime. EUA, 2007, 94 minutos. Drama.
______________________________________

Baseado na história real que chocou a nação em 1965, o filme reconstrói um dos crimes mais chocantes já cometidos a uma só vítima. Sylvia e Jennie Fae Likens, as duas filhas de um casal que trabalha com um circo, são deixadas para uma longa estadia em Indianápolis, na casa de Gertrude Baniszewski, uma mãe solteira com sete crianças. Tempos difícies, e as necessidades financeiras de Gertrurde obrigam-na a fazer este arranjo antes de perceber como esta obrigação levará sua natureza instável a um ponto de ruptura. (fonte - cineplayers)

O interesse em ver o filme surgiu a partir dos comentários de uma colega minha, que dizia que queria muito vê-lo. Decidi alugá-lo e conferi-lo a fim de saber se era realmente bom e, ao terminar de assistir, cheguei a conclusão de que é um filme mediano do qual o espectador já não se lembra uma semana depois. Filmes baseados em fatos reais costumam chamar a minha atenção, já que os acho muito interessante, principalmente pelo fato de que os diretores costumam buscar outras perspectivas além das convencionais e somos apresentados a uma faceta diferente do personagem que, na vida real, é visto exclusivamente de outra maneira. Para exemplicar, cito Monster, no qual Aileen Wuornos - a primeira serial killer americana - é mostrada como figura humana e não o monstro que comumente vemos nas fotografias. Por esse motivo, pensei que Um Crime Americano se tratava de um filme legal.

O primeiro ponto de desgate é o fato de o roteiro optar pela narrativa em primeira pessoa, sendo que a narradora é a garota que sofria as torturas. Sabe-se que os narradores-personagens não são sempre confiáveis; sua visão é deturpada pelas suas emoções e às vezes pode ocorrer uma modificação da realidade. Isso é extremamente distoante da proposta que nos é apresentada: embora o roteiro queira que nós acreditemos que tudo aquilo que seja verdade, a pessoa que nos conta é exatamente aquela que pode exagerar ou omitir fatos. Logo, isso interfere na credibilidade da suposta "história real". Ao longo da narrativa, quase toda em flashback, somos apresentados aos depoimentos das pessoas envolvidas nas sessões de tortura que Sylvia sofreu. Outro problema do roteiro. Os trechos mostrados dão um ar renovado às longas sequências (às vezes monótonas) que mostram o relacionamento familiar problemático que Gertrude impõe às meninas Likens, no entanto, eles são curtos demais, mostrando momentos picados das respostas dos réus, e isso irrita o espectador, que quer ver uma cena completa se desenvolver no tribunal sem interrupções desnecessárias. Alguns elementos que eu simplesmente detesto são acrescentados na história num determinado ponto: aquelas costumeiras cenas de "sonho", que servem para induzir o espectador a pensar que o que ocorre é real para em seguida mostrar que não é real e o acréscimo de elementos sobrenaturais, que definitivamente não combinam com histórias narradas com tamanha proximidade aos fatos "palpáveis".

As atuações não são as melhores; não são, porém, totalmente ruins. Catherine Keener está muito bem interpretando Gertrude. Seus trejeitos a definem como uma mulher instável e potencialmente perigosa, o seu jeitod e olhar mostra o quão perturubada a personagem é. Os melhores momentos da personagem - e também da interpretação - é quando Gertie está cada vez mais distante da noção de realidade e ignora os fatos que acontecem ao seu redor, dando desculpas absurdas para justificá-los. Uma cena interessante é aquela na qual Gertie permite que várioz vizinhos entrem no porão e espanquem Sylvia enquanto ela caminha pelo local recolhendo roupas para lavá-las, demonstrando-se extremamente indiferente à situação. Ellen Page nos convence como uma adolescente, mas não tive a impressão de que as constantes agressões surtiram algum efeito psicológico nela, uma vez que tudo que a personagem faz é dar uns gritos - qualquer um pode gritar por qualquer coisa. A atriz tem talento, cabi a Tommy O'Haver, o diretor, complementar mais a situação de sua personagem, tornando-a interativa de alguma coisa em vez de mostrá-la unicamente como um saco de pancadas. Todos os outros atores estão relativamente bem, uma vez que seus personagens não requerem grandes técnicas de interpretação.

Um Crime Americano começa bem, se perde um pouco ao longo de sua projeção e, ao final, sabemos que não nos lembraremos muito dele poucos dias depois de vê-lo. O entretenimento não é máximo, mas ajuda a passar o tempo, principalmente se você estiver entendiado. Ainda a favor do filme, há um trilha sonora simplista e contraditoriamente eficiente, que acrescenta um drama ainda maior às cenas que, por si só, não transmitem o tom certo. Entre os prós e os contras, considero que esse seja apenas mais um filme a ser visto esporadicamente por aqueles que frequentam as locadoras de vídeos.

Luís