Sleepaway Camp. EUA, 1983, 88 minutos, terror. Diretor: Robert Hiltzik.
Um filme que mantém segredo quanto ao seu assassino, mas, ainda assim, surpreende - choca! - o espectador com a sua revelação final.
Ao escrever sobre esse filme, creio que seja necessário contextualizá-lo temporalmente antes de me aprofundar na sua estética fílmica. Lançado na década de 1980, o filme se encontra no subgênero slasher que, embora já fosse conhecido há algum tempo, não era tão popular quanto a partir de 1978, com o lançamento de “Halloween - A Noite do Terror”, de John Carpenter. Os anos seguintes viriam a popularizar bastante os slasher movies, que começaram a se produzidos em massa e então chegaram ao nosso conhecimento personagens como Jason Voorhees, de “Sexta-feira 13” (1980) e até mesmo Ângela, de “Acampamento Sinistro” (1983).
E devo dizer que achei o filme sinistro bom, dotado de uma peculiaridade singular. A história de Ângela Baker e dos acontecimentos no Acampamento Arawak é dotada de uma obviedade que intriga o espectador: tudo está tão óbvio, qual é a grande sacada do filme? Fazemos a nós mesmos essa pergunta ao longo de toda a produção, que nos narra a história de adolescentes que são mandados para um acampamento nas férias de verão, onde estranhos assassinatos começam a acontecer, especialmente depois da chegada de Ângela, uma garota de 13 anos cujo pai e irmão foram mortos acidentalmente quando ela era pequena, e seu primo Ricky, que se esforça o máximo possível para protegê-la, já que, como ele mesmo diz, ela é diferente das outras garotas, mais quieta, menos extrovertida.
A tia totalmente teatral e parcialmente responsável pela surpresa da trama.
Recomendo, a partir de agora, que quem não viu o filme e se incomoda com spoilers, não siga em frente, porque eles inevitavelmente podem surgir, até porque, embora eu assuma óbvio o roteiro, não sei se para outros espectadores possa ter sido assim tão fácil enxergar o que havia ali para ser mostrado. Mas o fato é que somos guiados a dois pensamentos, sendo que ambos atiçam a nossa curiosidade e tiram a credibilidade do filme. As mortes se tornam notórias a partir da chegada de Ângela, uma garota que notadamente tem algum tipo de distúrbio, pois sua postura não é nem um pouco normal. Ela mal fala, se locomove estranhamente, vive afastada de todos os outros do acampamento, com exceção de seu primo, Ricky, e de Paul, melhor amigo de Ricky e admirador dela, que parece entendê-la e simpatizar totalmente com ela, a ponto, inclusive, de querer ficar com ela. Como podem notar, ela é odiada ou evitada pelos outros, que zombam dela e procuram meio de incomodá-la, jogando-lhe bexigas com água, obrigando-a a participar de atividades físicas das quais não gosta, fazendo insinuações de que ela seja homossexual (por “ter medo” de tomar banho com as outras garotas) ou, ainda, tentando molestá-la, como é o caso do cozinheiro, que estréia a lista bastante extensa de personagens mortos nesse longa-metragem.
Vamos lá ao primeiro daqueles dois pensamentos que citei: todos os mortos são personagens que, de algum modo, perturbaram Ângela. Não digo que eles a enfureceram, porque ela não é nenhuma Carrie e não dá pra perceber ódio em seu olhar; mas é sabido que houve alguma perturbação e o resultado disso é a morte dos personagens-problemas. Reafirmo: todos, sem exceção, que incomodaram a garota, morrem. Evidentemente somos levados ao pensamento de que tudo isso é obra de duas personagens: de Ricky, o primo protetor, ou da própria Ângela. Como o garoto se porta como qualquer criança normal, inclusive discutindo às vezes - o que é bastante comum -, nossas apostas recaem sobre a garota, uma vez que ela é muito estranha, provavelmente muito mais incomum do que qualquer outra personagens incomum já vista na década de 1980 no cinema. Não há como suspeitar de outro personagem: Paul parece ordinário demais, os monitores do acampamento não matariam uns aos outros, decerto nem vem à nossa mente a dúvida de que possa ser o pai ou o irmão mortos - que, como se poda esperar em filmes do gênero, podem não estar mortos - e também nem Mel, que, embora pareça proteger ferozmente seu acampamento, poderia ser o responsável pelos assassinatos por conseguir mais marketing. O segundo pensamento é o de que, no final, para fechar a produção, algum personagem aleatório, como a mãe de Ricky, uma mulher extremamente assombrosa, de atitudes teatrais e surreais, pudesse ser o assassino, dando ao filme uma conclusão que nos soasse incoerente, mas que não é assim tão estranho em filmes do gênero, que usualmente atribuem as mortes a algum personagem como se isso - a surpresa - fosse agradar a alguém. Mas até isso parece improvável, então a única coisa que fica martelando na mente é a sugestão de que Ângela seja a responsável por tudo isso.
