11 de ago. de 2012

Rocky Horror Picture Show

The Rocky Horror Picture Show. EUA / UK, 1975, 100 minutos, musical. Diretor: Jim Sharman.
Tim Curry e Susan Sarandon num musical que cativa exatamente pelo seu tom caricatural e absurdo.

Confesso: nunca tinha ouvido falar desse filme. E o mais surpreendente é que nele constam nomes famosos, como o de Susan Sarandon e Tim Curry. Só fiquei sabendo da sua existência por causa do Pedro, que me falou ser esse um de seus filmes preferidos – e inclusive o recomendou para mim, não sem antes alegar que se tratava de uma obra satírica e que talvez eu pudesse não gostar, exatamente pelo seu caráter caricatural.

A caricatura já pode ser percebida pela sinopse do filme, na qual é dito que um casal, após ter problemas com o carro, busca ajuda numa mansão onde mora o Frank-N-Turner, um alienígena bissexual do planeta Transexual. Basta isso para que o espectador perceba que o filme definitivamente não é sério e nem se levará a sério. Acredito que o grande mérito dos filmes satíricos seja o fato de ele próprio não pretender ser mais do que ele pode ser e é exatamente nisso que Rocky Horror Picture Show sucede – ele é apenas o que é, sem querer ser mais. E isso cativa o espectador, que vê uma obra bem interessante e dá a ela as proporções que ela merece.

Para mim, o detalhe mais importante desse musical são as músicas. Pode parecer redundante o que eu estou falando, mas existe uma característica muito relevante nas canções desse filme. Se o compararmos com outros musicais, como Chicago ou Moulin Rouge, perceberemos que ele se assemelha muito mais na estrutura ao segundo filme, pois tanto esse quanto a obra de Luhrmann possuem um tom cômico muito mais evidente e próximos entre si. Ainda assim, as canções de Moulin Rouge têm uma tendência à harmonia, o que nem sempre acontece nas canções de RHPS. Analisemos por exemplo as canções “Damn it Janet” e “Touch-a, touich-a, touch me”: perceberemos que há muitos momentos que são não-melódicos, como quando os personagens coadjuvantes cantam juntos, destoando as suas vozes das dos personagens principais – criando um efeito engraçado na música. Parece que as próprias canções se autoparodiam, o que é muito engraçado.

RHPS definitivamente tem muito mais a mostrar do que parece. O seu personagem central, o alienígena Frank Turner é realmente fantástico. A sua primeira aparição causa êxtase no espectador, principalmente pelo contraste em sua fala e sua vestimenta. O seu figuro é mesmo muito elogiável, destaque para o seu salto altíssimo, para as suas ligas, a sua meia-calça e o seu corpete – decerto uma roupa inesquecível! As figuras que vivem no castelo também são muito incríveis, meu superelogio vai à personagem Magenta, que é engraçada na medida certa, carregando consigo um humor meio ácido, que se verifica inclusive no seu olhar. A estrutura narrativa do filme também é engraçada, pois um personagem narra a história, dando-lhe um caráter mais verídico aos absurdos a que somos apresentados.

Provavelmente o sucesso do filme se deve aos atores, que souberam se divertir em cena. Todos, sem exceção, parecem estar muito à vontade em seus personagens e durante todo o filme tive a impressão de que houve diversão durante as gravações. Destaque especial para o divertido Tim Curry, que conseguiu criar Frank-N-Turner de modo muito criativo e engraçado, não há como não achar engraçado os trejeitos e aspectos caricatos do personagem, como o seu amor desesperado por Rocky, criatura que ele inventa. Susan Sarandon também está fantástica como Janet e também está linda aos 29 anos de idade! Destaque para os seus números musicais, e para o seu empenho. Sua voz é bastante suave, muito gostosa de ouvir. Como se não bastasse um engraçado Tim Curry, ainda temos Susan Sarandon arrasando como Janet. Outro destaque também vai para Patrícia Quinn, personagem coadjuvante, intérprete de Magenta – uma vez em cena, mesmo falando pouco, a atriz tem uma postura muito segura e positiva, o que a impõe para nós. Vale ressaltar que a boca que aparece no começo do filme cantando “Science Fiction / Double Feature” é dela!

