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16 de mar. de 2012

Poder sem Limites

Chronicle. EUA / RU, 2012, 84 minutos, sci-fi. Diretor: Josh Trank.
Uma obra que, apesar de madura e sóbria, não é verdadeiramente interessante.

O subgênero found footage apareceu no cinema com bastante freqüência desde “A Bruxa de Blair” (1999), no qual um tape registra as imagens de uma aventura de três jovens numa floresta na qual supostamente vivia uma assombração – o fato de os jovens terem desaparecido e o vídeo ter sido encontrado faz com que pressuponhamos suas mortes e talvez isso comprove a existência do perigo sobrenatural na floresta. Mas os ambientes desse subgênero do cinema não aparecer apenas em filmes de terror tampouco requerem a presença de ambientes escuros. “Poder sem Limites”, ou Chronicle, conforme o original, nos mostra justamente isso: os três protagonistas dessa trama são jovens do ensino médio que vivem rotinas bastante ordinárias e que subitamente se vêem ante uma nova experiência de vida.

 Os três jovens prestes a passar pela mutação que lhes concederá poderes.

Apesar de um tom bastante sobrenatural que às vezes presenciamos e da história que, por si só, já apresenta aspectos inerentes à ficção científica, o filme facilmente transita entre o terror e o drama, apresentando um gênero híbrido e, pelo menos nesse aspecto, bastante funcional. Basta vermos como gradualmente o ritmo do filme muda, bem como a sua atmosfera, que fica cada vez mais sombria conforme a narrativa avança. Porém, os elementos dramáticos não se perdem, co-existindo pacificamente e intensificando cada cena. Logo no começo do filme, vemos a proposta dos personagens de viverem e registrarem em fita as suas rotinas e, também no começo da película, vemos a fonte dos novos poderes que Andrew, Matt e Steve adquirirão – quando descem a uma caverna, descobrem uma parede cristalina colorida e fluorescente que parece emitir ruídos peculiares. A partir de então, observam as novas características conquistadas: capacidade de mover objetos com a mente.

Os garotos são adolescentes e, sem a maturidade apropriada, compreendem a princípio o poder como uma brincadeira. E fazem uso dos novos poderes para atitudes jocosas – construir castelos de lego, mover copos sobre a mesa, fazer móveis tremerem e, já mais hábeis, moverem os carros nas vagas do estacionamento. Mas, à medida que seus poderes aumentam e eles tomam consciência de que podem ficar descontroláveis, decidem que precisarão obedecer uma série de regras para o bom uso de suas habilidades. Parece meio clichê, pois sabemos que personagens com capacidades sobre-humanas são naturalmente falhos e decerto as usarão em momentos inadequados – e isso acontece nessa película, como pressupúnhamos. Percebemos, porém, bastante maturidade no roteiro para lidar com essa situação de forma gradual em vez de torná-la abusiva: Andrew vai pouco a pouco cedendo à pressão social, seja por parte do seu pai, que é um alcoólatra agressivo, ou seus amigos, que mesmo querendo ajudá-lo conseguem inibi-lo ainda mais.

 Andrew, já totalmente descontrolado e perigoso.

Honestamente, penso que o filme tenha verdadeiramente os seus bons momentos, com direito a personagens verossímeis e situações que são cabíveis na narrativa. No entanto, há algo que não me chamou a atenção, embora eu não saiba precisar esse elemento com facilidade. Simplesmente a história não me agradou na totalidade e muitas vezes eu me vi querendo que o filme acabasse logo. Não me sentia muito interessado no drama dos personagens e isso não se deve a momentos que parecem “falhos” no roteiro, como, por exemplo, a ausência de explicação para o objeto extraterrestre ou com capacidade físico-químicas não desobertas – percebemos que o foco do filme – inclusive sua própria estrutura – não permite que esse assunto seja abordado com naturalidade. Alguns podem se incomodar com essa não-explicação, mas eu a considerei excelente na história, tirando dela a responsabilidade por eu não ter apreciado tanto o filme.

De um modo geral, não creio que seja uma obra desagradável de ser vista, até mesmo porque o filme é bastante curto, os atores são eficientes, os efeitos visuais, ainda que não os ache excelentes, não perturbam as cenas, a direção é, senão maravilhosa, pelo menos objetiva e clara no encadeamento dos elementos narrativos. Acredito que possa ser um bom entretenimento, dependendo do humor com o qual assistirem a esse filme, que, a meu ver, é mais satisfatório do que insatisfatório, mas, ainda assim, nada que verdadeiramente entretenha.

14 de jan. de 2012

Convite para um Homicídio

A Muder is Announced. RU / Irlanda, 1985, 153 minutos, mistério. Diretor: David Giles.

Um filme com um grande acerto e um grande erro, mas, apesar desse erro grotesco, uma obra que vale a pena ser conferida.

Honestamente não conheço muitos filmes baseados em livros de Agatha Christie. Acredito que o único anterior a esse a que eu já assisti foi “Assassinato no Expresso do Oriente” (1975), que rendeu a Ingrid Bergman o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante e Albert Finney uma indicação como Melhor Ator. “Convite para um Homicídio” se trata, na verdade, de uma minissérie feita para a televisão britânica e exibida em três episódios de cerca de cinqüenta minutos cada.

Devo começar dizendo que duas coisas me chamaram muito a atenção nessa produção: a excelente adaptação, que conta com atuações estarrecedoras e que dão total credibilidade àquilo que vemos, e a outra - esta negativa - se refere à falta de ritmo e de esclarecimento nos momentos finais, que deveriam ser o ápice dessa trama de assassinato. Como o próprio título sugere, é feito um convite para um homicídio que haverá de acontecer em Little Paddocks às dezenove horas - um anúncio no jornal matutino diz que todos os amigos estão convidados, o que gera curiosidade nos vizinhos e faz com que todos vão ao local na hora combinada, pensando tratar-se de uma brincadeira - os donos da casa, inclusive, pensavam tratar-se de uma brincadeira e, curiosos e ansiosos, resolveram levar adiante aquela situação.

 Murgatroyd e Hinch, duas personagens que serão fundamentais para a resolução dessa trama.

Para a surpresa de todos - e também do espectador desavisado (leia-se: aqueles que não conhecem a obra literária) -, acontece mesmo um homicídio: depois que todos se reúnem na casa de Letitia Blacklocks, todos à espera do começo da brincadeira, as luzes se apagam e um homem mascarado invade a sala, ilumina as pessoas com uma lanterna extremamente forte e dispara três tiros, um dos quais fera a dona da casa e outro que acertou a ele mesmo, aparentemente tratando-se de um suicídio todo teatral. A brincadeira gera muita confusão: uns crêem que o homem apenas estava ali para fazer seu último espetáculo antes de se matar; outros acreditam que ele estava ali para matar Letitia (doravante Letty); e ainda há os que acham que ele não se suicidou, sendo aquilo uma armação para um assassinato que acabou dando errado e, então, ele foi morto com queima de arquivo.

O filme é dividido em três, sendo que o primeiro deles mostra o acontecimento em Little Paddocks e a investigação policial; o segundo mostra a entrada de Jane Marple, uma senhora idosa, mas extremamente perspicaz, que ajuda o investigador a colher mais informações; e, por fim, no terceiro momento conhecemos as pistas finais que levarão à conclusão - esta mal executada - da trama. É necessário dizer que as duas primeiras partes são muito bem desenvolvidas e o espectador as acompanha com extremo interesse e curiosidade aguçada. Os personagens que conhecemos são bastantes díspares: há Bunny, amiga de Letty, que reside com a amiga e que é extremamente faladora, com características extremamente sinceras; há os Swettenham: enquanto a mãe é inventiva e incoerente, dada aos exageros, o filho é reservado e partidário do comunismo, o que atrai a atenção para si; há o Coronel e sua esposa, sendo curiosamente dele a arma usada pelo invasor de Little Paddocks; há ainda Julia e Patrick Simmons, primos distantes de Letty, a quem ela veio a conhecer apenas recentemente; há ainda a mulher do pároco, mulher bastante sincera e sobrinha de Jane Marple; por fim, a senhorita Haymes, a jardineira da casa, e Hannah, a cozinheira refugiada e temerosa, que acha que todos a odeiam ou querem matá-la.

 Jane Marple: uma velhinha bem mais interessante do que a personagem pedante descrita nos livros.

