27 de mar de 2011

127 Horas

127 Hours. EUA, 2010, 93 minutos, drama. Diretor: Danny Boyle.
Quem gostou de Slumdog Millionaire, decerto gostará dessa obra, que, ao meu ver, é superior.

Danny Boyle surpreendeu a todos com todas as atenções que o seu filme, em 2008m recebeu, fazendo com Quem Quer Ser Um Milionário? Fosse aclamado pela Academia, apreciado por alguns cinéfilos e criticado por outros tantos. O filme acabou recebendo o prêmio máximo na 81ª edição do Oscar e Danny Boyle recebeu a estatueta de Melhor Diretor. Em 2011, isso poderia acontecer novamente com o filme 127 Horas, que fala sobre a história real de um alpinista que teve o seu braço preso por uma rocha numa fenda no solo em Utah.

O título corresponde ao tempo em que o personagem fica preso e se, na teoria, parece muito tempo, na prática – em relação a quem assiste ao filme – parece muito maior! Eu nem sequer posso imaginar o quanto tenha sido doloroso esse tempo para Aron Ralston, alpinista que sofreu o acidente em maio de 2003.A história por si só parece muito mórbida, mas devo dizer que ela é ainda mais mórbida conforme o filme vai sendo exibido e nós vamos acompanhando os momentos de tensão, lucidez e perda de sentidos de Aron. Acho importante ressaltar isso com a afirmação de que somos verdadeiros espectadores de uma luta aparentemente invencível, haja vista que Aron está preso de tal modo que lhe parece impossível escapar. O momento do seu acidente, no filme, corresponde ao décimo quinto minuto de filme – ou seja, temos cerca de uma hora e vinte minutos para vê-lo naquela situação agonizante.

Danny Boyle, ainda que merecesse, não conseguiu uma indicação como Melhor Diretor, mas definitivamente foi capaz de produzir uma obra cuja maturidade parece superior a de Slumdog Millionaire, seu filme anterior. Talvez o seu principal feito tenha sido não se ater numa estrutura rigorosamente dramática, que facilmente descontentaria o espectador, uma vez que ele teria que ver mais de uma hora seguida de puro drama. Essa obra sucede também por ser um retrato bastante realista e cru do acontecimento, mesmo que consideremos os aspectos acrescentados, como as alucinações, recursos para diminuir a agressividade de algumas cenas mostradas. Boyle não tenta esconder o quão ruim o acidente foi, mas também não o enfeita, tornando-o bonito e perfeitamente assistível: honestamente, é incômodo acompanhar as 127 horas nas quais Aron ficou preso. Há momentos de muita agonia, de dor – o simples fato de pensar que não haverá como ele dormir sem quebrar o braço é realmente desesperador para o espectador (e suponho que tenha sido ainda mais para o alpinista).

A edição do filme lhe favorece bastante, pois ela é responsável pela principal motivo da dinâmica dessa produção. Cenas rápidas, entrecortadas, algumas cenas sobrepostas – tudo isso cria um ritmo que é paradoxalmente inverso à situação do alpinista. Não se pode deixar de negar a relevância da fotografia, afinal, as luzes alaranjadas, quase sempre permanentes, acentuam a claustrofobia sugerida; as cenas panorâmicas do cenário são mesmo muito bonitas e, tal como a edição, ajuda a criar um bom clima para essa história. James Franco, o ator principal, presente em praticamente todas as cenas do filme, defende bem o seu personagem, tornando-o absurdamente crível ao longo de todo o tempo em cena. Inquestionável que ele merece elogios, porque conseguiu manter o tom correto do começo ao fim, sendo o maior responsável pela credibilidade que esse filme pode conseguir.

Honestamente, eu penso que essa obra seja superior ao filme anterior de Boyle e penso que tenha havido grande amadurecimento desse na direção desse longa-metragem. Até me surpreende que a sua direção ousada tenha perdido lugar entre os cinco indicados a Melhor Diretor, enquanto obras muito convencionais, como A Rede Social e O Vencedor, tiveram seus diretores nomeados. Acredito que 127 Horas seja um bom filme, que merece ser visto, sendo essa a obra, dentre as dez indicadas na categoria principal, que mais causam alguma emoção no espectador, seja ela positiva, como êxtase, seja ela negativa, como aflição – todas essas sensações, porém, são coerentes em relação à temática do filme. Pode ser um passatempo muito interessante, se você não se incomodar com um braço gangrenando e muito sangue, além de uma terrível luta contra a morte.

22 de mar de 2011

Sra. Henderson Apresenta

Mrs. Henderson Presents. Reino Unido, 2005, 103 minutos. Dirigido por Stephen Frears.
Penso que essa seja uma das melhores atuação de Dame Judi Dench, que, pela primeira vez que vejo, está super-simpática, bem humorada e belíssima!

Eu sempre fico tenso quando vou ver uma performance de Judi Dench. Creio que ela seja uma atriz que tenha se dedicado demais a personagens antipáticas e eu sempre tenho a impressão de que a verei como a Rainha Elizabeth, de Shakespeare in Love, ou como a professora homossexual e obsessiva de Notes on a Scandal. Sempre que eu via a capa desse filme, que parecia tão suave e bonita, eu imaginava que tipo de personagem Dench interpretava. Para minha surpresa, foi o seu melhor desempenho num filme.

Laura Henderson vivia bem na companhia do marido até que ele morre e a deixa sozinha. Por diversão, ela acaba comprando um teatro antigo que havia em Londres e contrata um divulgador para gerir o local. Juntos, eles fazem do seu teatro um atrativo para o público londrino até que aos poucos as peças começam a ficar monótonas e Sra. Henderson decide inovar ainda mais: usar modelos nus nas peças. Para conseguir isso, a proprietária e o gerente fizeram uso de uma brecha na lei, que exigia que a nudez só seria permitida se, e somente se, “ninguém movesse um músculo”.

Fiquei realmente surpreso com o que o vi. O filme é divertido e é mesmo leve, mas isso não significa seja superficial ou que não tenha o que mostrar. Eu gostei de como o roteiro se desenvolve, mostrando cenas que nos permitem depreender certas situações que não ficam explícitas no início. Um bom exemplo de questionamento que nos fazemos: qual a relação entre as constantes visitas ao cemitério e a intensa vontade de Laura Henderson de satisfazer os jovens rapazes que iam pra guerra? O desenvolvimento de todos os personagens é bem satisfatório e mesmo os papéis secundários são bem tratados pelo roteiro. As interpretações também são muito boas. Judi Dench é mesmo uma grande atriz e eu pude perceber que ela é tão boa interpretando personagens antipáticas como interpretando senhoras gentis. Talvez o humor refinado do filme seja o seu maior triunfo, principalmente porque ele se torna um contraponto em relação ao cenário e ao momento históricos representados.