Cabe a mim recomendar esse filme a vocês. Não o vejam esperando coreografias muito elaboradas nem canções com letras extremamente fantásticas. RHPS não é assim, nem foi feito com essa intenção. Adaptem-se ao filme, vejam-no como ele espera ser visto – e então compreenderão o quanto ele é divertido. Atentem para as músicas, que são bem legais, atentem para o sweet transvestite Frank Turner, que quase vale o filme todo. E eu termino agradecendo ao Pedro por ter me recomendado esse filme. A você, um grande abraço.

9 de ago. de 2012

A Saga Crepúsculo: Eclipse


The Twilight Saga: Eclipse. EUA, 2010, 124 min, fantasia. Diretor: David Slade.
Apesar de reclamarem – com razão – do livro, lê-lo é consideravelmente mais interessante do que assistir a essa produção, que falha em todos os seus aspectos.

Quando li o primeiro volume da saga Crepúsculo – justamente o livro “Crepúsculo” (2005), lançado no Brasil em 2008 –, eu o achei razoável. Não um lixo como os haters dizem, não uma maravilha como os lovers propõem – apenas um livro que consegue cumprir seu objetivo primeiro, que é manter o leitor acompanhando a narrativa. Os livros subseqüentes são ruins. Não apenas ruins, mas verdadeiramente ruins. E não bastasse a saga como um todo – há ainda um livro para ser lançado, Midnight Sun –, surgiu um spin-off da trama em 2010, na qual os eventos narrados acontecem em concomitância com o que é apresentado no terceiro volume, “Eclipse” (2007), cuja adaptação para o cinema aconteceu em 2010, trazendo os mesmos atores que haviam personificado os populares personagens do romance literário.

 Kristen Stewart - grande interpretação! - e Taylor Lautner.

No primeiro filme, Bella conheceu Edward e descobriu sobre vampiros e lobisomens, além de ter sido caçada por James, um vampiro que desejava o sangue da garota. No segundo filme, houve a separação: Edward decidiu se afastar de Bella a fim de não a colocá-la em riscos constantes, o que fez com que ela se aproximasse de Jacob, amigo da família que era lobisomem. Nesse terceiro episódio, a cidade de Seattle é tomada por vampiros recém-criados, cuja dona, Victoria, deseja construir um exército com eles a fim de se vingar de Bella, que ela julga principal responsável pelo extermínio de seu namorado James (no primeiro volume).

O que me deixou assombrado nesse filme – aliás, reformulando: o que me deixou mais assombrado nesse filme – é o fato de a maquiagem ser extremamente pouco realista! É impossível olhar pro Edward e achar, mesmo que rapidamente, que a tez de sua pele é sua de verdade. Não apenas a pele de um branco incomum – mesmo no meu imaginário, que pensava em algo como mármore branco, não como trigo distribuído heterogeneamente pela pele –, mas também os olhos! Aquele amarelado dos olhos torna tudo ainda mai risível, sendo impossível levar a sério qualquer momento em que qualquer Cullen apareça. Lembrando que eles convivem com humanos o tempo todo – me surpreende que ninguém nunca tenha chegado à conclusão que eles são posers de vampiro, porque é evidente que eles definitivamente não se parecem com pessoas comuns – não com aquele branco que se restringe ao rosto, deixando o pescoço normal; não com aqueles olhos que muitas vezes não se parecem com nada.

 Riley, Edward e Victoria - fosse um ménage, seria mais interessante, ainda que, ainda assim, feio.

Reclamam de Kristen Stewart, chamando-a de inexpressiva. Mas, realmente, acho que ela é o menor dos problemas do filme. Talvez o maior problema seja o roteiro, que é ridículo, misturando os eventos de “Eclipse” com os eventos de “A Breve Segunda Vida de Bree Tanner” (2010), provavelmente porque eventualmente esse livro também acabará levado às telas. Honestamente, não há porque a associação das tramas num sentido tão físico – fazendo-as confluir uma na outra –, bastava que se mantivesse como é o no livro, em que alguns acontecimentos do terceiro volume são posteriormente explicados no spin-off. Assim, haveria menos confusão, sobretudo porque o tempo todo somos apresentados à situação de uma vampira cujos nomes não conhecemos sendo que ela é simplesmente morta no final do combate entre os Cullen e os recém-criados. A sensação que fica é que a personagem, em vez da relevância que tem (ela é, afinal, a protagonista de outro romance), é apenas um enfeito sem fundamento. Seria melhor conceder a ela apenas a cena final e depois, havendo mesmo a adaptação do outro livro, fazê-la aparecer mais, como se deve.