Toda a investigação inicial chega a conclusão de que o homem invasor, Rudi Scherz, pretendia roubar, mas acabou cometendo suicídio quando viu a situação na qual se pusera. Tudo isso até o segundo ato, quando Jane Marple traz uma sugestão que a ela parece óbvia: o homem jamais estivera armado, fazendo com que ele não pudesse atirar em ninguém nem ao menos em si mesmo - alguém o matou. Quando questionada a respeito, sua explanação é bastante simples: com as luzes apagadas, as pessoas não podiam enxergar nada a não ser a fonte de luz, que, de tão forte, abobalhou-as por instantes - apesar de o homem ter gritado “Mãos para o alto, senão eu atiro” e de as pessoas terem ouvido tiros, esses são os dois únicos fatos, já que ninguém poderia ver-lhe as mãos para constatar que ele trazia consigo um revólver. Assim as investigações tomam novo rumo e o espectador adentra mais ainda aquele universo de estranha calmaria e iminente perigo, como concluímos conforme a história de desenvolve.

Creio que o melhor de tudo seja o elenco. Quando eu li o romance há algum tempo - na verdade, muitos anos atrás -, eu fiquei impressionado com Letty Blacklock e constantemente me perguntava como seria essa narrativa transposta para o cinema - e devo dizer que os personagens aqui vistos são exatamente como eu imaginei. O diretor tomou o cuidado de não permitir que qualquer ator fugisse das características dos personagens do livro, tornando todos bastante fidedignos. Penso, aliás, que aqui estejam os personagens mais fieis a um livro que eu já vi; jamais os imaginei senão do jeito que aqui são retratados. Destaque para Murgatroyd e para a própria Letty Blacklock, interpretadas por Joan Sims e Ursula Howells. Quanto às atuações, talvez o elenco jovem seja o mais problemático, já que alguns deles - a intérprete de Julia Simmons, por exemplo - parecem trazer consigo muitos cacoetes e acomodações nos personagens, sem nos mostrar nada novo. Mas, ainda assim, nenhum grande problema.

 Letty Blacklock: excelente adaptação do livro e interpretação magnífica da atriz.

Se a revelação, no livro, é simplesmente o momento mais interessante e, talvez, angustiante de toda a narrativa, no filme simplesmente vemos a oportunidade de um grande desenlace se perdendo devido à falta de ritmo e à falta de explicações convincentes, que simplesmente parecem ignorar ou dar pouca importância a elementos que são essenciais ao desenvolvimento do plano do verdadeiro responsável pelo “convite para o homicídio”. Quando digo isso, falo a verdade: somente sei como tudo aconteceu, porque me lembro bem do desfecho do romance literário, de outro modo, ficaria com uma expressão de desagrado após ver esse filme. Penso no quanto é válido assistir a duas horas e meia de filme para então concluir que o final deixou a desejar, não por que foi curto demais ou por que a direção é sofrível - porque isso não acontece aqui -, mas porque não há informações suficientes que permitam ao espectador montar em sua cabeça um “mapa” de como tudo aconteceu.

Apesar de bom em sua maior parta, o final deixa a desejar e, infelizmente, sendo o desfecho, no caso desse filme, a parte mais importante da trama, ficamos com a sensação de que não valeu a pena. Mas eu acho que vale que confiramos o filme, porque é uma das poucas adaptação que realmente encantam o espectador - mas, obviamente, eu recomendo que vocês leiam o livro antes ou depois, a fim de ver a diferença que faz a ausência no filme de Jane Marple perguntando à Hinch qual fora a entonação usada por Murgatroyd quando essa, antes de ser mais uma das vítimas, concluiu uma coisa extremamente importante: ela não estava lá. Na verdade, na entonação correta: ela não estava .

12 de dez. de 2011

Assalto ao Banco Central


Brasil, 2011, 102 minutos, policial. Diretor: Marcos Paulo.

Pode ser exagero meu, mas esse é um dos filmes que mais me impressionaram técnica e artisticamente depois de “Central do Brasil” e “Cidade de Deus” – ou seja: filmaço nacional!

A produção de filmes brasileiros desistiu – ou pelo menos abriu mão – de mostrar pobreza e miséria e polícia enfadonha dominando o morro. Parece que nos últimos anos estamos vendo algo novo: enveredamos para a comédia menos formulaica (o que significa um avanço), estamos nos envolvendo com biografias de figuras importantes para a história nacional e, vez ou outra, acontece uma adaptação da literatura nacional (como é o caso das freqüentes adaptações de peças e textos rodrigueanos) ou de eventos verídicos, como é o caso desse filme, que registra os acontecimentos de 6 de agosto de 2005, quando ocorreu o maior assalto a banco da história brasileira.

É preciso que nos atenhamos a esse pequeno detalhe: embora o filme tome como mote um acontecimento real, a sua história é fictícia. Os bandidos jamais foram capturados como o filme mostra nem se teve notícias precisas dos responsáveis pelo segundo maior crime do gênero. Vale lembrar que todo o processo do roubo levou cerca de três meses, tempo necessário para que o bando se reunisse e criasse uma fábrica de grama sintética de fachada numa determinada rua para escavar, a partir dessa empresa, um túnel que os levaria exatamente ao cofre do banco, de onde roubaram cerca de 164 milhões de reais, dos quais apenas 20 milhões foram efetivamente recuperados. 

 11 pessoas, 3 meses, 78 metros de túnel, 3,5 toneladas de notas e 164 milhões em notas de R$50.

Uma vez esclarecido isso, podemos partir para a análise do roteiro, que, a meu ver, só por mesclar de modo tão magnificente ficção e realidade, sem que uma perturbe a outra, já merece um imenso elogio. Primeiro somos apresentados ao Barão – o cabeça do bando – e à Carla, sua mulher, e uma das peças fundamentais na trama. Com extrema eficiência e rapidez, somos rapidamente apresentados à formação do grupo e vemos como cada um dos ajudantes é selecionado: um por ser companheiro de longa data do chefe, outro por ser especialista em túneis, um terceiro por ser engenheiro e precisar apontar o melhor caminho pelo qual devem percorrer e assim vai. Agilmente, logo nos primeiros vinte minutos já conhecemos praticamente todo mundo e já conhecemos suas funções e personalidades. Cabe aqui a informação de que o filme foca no drama do acontecimento, não nos problemas pessoais, assim conhecemos as personalidades e passados dos personagens à superfície, sem, porém, torná-los superficiais – e essa é uma característica fundamental pra trama, uma vez que roteiro e direção auxiliam os personagens e conseguem colocar os espectadores dos seus lados em vez de em oposição a eles.

Outro ponto fundamental da história é a agilidade do plano fragmentado de ação. Se o filme fosse totalmente linear, o espectador poderia ter interesse diminuído pelo fato de saber que os ladrões conseguiriam sair livres, já que, como o fato, a polícia federal não conseguiu prender os responsáveis pelo crime. Assim, a fragmentação da obra, colocando passado, presente e futuro em planos nivelados, faz com que o espectador atente não apenas à execução do plano do roubo, mas também no trabalho da polícia. Que o roubo aconteceu, já sabemos – isso é fato; que a polícia, na ficção do filme, prendeu os bandidos, também sabemos – vemos isso logo. A pergunta que fica é: onde é que eles erraram e onde a polícia acertou? Sabemos, ao concluir o filme, que bandidos e polícia tiveram acertos e erros e, embora para alguns tenha dado errado, para outros tudo sucedeu muito bem. A opção pela mistura dos tempos, colocando-os misturados na disposição do filme cria uma agilidade maior – é um quebra-cabeça que vai sendo montado pelas bordas, o que importa está bem no meio e a informação nucléica vem cada vez mais rápido. Claro que não podemos de modo algum nos esquecermos da edição, que é realmente essencial para o ritmo do filme tampouco devemos deixar de incluir elogios à eficiência do diretor Marcos Paulo, responsável, sobretudo, por grandes títulos da teledramaturgia nacional (foram dirigidas por ele as novelas Porto dos Milagres, A Indomada e O Beijo do Vampiro).

 Telma, uma das personagens deficientes do roteiro, e Amorim: os responsáveis pela captura dos bandidos.