Acredito que o filme todo se resume à excelente interpretação da atriz principal, que com merecimento recebeu a sua quinta indicação ao Oscar. Como um todo, o filme é recomendável e merece ser visto, já que mostra o melhor desempenho de toda a carreira de Dench. Recomendo que o confiram sem pretensões e que se divirtam com o filme, porque ele realmente tem a finalidade de entreter o espectador.

18 de mar de 2011

Los Angeles - CidadeProibida

LA Confidential. EUA, 1997, 130 minutos, policial. Diretor: Curtis Hanson.
Definitivamente, o melhor neo-noir lançado até hoje!

Existem produções que surgem sem grandes pretensões, mas acabam se tornando referências na arte do cinema. Algumas têm a sorte de serem notadas com facilidade enquanto outras acabam descobertas pouco a pouco, como é o caso de LA Confidential, que no ano de 1997 foi ofuscado pelo blockbuster Titanic, dirigido por James Cameron. Isso fez com que todas as atenções se voltassem para o épico romântico sobre o navio mais famoso do cinema, e, por conseguinte, fez com que esse filme de Curtis Hanson fosse sendo notado com o passar do tempo.

Há um velho ditado que nos diz para não julgarmos o livro pela capa, isto é, diz que não devemos fazer pressuposições até que tenhamos de fato conhecido a obra inteira. Mas eu ouso dizer que a cidade proibida do título está excelentemente representada no pôster do filme: uma linda mulher, em cuja figura se nota claramente muito glamour, em planos posteriores, três homens que parecem observá-la e, atrás de todos, um pôr-do-sol que ajuda a criar o clima de prazer, o qual está presente ao longo de todo o filme. Desse modo, penso que o pôster por si só já nos diz que estaremos diante de uma obra de qualidade bastante apreciável – e, após conferi-lo, descobriremos que isso é verdade.

Alguns filmes são feitos exclusivamente para os apreciadores do gênero no qual o filme está inserido; alguns dramas, por exemplo, são feitos para apreciadores de dramas, algumas comédias são feitas para fãs de comédia. Los Angeles – Cidade Proibida é um filme do gênero policial feito para todos que querem acompanhar a uma boa trama na qual todos os outros gêneros estejam presentes coerentemente. Então, nessa produção, enquanto acompanhamos a história de três detetives cujos métodos de investigação são bem diferentes, nós também presenciamos um pouco de romance, comédia, drama e suspense – tudo isso num maravilhoso clima noir, como há algum tempo eu não via. Para dar suporte e desenvolvimento à história do sargento Jack Vincennes, do oficial Bud White e do tenente Edmund Exley, temos uma trama de conspiração, na qual estão envolvidos nomes do mais baixo até o mais alto escalão da polícia e até mesmo algumas prostitutas de luxo, que são retratadas como estrelas do cinema.

Antes de tudo, é necessário elogiar a habilidade do diretor em nos contar essa história. Poucas vezes eu vi um diretor que conseguisse satisfatoriamente narrar uma história na qual haja mais de um protagonista. Muitas vezes, quando dois personagens dividem o desenvolvimento central da trama, o diretor acaba saindo dos trilhos e dando mais preferência a um do que a outro. Curtis Hanson não apenas ousa, como sucede notavelmente: três personagens protagonizam essa trama e nenhum é subordinado ao outro, ou seja, todos eles mantêm a sua independência cênica, aparecendo algumas vezes sozinhos e outros vezes atuando em parceria. E a história não é absurdamente longa, a fim de que os personagens tenham bastante espaço dentro do filme. Em apenas duas horas e vinte minutos, Curtis Hanson nos apresenta o suficiente a respeito de cada um e dá andamento à sua história, sem perder tempo com informações desnecessárias e sem deixar que sua narrativa se perca numa série de descrições exacerbadas. O diretor soube bem como filmar os momentos individuais dos três protagonistas para depois conectá-los e criar uma intersecção entre as histórias deles, unindo-os conforme a narrativa se encaminha para o seu desfecho.

Curtis Hanson também ajudou a transpor a história de James Ellroy, autor do romance, para as páginas do roteiro, co-escrito por Brian Helgeland. Eu infelizmente ainda não conheço a obra literária, mas, tendo com base para essa afirmações os meus conhecimentos provindo de experiências, eu imagino que a obra da literatura seja fantástica, haja vista é muito comum a perda de qualidade na adaptação – se houve “perda de qualidade” na transposição da história e ela ficou tão boa quanto vemos nesse filme, então o livro deve realmente ser um dos melhores já escritos. O roteiro brilhantemente mistura os personagens numa trama perigosa e os envolve numa conspiração que parece não ter fim – pouco a pouco, todos os elementos vão surgindo e a trama começa a ganhar um molde mais refinado. Particularmente gosto do modo como as prostitutas aparecem em cena e como elas são, ao mesmo tempo, charme e mistério, desejo e perigo e parecem ser a chave de toda aquela conspiração, mas, simultaneamente, parecem não estar diretamente envolvidas nisso.

Não haveria essa produção maravilhosa se não houvesse atores tão empenhados. A exceção fica por conta de Danny DeVitto, que não acrescenta e ainda é caricato nos poucos momentos em que aparece. Todos os outros atores estão verdadeiramente dentro de seus personagens, fazem-nos crer que eles deixaram de ser eles mesmo e tornaram-se aquelas pessoas que representam. Eu jamais olharei para Kim Basinger de novo sem ver nela a imagem de Veronica Lake, atriz de cinema que corresponde à imagem da prostituta vivida por Kim nesse filme. O mesmo se aplica aos atores que dão vida a Jack, Bud, Edmund e Capitão Dudley, interpretados respectivamente pelos talentosos Kevin Spacey, Russell Crowe, Guy Pearce e James Cromwell, todos eles, em especial Pearce e Crowe, ignorados pela Academia, que concedeu uma indicação a Kim Basinger e também concedeu-lhe o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante. Aposto que essa é uma das poucas vezes em que praticamente todo o elenco está em sintonia e é capaz de proporcionar momentos de inevitável prazer ao espectador.

Los Angeles – Cidade Proibida me pegou de surpresa: fui arrebatado pela qualidade indiscutível desse longa-metragem cujas maiores cenas são definitivamente memoráveis. Basta lembrarmo-nos do momento em que Jack Vincennes vai apresentar as suas desconfianças a Dudley – uma cena inominável de tão boa! O que dizer então da femme fatale representada por Kim Basinger? E o que podemos falar sobre as atitudes explosivas de Bud White? E o que dizer então da cena na qual um personagem pergunta a Bud e a Edmund se eles fazem o joguinho do “tira bom, tira mau” somente para descobrir que eles, na verdade, fazem o jogo “tira mau, tira mau”? Honestamente, recomendo com furor esse filme, porque ele realmente merece ser apreciado por nós cinéfilos!