 Bree Tanner, que aparece aqui só pra justificar um potencial próximo filme da série "Crepúsculo".

Mas, de qualquer forma, o problema também está nos diálogos. São péssimos! Todos! Do começo ao fim! Tudo é dito de modo incômodo, as frases parecem não se conectar entre si, havendo ali apenas intenção de usá-las como elemento de impacto, que, no final, apenas obtêm impacto negativo. Isso, acrescido à incapacidade de qualquer ator de realmente ser realista, faz com que essa produção seja verdadeiramente um equívoco. David Slade, o diretor, havia dito que jamais se envolveria com a série – mordeu a língua, disse que havia dito brincando, faturou uma boa grana e nos apresentou essa coisa terrível, que é ruim até mesmo nos seus efeitos especiais, consideravelmente piores que os filmes anteriores.

Não há muito que apreciar aqui. A obra é toda antifuncional: efeitos visuais ruins, trilha sonora medonha, roteiro tenebroso, direção primária – eu, sem curso de cinema, sem experiência, produziria o mesmo resultado que Slade, que já havia dirigido alguns títulos antes, inclusive “30 Dias de Noite” (2007), um relativo sucesso comercial. Quanto às interpretações, apenas demérito: chega a ser triste ver os vampiros, sobretudo a família Cullen – Jasper é, de longe, o mais risível. Trata-se de uma obra para fãs obcecados apreciarem: eles assistirão ao filme e enxergarão qualidade onde notoriamente não há. E insistirão que se trata de uma obra linda, suspirando por Edward e querendo viver um romance como o de Bella. Dessa vez, tomo o partido dos haters – trata-se meso de um filme para ser odiado.

7 de ago. de 2012

Dramaturgia: da estética clássica à estética contemporânea

Esse texto foi publicado originalmente no blog O Anagrama, em 23 de junho de 2012.
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Cena do filme Medea, de Pier Paolo Pasolini.

Menos do que um ensaio analítico, esse texto é simplesmente uma divagação acerca da trajetória do teatro, gênero literário cujas bases se modificaram ao longo dos séculos e que hoje se apresenta sobre alicerces bastante diferentes daqueles determinados por Aristóteles em seu livro, A poética. Ainda que pareça não ter havido mudança significativa na essência do teatro – um texto cuja função é ser interpretado em palco –, decerto houve muitas transformações que fizeram com que tragédias como Electra , escrita por Sófocles, Eurípedes e, numa versão cômico-irônica, por Ésquilo (lembrando esse que é considerado um dos maiores nomes da comédia), se difiram notadamente quanto à sua estrutura de tragédias contemporâneas como Vestido de Noiva, escrito por Nélson Rodrigues em 1943.

O teatro clássico, no que tange à tragédia, define bem o foco de sua narração: os personagens são nobres, caracterizando a nobreza como a única classe social a ser representada nesse vertente da dramaturgia. As figuras centrais dessas produções são reis, rainhas, príncipes, princesas, enfim, nobres a cujas vidas se atribui pompa e ponderação, além de inevitável associação com a sabedoria, sendo eles, afinal, que comandam um reinado todo, como é o caso de Egisto e Clitemnestra, pais de Electra, personagem que culpa a mãe e o padrasto pelo assassínio do pai, verdadeiro rei, função agora assumida pelo outro homem.

Outras regras também existem: compor a história de modo que ela seja passível de acontecer num único dia. Isso, evidente, se refere ao enredo e ao tempo disponível entre o primeiro e o último ato da peça, não tendo a ver com seu tempo de duração. Desse modo, vê-se um acontecimento tomando corpo no período chamado por Aristóteles de “uma revolução solar”, ou seja, no período de um dia, que é justamente a data específica na qual conheceremos o crescendo e o ápice do enredo, culminando na catarse, que é o momento posterior à identificação do espectador com os personagens. Quando pensamos na catarse, aliás, percebemos que se trata de um dos poucos elementos que persistiram e que ainda é visto como se via na Antiguidade Clássica.