Se a situação dos bandidos é bem defendida pelo roteiro e pelos atores, a situação da polícia parece meio bamba. É meio difícil entender o porquê de terem colocado a personagem de Giulia Gam como uma criatura tão descontextualizada ali – não pude compreender a necessidade da quase­-proposta de discussão sobre sua sexualidade bem como não dá pra entender as diversas falas sem sentido. Até mesmo que eu não tenho experiências práticas com análise de material em investigação sei que existem erros que não se cometem, como buscar um quando se pode pegar todos. Essa pequena deficiência – associada a alguns momentos de fraqueza na atuação da atriz – fazem o filme perder um pouco do seu fôlego. Em contrapartida, vemos um Lima Duarte feroz, vívido, muito mais interessante do que em muita novela que ele já fez. Ele realmente me convenceu de que é assim que delegados se portam, é exatamente daquele jeito que eu imagino os oficiais brasileiros agindo: naquela postura, naquele tom de voz. Hermila Guedes, Milhem Cortaz, Eriberto Leão, Gero Camilo e todos os outros atores que estão do “lado negro da força” defendem seus personagens com tanta eficiência que acabam por transcendê-los – inevitável não acreditar neles, são verdadeiramente bandidos dispostos a lutar pelo que querem – e querem muito dinheiro.

A junção das atuações, roteiro e direção resultam num filme potente e marcante. É mesmo uma obra singela do cinema nacional, mas verdadeiramente forte a ponto de se fazer lembrar. Adoro o modo como tudo vira crítica aqui, seja nas falas do engenheiro – que diz que no Brasil, chega um e faz merda, aí vem outro seis meses depois e faz merda em cima da merda –, no comportamento da polícia, que deveria servir e proteger, mas acaba até mesmo traindo os seus e roubando bandido em função de benefícios pessoais e da ineficiência das investigações, que, como se vê no filme, mesmo conseguindo algumas informações, realmente não chega à profundidade do problema. Tem aqui até mesmo espaço para um pouco de humor, uma participação simpática de Cássio Gabus Mendes e, ainda, uma bela cena de sexo ao som de “Fora de Ordem”, do Caetano Veloso. Acredito, claro, que falte nesse filme a pungência dramática de Fernanda Montenegro em “Central do Brasil” assim como a delicadeza e precisão técnica de “Cidade de Deus” – mas, mesmo assim, acredito ser essa uma das melhores obras nacionais realizadas e que vale a pena ser vista por todos.

18 de nov. de 2011

Pânico 4

Scream 4. EUA, 2011, 111 minutos, suspense. Diretor: Wes Craven.
Para mim, embora o primeiro filme da série seja interessantíssimo, é a sua terceira sequência que me cativou, justamente por causa da sua abordagem metalingüística que consegue resumir em si tudo o que foi dito nos filmes anteriores.

"Não mude o filme original!" - Sidney Prescott

Começo afirmando que eu sou um fã da franquia iniciada por Wes Craven e Kevin Williamson e que minha resenha será carregada de uma quantidade notável de amores, já que Scream foi um dos filmes de terror que mais remetem à minha infância (só pra constar, à época do lançamento do terceiro filme, em 2000, eu tinha 9 anos de idade). Confesso que fiquei surpreso e temeroso quando soube de um quarto filme: se o terceiro, embora agradável para mim, já não era mais tão interessante quanto o primeiro, o que esperar então de um quarto filme?

De algumas coisas, eu já sabia: Sindey Prescott seria mais uma vez alvo dos assassinatos, Gale e Dewey estariam ali para ajudá-la e, no caso de Gale, ajudar a si mesma também. Assim, restava conhecer o outro núcleo da história, já que evidentemente haveria um grupo a ser perseguido, além dos protagonistas da trama. Assim, conhecemos Jill, prima de Sidney, e seus amigos, que serão também perseguidos e mortos, como ocorreu em todos os filmes anteriores da série.


Primeiro, acredito que as interpretações são muito boas, principalmente no que diz respeito ao modo como os atores continuam em seus personagens. Aliás, não sei bem se isso é algo bom para eles, pois me parece que eles, afinal, nunca saíram desses personagens já que nunca interpretaram – a exceção fica por conta de Courtney Cox-Arquette – personagens tão importantes quanto os que viveram na até então trilogia Scream. Também acho válido apontar que os personagens conseguem realmente nos satisfazer – pelo menos aos espectadores como eu, mais saudosistas –, uma vez que remetem mesmo àquilo que eles sempre foram: Sidney, embora pacífica, é bastante bruta quanto precisa; mesmo amedrontada, continua vívida e racional em suas ações. Dewey, por sua vez, é uma versão melhorada do que ele era no primeiro filme, mas, ainda assim, está bem longe de ter a esperteza e sagacidade de Gale, que, estando arruinada em sua profissão, resolve voltar às suas origens de jornalista sensacionalista e inescrupulosa e, juntando-se a dois estudantes fanáticos pela tecnologia, mostra que não aceita estar por baixo.

Como soubemos aos assistir aos filmes anteriores e como sabemos pela explicação nesse roteiro: a série é extremamente metalingüística e fala sobre o gênero terror ao longo de todo o seu desenvolvimento. Assim, em Scream (1996), conhecemos as regras básicas para sobreviver num filme de terror; em Scream 2 (1997), são apresentadas, dentro do filme, as características típicas de uma continuação; já em Scream 3 (1997), apresentam-se-nos os emblemas fundamentais da última parte da trilogia. Mas, como é dito em Scream 4, datado desse ano, com a vinda do novo milênio e com as novas focalizações cinematográficas dentro do gênero horror, devemos nos ater aos remakes – e é justamente a respeito disso que o filme de Craven falará. Percebemos que há a existência do duplo, criando assim uma especificação temporal no tempo presente, mas também remetendo à película de 1996: Jill é a representação de Sidney; Charlie e Trevor são o dobro de Gale Weathers; Judy Hicks, policial que trabalha com Dewey se mostra como seu duplo; Kirby corresponde à melhor amiga da protagonista, que no original correspondia a Tatum. Eis presente a metalinguagem que permeou toda a série proposta por Craven.


Do que mais gosto no filme é justamente a questão da personagem duplicada, que nos remete temporalmente ao que a pessoa é e àquilo que ela foi. Indubitável que o efeito conquistado é ótimo: estamos assistindo, ao mesmo tempo, à produção de 1996 e à produção de 2011 – embora quinze anos separem os dois filmes, vemo-los juntos aqui acontecendo em concomitância, embora já os tenhamos visto também em concatenação. E ao longo de todo o filme, há espaço suficiente para que ocorram assassinatos violentos, dúvidas muitas a respeito de quem pode ser o assassino (com destaque à dúbia personagem de Marley Shelton, que, numa única cena, consegue nos colocar uma dúvida que nos perseguirá até o final), até espaço para algum romance entre Charlie e Kirby, vividos pelo estranho Rory Culkin e Hayden Panettiere, mais famosa como Claire, do seriado Heroes. E, como se não bastasse as relações com o primeiro filme, há relações fundamentais que provêm respectivamente dos segundo e terceiro filmes, que são os filmes Stab, os famosos movies within a movie que se verificam a partir da primeira continuação de Pânico. É justamente com uma referência aos filmes Facada que Pânico se inicia: uma evidente crítica ao sensacionalismo desvairado que faz com que os filmes de terror recebam continuações exageradas, independentemente daquilo que será mostrado no roteiro que, diante da necessidade de acumular mais dinheiro, acaba ignorado quase que totalmente, fazendo com que, como dito no filme, possa haver até viagem no tempo num filme como Stab que é, como se nota, o duplo de Scream. Só para constar: é um extremo deleite as participações breves de Anna Paquin e Kristen Bell – bastante conhecidas pelos seriados True Blood e Veronica Mars.

Creio que o desenvolvimento do filme seja realmente interessante, principalmente por causa da sua dinâmica, que ajuda muito a prender a atenção. A somar, aqueles velhos truques de fazer pensar que é uma pessoa para ser outra, assim como o encurralamento de uma personagem, o modo assombroso como o ghost face se projeta ao longo de toda a obra – afinal, ele pode e parece estar em qualquer lugar. Isso para não citar o momento de revelação que, na minha opinião, foi muito interessante, justamente por mostrar-se outra abordagem do duplo – e desta vez, não apenas no sentido de “personalidade duplicada”, mas, num sentido mais técnico do recurso abordado constantemente na literatura, verifica-se a oposição de personalidade. E isso somente torna o filme mais interessante!

Que eu sou fã das obras de Craven vocês já devem saber. Desde o seu primeiro filme, The Last House on the Left, de 1972, a sua produção dentro do horror é bastante interessante, mesmo que haja, às vezes, umas falhas, como é o caso de New Nightmare, de 1994. Pânico 4 é um bom entretenimento e, honestamente, penso que seja uma boa continuação da série; muito válido e divertido além de possuir uma abordagem inteligente a respeito de si próprio e dos remakes. Aliás, a respeito da primeira regra deles, Sidney Prescott dá um aviso muito importante: don’t fuck with the original [movie].