16 de mar de 2011

Tempestade de Verão

Sommersturm. Alemanha, 2004, 98 minutos, drama. Diretor: Marco Kreuzpaintner.
Ainda que não seja inesquecível, essa produção alemã consegue apresentar uma história interessante e também proporcionar alguns momentos de questionamento ao espectador.

Eu sempre achei que a temática homossexual no universo cinematográfica pode render boas histórias e pode – se tudo for composto adequadamente – ajudar no combate ao preconceito. Há filmes muitos interessantes que são capazes de fazer com que os homófobos compreendam que ser gay não é estigmatizar-se em atitudes vulgares, mas amar a alguém que seja do mesmo sexo. Me sinto obrigado a citar três títulos que têm essa capacidade: O Segredo de Brokeback Mountain, sobre o romance entre dois cowboys, e Meninos Não Choram e Assunto de Meninas, sobre o relacionamento entre duas meninas.

Tobi e Achim são amigos há algum tempo e entre eles não há timidez. Suas brincadeiras são bastantes e liberais e, de tão íntimos, são capazes até de se masturbar um na frente do outro. Surge, então, um impasse: como Tobi pode dizer a Achim que o ama sem que isso danifique a relação estável de confiança que há entre eles? Para intensificar o problema, Achim começa a namorar Sandra e Tobi se vê envolvido forçosamente com Anke, amiga de Sandra.

Decerto, o roteiro do filme tinha tudo para ser uma grande obra. Não imaginava que seria uma grande obra cinematográfica, mas a história de Tempestade de Verão poderia render uma excelente parte do universo de filmes bons que abordam a homossexualidade. Os roteiristas, Thomas Bahmann e Marco Kreuzpaintner – sendo este também o diretor, optam por algo bem sutil e leve, que mostra os problemas pelos quais Tobi passa, porém que não se aprofunda totalmente nos vários dilemas que ele enfrenta. Se por um lado, não se aprofundar é um pode ter sido um erro, por outro, é um acerto, afinal o tom suave é inerente ao filme e torná-lo um drama intenso talvez não fosse a melhor alternativa. Cabe ao leitor, então, depreender todas as questões que são feitas a fundo pelo personagem principal.

Uma característica boa do roteiro é não se focar apenas em Tobi. Conhecemos um pouco de todos os adolescentes que o cercam e um pouco dos dilemas de cada um. Sabemos do desejo de Anke por Tobi e como ela reage ao não saber exatamente se ele retribui o afeto ou não. Conhecemos os problemas de Sandra com o próprio corpo, o que a impede de entregar-se totalmente a Achim, melhor amigo de Tobi. Georg, um amigo de Tobi e Achim, me pareceu bastante misterioso, mas nele vemos a passagem de alguém preconceituoso para alguém que é capaz de interações convencionais – ignorando a opção sexual da pessoa com quem ele conversa. Gostei principalmente de Georg porque acho que nele há uma noção implícita de como é a vida de um gay enrustido. Embora não seja dito no filme que o personagem seja homossexual, acredito firmemente que ele seja. E isso torna a sua análise ainda mais interessante, pois tenho para mim que ele seja um homossexual que, para afastar dúvidas alheias quanto à sua própria opção sexual, finge desgostar de gays. Tanto é que, mais tarde, quando ele conversa com um personagem abertamente homossexual e de segundas intenções bastante explícitas, ele se porta sem qualquer problema e quando o personagem o beija, ele reage mal, talvez instintivamente, a fim de proteger a reputação de heterossexual que ele buscava manter.

Logo depois de assistir ao filme, eu cheguei à conclusão de que não havia gostado dele. Achei que os gays assumidos do filme – no caso, um time de atletas da “QueerSchlang” – eram muito pejorativos, afinal dois eram muito afeminados, outro só pensava em sexo. Mas, analisando com atenção – não o filme, mas o meu próprio pensamento -, concluí que não havia nada errado ali, afinal, tal como há heterossexuais machões e outros cujas mentes são apenas voltadas para o sexo, tem que haver isso em relação ao homossexuais também. E, numa das cenas do filme, podemos ver que há também um gay que é bem romântico e não-estereotipado, o que representa uma excelente noção de sociedade composta por Bahmann e Kreuzpaintner: há heterossexuais e homossexuais num mesmo ambiente e há, entre todos, vários tipos sociais sendo representados: ninfomaníacos, infantilizados, vulgares, sensatos, românticos, etc.

Acredito que não haja características contra esse filme. Tempestade de Verão é uma obra suave, que apresenta questionamentos interessantes quanto às atitudes que devem ser tomadas e sobre como as relações são modificadas de acordo com a visão que uma pessoa tem sobre outra pessoa. Tempestade de Verão é uma produção alemã que merece ser vista por dois motivos: prmeiro, porque é uma obra muito válida dentro desse gênero de filme; segundo, para sair do mundinho hollywoodiano. Não posso finalizar esse texto sem antes agradecer ao Ewerton, dono do blog Cereja do Bolo, já que foi ele quem me recomendou e emprestou o filme para que eu assistisse. Recomendo, além de ver o filme, que confiram o blog dele – lá há relatos e crônicas interessantes de sua própria autoria.

14 de mar de 2011

Ringu

Essa é mais uma das muitas resenhas especiais. Desta vez, o convidado especial é o Luiz Santigo, editor do blog Cinebulição, que já participou aqui anteriormente escrevendo para a sessão Original e Remake, na qual comentamos em parceira os filmes Ringu e O Chamado. Agora, ele volta aqui para expor o seu pensamento crítico acerca da obra japonesa Ringu, que deu origem ao popular O Chamado. Agradeço a ele por participar mais uma vez e garanto que novos convites virão.
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Ringu. Japão, 1998, 96 minutos, terror. Diretor: Hideo Nakata.

O Japão é um país repleto de tradições. Do haikai ao anime, conhecemos diversas formas de produção artística do país, bem como a sua forma peculiar de trabalhar o homem em seu cotidiano. A vida e a morte também são peculiarmente contempladas, desde mangás de horror como Uzumaki a filmes do gênero como Ringu (1998).