Se analisar outra peça teatral, Hamlet, de Shakespeare, por exemplo, trata-se de uma obra moderna que já apresenta notáveis distinções, sobretudo em relação à duração do enredo, já que ele notadamente se estende por mais de um dia. Outra característica distinta certamente é o espaço, que é variado nas obras modernas, mas que se restringia a um único ambiente nas obras clássicas. Não à toa, vemos todo o desenvolvimento e desenlace de Electra acontecer em frente ao castelo, sem jamais vermos outros cenários que não aquele – ouvimos, por exemplo, o momento final, a consumação da vingança, que acontece dentro do castelo, mas jamais vemos o acontecimento em si, uma vez que o interior palaciano não faz parte do nosso campo de visão. Já o palácio de Elsinore, na Dinamarca, país no qual acontece a trama shakespeariana, nos é apresentado praticamente na totalidade, com os personagens transitando entre um e outro ambiente, nos sendo apresentado o pátio e sala reais, a plataforma de observação, a casa de Polônio e Ofélia e até mesmo os prados que cercam o castelo.

Notam-se, ao longo dos séculos, contrastes muito grandes entre as produções. Shakespeare dista, pelo menos, mil e quinhentos anos de Sófocles (Electra) e Aristófanes (Os pássaros), e à sua frente, dista praticamente quatrocentos anos de Oscar Wilde e sua Salomé (1893), escrita em francês no período em que o autor esteve preso por causa de suas práticas homossexuais. Não há, no entanto, diferenças significativas entre a produção do inglês e do irlandês, apesar do tempo que os separa – vemos neles a unidade temporal desfeita (suas tramas podem ou não acontecer em único dia), vemos a unidade espacial igualmente desfeita. A única não dissociação da arte clássica, por enquanto, é a representação da nobreza, já que ainda falamos de personagens reais, como o príncipe Hamlet, cujo pai foi assassinado pelo próprio irmão, que acabou herdando a coroa e que se tornou alvo da vingança de Hamlet, e como a princesa Salomé, que tanto queria um beijo do profeta Iokanaan que obrigou o rei a decapitá-lo a fim de enfim poder beijá-lo, já que ele tanto se recusou a tocar os lábios dela com os seus. As tragédias, tanto as gregas clássicas quanto as britânicas modernas, traziam paridades, sobretudo quanto ao objeto de sua representação, ou seja, os agentes da ação.

Alaíde, Lúcia e Pedro - personagens de "Vestido de Noiva"

Falando de literatura dramatúrgica nacional e mais contemporânea ainda, abordando já o século XX, podemos citar três autores cujas obras mostram-se bastante opostas às prescrições aristotélicas acerca do tempo, ambiente, unidade de ação e agentes. Falamos de Vestido de noiva (1943), de Nelson Rodrigues, peça teatral na qual o autor, com bastante sucesso percorre caminhos tortuosos e a princípio confusos, mostrando a trajetória de Alaíde, personagem que sofreu um atropelamento e, na mesa de cirurgia, em delírios, relembra os problemas que teve com a irmã Lúcia, já que Pedro, seu noivo, fora antes namorado de Lúcia, e, também na mesa de cirurgia, tem delírios com Madame Clessy, uma prostituta que morou na casa onde sua família posteriormente residiu.

Se a personagem Alaíde é da classe média alta, como se vê ao longo da trama, e, justamente por isso, possa se dizer que há ainda uma relação com a nobreza, todos os outros elementos caminham em direções opostas, sobretudo a unidade de ação. Electra queria vingança e toda a trama gira em torno disso, o mesmo se pode dizer, grosso modo, sobre o desejo de vingança de Hamlet e o desejo de Salomé de beijar Iokanaan – já na obra rodrigueana, temos uma dimensão espaço-temporal múltipla que justifica inúmeras ações acontecendo, muitas vezes, ao mesmo tempo – ao longo do enredo, há inúmeras passagens na qual o palco se divide a fim de dar vida a três momentos: Alaíde e suas conversas obscuras com a irmã, Madame Clessy e seus ensinamentos sobre a arte de amar e, às vezes, a sala de cirurgia, na qual Alaíde eventualmente morrerá. A obra multifacetada de Nelson Rodrigues é surpreendente principalmente pela sua estética que divide a peça em várias ações – o delírio, a realidade, o sonho – além de vários tempos – presente e passado – e também vários ambientes – o hospital, a igreja, a própria casa, o bordel de Clessy.