8 de jun. de 2011

Pânico

Scream. EUA, 1996, 116 minutos, suspense. Diretor: Wes Craven.
Trata-se, para mim, de uma obra interessante e muito válida, ainda que possua alguns pequenos defeitos. O gênero terror é discutido numa metalinguagem excepcional.

O ano era 1996 e todos os filmes de terror do momento provinham de inúmeras sequências de franquias já bastante conhecidas – e muitas delas bastante gastas – nas quais jovens eram atormentados por um assassino muito peculiar: as garras nos dedos, no caso de Nightmare on Elm Street; a máscara de hóquei, em Friday the 13th; o rosto especialmente branco de Michael Myers, de Halloween. É válido notar que, dentre os filmes produzidos entre a década de 1970 e o meio da década de 1990, todos os assassinos eram conhecidos pelo público e todos eles possuíam características que pareciam torná-los invencíveis, mesmo que fossem essencialmente humanos, como é o caso de Michael Myers, Leatherface e o grupo de indivíduos estranhos de The Hill Have Eyes.

Ao assistirmos à produção de Wes Craven, escrita por Kevin Williamson, perceberemos que o assassino não difere muito dos seus outros colegas de matança – ele é muito obstinado, difícil de matar, parece estar em todo lugar, é assombrosamente rápido (ainda que burro, muitas vezes). A diferença notável está no fato de que Sidney Prescott, a personagem protagonista, é perturbada por inúmeros assassinatos que envolvem seus amigos sem que ela – ou nós, espectadores – saibamos quem é o responsável pelos crimes. A máscara de ghostface não apenas cria uma característica especificadora à série Pânico como também impede de que saibamos quem é o assassino. Quando o passado de Sid é revirado, principalmente no que diz respeito à morte brutal de sua mãe um ano antes, tanto o espectador quanto os personagens encontram-se na mais completa escuridão, em evidente oposição à situação exibida nos outros filmes, quando sabemos quem Freddy Kruger, Jason Voorhees, Chucky são e do que eles são capazes de fazer.

No universo ginasial apresentado por Williamson, conhecemos os personagens e parte de suas mentalidades. Todos adolescentes, vemos a garota traumatizada, a sua melhor amiga, o namorado estúpido da melhor amiga, o namorado da protagonista e, ainda, o garoto que entende tudo sobre filmes de terror e que é capaz de guiar os outros nas situações de esclarecimentos. A somar, há o xerife local e um repórter bastante oportunista, que visa qualquer tipo de benefício à custa de outras pessoas. Inequivocamente, esses sete elementos serão colocados à prova quando um assassino resolver revolver o passado e trazer à tona a problemática da morte da mãe da personagem principal, que vive atormentada pelo que aconteceu à sua mãe. Figura importante na história é também à do assassino, que é composto de modo diferente da maioria dos que lhe precederam: ele não é movido exclusivamente por instintos; ele age racionalmente, premeditadamente, seguindo um padrão e deixando pistas que permitam levar à sua identificação.

Pânico, então, nos apresenta uma história de histeria entre personagens que estão prestes a morrer e um assassino disposto a fazer mais vítimas. Paralelamente, há também uma notável linguagem autoexplicativa no roteiro, que explica as concepções básicas de filmes de terror – curiosamente bem colocadas num filme de terror. Logo na cena introdutória, vemos um diálogo no qual Casey e o assassino conversam pelo telefone; ele está notavelmente interessado na opinião dela a respeito de filmes de terror e acaba propondo um quiz, que lhe valerá a vida. Os diálogos são muito bem estruturados de modo a apresentar aspectos dos filmes desse gênero – percebe-se interessantemente a inclusão das regras de como se sobreviver num filme de terror e algumas situações irônicas, como aquela em que Sid diz ao telefone que jamais correria para o andar de cima em vez de ir pra fora da casa só para depois precisar correr para o andar de cima, haja vista que havia trancado a porta e não a conseguia abrir.

As figuras de poder da trama estão focadas em duas personagens: Sidney Prescott e Gale Weathers, respectivamente interpretadas por Neve Campbell e Courtney Cox-Arquette (que, à época da produção do primeiro filme, não carregava o sobrenome do ator David Arquette, com quem veio a se casar). A primeira é a heroína mais desaventurada do cinema de horror: passou por quatro filmes de intensas perseguições e muitas lutas. Se afirmamos que os vilões são, às vezes, quase sobre-humanos, não há muita margem de erro se dissermos que Sidney Prescott também é. Gale é também mocinha, como se verificará no longo da série, mas ela é inevitavelmente uma personagem intragável a princípio. É exatamente essa oposição que a torna tão interessante quanto Sidney – a meu ver, talvez até mais interessante! Não creio que haja, apesar de eu achar as personagens interessantes, espaço para grandes atuações e efetivas demonstrações do talento das atrizes – ou mesmo dos atores, de um modo geral. Pânico é uma produção que choca pelo seu visual e pelo seu efeito estético: o assassino é bastante irônico e muito humano, tanto é que não é nem um pouco difícil despistá-lo.

Considerando todo o modo como a obra se compõe, acredito que Scream seja um título que valha a pena ver. Não apenas pelo seu conteúdo, que eu acho bastante divertido, mas também pelo seu impacto na época e que, ainda hoje, gera efeitos, principalmente quando consideramos que, depois de 11 anos desde a última sequência (Pânico 3, em 2000), foi lançado a terceira continuação dessa série iniciada em 1996. Enredo divertido, clímax na medida certa, trilha sonora bem aplicada (alguém é capaz de esquecer Red Right Hand tocando?) – enfim, um filme que marcou uma geração e que ainda é capaz de atrair a nossa atenção.

8 de fev. de 2011

Atração Perigosa

The Town. EUA, 2011, 125 minutos, policial. Diretor: Ben Affleck.
Uma produção bem dirigida, que é capaz de envolver o espectador na trama. Ben Affleck merece parabéns pela direção.

Algumas personalidades, muito conhecidas numa área, às vezes se arriscam num outro campo e sucedem. Esse é o caso de Clint Eastwood, Tim Robbins, Sean Penn e mais recentemente Ben Affleck. Todos eles começaram como atores e, então, descobriram o gosto por atuar também fora das câmeras – ou melhor, atrás delas. Acabaram nos mostrando bons filmes, que mostram o talento deles como diretor.

Esse filme, The Town, baseado no romance de Chuck Hogan, fala sobre uma cidade – sim, a cidade, como veremos, também é protagonista –, Charlestown, na qual vários assaltos acontecem. Então, o filme se enfoca em Doug McRay e em seu gangue, que usualmente assalta bancos e consegue sempre sair impune, mesmo que os policiais estejam já desconfiando de que sejam eles os responsáveis por uma série de assaltos. Quando uma refém é capturada e depois solta, Doug resolve aproximar-se dela para saber se ela desconfia de que sejam eles os ladrões, mas acaba se apaixonando por ela.

Definitivamente, Ben Affleck me convenceu de que é bom dirigindo um filme. Ele sofre da mesma maldição de Sean Penn: atua mal pra caramba, no entanto é capaz de conceber uma obra bastante concisa, sem exageros e na medida certa para o espectador. Não quero com isso dizer que essa seja uma obra excepcional – ela é correta e capaz de entreter, não há erros muito notáveis, ainda que haja alguns momentos aparentemente deslocados. Affleck conseguiu registrar muitos momentos relevantes e correlacioná-los, principalmente soube como fazer jus ao título: definitivamente, ele tornou a cidade como uma participante ativa da história. Basta ver as cenas de perseguições, nas quais o cenário é sempre bem focado para causar ainda mais tensão em quem assiste, e também na quantidade de bancos que há em Boston – por si só, a cidade já parece fornecer os elementos necessários para que a história se concretize. A própria gangue pode ser considerada uma “cidade”, eles atuam em conjunto sincronizado, num tráfego sempre perfeito e cronometrado, sem espaços para falhas e sempre conectando, como um personagem diz no filme, A a B e B a C.

