22 de abr de 2012

Amor, Estranho Amor


Brasil, 1982, 122 minutos, drama. Diretor: Walter Hugo Khouri.
Uma obra de trama fluente e bastante ousada, que mantém o espectador atento à história do começo ao fim.

Acredito que é bastante curioso pensar no processo de produção desse filme. Antecede a esse pensamento a noção de que a obra é polêmica por causa da personagem de Xuxa Meneghel, que foi a grande responsável pela divulgação desse filme anos depois de ele ter estreado, pois, em decisão judicial, ela conseguiu que as cópias fossem retiradas das locadoras. Não é preciso assistir ao filme para saber o porquê: ela aparece seduzindo um garoto de 9 anos. Ao conhecer mais a obra, vamos além: ela aparece nua, seduzindo o garoto, e, na época das filmagens (três anos antes da liberação em vídeo), ela tinha apenas 16 anos.

Acrescento já que sua participação – bem como sua nudez ou qualquer ato libidinoso com a criança – não é gratuita. Considerando que a trama gira em torno de uma casa de meretrizes – uma delas a personagem de Xuxa – é perfeitamente cabível que houvesse cenas mais ousadas. Tudo se inicia com a vinda de Hugo a São Paulo para morar com a mãe (Vera Fischer), que saiu do sul há algum tempo deixando-o com a avó, que se cansou de não receber ajuda financeira para cuidar do menino. O grande problema de sua vinda é o fato que Anna, a mãe, vive na casa de Dona Laura, a cafetina que comanda um casarão a pedido de Osmar, um importante político cujo interesse se foca principalmente em Anna, impedindo assim que ela saia do prostíbulo e, ainda, nas condições atuais, que dedique completa atenção ao filho. O ambiente logo se torna instável: as outras prostitutas, a contragosto de Anna, vivem a se insinuar a Hugo, que não sabe como agir naquele novo universo e chega ao local Tamara (Xuxa), uma garota que se faz passar por sulista a fim de conquistar a simpatia de mais políticos e alavancar dinheiro para as prostitutas dali.

 Anna e Hugo, mãe e filho, principais figuras desse longa-metragem.

Antes de enveredar pelo enredo e apresentar mais características com comentários críticos, retomo a minha primeira afirmação, no primeiro parágrafo, no qual propus uma curiosidade a ser pensada. Em 1979, o país já estava em longevos 15 anos de ditadura e a imprensa, pelo menos até o ano seguinte, se encontrava sob intensa vigilância a fim de que, dentre outras coisas, não se passassem livres posicionamentos políticos contra o então regime governamental e exposições que ferissem a moral do brasileiro, principalmente porque, em meio à pornografia, podia facilmente haver mensagens induzindo os leitores de revistas e espectadores de filmes a um caminho sem volta. Aí fica a grande dúvida: como Khouri conseguiu gravar cenas tão polêmicas como as que são vistas em seu filme, gravando inclusive com atores menores de idade em completa nudez e em cenas que notadamente são dotadas de volúpia? Não apenas Xuxa se despe, mas também o jovem Marcelo Ribeiro (que mais tarde assinaria contrato com a produtora pornográfica Brasileirinhas), que, mesmo criança, encara cenas fortes de desejo sexual, sexo oral e, pasmem, incesto. O que pasma verdadeiramente não é o conteúdo, mas o modo como ele facilmente passou pela censura, principalmente se considerarmos que o filme “Giselle” (1980), que contém consideravelmente menos teor sexual polêmico do que “Amor, Estranho Amor” (1982) demorou 4 anos para ser liberado pelos censores.

Ficando aí o comentário acerca do processo provavelmente laborioso de Khouri, vamos ao filme, tanto no que tange à polêmica quanto ao que trespasse sua estrutura. A começar, acredito que a história é bastante linear e isso talvez seja uma característica positiva ao filme, já que o enredo, por si só, não é muito chamativo. Apostar na simplicidade faz com que o filme perita ao espectador acompanhá-lo sem dificuldades, compreendendo as passagens com facilidade e, embora às vezes previsível, interessante de acompanhar. O diretor, que também é o roteirista, aposta num entrave essencial que cria dinâmica e acarreta maior interesse à trama: a chegada de Hugo implica numa complicação à Anna e a chegada de Tamara implica problema ainda maior, já que as duas começam notadamente a rivalizar, sendo que a jovem prostituta é apoiada fortemente por Dona Laura, personagem de Íris Bruzzi, em evidente oposição à personagem de Vera Fischer. Estando já o espectador a par de que as duas personagens – a cafetina e Anna – têm problema e que a chegada de Tamara apenas os intensifica (isso no primeiro quarto do filme), já ficamos mais interessados em como será o desenvolver dessa história.

 Uma das tantas cenas polêimcas do filme: a nudez da mãe e do filho.