Chico Buarque e Paulo Pontes compuseram em 1973 uma atualização de Medeia, de Eurípedes, tornando-a contemporânea e brasileira: a Medeia da obra grega se torna Joana na versão nacional e Jasão carrega o mesmo nome, mas agora é um cantor de música popular que ascende socialmente com a música Gota d’Água, que dá nome à peça de Buarque e Pontes. Assim como Rodrigues em Vestido de noiva, a obra é bastante multidimensional em relação à unidade de ação, mas seu grande diferencial em relação à obra do outro dramaturgo é justamente o fato de vermos personagens sitos em um conjunto habitacional, quase uma favela, sendo notadamente pobres e extremamente longe da concretude de nobreza em que vivem Salomé, Electra, Hamlet e Medeia, por exemplo, ou da alusão de nobreza vivida por Alaíde. Os personagens de Buarque e Pontes são tão banais e ordinários que sua linguagem não se difere daquela dita no dia-a-dia (ainda que, evidente, seja respeitada a estética literária da poesia, já que o teatro é versificado), suas ações não são diferentes das minhas ou provavelmente das suas: eles vão a bares, bebem com os amigos, conversam sobre trivialidades, envolvem-se em discussões bobas e seu linguajar, às vezes, não se mostra todo polido.

A literatura, como se vê, trata-se de sua própria e constante reinvenção: as obras clássicas são revistas por outras obras, que são contraditas posteriormente por outra estética literária, que, num ciclo, é rebatida ou retomada. No caso do teatro, vemos que o momento catártico se apresenta em todas as obras, mas os meios de chegar a esse ponto variam muito, justamente pelas novas adaptações que são feitas de acordo com o contexto histórico-social no qual vivem os autores e, também, de acordo com as suas intenções – não se pode dizer que a literatura de Chico Buarque e Paulo Pontes é menor por mostrar personagens ordinários, justamente porque essa intenção integra a pretensão estética dos autores. Não se pode dizer, tampouco, que se trata de uma evolução – nada nos garante que daqui a cem anos a dramaturgia retornará aos moldes clássicos e voltará a apresentar peças com uma unidade de ação, de tempo, de espaço e de tom (ou tragédia ou comédia).

3 de ago. de 2012

Alien - O 8º Passageiro

Alien. EUA / UK, 1979, 117 minutos, ficção científica. Diretor: Ridley Scott.Ridley Scott apresenta um suspense interessantíssimo, do qual o espectador não desgruda os olhos.


Ridley Scott, muito antes de ter o seu talento como diretor merecidamente reconhecido, dirigiu bons filmes no cinema. Talvez um grande destaque da sua filmografia seja o hoje clássico da ficção científica Alien, que, no ano de 1980, recebeu duas nomeações ao Academy Awards. Como todo bom filme de sucesso relativo recebe uma continuação, "Alien" também veio a se tornar uma série.

Ao voltarem de uma viagem espacial, sete cientistas descobrem que a nave mudara sua trajetória a fim de atender a um sinal compreendido como SOS. A contragosto de alguns, a nave se dirige para o local, de onde são recolhidas amostras de suposta vida extraterrestre. Lá, no entanto, acontece um acidente que traz um perigo iminente para toda a tripulação.

Confesso que a história do filme é bem simples. Não há muito que contar, tudo o que vemos praticamente é uma versão mais cult (e melhor dirigida) de um assassino midiático, como, por exemplo, Freddy ou Jason. Para mim, o Alien é isso: uma criatura que pode atacar – e provavelmente vai atacar – a qualquer momento, numa fúria implacável. A narrativa toda se desenvolve com a tripulação cercada pelo alienígena. Gosto principalmente do modo como souberam aproveitar a idéia da nave: rapidamente pensamos em um espaço confinado – e realmente é, já que os tripulantes estão presos, sem chances de sair –, no entanto, o espaço dentro da nave é realmente grande, de maneira que podemos ver a movimentação dos atores o tempo todo. Por haver muitos lugares para onde correr, e também pelo fato de que a nave não nos é um ambiente familiar, a tensão criada fica ainda maior.