Acredito que haja bastante funcionalidade na história, que une ação policial e romance, misturando assim, um gênero ao outro através do personagem Doug, que está, ao mesmo tempo, envolvido com Claire, com a sua gangue e ainda sendo perseguindo pela polícia, unindo assim três núcleos separados do filme. Praticamente a força do filme está nas cenas de ação, são três cenas relativamente longas de assalto a bancos, todos elas bem diferentes uma da outra, de modo que elas não soem repetidas, ainda que, como podemos ver num determinado momento, elas parecem embasar todo o filme e “disfarçar” a ausência de outros elementos nele. Mas, enfim, isso não se torna nenhum grande problema na trama, porque, qualquer coisa que falte, acaba mesmo sendo encoberta pelo efeito do entretenimento. Mas penso que o bom desenvolvimento do roteiro e a direção eficiente de Ben Affleck – que muitos até pensavam que conquistaria uma indicação ao Oscar – não são os únicos bons fatores presentes nessa obra. Se os atores não estivessem em sintonia ou corretos, o filme potencialmente sofreria quanto às atuações, mas isso não acontece, graças, principalmente, a Rebecca Hall e Jeremy Renner, que conquistou sua segunda indicação consecutiva ao Oscar, desta vez na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Ainda que Ben Affleck seja o protagonista da história, quem verdadeiramente chama a atenção são os atores que eu citei. Aliás, até acho que Rebecca Hall merece um personagem realmente de destaque, num espaço cênico maior – parece sempre que ele nunca pode mostrar tudo de que é capaz.

Acredito que Atração Perigosa não faça feio. A história, a meu ver, não soa absurdamente original, mas não deixa a desejar nem cai numa série insustentável de clichês que usualmente são comuns em filmes policiais. Penso que, mesmo não sendo um filme excepcionalmente marcante, Atração Perigosa consegue pelo menos duas coisas: provar a capacidade de Affleck e entreter o espectador por duas horas. Então, penso que seja válido.

18 de jan. de 2011

Marcas da Violência

A History of Violence. EUA, 2005, 95 minutos. Drama.
Viggo Mortensen e Maria Bello em perfeita sintonia, num filme que mantém um clima de suspense interessante e ainda nos faz desconfiar até mesmo de quem conhecemos há muito tempo.

Como a cerimônia escolhida para ser debatida no mês de junho do ano passado no blog Um Oscar por Mês foi a 78ª edição, ou seja, a cerimônia de 2006, eu assisti Marcas da Violência para poder comparar a atuação de William Hurt com a dos outros atores também indicados naquela categoria. Visando basicamente vê-lo em cena, me surpreendi com um enredo bastante interessante, que capta a atenção do espectador e que mostra sem grandes devaneios o quão perigoso pode ser estar ao lado de alguém cujo passado é desconhecido.

Tom Stall é o dono de uma cafeteria no centro da cidade e um dia, ao tentar proteger os clientes de sua loja, acaba assassinando dois homens que invadiram o seu estabelecimento com más intenções. A partir de então, é aclamado como herói local e, para sua surpresa, se torna alvo de um sujeito estranho, que começa a rodear Tom e sua família, acusando-o de ser outra pessoa, alguém de passado sujo. Então, a simples desconfiança toma proporções gritantes quando a perseguição à família se torna mais intensa e fica difícil saber em quem se deve acreditar.

Confesso que o primeiro fator que me deixou feliz foi a escolha dos atores. Viggo Mortensen e Maria Bello, logo no começo, já parecem estar em harmonia, e isso causou a minha rápida simpatia. Não creio que sejam dois grandes atores, mas admito que o entrosamento deles em cena é realmente muito bom e isso perdura do início ao fim do filme. O roteiro prima pela dinâmica, então somos surpreendidos rapidamente com o mote que dará sentido a toda a trama. O mais interessante na construção da história é a ampla divergência inicial; são sugeridas, mesmo que implicitamente, três possibilidades: Tom Stall está sendo confundido, Tom Stall é um cidadão sendo apoiado pelo sistema de proteção à testemunha (e isso implica no fato de que ele deve ter presenciado ou mesmo participado de algum crime) ou mesmo que Tom Stall é Joey, o sujeito que Carl Fogarty procura. Todos essas possibilidades fazem com que a família toda esteja insegura, afinal a qualquer momento uma revelação - ou mesmo uma ação decorrente dessa revelação - poderia afetar para sempre todos os membros envolvidos na trama.

[Parágrafo com bastante spoilers] O que mais me interessou no filme é a dualidade dos personagens. Todos têm dois lados, o bom e o ruim. Tomemos como exemplo o próprio Tom Stall, que é também Joey - o sujeito por quem Fogarty procura. Podemos ver nele os dois lados bastante explícitos: enquanto Tom, ele é um homem honesto, de fala calma, voz macia e totalmente atensioso à família; como Joey, ele é agressivo e ágil e absurdamente impiedoso. O mesmo se aplica ao seu filho, Jack, que no começo busca resoluções através de diálogos, mas depois se torna agressivo e questiona com selavgeria não apenas a função enquanto membro familiar, mas também investe pesadamente contra aqueles que lhe desagradam. Talvez o melhor momento para mostrar o quanto os personagens são movidos pelos seus instintos - e aí fica evidente a dualidade que os rege - seja a cena em que Tom e Edie fazem sexo. No primeiro momento em que isso ocorre, a relação deles é consumida totalmente pela ternura e pela paixão, percebemos isso até mesmo pelo modo como ela se veste (adolescente, provavelmente representando inexperiência); já no segundo momento, há entre eles sexo agressivo e rude, sem toques de gentileza, movidos pelo tesão apenas, caracterizando o seu sexo como animalesco. Essa cena, talvez, seja a melhor do filme - decerto é aquela da qual mais gosto.

Marcas da Violência é um filme cujo título ficaria bem melhor se traduzido literalmente: um histórico de violência. Isso talvez se adeque melhor a tudo que o filme tem a mostrar. O que me deixou realmente surpreso foi a atuação de Maria Bello. Como Edie, esposa de Tom, ela se mostra muito eficiente - não foi à toa que o Golden Globe a nomeou como Melhor Atriz Dramática em Papel Principal. Aliás, outra coisa que me chamou a atenção foi a atuação de William Hurt - como a Academia pôde indicá-lo por uma atuação tão simplista e comum como aquela? Ao lado dos outros atores, ele se mostra totalmente apagado. A sua participação na história de vida violenta de Joey é fundamental, mas até a simples imagem de Joey é mais impressionante que a sua.

Marcas da Violência é um filme que merece ser visto. Muitos podem achá-lo simples demais, talvez até um pouco exagerado, mas eu não vejo nada de absurdo nele. Não duvido nada de que haja muitas pessoas que convivem com Joyes e Tom Stalls e que desconhecem esse fato e que, por conta disso, acabam dormindo com o inimigo achei que o momento fosse bom para uma alusão infame a outro filme. Não hesitaria em conferi-lo mais uma vez, porque ele realmente me entreteve com a sua história e é uma obra que passa despercebida, mas que deveria ser recomendada pelas pessoas que trabalham em locadoras quando os clientes pedem por bons filmes.

3 de jan. de 2011

Cry Wolf - OJogo da Mentira

Cry Wolf. EUA, 2005, 90 minutos, terror. Diretor: Jeff Wadlow.
Um filme adolescente que não é fantástico, mas consegue ser um pouco mais do que a onda crescente de filmes ruins anualmente lançados.

"Vocês não têm imaginação. Parece que, enquanto vocês jogam damas, eu jogo xadrez" - Dodger.

Anualmente são lançados vários filmes ruins - e eventualmente bons - do gênero terror. Muitos simplesmente nem sequer se esquedram nessa classificação, pois não tem os elementos essenciais para causar o medo das pessoas. Cry Wolf, cujo título permaneceu idêntico ao original, mas teve acrescido um péssimo subtítulo, é um dos filmes que me agradaram, embora seja um pouco limitado pelas atuações e tenha um enredo pouco explorado.

Um grupo de jovens de um colégio interno se vêem motivados a uma brincadeira mais ampla do que aquela à qual já estão acostumado. O incentivo provém de uma afirmação de um recém-chegado, que diz que todos já se conhecem demais e, por causa disso, não há mais emoção nos jogos. Aproveitando o ensejo de uma morte recente ocorrida próximo ao campus do colégio, os jovens decidem criar um assassino falso, que já fez outras vítimas antes e que procura dar continuidade às suas atrocidades. Um e-mail é encaminhado para todo mundo do colégio, mas o que eles não imaginavam é que acabariam se tornando alvos da própria brincadeira.