O terror japonês caiu nas graças do público ocidental em meados da década de 90, e a partir de então tornou-se até um clichê cinéfilo falar da “superioridade do terror japonês”. Para mim, o horror asiático é bom porque privilegia a psicologia, trabalha mais a alma e a atmosfera do filme ao invés de se preocupar em opor anjos e demônios ou jorrar rios de sangue para uma câmera cambaleante. Especialmente no horror japonês, o mal é um fato consumado, existe, e não necessariamente quer destruir a tudo o que vê pela frente. Como vemos em Ringu, às vezes o mal se contenta em fazer parte de um maldoso jogo mortal... A vida e a morte convivem normalmente, uma aceitando a existência da outra, sem as penas, temores e demonizações pregados pelo cristianismo. Uma percepção cultural diferente, além de diferentes condições antropológicas podem explicar essa força tremenda que o horror japonês possui, e o que faz os filmes do país serem considerados bons, embora na maior parte das vezes a soma de todos os elementos internos da obra não seja muito satisfatória.

Ringu, de Hideo Nakata, foi um enorme sucesso de bilheteria dentro e fora do Japão, e sua trama chamou a atenção de Hollywood, que comprou os direitos para um remake, dirigido em 2002 por Gore Verbinski. O filme conta a história de um grupo de pessoas que morrem tragicamente após assistirem a um misterioso curta-metragem em um VHS. Uma jornalista passa a investigar o caso, e após ela mesma assistir à obra amaldiçoada, sua investigação se torna a luta pela própria vida. Entre o mundo sobrenatural e um bom suspense dramático, Nakata criou uma obra de impacto sobre o espectador porque atinge a própria percepção de bem, mal e vingança.

Ringu não é um filme bem trabalhado artisticamente, e há quem diga ser esta crueza e escuridão fotográficas uma opção do diretor para intensificar o suspense. Nesse caso, a escolha não foi das melhores, e todo bom cinéfilo sabe que tons escuros imperando sobre a película não é garantia de boa atmosfera de horror. A despeito da fotografia, os planos e os ângulos usados no filme são de uma precisão matemática, e não só mostram precisamente o que deve ser mostrado, como dão uma grande fluidez interna ao filme. No plano externo, a montagem se caracteriza por takes médios na primeira parte do filme, um pouco mais longos e vazios durante o seus desenvolvimento, e híbridos a partir das sequências em Oshima. Da mesma forma o uso dos sons de da pontual trilha sonora variam a intensidade e importância cênica durante a projeção.

A história de Ringu se sustenta pelo roteiro bem trabalhado e por não fazer guerras sobrenaturais. A ironia da morte e a relação dos humanos com a perspectiva de morrer são trabalhados em crescendo, e muito me lembrou o ritmo cada vez mais intenso que vemos, por exemplo, em Os Pássaros. Mesmo que não haja uma aula de atuações e a presença da personagem infantil seja pouco justificável, nenhuma dessas coisas atrapalham o desenvolvimento do filme ou diminuem o seu valor. Ringu é um ótimo exemplar do mercado macabro japonês. O resto só sabe quem assistiu ao filme.

Luiz Santiago

12 de mar de 2011

Ritmo de um Sonho

Hustle and Flow. EUA, 2005, 116 minutos, drama. Diretor: Craig Brewer.
Eu superei o preconceito e conferi esse título. Deparei-me com uma obra bastante válida, que merece ser conferida pelas suas boas atuações.
Eu confesso que nunca me interessei por assistir a esse filme. Somente o conferi porque a equipe do Um Oscar por Mês decidiu avaliar o cerimônia de 2006, na qual Hustle and Flow concorreu em duas categorias: Melhor Ator e Melhor Canção Original. Primeiro, quero comentar o que me afastava dessa obra – o pôster dele. Observem-no com atenção: parece com Velozes e Furiosos e, convenhamos, esse não é o tipo de filme que me faz querer conferi-lo.

DJay é um cafetão que se divide entre as várias prostitutas que comanda. Um dia, ele descobre que tem afinidade com a música e resolve se dedicar a compor e a cantar e para isso conta com a ajuda de um amigo de infância e das suas garotas.

O meu maior elogio vai para o roteiro. O desenvolvimento da história tem um ritmo muito bom, que permite que todos os personagens sejam bem explorados – tanto os principais quanto os coadjuvantes recebem espaço interessante e podem mostrar para nós do que são capazes e quais as suas funções na história. Gosto principalmente de como o personagem DJay é desenvolvido: é um homem forte e persistente, de sonhos palpáveis e um pouco idealizados, especialmente quando consideramos a sua realidade. O roteiro também explora bem todas as situações pelas quais os personagens passam, criando uma excelente evolução na história, conseguindo encaminhá-la para um excelente clímax.

As atuações são mesmo muito boas. Acredito que não haja nenhum ator ou atriz em desajuste, todos parecem muito bem em seus personagens e acredito que essa foi outra grande surpresa. Não pensei que me depararia com atuações tão marcantes, em especial a de Taraji P. Henson, que infelizmente não foi indicada ao Oscar como Melhor Atriz Coadjuvante. O mesmo elogio faço à atuação de Taryn Manning, que, tal como Henson, está muito boa em sua personagem e me agradou bastante com a sua interpretação. Terrence Howard me surpreendeu também, mas tenho dúvidas em relação ao que é grande: o seu personagem ou a sua interpretação. Ou, talvez, os dois.

Temos, então, três atores representando muito bem os seus personagens e todos eles se somam ao roteiro muito bom, à excelente trilha sonora, à boa fotografia e a uma excelente noção de realidade passada pela retratação fiel do tipo de vida na qual os personagens estão inseridos. Desse modo, considerando todos os acertos de Ritmo de um Sonho, acredito que seja uma obra que merece ser vista, porque, como eu disse, tudo nela está ajustado e, dentro de seus limites, o filme se mostra uma boa obra artística e uma boa sugestão de entretenimento para o espectador.

10 de mar de 2011

Acerto de contas, vingança, coragem e ódio:

Para estrear a nova sessão do blog, dedicada a discorrer a respeito de assuntos interessantes que frequentemente são abordados pela literatura e pelo cinema, convidei o Marcelo Antunes, editor do blog Diz que Fui Aí..., para escrever sobre o tema "A Retroalimentação da Violência", o que ele fez muito bem, devo dizer. Abaixo segue o seu artigo, sendo essa mais uma de suas várias participações aqui.
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A violência retroalimentada em quatro obras


Em 1895 (ou 1896, segundo alguns), os irmãos Lumiére exibiam, pela primeira vez, “L’Arrivée Du Trem Em Gare De La Ciotat”. Reza a lenda que a audiência, espantada pelas imagens da locomotiva em movimento, gritou e correu para o fundo da sala, temendo que a mesma saltasse da tela e viesse ao seu encontro. Curiosidades à parte, tal episódio ilustra algo sobre qual alguns estudiosos se debruçam, há algum tempo: o cinema não é apenas puro entretenimento. É, acima de tudo, elemento de grande relevância social. Isso fica bem claro se analisarmos que as primeiras imagens capturadas traduziam exatamente fatos e eventos corriqueiros, cotidianos - como a chegada de um trem à estação, por exemplo -, dando a oportunidade de, muitas vezes, os próprios protagonistas se tornarem, mais tarde, espectadores desse registro.