Judy perturbando Angela e perpetuando a curiosidade do espectador em relação ao comportamento esquivo de Angela.
E é mesmo. Ignorando alguns aspectos básicos, como o de ela se locomover em ambientes abertos sem que ninguém a veja e, ainda, ter uma força que parece incomum até mesmo para um adulto, o roteiro nos mostra claramente que a Ângela é a responsável pelas mortes: primeiro a dos que a perturbaram, depois a de várias pessoas, indiscriminadamente. Mas ainda assim o final é surpreende é choca o espectador, que já vinha sendo trabalhado nisso desde o meio do filme. A cena introdutória nos serve para mostrar que a família foi supostamente morta e o porquê de a garota ter medo de água e, daí, as tantas recusas posteriores por não entrar na água. Depois, sabemos, por flashback, que o pai da garota e o amigo dele, que estavam pajeando as crianças quando o acidente aconteceu, eram na verdade amantes, e que as duas crianças - ela e o irmão - já os haviam visto fazendo sexo, o que nos permite concluir que a garota pode ter alguma relação diferente com a visão da homossexualidade, por isso o seu medo de tomar banho com as outras garotas. E também as recusas por deixar que Paul a toque, mesmo quando estão aos beijos e, aparentemente, prestes a ir além dos beijos. Na cena final, é levado ao conhecimento dos monitores que há muitos corpos de jovens assassinados - até aquele momentos, as outras três mortes já descobertas pareciam acidentes - e todos saem à procura das crianças, faltando encontrar após algum tempo apenas Ângela e Paul, que, pouco tempo depois, são encontrados juntos e nus na praia deserta. Então, a revelação máxima, que honestamente faz com que até o espectador mais polido arreganhe a boca, qual a personagem no filme: Ângela, na verdade, é Peter, que sobreviveu ao acidente que matou seu pai e sua irmã quando era pequeno. Tendo sido levado para ficar com a tia, mãe de Ricky, a mulher enlouquecida deu-lhe o nome Ângela e fê-lo passar-se por garota, já que o seu sonho sempre foi uma filha.
Angela é o inverso de um boy magia.
Os nossos queixos caídos desculpam a obviedade de todo o resto do filme, que consegue inclusive nos apresentar personagens que viram Ângela cometendo os assassinatos e, mesmo podendo falar, mesmo assim preferiram ficar quietos. Também desculpamos a personagem chata e escrota que Ângela é, porque, afinal, todos os anos vividos com aquela tia louca devem tê-la afetado bastante. E se o roteiro é bobo em seu desenvolvido principal, que é situação no acampamento, ele é excelente nos elementos de suporte à trama, não deixando fios perdidos, como é o caso da cena introdutória e a cena em que conhecemos a tia, que, embora apareça uns quatro minutos no filme, é perfeitamente capaz de nos chamar a atenção por causa de seu comportamento bastante duvidoso que, assumimos a princípio, parece um mau concebimento da personagem - quero dizer, num primeiro momento, parece que a atriz errou o tom e sua interpretação ficou ruim, mas depois entendemos que ela estata totalmente ajustada àquilo que se esperava dela.
Longe de ser uma grande obra, o filme conta com alguns bons momentos, um trabalho de maquiagem bastante exagerado, principalmente quando vemos os mortos por afogamento e por picada de abelhas “acidentais”, e isso me remeteu ao excelente “A Morte do Demônio” (1981), de Sam Raimi; mas também fui remetido a outro clássico do terror supracitado, “Sexta-feira 13” (1980), principalmente quando ocorre a morte de Mel, que é flechado assim como um personagem no filme do Jason. Há, ainda, alguma referências a outras histórias conhecidas, como “O Mágico de Oz”, quando Paul chama uma das monitoras de “a bruxa má do oeste” e também, talvez, uma referência a “De Volta ao Vale das Bonecas” (1970), já que nos dois filmes um travesti assassina seu amante arrancando-lhe a cabeça. Não nego a eficiência de Robert Hiltzik no roteiro - mesmo que não originalíssimo, consegue entreter o espectador na história e, ainda, arranca de nós um bom suspiro de contentamento quando a história se mostra, por fim, concluída.


