Os que gostam de filmes de terror/suspense perceberão que essa sinopse é meio batida e que ela pode ser aplicada a tantos outros filmes, como O Jogo dos Espíritos, etc. Porém, achei que o roteiro inicialmente foi feliz se considerarmos as imensas possibilidades com a qual trabalhava, podendo explorar várias situações e várias consequências acerca do ato dos jovens; contudo, talvez se o fizesse, teria se tornado um drama, e o objetivo não é esse. Mas de uma maneira bem interessante, nos fazendo desconfiar de cada personagem e ao mesmo tempo da própria veracidade da história que cada um conta, a história vai seguindo colocando um contra o outro e isso vai se tornando uma bola de neve. Alguns podem considerar o filme repetitivo por causa da insistência - que realmente é perceptível - em manter as brincadeiras, mesmo quando se vê que alguém está prestes a desmoronar ali; no entanto, eu achei justamente interessante por causa do excesso, por não saberem a hora certa de parar e pela continuidade exagerada que dão ao jogo. Também vale a pena ressaltar que, embora vejamos a forma como o essencial foi construído e posto em prática, muitos dos outros acontecimentos estão desconectados da intenção principal e que muitos realmente acreditavam em tudo como uma brincadeira, sem compreender que havia mais por trás daquilo. Lendo dessa maneira, pode parecer confuso, mas assim que assistiram ao filme compreenderão do que festou falando.

O elenco do filme é bem jovem, a única excessão fica por conta de Bon Jovi, que interpreta um professor preparatório do curso de jornalismo. Cantor-ator, como inúmeros outros que hoje estão no mundo cinematográfico, Bon Jovi não deixa a desejar e atua bem; o que quero dizer é que o personagem é pequeno demais na trama para que haja espaço para uma má interpretação. Jared Padalecki, de Supernatural, também integra o elenco e sua função é apenas sorrir e lançar acusações, assim como também recebê-las. Os outros são atores desconhecidos, mas nem por isso são ruins. Enquanto assistia ao filme, não pude deixar de traçar um paralelo entre Dodger, a "rainha do colégio", que certamente é a mais inteligente - também a mais fria e calculista - e Kathryn, de Segundas Intenções. As duas são extremamente objetivas e chegam àquilo que querem sem deixar rastros de que são as responsáveis. Embora Dodger fique absurdamente aquém da belíssima Kathryn, que sabe como dominar as palavras e os homens com mais categoria, gostei do seu personagem e achei-a convincente.

Cry Wolf poderia ter recebido um título mais instigante, talvez a própria tradução literal coubesse melhor ao que vemos do que o título inapropriado, já que muitos nem sequer sabem o que Cry Wolf significa. O filme me rendeu uma agradável surpresa e eu o recomendo para um sábado chuvoso na companhia de alguém interessante, desde que você não esteja realmente a fim de densidade, pois se estiver, sugiro que opte por outro filme, como O Silêncio dos Inocentes. O final também me agradou pois, ainda que vejamos como tudo se desenrolou, sabemos que é apenas uma probabilidade e que não há certeza se tudo fora intencional ou se nada do que o rapaz diz seja coerente com a verdade. Enfim, vejam-no nas condições acima.

7 de out. de 2010

Blade - O Caçador de Vampiros

Blade. EUA, 1998, 120 minutos. Suspense / Ficção Científica.
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Lançado há apenas 11 anos, Blade fez sucesso. Anos depois, esse filme é constantemente repetido nas diversas sessões de filmes presentes nas grades de programação do SBT. O roteiro de David S. Goyer trazia certa originalidade ao mostrar um quase-vampiro que tem como profissão a caça a outros vampiros. O personagem se tornou de tal maneira conhecida que até mesmo esteve rpesente nuam lista dos 100 melhores personagens do cinema de todos os tempos, ocupando a 47ª posição. Enfim, vamos ao que interessa.

Blade foi concebido pouco depois de sua mãe ter sido mordida por um vampiro; isso fez com que ele nascesse com as qualidades dos vampiros, como agilidade e força, mas sem os muitos defeitos dele. Dessa maneira, ele pode andar a luz do sol e se praticamente normal. Enraivecido, Blade caça vampiros e os mata, pois quer por fim a maldição dos seres das trevas. Do outro lado, há Frost, um vampiro criado, que tem causado muitos problemas, até mesmo entre a comunidade vampírica. E ele precisa de Blade para que consiga pôr em prática o seu plano.

Alguns não gostam do filme, mas eu não vejo grandes problemas nele. Certamente está longe de ser um grande filme, mas decididamente não se equivale a muitos filmes patéticos de terror, suspense e/ou ficção científica que são lançados anualmente. Acho mediano por causa de uns problemas quanto a criação de certos efeitos especiais e umas bobagenzinhas no roteiro, mas isso não significa que o filme não entretenha quem o vê. Eu particularmente não gostei daquelas bobagens de vampiros alérgicos a alho e prata - isso se assemelha demais a alguns contos infantis e de certa forma faz com que o filme se aproxime de Clube do Terror, aquela série que passava na Rede Record. E também há algumas boas incoerências, como por exemplo a submissão dos vampiros naturais (aqueles que nasceram sobe ssa condição) e os vampiros criados, liderados por Frost. Se todos são fortes como o filme supõe que sejam, por que os vampiros naturais são tão submissos? Parece que não são capazes de fazer nada e essa ideia é reforçada o tempo todo. Outro defeito é a qualidades dos efeitos especiais: os recursos em 1998 já não eram tão escassos, então não haveria por que fazer cenas tão porcas como algumas que vemos. Detalhe para as cenas em que os vampiros explodem por causa de uma solução que a médica insere neles com injeções. Chega a ser triste ver aquele sangue de cor extremamente exagerado, que nem sequer parece estar no mesmo plano que os atores, criando um deslocamento estranho nas cenas. Tais cenas poderiam facilmente ter sido evitadas e, se fossem, aumentaria ainda mais o meu apreço pelo filme.

Quanto à atuação, é um pouco difícil falar, afinal o ator de mais destaque no filme é Kris Kristofferson, intérprete do ajudante de Blade. Wesley Snipes é pouco expressivo e, ainda que o personagem Blade esteja para o ator que o interpreta assim como T-800 está para Schawrzenegger - ou seja, os personagens têm pouca expressividade -, Snipes consegue deixar Blade ainda mais inexpressivo, uma vez que ele não consegue mexer aquela face solidificada. N'Bushe Wright, que deve ter cursado artes dramáticas na mesma escola que Jennifer Lopez, é outro grande empecilho, pois, como devem ter percebido, ela se equipara a Snipes e nenhum dois dois traz uma boa interpretação nem conquista nossa simpatia. Kristofferson, como um velho bastante objetivo, se mostra mais eficiente, mas não muito - ele, pelo menos, nos agrada de certa maneira. Não assistimos a esse filme em busca de excelentes interpretações, porque se fosse isso que quiséssemos, deveríamos procurar por algum filme com Meryl Streep.

Como diversão, dá pra passar o tempo. Não é nenhum grande obra e tem bons efeitos especiais, embora também haja aqueles que fazem com que o filme perca credibilidade. Alguns efeitos ruins cobrindo atuações toscas; história relativamente interessante; para os fãs de vampiros, vampiros. Gosto de pensar que esse não é um filme bom, mas definitivamente poderia ser pior. E isso me motiva a não criticá-lo severamente, considerando-o apenas um filme mediano. E nem consigo imagimar como Blade pode ser melhor do que personagens como Clarice Sterling e Norman Bates, que ocupam respectivamente as posições de número 97 e 80.

Luís
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12 de set. de 2010

Zodíaco

Zodiac. EUA, 2007, 157 minutos. Suspense.

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Zodíaco é um filme baseado no livro de Robert Graysmith, que também é personagem desse longa-metragem. Quando comprei o livro e o li, há uns quatro anos, fiquei ansioso para ver a produção cinematográfica, pois imaginei quão distorcidos ficariam os arquivos que são mostrados no livro; imaginei que eles se preocupariam principalmente em adotar medidas que induzam o espectador a chegar à conclusão acerca de quem é o Zodíaco e, o que seria mais desesperador, nos revelar quem ele é. Digo isso porque, para aqueles que não sabem, o livro nos traz uma série de evidências, anotações, cartas, etc., mas no final não revela quem é o assassino, até porque ainda hoje não se sabe quem cometeu todos aqueles crimes.