Durante a década de 1970, estudos relacionando Cinema e História foram elaborados por nomes como Marc Ferro (1), conferindo à sétima arte status de fonte documental e corroborando esse ponto de vista. Isso só foi possível graças à discussões, no campo historiográfico, acerca da diversificação das fontes históricas; o que esteve diretamente ligado a um movimento de renovação, na historiografia francesa, conhecido como “Nova História”. Foi esse movimento que consagrou a “história das mentalidades”, já anunciada na École des Annales (2), que dizia que as sociedades poderiam ser estudadas e explicadas através de tudo o que o homem produz e representa. Outras correntes embarcaram na discussão, como os “Estudos do Imaginário” que preconizavam um novo papel para os documentos literários e artísticos.

 Michel Vovelle (3) destaca que filmes poderiam ser considerados como documentos históricos, sugerindo, inclusive, uma aproximação dos historiadores com a semiologia e a psicanálise, ampliando assim, seu campo de pesquisa. O presente artigo não pretende, apesar de toda introdução relacionando cinema e história - uma escolha puramente pessoal, por tratar-se de minha área de formação -, discutir o assunto sobre esse viés, mas sim, lançar um breve olhar sobre o tema violência. Para isso, nos ateremos em algumas obras específicas. São elas os filmes A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA, IRREVERSÍVEL, MARCAS DA VIOLÊNCIA e o conto O COBRADOR, de autoria de Rubem Fonseca. Abaixo, apresentaremos, inicialmente, um breve resumo de cada um desses títulos:

O COBRADOR
O Cobrador foi publicado, originalmente, no livro do mesmo nome, em 1979. Nele, somos apresentados ao personagem principal, que conduz a narrativa em primeira pessoa. Logo nas primeiras linhas, o encontramos diante da porta de um consultório dentário, onde, aparentemente, foi procurar remédio para a dor de dente que o atormenta. Depois de esperar meia hora, o dentista o atende e, depois de verificar que será necessária uma extração, repreende nossa personagem, perguntando como ele deixara que os dentes chegassem aquele estado. Serviço feito e cobrado, ocorre o inusitado: o narrador simplesmente se nega a pagar. O dentista tenta impedi-lo, quando percebe que o mesmo se encaminha para a saída. O paciente, no entanto, é enfático: “Eu não pago mais nada, cansei de pagar (...) agora eu só cobro!”

E é exatamente assim - O COBRADOR - que ele se autodenomina, nas próximas linhas do texto - título esse que justifica o nome da obra. A explicação para a atitude tomada - ele quebra literalmente todo o consultório e, não satisfeito (“eu devia ter matado aquele filho da puta“), dá um tiro no joelho do dentista - é que o mundo inteiro lhe deve. O mundo inteiro lhe devia comida, dinheiro, dentes e até mesmo buceta. Esse é apenas o início da imensa conta que a personagem decide cobrar da humanidade. Seu acerto começa quando atinge, com o seu 38, um rapaz que dirigia uma Mercedez. Daí para uma série desenfreada de atos violentos é um pulo: logo depois, ele mata um muambeiro que tenta vender-lhe um rádio. Ainda dá cabo da vida de um casal grã-fino, saindo de uma festa na Vieira Souto e de um executivo freqüentador de uma casa de massagem, entre outros. O curioso é que ele parece ter compaixão daqueles que, de certa forma, são seus companheiros de infortúnio. Observa-se isso quando ele relaciona-se sexualmente com uma “coroa” que encontrou na rua e que leva uma vida medíocre, num quarto e sala, bebendo “porcaria” e lendo sobre a vida dos ricos na Vogue. Ou quando o “crioulo” de poucos dentes, que, mesmo sendo hostil quando lhe pede o jornal emprestado, recebe, como permuta pela leitura do noticiário, um sanduíche e um refrigerante. Ou então quando conhece a moça que mora no edifico de mármore que, durante um passeio a Petrópolis, diz que já tentou se matar. Essa moça, aliás, desempenhará papel fundamental na condução da obra - e que, por motivos óbvios, não será revelado aqui.

IRREVERSÍVEL
Em 2002, o diretor franco-argentino Gaspar Noé, leva às telas o filme IRREVESÍVEL. Com o elenco encabeçado pela bela Monica Belucci, o longa nos apresenta a história de Alexandra - ou simplesmente Alex. Alex namora Marcus, mas ainda mantém um forte vínculo com Pierre, seu exmarido. Marcus e Pierre são o extremo oposto, um do outro: enquanto o primeiro é inconseqüente e passional, Pierre intelectualiza tudo, buscando explicação lógica para as coisas. Talvez, o grande ponto em comum deles seja exatamente o amor que nutrem por Alex. Marcus é loucamente apaixonado pela namorada. Pierre ainda a ama, mas permite que ela toque sua vida.

Certa noite, os três decidem ir à mesma festa. Alex, preocupada com Pierre, o incentiva a se aproximar de algumas garotas. Marcus se droga e Alex percebe, começando um desentendimento entre os dois. Aborrecida, diz que vai embora. O ex-marido lhe oferece companhia, ela nega. Orientada por uma prostituta, Alex resolve tomar o caminho de um túnel para chegar ao outro lado da rua. Nesse instante, ela encontra então, o seu destino: um cafetão espanca um travesti. Para não ser notada, Alex foge, mas o cafetão a alcança, a estuprando e violentado em seguida.

Quando saem da festa, Marcus e Pierre encontram uma ambulância socorrendo uma pessoa. Mais próximos, descobrem tratar-se de Alex. Revoltado, Marcus jura vingança, a qualquer custo. Pierre tenta dissuadi-lo, em vão. É quando dois homens dirigem-se a eles, oferecendo ajuda e sugerindo uma vingança contra quem cometeu a barbaridade. Marcus inicia sua busca atrás do malfeitor. Pierre o acompanha, no papel de voz da razão.

MARCAS DA VIOLÊNCIA
Os efeitos da violência na vida de um pacato cidadão é o mote de MARCAS DA VIOLÊNCIA, filme dirigido por David Cronemberg, em 2005, e estrelado por Viggo Mortesen e Maria Belo.

Mortesen é Tom, proprietário de uma lanchonete, numa cidadezinha interiorana. Casado com a bela Edie, é pai de dois filhos e toca a sua vida tranquilamente, até que, em seu caminho surgem dois assaltantes que ameaçam matar suas garçonetes. Tom, surpreendentemente, mata os dois bandidos e sua história para na mídia, sendo aclamado como o novo herói local.