Ridley Scott soube bem como dosar as suas cenas. Não há exageros nelas, não há excessos nas cenas. Outro diretor facilmente se ocuparia em mostrar o alienígena o tempo todo, tornando-o um freak show, do qual o espectador potencialmente se cansaria rápido. A opção por reduzir a participação da criatura no filme tornou a obra mais charmosa – ele é uma ameaça silenciosa e quase invisível. Vale ressaltar que o uso das cores favorece muito isso: na escuridão da nave, qualquer elemento negro aparece pouco e causa espanto. E temos também que considerar as personagens humanas, pois todos usam roupas claras, o que os coloca num plano de visibilidade anterior ao do alienígena. Os efeitos visuais são realmente bons e impressionam, principalmente se considerarmos a época em que o filme foi feito. Não fico surpreso com o fato de que o filme tenha conquistado a estatueta dourada de Melhores Efeitos Visuais.

A respeito das atuações, não creio que haja grande destaque. Os grandes nomes são os de Sigourney Weaver e de John Hurt, já que os outros são atores pouco lembrados. Como a função evidente de protagonista, Weaver tem destaque notável como a líder dos tripulantes. Sua atuação, devo dizer, não é maravilhosa e está bem longe de ser impressionável. Está apenas correta, sem surpreender, sem, porém, decepcionar. A grande cena de John Hurt, mais conhecido por "O Homem-Elefante" (1980), é aquela famosa, na qual um alienígena-bebê sai de dentro dele, rasgando-lhe a barriga e explodindo sangue por todos os lados. Decerto, uma das cenas mais lembradas do cinema. Tom Skerritt, Verônica Cartwright, Ian Holm – são todos bastante coadjuvantes no filme, tornando-se, por vezes, quase figurantes, já que o grande foco do filme é a relação nada saudável entre Ripley e o Alien.

Honestamente, acho que se trata de um filme divertido, mas não consigo vê-lo como muitos cinéfilos fazem. Para mim, é uma obra capaz de entreter, mas está longe de ser um marco do cinema. Decerto, um marco na carreira de Ridley Scott, o diretor, que mais tarde dirigia outros bons filmes, como "Thelma e Louise" (1991) e "Gladiador" (2000). Não posso deixar de acrescentar que para Weaver, a Tenente Ripley foi uma personagem marcante – tanto que, pela continuação de "Alien", lançada sete anos depois, a atriz recebeu a sua primeira indicação ao Oscar. Enfim, um filme que merece ser visto com atenção e que merece ser curtido, porque vale a pena.

1 de ago. de 2012

A Breve Segunda Vida de Bree Tanner: Uma História de Eclipse


The Short Second Life of Bree Tanner: An Eclipse Novella. EUA, 2010, 190 páginas – Editora Intrínseca. Autora: Stephenie Meyer.
A mesma história de Crepúsculo com personagens de nomes diferentes.

A menina estava enroscada como uma bola ao lado das chamas, os braços envolvendo as pernas. Era muito nova. Mais nova do que eu – parecia ter talvez 15 anos, o cabelo escuro e liso. Os olhos estavam focalizados em mim e as íris eram de um vermelho vivo e chocante. Muito mais brilhantes do que as de Riley, quase em fogo. Giravam loucamente, descontroladas. [...]
- Ela se rendeu – disse-me em voz baixa.
(MEYER, 2009, p. 404).

“Crepúsculo” (2005) é um romance lançado há sete anos e que definitivamente foi o grande momento pós-Harry Potter. Não que a escrita de Stephenie Meyer tanja a qualidade daquilo que J. K. Rowling produziu ao longo de 10 anos (1997-2007) – na verdade, está muito aquém da série de fantasia bastante madura escrita pela britânica. No entanto, de modo algum se pode negar que as personagens compostas por Meyer se popularizam de tal maneira que é impossível hoje em dia não saber quem são Isabella Swan ou Edward Cullen. Não que isso, claro!, significa apreciar ou depreciar a obra, mas a modernização do vampiro – objeto de paixão de alguns – provocou debates de proporções imensas, das quais não pudemos, querendo ou não, deixar de ouvir.