Via de mão dupla, evidente: acontecendo essas intervenções discursivas logo no começo do file, ficamos apreensivos para saber se haverá conteúdo para justificar a próxima hora e meia de filme por vir. E, felizmente, Khouri não deixa o ritmo se perder tampouco fere a história com trajetórias impertinentes ao enredo: logo começamos a ver as outras prostitutas tentando seduzir o garoto, depois vemos os problemas políticos derivados dos interesses pessoais dos personagens envolvidos na trama e, no clímax, vemos a batalha em guerra fria entre Tamara e Anna – mas é evidente que o grande momento do filme é o seu final, genial e irrepreensível.

Apesar de o grande atrativo do filme ser a Xuxa pelada – olha, não é tudo isso, não –, existe mais nele que pode ser considerado interessante. Particularmente, gostei da obra, que, apesar de simples, é muito bem desenvolvida e muito direcionada no seu roteiro. Acredito que vale a pena vê-la para conhecer um pouco mais desse cinema “menos despudorado” da década de 1980.

8 opiniões:

Alan Raspante disse...

Só conhecia o filme pela fama que tem por conta das cenas protagonizadas pela Xuxa.

O elenco é bacana, hein? Acho uma pena que a mesma tenho conseguido "proibir" o filme. Afinal, todo mundo sabe da existência e tudo mais. Besteira da parte dela.

Vou baixar para conferir!

Rodrigo Mendes disse...

Um cult por excelência e como você bem apontou, graças a Rainha dos Baixinhos. Eu conheci o filme por acaso, por volta dos 12 anos, lá estava uma cópia da CIC Vídeo se não me engano, na minha época de locadora. A fita estava meio embolorada, mas depois deu pra assistir. Xuxa não conseguiu extinguir o filme totalmente, também era uma missão impossível já que ela ficou famosa em meados de 86 e o filme é de 82 e o mercado de vídeo já estava firme.

Gosto da obra de Khouri, um cineasta que precisa ser mais conhecido. EROS O Deus do Amor, que ele dirigiu também é ótimo. Pena que ele morreu e não pode ver mais este culto a sua fita mais célebre: "Amor, estranho amor".

Gosto do papel da Vera Fischer, um dos poucos que aprecio em sua carreira.

Abraço.

Celo Silva disse...

Haha! Khouri é um dos melhores cineastas brasileiros. Ele trata de elementos ousados com muita sensibilidade. Acho q o filme não foi censurado, pq era visto como artistico. Grande texto. Parabéns.

Kamila disse...

Eu não gosto do filme em si. Pra ser bem sincera, está claro que o longa ganhou notoriedade por causa da participação polêmica da Xuxa. E não deixa de ser curioso ver a Rainha dos Baixinhos num papel desse tipo. Mas, ei, todo mundo começa na vida de alguma forma, né?? Chato é a Xuxa querer esconder isso! rsrsrs

Júlio Pereira disse...

Admito, só sabia desse filme por ter a Xuxa pelada, e não tinha menor interesse, nem acho ela muito boasuda e tal. Vale pela curiosidade, né?! E realmente, como um filme que, aparentemente, quebra tantos tabus, conseguiu passar pela censura na época? Seriam os poderes sexuais da Xuxa ou aquele suposto pacto com o demônio que ela tem? Mistérios! hahahahaha

Matheus Pannebecker disse...

Mais um "clássico" nacional que eu tenho vontade de assistir. O último que conferi foi "Cinderela Bahiana" hahaha

Isto É Uma Banana disse...

Kara, eu ando procurando esse filme a um tempo, mas não acho em canto nenhum. Fiquei curioso com a ideia da Xuxa nua é claro. Quem nção ficaria?

Mas a história me parece legal

Bússola do Terror disse...

Bom, a Xuxa recentemente quis processar o Gugu Liberato porque ele mostrou uma foto dela na Playboy (jurássica, por sinal). Então, ela demonstra ter uma certa neurose em querer apagar esse passado dela relacionado a erotismo, em geral.
Sobre esse filme, admito que eu não sabia quase nada da história. Esse post aqui que você escreveu foi o que me informou melhor sobre ele.
Sobre a questão de botarem um menino de 9 anos pra fazer esse tipo de trabalho, acho que os protestos contra o filme seriam ainda mais extremistas se fosse ao contrário (se fosse uma menina de 9 anos que é exposta a situações sexuais com vários homens adultos). Aí o diretor era capaz de ser apredejado até a morte no meio da rua.
Aliás, se você me permite, vou transcrever aqui uma avaliação que fiz sobre isso em um dos meus blogs:

Colocar uma criança dessa idade pra participar de um filme nessas condições seria algo impensável nos dias de hoje. Até porque, sem dúvidas, o diretor seria acusado de pedofilia e preso por corrupção de menor.
Mas aí é que tá: na sociedade brasileira, muitas vezes é até admirado que um menino de 10 ou 11 anos tenha relações com uma mulher adulta. Tem sempre alguém que faz um comentário do tipo:

“Ah, que lindo! O menino está ficando homem!”

Essa mentalidade só começou a diminuir quando os grupos de combate à pornografia infantil e à prostituição infantil começaram a entrar na mídia, lá pelo início dos anos 90. Mas mesmo assim, ainda se vê muitos vestígios dessa mentalidade até hoje, né? E tem muitas mulheres, inclusive, que pensam dessa forma.