Baseada numa graphic novel, de autoria de John Wagner e Vince Locke, o filme mostra o quão é difícil voltar atrás depois que se ganha determinada reputação. Depois dos acontecimentos na lanchonete, a vida de Tom transforma-se e surge, em seu caminho, o misterioso Carl Fogarty que, segundo o xerife local, trata-se de um mafioso da Filadélfia, recém-saído da prisão. Carl aparece, um dia, no estabelecimento de Tom e o chama a por outro nome - Joey. O filme aborda a questão da violência de maneira muito direta, chegando a algumas vezes, sugeri-la como algo positivo.


A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA
Denso, polêmico, provocador - eis alguns dos adjetivos para a história de Derek, o líder da delinqüência do bairro. Levado às telas em 1998, por Tony Kaye, somos apresentados à história a partir da morte do pai do rapaz, um bombeiro, assassinado, por marginais, durante o trabalho, num bairro negro. A partir de então, Derek inicia um ódio violento por negros, imigrantes e judeus. Recrutado por uma organização neonazista, o rapaz mata dois negros - com requintes de crueldade - quando estes tentam roubar-lhe o carro. Derek é preso, condenado, mas, na penitenciária, passa a integrar um outro grupo neonazista. Após questionar o grupo acerca de alguns propósitos, é estuprado no chuveiro com tanta violência que vai parar no hospital. Ali, recebe a visita de um ex-professor - negro - que o alerta para o rumo que o irmão de Derek, Danny, vem seguindo. O professor leva Derek a refletir sobre a vida e mudar seus conceitos, principalmente após a aproximação com outro prisioneiro, também negro. Três anos depois e disposto a mudar de vida, Derek é libertado.

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Sinopses apresentadas, é hora de se pensar na questão que este artigo pretende elucidar. Está claro que o tema violência é comum às quatro obras. Personagens desajustados, em busca de vingança, ou um cidadão aparentemente pacato que, repentinamente, é capaz de um ato cruel - todos eles são ou vítimas ou praticantes da violência.

Mas o que há em comum entre eles? Como a violência se apresenta em cada uma das histórias?

Em O COBRADOR e IRREVERSÍVEL, encontramos personagens com uma missão. A do primeiro era cobrar do mundo tudo aquilo que lhe fora negado. Do segundo, é vingar o estupro e violência da namorada. Todos eles possuem um ponto de partida: em A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA, o acerto de contas de Derek com os “caras” que tentaram roubar o seu carro, levou-o até a prisão. Vou mais longe: a morte do pai, responsável por todo o seu ódio contra minorias, foi, de certa forma, a força motriz de todo o processo. Em MARCAS DA VIOLÊNCIA, o ato corajoso - e surpreendente - de Tom, faz com que ele seja aclamando como o herói da cidade.

O que se torna claro, observando o conto e os livros é que, em todos eles, um episódio violento desencadeia toda a ação. Podemos, portanto, afirmar que há uma retroalimentação (4) da violência.

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Esse conceito fica bem claro, lançando um olhar mais apurado nas obras citadas. Em IRREVERSÍVEL, por exemplo, onde a ação é narrada a partir do “fim” da história, percebemos isso conforme o desenvolvimento do enredo. O personagem Marcus que, inicialmente nos é apresentado como doce e amável, termina - ou inicia - a história como um verdadeiro “animal”, querendo vingança a qualquer custo. Digo inicia porque é essa a lógica do filme, conforme afirmei, algumas linhas acima: a primeira cena exibida é justamente de Marcos brigando numa boate gay.

Todas as obras seguem uma lógica parecida. Se em O COBRADOR, há uma onda crescente de violência, com um final surpreendente, em MARCAS DA VIOLÊNCIA nos deparamos com um Tom que tem um acerto de contas com o seu passado. Em A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA, todo o ódio e violência depositado contra aqueles que Derek odiava, acabou, no fim das contas, respigando sobre ele mesmo - ou sobre o seu irmão, para ser mais exato.

Quais seriam os destinos de cada uma dessas personagens, caso não tivessem, cada um, sua motivação para seguir adiante nos seus intentos? Ora, é claro que não haveria história para ser contada, ou no mínimo, uma outra história, completamente diferente dessas que conhecemos. Vale agora ressaltar que todas elas, tanto o conto quanto os filmes, possuem excelentes qualidades artísticas e técnicas, sendo entusiasticamente recomendadas a todos que apreciam boa Literatura e bons filmes - ou os que simplesmente se interessam em conhecer um pouco mais do espírito humano.

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NOTAS:
1. Historiador francês, pioneiro nos estudos da relação entre Cinema e História.
2. Movimento historiográfico fundado por Lucien Febvre e Marc Bloch, em fins da década de 1920, que propunha uma História além da mera crônica dos acontecimentos.
3. Um dos maiores pesquisadores franceses, atualmente faz um trabalho da história social e religiosa da morte.
4. Retroalimentação - conceito largamente usado na Psicologia, Biologia, Engenharia, Teorias de Sistema e Controle, segundo o qual parte do sinal de saída de um sistema é transferido para o sinal de entrada com o intuito de diminuir, amplificar ou controlar a saída.

BIBLIOGRAFIA:
BARROS, José D’Assunção. Cinema e História - a função do Cinema como agente, fonte e representação da História. Ler História Lisboa: 2007, nº 52, p.127-159.

KORNIS, Mônica Almeida. História e Cinema: um debate metodológico. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.5, nº 10, 1992, p. 237-250.

< http://pt.wikipedia.org/wiki/Retroalimenta%C3%A7%C3%A3o > Acessado em: 02 de março de
2011.

8 de mar de 2011

Gente como a Gente

Ordinary People. EUA, 1980, 124 minutos, drama. Diretor: Robert Redford.
Uma obra interessante que aborda a tensão familiar de modo pungente - só não se torna marcante porque o seu roteiro não consegue focar naquilo que é realmente desautomatizador.

Ordinary People foi a grande surpresa da cerimônia do Oscar no ano de 1981: venceu na categoria principal e ainda concedeu a Redford o prêmio de Melhor Diretor. Quando todos pensavam que o cultuado Touro Indomável, de Scorsese, fosse o grande filme da noite, esse filme sobre um drama familiar se torna o alvo dos holofotes.

Gente como a Gente tem uma história bastante simples. Uma família – pai, mãe e filho – tentam se recuperar da morte de um parente, o filho mais velho. A morte dele gera um conflito muito grande entre os três, fazendo-os se questionar sobre o relacionamento que têm e sobre a parcela de culpa de cada um. Embora estejam vivendo de modo tumultuado, tentam demonstrar que tudo está bem para os vizinhos e amigos da família.