Mas o ponto dessa resenha é outro. É justamente a obra lançada em 2010, depois dos livros “Lua Nova” (2006), “Eclipse” (2007) e “Amanhecer” (2008), que aparentemente finalizaram a trajetória da protagonista humana, que permanece nessa natureza até meados do último romance, quando finalmente se torna vampira. “A Breve Segunda Vida de Bree Tanner”, como o próprio subtítulo sugere, se trata de um spin-off do terceiro livro, cujo grande momento é o embate provocado por Victoria, cujo namorado foi assassinado por Edward no primeiro volume, de quem ela gostaria de se vingar – na narrativa, a vampira cria vampiros recém-criados e, por isso, bastante fortes e descontrolados, induzindo-os através de Riley a atacar a família Cullen. Bree Tanner, que era uma moradora de rua esfomeada quando foi transformada em vampira, narra os acontecimentos anteriores aos eventos de Eclipse a partir do momento em que sai para sua primeira caçada com Diego, outro vampiro jovem que também passa a desconfiar das intenções de Riley e da mulher – Victoria –, ao criar aquele pequeno exército.

O trecho que citei logo na abertura desse texto aponta o momento no livro “Eclipse” no qual Bree é apresentada pela primeira vez, ainda sem nome, que só nos seria revelado duas páginas depois, quando Jane – uma dos Volturi – a indaga acerca de suas origens e, também, da sua identidade. O que há de surpreendente no livro em relação ao comportamento de Bree é que, como comentado por Edward e notado pelos outros Cullen, aquilo não era comum – que um vampiro recém-criado se rendesse e, como vêem, se esforçasse para se controlar. Não é spoiler dizer que Jane Volturi não perdoa Bree e a extermina, como, afinal, ditam as regras – o extermínio de Bree já havia sido lido três anos antes nas páginas do terceiro episódio da saga. O que interessa nesse novo romance são os momentos anteriores ao combate entre o grupo de Victoria e a família Cullen – também, não menos importante, surge aqui um romance entre Bree e Diego, dois personagens que dividem um momento significativo e, a partir disso, criam uma afinidade que eventualmente se aproxima de amor.

A parte boa desse romance é que, em apenas 190 páginas, menos que a metade da quantidade de páginas do livro do qual deriva, a escritora conseguiu escrever tudo aquilo que era relevante para a história. Aliás, pode-se facilmente reduzir o número de páginas se fossem extraídas as tantas vezes que Bree Tanner, a narradora, se pergunta acerca de perguntas já feitas três ou quatro vezes anteriormente. O mais curioso é que não é apenas um efeito retórico no discurso – a personagem não repete sua pergunta para que o leitor compreenda o grau de preocupação que a perturba. Trata-se apenas de uma escrita prolixa que tenta a todo o momento justificar a densidade psicológica de uma personagem cujo intelecto definitivamente não está em paridade com suas atitudes.

Bree Tanner é uma personagem bastante simplista. Apesar de nos serem dadas algumas informações sobre ela – havia fugido da casa do pai, estando morando nas ruas, quando trocou sua vida por um hambúrguer –, temos uma constante sensação de que não sabemos nada sobre ela. Na verdade, apesar de estarmos ante a história de Bree, sendo, aliás, contada por ela mesma, acabamos pensando o tempo que toda a história é sobre ela, Bella. Lembrando, em tempo, que devemos sempre distinguir escritor/autor de narrador: se Meyer detém os direitos autorais, sendo, pois, a autora, é Bella, Jacob (no epílogo do terceiro livro e numa das partes do quarto) e Bree Tanner que são os narradores, havendo, portanto, necessidade de distingui-los em suas maneiras de narrar o que vêem – são, afinal, três personagens distintos! E, honestamente, não fosse por um ou outro momento, fica sempre a sensação de que “A Breve Segunda Vida de Bree Tanner”, e vez de um spin-off narrado por Bree Tanner, se trata de mais um episódio da saga Crepúsculo, narrado por Bella, como em todos os outros livros. Transcrevo abaixo o único momento que mais se faz notar que a personagem é uma, não a outra:

Era isso que Riley nos mandava fazer. Caçar a escória. Escolher os humanos de quem ninguém sentiria falta, aqueles que não estavam voltando para casa e para a família, os que não gerariam ocorrências de desaparecimento. [...] Desliguei meu cérebro. Era hora de caçar. [...] Sua [de Diego] aterrissagem foi silenciosa demais para chamar a atenção da prostituta chorona, da prostituta distraída ou do cafetão zangado. Saltei do telhado, atravessei a rua e aterrissei ao lado da loura que chorava. [...] Ela abriu a boca para gritar, as meus dentes dilaceraram sua traquéia antes que algum som pudesse ser emitido. [...] O sangue era mordo e doce.
(idem, 2010, p. 18-20)

O trecho acima apresenta o momento divisor de águas, que é justamente aquele que transforma Bree, a outsider, em alguém com um companheiro com quem dividir alegrias e tristezas. É extremamente superficial o contato dos dois – apenas uma caçada –, mas isso parece suficiente para começar uma boa amizade, até amor, por que não? Naquela mesma noite, os dois passam a partilhar juras e prometem dar suporte sempre um ao outro. Houvesse um princípio de rejeição por qualquer um deles em relação ao outro, independentemente das razões, decerto o romance estabelecido seria idêntico ao de Bella e Edward. Aliás, cabe dizer o quanto as duas personagens – Bella e Bree – são bastante parecidas, a começar pelo modo como sempre parecem desajustadas e intrusas às circunstâncias. Seguem passagens, uma de “Crepúsculo”, outra do objeto resenhado.

Não era só fisicamente que eu não me adaptava. [...] Eu não me relaciono bem com as pessoas da minha idade. Talvez a verdade seja que eu não me relaciono bem com as pessoas, e ponto final.  [...] Às vezes eu me perguntava se via as mesmas coisas que o resto do mundo.
(idem, 2008, p. 18)

Eu franzi a teste. A casa de Riley era o último lugar onde eu gostaria de passar o resto da noite. Não queria ver o rosto estúpido de Raoul nem ouvir os gritos e as brigas constantes. Não queria ter de ranger os dentes e me esconder atrás do Freaky Fred para as pessoas me deixarem em paz.
(idem, 2010, p. 28)

Acima, um exemplo do desajuste social e pessoal que as personagens vivem. Além disso, Bella com Edward e Bree com Diego, ambas vivem romances marginalizados – no caso de Bree, mesmo que tanto ela quanto seu par sejam da mesma natureza, é evidente que todos os personagens que o circunvizinham desprezariam o relacionamento, o que os obriga a manter a guarda perto dos outros, seja por autopreservação ou por preocupação com o outro. Ambas as protagonistas lutam contra um inimigo invisível – Bella nunca sabe o quanto de risco há para ela por conviver com vampiros e Bree, grosso modo, também, salvo o fato de que ela sabe que o inimigo verdadeiro (não a grupo de recém-criados, sempre em desavenças) se mantém escondido o tempo todo e parece planejar algo perigoso.

Poderia resultar em algo verdadeiro interessante apresentar o ponto de vista de uma história pelas perspectivas de outras personagens. O “Efeito Rashomon” poderia ser magnificamente explorado nessa obra se, além de uma boa composição literária que não se alicerçasse em senso comum, Stephenie Meyer houvesse realmente se preocupado em criar personagens diferentes em situações que demandassem um desenvolvimento psicológico aprofundado delas. O que se vê, no entanto, é apenas toda a história da saga Crepúsculo confinada em 190 páginas, das quais 1/5 – as últimas 40 páginas, praticamente – é se trata na verdade de uma releitura do episódio registrado anteriormente em “Eclipse”. Pode-se ler o livro tranquilamente em uma tarde e gastar cinco ou seis horas seguidas atento às páginas, sobretudo porque não há nenhuma dificuldade na digestão desse romance, que é tão superficial quanto nenhum outro título da série ainda havia conseguido ser. Talvez seu maior mérito seja “externo” à qualidade literária da obra – paguei apenas R$5 nesse título que, de brincadeira, daria de presente a um colega. No mais, carece de estrutura adequada para que se faça notar como uma boa leitura.

Referências:

MEYER, S. Crepúsculo. Tradução de Rita Vinagre. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008.

______. Eclipse. Tradução de Rita Vinagre. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009.

______. A breve segunda vida de Bree Tanner: uma história de Eclipse. Tradução de Déboro Isidoro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.