Descobri que o filme não somente é uma boa obra de cinema como também é uma adaptação bastante fiel. Jake Gyllenhall, à frente do elenco, já que interpreta Graysmith, faz jus à sua escolha como protagonista, pois não deixa a desejar durante as cenas; podemos perceber os vários sentimentos e desejos ao mesmo tempo no personagem. Vemo-lo obsessivo, a fim de encontrar respostas que ajudem a completar o quebra-cabeça que levará ao Sodíaco e também o vemos amedrontado, invadindo territórios alheios, os quais ele não conhece e que podem levá-lo a um dano maior. Mark Rufallo, de Ensaio Sobre a Cegueira, interpreta um detetive que investiga os crimes, quase sempre sem chegar a um resultado, prologando muito o processo investigativo. Rufallo não parece muito diferente de com está em outros filmes, numa atuação bastante morna, às vezes repetitiva e o timbre da sua voz, que deveria nos fazer pensar que ela se deve ao desânimo de não encontrar o assassino acaba nos fazendo pensar que é preguiça em demasia do ator, pois realmente parece que ele não estava com vontade de atuar. Chloë Sevigny certamente está presente no filme para fazer um favor a algum amigo que produziu o filme, provavelmente ser receber cachê; em duas horas e trinta e sete minutos de filme, ela aparece em menos de cinco minutos e tem três ou quatro falas. Dado o fato, não me considero apto a analisar tão pífia atuação. Gostei bastante da atuação de Robert Downey Jr, o Homem de Ferro, cujo interpretar se assemelha ao de Gyllenhall; ainda que não participe tanto quanto o seu companheiro de cena, não se deixa limitar facilmente e dá um caráter bastante realista ao seu personagem.

Zodíaco tem o clima certo para um bom thriller investigativo. A fotografia sombria adquire aspecto ameaçador mesmo nos momentos mais simples e o fato de desconhecermos o assassino nos faz pensar que a qualquer momento Graysmith pode estar diante dele sem saber disso. A trilha sonora do filme auxilia, criando bons momentos, mas penso que seja realmente a fotografia interessante e as cenas de mortes que dão uim charme extra. Acreditamos que veremos atitudes extremamente sádicas, como tortura, mas o mais próximo disso que o assassino chega é esfaquear o namorado na frente da namorada. Porém, a cena inicial abre a produção de maneira interessante, numa ótima sequência, muito bem editada, nos permitindo ver vários ângulos e, por fim, os disparos que Zodíaco dá contra o casal. Na minha opinião, não é um filme modinha - aquele tipo que se espalha rapidamente e do qual todo mundo gosta - ; é um filme pra um grupo mais seleto de pessoas que gostam de cinema. Não quero, porém, compará-lo a outros filmes do mesmo gênero como O Silêncio dos Inocentes; diria que se parece mais com Caçadores de Mente, embora poucos conheçam esse filme.

Considerando todos os aspectos, talvez o que único que desagrada seja a duração do filme, que, como especifiquei acima, é bastante longa. Aqueles que lhe assistem por causa de Sevigny se decepcionam; então, eu recomendo o filme se você gosta de uma boa investigação e gosta de finais inconclusivos. Recomendo também que leiam o livro no qual o filme foi inspirado, pois também vale a pena. Logo talvez o comentaremos aqui.

10 de set. de 2010

A Vila

The Village. EUA, 2004, 120 minutos. Suspense.
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A Vila é um filme que causa diversos impactos nas pessoas: alguns consideram-no um lixo, outros o admiram. Eu fico on grupo que está em cima do muro: não o acho genial tampouco o deprecio. Penso que é um filme mediano, que tem seus grandes momentos e que, simultaneamente, incomoda um pouco o espectador com o seu desenvolvimento. Mais adiante, eu falarei sobre... vamos a um rápido resumo.

Vários moradores vivem numa pequena vila, sem qualquer contato com a cidade, num lugar bastante isolado. A floresta cerca a vila e todos os moradores têm consciência de que não deve cruzar os limites da floresta, ficando obrigatoriamente delimitados ao lugar onde moram. Depois de muito tempo sem ataques dos que vivem na floresta, os moradores se deparam com um ataque e um aviso, que não sabem exatamente o que significa.

A princípio, pensamos estar diante de um interessante filme de suspense, onde há elementos sobrenaturais e perigosos, que conseguem causar pânico nos moradores e, consequentemente, nos espectadores. Pouco a pouco, percebemos que o suspense existe e que há muitos segredos guardados, o que nos faz pensar que num determinado momento haverá momentos de revelação, que supostamente deve ser o ápice do filme. Não há como dizer que o filme não entretém, porque até metade dele, o desenvolvimento é completamente aceitável e o clima criado é de um suspense interessante, que sempre nos faz perguntar o que exatamente é aquela vila. O roteiro é inteligente ao apresentar um local cravado numa região onde tudo ao redor é floresta. O fato curioso que nos deixa curiosos, e isso é um ponto muito positivo, é a formação da vila. Como ela foi parar ali? Quem veio antes: os moradores - e foram cercados pelos habitantes da floresta - ou os habitantes da floresta, que, por algum motivo, os moradores da vila foram limitados àquele espaço?  Dessa maneira, o foco inicial dos questionamentos do espectador está voltado para essa pergunta.

Com o desenvolvimento do filme e com o acontecimento que dará origem às descobertas - as dos personagens e as de quem assiste à obra -, somos apresentados à explicação de tudo. Conhecemos os motivos pelos quais a vila se encontra ali, o que é aquele lugar, como é possível a existência daquelas pessoas naquela região. Muitos podem discordar de mim, mas eu achei a explicação bastante plausível e coerente, embora, logicamente, seja improbabilíssimo que algo semelhante realmente ocorra. A explicação, no entanto, é coerente demais e contradiz a metade inicial do filme, a qual nos condicionou a esperar por espectros e monstros sobrenaturais. Ressaltando: a explicação é coerente com a trama e com a conclusão proposta pelo filme. O espectador, porém, não esperava exatamente aquele tipo de abordagem e aquela surpresa não é a que todos esperam; como consequência, muitos consideram esse filme como uma obra ruim. O roteiro assinado por M. Night Shyamalan, que também é o diretor dessa produção, possui uma tendência que o separa daquilo que propõe: deveras fantasioso, a explicação é possível e dentro dos padrões - esse talvez seja o erro do filme. Algo semelhante aconteceria alguns anos depois, quando o diretor nos apresentaria Fim dos Tempos: propunha um suspense interessante, mas, afinal, como temer algo tão banal como o vento? A Vila segue a mesma linha e todo o suspense proposto é diluído ao longo do filme.

Dentre as atuações, nenhum grande destaque. O nome de Sigourney Weaver - bastante conhecida e talentosa - me chamou a atenção, mas a atriz tem pouca participação efetiva na história, sendo deixada de lado a maior parte da trama. Adrien Brody, que um ano antes ganhada o prêmio máximo do cinema, nos apresenta uma atuação um pouco forçada, embasada em muitos cacoetes irritantes, sem se decidir se quer fazer de seu personagem um deficiente mental ou se quer torná-lo shakespeariano. Bryce Dallas Howard e Joaquin Phoenix, atores principais, têm um bom desepenho - ela interpreta a moça corajosa, capaz de tudo por amor, e ele, o rapaz tímido, que ama incondicionalmente. É exatamente essa ênfase no amor que faz com que a metade final se desenrole conforme é. Bryce nos motra uma atuação segura, sem exageros, sem maneirismo, logo ela rapidamente conquista nossa simpatia. Eu não sou muito fã de Joaquin Phoenix, mas sua atuação aqui é concisa, o que me agradou. Mas, de um modo geral, atuação não é um grande aspecto desse filme. A Vila, aliás, conta com a presença de Celia Weston, que simplesmente me irrita por suas participações nos filmes, uma vez que suas personagens praticamente não têm finalidade e os diretores a colocam para nos assustar com aquela cara horrível que ela tem.

Por fim, resta-me dizer se recomendo ou não. E acho que essa dica é difícil de dar, porque A Vila não é um filme fácil. Há nele aspectos positivos e negativos e acredito que eles equilibrem a balança - ou, caso ela esteja desequilibrada, certamente há mais qualidades do que defeitos. Ainda assim, não é aquilo que promete ser, mas, de algum modo, causa um impacto em que vê. Portanto, deixo essa decisão a vocês...