Talvez o que tenha levado a Academia a se render e conceder-lhe o prêmio máximo – somado ao problema político que envolvia Touro Indomável – foi o modo incisivo como o roteiro aborda o drama pessoal de um jovem que se culpa pela morte do irmão mais velho. A intensidade da narrativa nesse ponto é tão grande que o espectador acaba inserido na história, como se fosse um personagem avulso, que observa de dentro e não de fora das telas. Não quero, com isso, dizer que acho que o roteiro desse filme seja o melhor drama familiar existente, nem de longe creio que ele seja realmente grandioso. Se por um lado a perspectiva e os problemas pelos quais Conrad passa, por outro lado o resto da família é praticamente ignorado. Tomemos como exemplo Beth, a mãe: sua personagem é extremamente interessante, parece amar demais a um filho a ponto de conceder a ele todo o amor que sente, sem restar nada para o marido e para o outro filho. Justamente com a morte daquele que ela ama, ela se torna inatingível – não chora, não ri, se distancia, parece estar constantemente enraivecida, embora consiga diminuir a aparência de sua expressão. Tudo o que poderia ser explorado ao seu respeito foi reduzido a poucos momentos, sendo que apenas um é grandioso o suficiente e, nessa passagem, ela nem sequer fala.

A direção de Robert Redford se intensifica quando o diretor consegue captar das cenas os seus melhores ângulos, e dos atores os seus melhores desempenhos. Assim, todos em cena estão bem corretos. Gosto do modo como Redford soube intercalar os protagonistas – a cada momento, um deles tem destaque, mesmo que Beth e Calvin, personagens de Mary Tyler Moore e Donald Sutherland, sejam pouco aproveitados pelo roteiro. A interpretação dos atores ajuda a nos fazer crer que aquilo seja mesmo real, até porque todos parecem realmente viver a tortura da perda. Timothy Hutton personifica Conrad com um cuidado muito intenso e isso resulta numa atuação realmente boa, tanto é que a Academia lhe premiou com a estatueta – o único problema foi tê-lo indicado na categoria errada, já que o personagem é visivelmente protagonista. Sutherland compôs um pai compreensivo, que tenta enxergar o lado de todos. Embora seja o menos brilhoso dos atores com funções protagonistas, Sutherland não se equivoca ao conceber Calvin. Mary Tyler Moore também tem uma realização interessante e até mesmo foi indicada pela Academia ao prêmio de Melhor Atriz, mas acho que uma análise mais atenciosa nos mostra que sua personagem é grandiosa, muito mais do que a atuação interpretação. Realmente acho que o modo como somos atraídos para a sua atuação se deve à intensidade – mal aproveitada, devo dizer – de sua personagem, Beth. Não lhe tiro o crédito, porém, pela sua indicação. Como disse, sua interpretação é correta e convence o espectador, tal como os outros personagens. Judd Hirsch, intérprete de Dr. Berger, o psiquiatra que cuida de Conrad, aparece em pouco tempo e realiza um bom desempenho, mas ele definitivamente some ao lado de qualquer ator do elenco. Nas cenas em que ele está com Timothy Hutton, é impossível notá-lo, nem o observava direito – meus olhos focaram-se no magnetismo de Hutton, que me surpreendeu. A indicação que Hirsch recebeu foi pra preencher a lista dos cinco indicados, só pode.

Dramas familiares como esse me soam interessante porque narram eventos cotidianos, que podem acontecer conosco. Vale comentar sobre o título original e também a escolha nacional – ambos remetem aos personagens centrais: eles são pessoas comuns, como nós. Não acho, porém, que Ordinary People seja o melhor do gênero. Decerto é uma boa obra, mas não alcança o conceito de “bom”. É uma obra satisfatória, que me envolveu, mas não me emocionou totalmente. Mas vale a pena conferir, pelas boas interpretações e pela eficiente direção de Redford.

6 de mar de 2011

Bravura Indômita

True Grit. EUA, 2011, 110 minutos, faroeste. Diretores: Ethan Coen e Joel Coen.
Eu confesso que esperava menos desse filme, ainda que não esperasse pouco. Acabei surpreso com essa mais recente produção dos irmãos Coen.

Parece que toda vez que vou escrever sobre algum filme dos irmãos Coen, eu começo falando a respeito do quanto eles são elogiados e aclamados – até mesmo pela Academia. Embora às vezes possa ocorrer a superestimação desses diretores e roteiristas, é indubitável para mim que isso decorre do maravilhoso histórico fílmico desses dois. Em 2010, os irmãos escreveram e dirigiram True Grit, que, segundo eles, é uma nova adaptação do romance de Charles Portis e não um remake do filme de 1969, estrelado por John Wayne, vivendo o personagem que lhe concedeu o Oscar de Melhor Ator e que, nessa nova versão, concedeu a Jeff Bridges uma indicação na mesma categoria.

Confesso que, num primeiro momento, a história de Bravura Indômita não me agradou. Não que houvesse total desapego à história, mas a sinopse simplesmente não me chamou a atenção. Fui motivado, no entanto, a conferi-lo devido à presença de Bridges como lead actor e dos irmãos Coen na direção – isso, afinal, deveria significar alguma coisa boa, certo? Corretíssimo. O filme, que nos conta a aventura de três personagens no velho oeste, é definitivamente uma obra interessante, provavelmente uma das que mais se destacam nessa temporada de premiações. Acredito que o principal elemento de destaque é a dinâmica das cenas, fazendo com que a história de Mattie Ross, uma garota cujo pai foi assassinado por um homem que escapou, se tornasse atrativa para o espectador.

É inegável que o charme do filme está no modo como muitos elementos são misturados, parecendo haver um espaço para o drama, o suspense, a guerra e até mesmo para o humor – é este, aliás, o responsável pelo filme ser bastante leve, embora seu roteiro apresente elementos bastante violentos, que não foram amenizados durante as filmagens. O humor reside em duas coisas: primeiro, no personagem de Jeff Bridges, o agente federal que “não faz prisioneiros”, porque, sem querer, segundo o próprio personagem, acaba por matá-los; em segundo lugar, por causa das características pessoais de Mattie, uma garota inverossimilhantemente esperta. Quando ela contrata Rooster Cogburn para caçar Chaney, o homem que matou o seu pai, Mattie encontra-se diante de um homem muito complicado: um beberrão sempre disposto a alguns tiros para mostrar o quanto é bom e disposto a acertar umas contas com o seu passado. Ao embarcar na viagem com ele – viagem à qual o espectador também vai –, Mattie descobre-se numa verdadeira selvageria, principalmente quando outro homem, também à procura de Chaney, se junta a ela e a Cogburn.

Eu realmente gosto do modo como o humor negro dos irmãos Coen transparece em cena. Basta notar o modo agradável como eles unem comédia e violência, tornando algumas cenas tão impactantes no seu lado cômico, que acaba fazendo com que o espectador não se choque tanto com algumas mutilações, alguns tiros – um tiro no rosto, fabulosamente filmado – e muito sangue. Convenhamos que o jeito como eles misturam realidade e irrealidade também é divertido. Por exemplo, nenhuma garota é como Mattie – ela conhece tudo, desde termos referentes a lei até métodos de discurso capazes de confundir e coagir o seu interlocutor. Ela é simplesmente inacreditável e é exatamente por isso que ela se torna ainda mais engraçada. É evidente que não se poderia atingir tal feito se Hailee Steinfeld não a interpretasse de maneira espontânea, sem parecer pregada à construção da identidade de sua personagem. Penso que a sua indicação ao Oscar tenha sido válida, ainda que ela notável e notoriamente seja lead e não supporting, categoria à qual foi indicada. Os irmãos Coen souberam como, principalmente, filtrar bem aquilo que queriam mostrar: o filme me pareceu bastante coeso, sem exageros, feito nas medidas certas, com destaque para a fotografia e para o uso de alguns elementos dramáticos, como a seqüência final, que nos remete ao quão perigosa foi a aventura dos personagens.

Diferentemente do ano passado, na qual outro filme dos Coen recebeu indicação (A Serious Man, como Melhor Filme e Melhor Roteiro Original), desta vez a obra deles faz por merecer a categoria principal e a categoria de direção, que muitos reclamam ter sido “tirada” de Christopher Nolan, por Inception, mas eu tenho muitas dúvidas quanto a isso. Ainda que eu tenha gostado muito da direção de Nolan, acredito que os Coen fizeram por merece a indicação que receberam, porque, como disse, eu realmente gostei desse filme e acredito que ele esteja entre os melhores da categoria Melhor Filme. Toda essa qualidade também se deve aos atores Jeff Bridges, Matt Damon e Josh Brolin, intérpretes de Cogburn, LaBoeuf e Chaney, respectivamente. São interpretações bastante maduras, todos esses atores souberam como se portar corretamente dentro das roupas de seus personagens – em nenhum momento soam caricatos ou desnecessários, compondo então, juntamente com Hailee Steinfeld, um elenco correto e em sintonia.

Eu realmente penso que Bravura Indômita seja um bom filme para entreter e acredito que seja entretenimento com qualidade, independentemente de ter sido indicado ao Oscar ou independentemente de não ser o melhor filme já filmado pelos Coen. O que importa é que, nos seus padrões, o filme consegue atingir o espectador, desde que esse, evidentemente, não fique cobrando mais do que deve. Por si só, creio que essa obra coeniana seja capaz de promover momentos interessantes de diversão – eu, pelo menos, me diverti ao longo dos cento e cinco minutos de filme.

2 de mar de 2011

A Rede Social

The Social Network. EUA, 2010, 121 minutos, comédia. Diretor: David Fincher.
Provavelmente, um dos piores filmes de Fincher. A Rede Social peca pela falta de ousadia e distanciamento com o espectador, que não reage ao que o filme mostra. Ainda que não seja ruim, também não é bom - é apenas mediano e totalmente sobrevalorizado.

Há apenas três anos, David Fincher nos trouxe à história – muito bem contada, aliás – de Benjamin Button, um garoto cuja vida aconteceu invertida: primeiro a velhice, depois a juventude. Agora, em 2010, ele retorna com uma nova produção, que conta a história da criação de uma das maiores redes sociais existentes atualmente: o facebook. Juntando um pouco de ficção – afinal, mesmo filmes baseados em fatos reais têm a sua carga fictícia – e bastante realidade, o novo filme de Fincher relata desde o primeiro momento, aquele em Mark Zuckerberg e Eduardo Saverin decidem criar o site, até a batalha judicial envolvendo os dois amigos.

Uma característica interessante do filme é a sua falta de linearidade. As idas e vindas no tempo, mostrando um pouco de cada momento da vida dos personagens é bastante válida, registrando-se como um dos melhores aspectos do filme. Vale ressaltar que o roteiro escrito por Aaron Sorkin e Ben Mezrich é o primeiro enredo não-linear dirigido por Fincher, haja vista que seus filmes anteriores – cito aqui especialmente os bons Seven e Clube da Luta – seguem um trajeto linear, e isso se verifica como uma boa característica. Não posso, porém, dizer que esse é um grande filme de Fincher. Realmente achei a obra mediana e percebo que ela tem sido enormemente elogiada pela mídia e pelos críticos e admito não saber de onde provêm todas essas características fantásticas que as pessoas têm visto nesse filme.

Sinceramente, penso que seja o filme mais sem graça que Fincher já dirigiu. Falta nele a emoção e beleza estética de O Curioso Caso de Benjamin Button, falta também a dinâmica de O Clube da Luta, falta o elemento que prende a atenção e que pode ser encontrado em Seven – falta até mesmo um elenco que chame a atenção, característica que nem mesmo O Quarto do Pânico, também mediano, possui. Enfim, com exceção da não-linearidade do roteiro, tudo parece comum demais e tive a impressão de que já história semelhantes antes, mesmo tendo certeza de que nenhum outro filme sobre o Facebook foi lançado anteriormente. Tenho a impressão de que Fincher se limitou a uma cartilha intitulada “como filmar bem” e se ateve a ela, temendo ousar mais e compor uma obra que trouxesse uma sensação de novidade.

O elenco também não me parece muito atrativo. Ao conferir o filme, fiquei pasmo que Jesse Eisenberg tenha conquistado indicações a alguns importantes prêmios, como o Globo de Ouro. Sua atuação é tão terrivelmente apática que ele some diante do charme pop de Justin Timberlake, intérprete de Sean Parker, o criador do Napster, e também diante do co-protagonista Andrew Garfield, que compõe um personagem muito mais interessante, expressivo e atrativo do que Eisenberg. Não vejo por que tantos elogios a Eisenberg enquanto Garfield permanece às escuras. Ainda assim, diria que o elenco está em sintonia, mesmo que haja algumas grandes falhas em suas interpretações. Esse pequeno defeito nas interpretações somado à direção sem afeto de Fincher fazem com que esse conjunto artístico não seja muito elogiável ao longo do filme.

Repito: não sei de onde vieram tantos elogios a esse filme. Admito que entretém se você o conferir sem grandes expectativas, mas definitivamente está longe de ser um grande filme. Faltam-lhe um elenco disposto, uma direção mais ousada, uma direção de arte menos acomodada. Ainda que se esforce muito, o filme fica no nível mediano e também aquém de filmes concorrentes, como Cisne Negro, de Darren Aronofsky. Enfim, mais uma obra sobrevalorizada.