Luís
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6 de set. de 2010

Identidade

Identity. EUA, 2003, 92 minutos. Suspense.
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Sempre li resenhas muito positivas sobre o filme Alta Fidelidade e era esse filme que eu buscava quando me deparei com esse outro, também estrelado por John Cusack. Já tinha ouvido algumas opiniões interessantes sobre esse filme e ao somar com a sinopse interessante, que me remeteu a Agatha Christie, eu decidi pegá-lo e vê-lo. Talvez eu acabasse descobrindo uma obra boa e agradável. E foi exatamente o que aconteceu.

Duas histórias paralelas nos são contadas. Uma envolve 10 personagens que, por vários motivos, acabaram presos num motel e um a um eles começam a ser brutalmente assassinados; a outra envolve um prisioneiro que foi condenado à morte e que, no meio da noite, teve uma audiência extra marcada a fim de reavaliação a sua sentença. A princípio sem relação, as histórias vão se aprofundando até que chegam cada um em seu ápice.

O filme não conta com nenhum grande ator. Talvez os nomes mais expressivos sejam John Cusack, a esquecida Rebecca DeMornay e Alfred Molina. Os outros atores, como Ray Liota, Amanda Peet e Clea Duvall são, na minha opinião, meros encaixes hollywoodianos e servem apenas para ocupar uma posição de relativo destaque em filmes. Todos, no entanto, se reúnem nesse filme que tem uma proposta bem interessante e que logo nos minutos iniciais cumpre a sua meta, que é entreter o espectador. Com um tom sombrio e conspirador, vários eventos acontecem nos minutos iniciais fazendo com que todos os personagens se encontram no motel: um acidente, uma tempestade, um pouco de sangue, linhas mudas de telefone. Qual clima melhor do que esse para uma boa história de mistério? A somar, há as características dos personagens: uma atriz famosa nos anos 80, cheia de si e completamente arrogante; uma prostituta ladra; um casal recém-casados, ambos instáveis; uma família aparentemente feliz (se não fosse o fato de que a mãe sofreu um acidente e não pára de sangrar); um policial e um prisioneiro, que cometeu múltiplos assassinatos; e, por último, o dono do motel. Em meio à chuva, ocorre o primeiro assassinato e todos ficam em estado de alerta, porque qualquer um pode ser o próximo.

O filme é inteligente. Gostei bastante do roteiro dele, principalmente por causa do motivo apresentado que interrelaciona ambas as histórias. Não é um filme muito dispersivo. Ele vai direto ao ponto e rapidamente começa a mostrar ação, que em momento nenhum decai - isto é, do começo ao fim, o espectador se divirtirá com o que vê. O julgamento noturno fica em segundo plano, se submetendo aos eventos que ocorrem no motel. Então, se vocês acharam que aquelas passagens do filme são chatas, não fiquem tristes, porque elas são realmente curtas. A atuação dos atores certamente não é o ponto forte do filme, porque todos, sem exceção, atuam no piloto-automático, ou seja, a atuação deles é definitiva pela cena e não pela capacidade individual de mostrar o medo que sente. Mas, mesmo assim, me surpreendi com Amanda Peet, pois eu a imaginava bem mais tosca no filme! John Cusack tem aquela cara de rapaz simpático e por isso eu irrelevo o fato de ele ficar com a mesma expressão o tempo todo.

Eu definitivamente recomendo Identidade, porque é um filme interessante, com bons momentos de suspense e uma linha narrativa que interage consigo mesma, permitindo que o espectador acompanhe o raciocínio de toda a história. O final é interessante, talvez seja mesmo o ponto alto do filme. Muitos discordarão e reclamação da conclusão, eu sei. Mas são essas mesmas pessoas que não entenderam o porquê de tudo aquilo. Vale a pena vê-lo. Se você tiver uma companhia legal e vê-lo num sábado à noite, certamente gostará ainda mais do filme. E se estiver chovendo enquanto você assistir... vai ser ideal.

23 de ago. de 2010

Passageiros

Passengers. EUA, 2008, 93 minutos. Suspense / Drama
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Gostaria de começar essa resenha com uma alusão que penso encaixar-se perfeitamente naquilo que quero dizer. Passageiros é como uma redação que fugiu ao tema. Espera-se que o aluno escreva sobre a importância do pensamento positivo e ele debate os efeitos da propagação de casas de fast-food numa determinada região. Esse filme é exatamente assim: a proposta inicial rapidamente é esquecida, dando espaço a algo que frustra o espectador - e, como se não bastasse, sua conclusão soa bastante inverossímil.

Claire Summers é a psicóloga responsável pelo tratamento de alguns pacientes que sobreviveram a uma queda de avião. Alguns se mostram mais gentis, outros são mais esquivos, mas ela tem contato direto com cada um deles. Ao mesmo tempo em que começam a sumir os pacientes, Claire envolve-se amorosamente com um deles - que excepcionalmente se sente bem melhor e mais vivo, como jamais se sentira. Com o auxílio das informações de alguns deles, ela conclui que a empresa áerea está escondendo algo e que está diretamente ligada aos desaparecimentos.

Primeiro, peço que me desculpem pela sinopse, pois ela, embora de acordo com o filme, é falsa. Por dois motivos e falarei sobre um deles agora. O resume não possui nada de supercriativo ou original, mas facilmente poderíamos ter sido apresentados a uma obra com mais densidade, mais coerência dentro de sua própria proposta. O filme poderia ter feito com que nós pensássemos, feito com que nós nos identificássemos com os personagens e situações e que, de alguma forma, nós nos envolvêssemos com o que é mostrado. Isso, no entanto, não acontece porque o filme perde o foco e só uma hora depois de exibição é que vemos qualquer vestígio do suspense proposto na sinopse. Tão logo que acontece o acidente, bem no começo do filme, Claire é apresentada às pessoas que estavam no avião e um deles já mostra estar "modificado" depois do acidente. Nesse momento, pensei que o filme abordaria aquilo que Claire estuda dois minutos depois dessa cena: sensações extra-sensoriais. No entanto, a percepção aguçada do personagem é ignorada e o filme afunda em dois planos básicos: o romance entre Claire e Eric, vivido por Patrick Wilson, e as sessões frustradas envolvendo a psicóloga e os pacientes.

Vale ressaltar que o roteiro constrói mal os personagens. Claire é a típica estudiosa, sempre ansiosa por mais conhecido, possui dois títulos de mestrado na área profissional em que atua, tem problemas familiares. Seria, enfim, uma personagem interessante. Mas o roteiro a torna completamente abobalhada e o diretor a torna ridícula em algumas cenas, fazendo-a ser uma quase criança. E isso soa muito incoerente com a sua "essência". Eric é o cara da "percepção extrasensorial" e tudo o que ele sabe fazer é dar em cima de Claire. Mas são cantadas de baixo nível, chatas, que não combinam com o tom jovial e culto que o personagem tem. Aliás, eles não combinam, não flui química entre os atores e tive a impressão de que demorou muito tempo até que eles estivessem à vontade em cena. Esse é um dos casos, pelo menos para Anne Hathaway, em que interpretações e personagem não se fundem. Claire é bem estranha e medíocre, deveras instável e, de um modo geral, desaponta o espectador; a interpretação de Hathaway, no entanto, está de acordo com sua personagem, logo, fez seu trabalho bem e ela é a praticamente todo o motivo pelo qual eu dei uma nota razoável para o filme. Admito que também gosto dela, então não fiquei tão incomodado quando ela aparecia em cena...

[SPOILER] O final do filme é o segundo motivo pelo qual Passageiros me incomodou. A conclusão é muito patética e tenta fazer uso do recurso inovador apresentado por O Sexto Sentido, que, embora lançado há 10 anos, continua fresco na memórias dos cinéfilos. Diferentemente do que acontece no filme que eu citei, em Passageiros aquela conclusão é risível por uma série de motivos apresentados no filme, a começar pelo fato de que a vizinha louca e intrometida era, na, verdade, uma tia morta de Claire. Como uma pessoa não se dá conta de que não é normal estar diante de um parente próximo que faleceu? É muito besta! E ainda há o fato de que eles tentam encaixar vários detalhes nas últimas cenas a fim de tornar aa história coerente. [FIM DO SPOILER]

Passageiros é um filme entre o ruim e o mediano, que não consegue se firmar em sua proposição. O potencial suspense se torna romance, os personagens são abobalhados, as situações são inconsistentes e apenas Anne Hathaway traz um pouco de charme e beleza ao filme - ainda assim, preciso apontar que em algumas cenas ela está ridícula! Certamente há filmes mais interessantes para se ver e que realmente fazem jus à categoria na qual se enquadram. De suspense e drama, Passageiros não tem nada!

Luís
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