Para a resenha de hoje, teremos um convidado especial. Uma vez ele nos recomendou que víssemos esse filme e, uma vez tendo dito que gostou bastante da obra, achamos que seria interessante se ele mesmo viesse aqui expressar sua opinião acerca do filme sugerido. Ele me disse que é a primeira vez que faz uma resenha sobre um filme; como achei seu texto muito bom, eu penso que ele me enganou e que há algum tempo vem escrevendo sobre filmes!! Pois bem, hoje o nosso convidado especial é o Jean, que conhecemos em uma comunidade sobre filmes no orkut. Com prazer, eu e o Renan o recebemos aqui no Literatura e Cinema. ___________________________________________
Stay. EUA, 2005, 100 minutos. Drama / Suspense.
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A história em si é complexa e parece não fazer qualquer sentido. Todavia, em segunda análise, ficamos muito felizes quando conseguimos juntar os pauzinhos e compreender tudo. Este é um daqueles filmes que em seu lançamento deve ter provocado reações inesperadas na platéia, pessoas saindo no meio da sessão, adolescentes no final dizendo que não entendeu bulhufas e por aí vai. No entanto o roteiro é muito bom e dá pra quem presta atenção nele, todas as dicas possíveis.
Henry (Ryan Gosling) é um jovem que está em crise. Tendo seu suicídio metodicamente datado e planejado em sua mente, ele é um desafio para o psiquiatra Sam (Ewan McGregor), que assumiu o caso do rapaz após a estafa mental de sua psiquiatra anterior. Enquanto tenta impedir que Henry cometa o suicídio, Sam tem de lidar com seus próprios problemas. Especialmente porque o caso se parece muito com o de sua mulher, Lila (Naomi Watts), ex-paciente que também tinha idéias suicidas. (fonte – yahoo cinema)
Quero primeiramente comentar a respeito do elenco, que foi bem coeso e bastante talentoso. Destaco Naomi Watts e Ryan Gosling, este último trouxe ao filme todas as características que o seu personagem – Henry – precisava, desde diálogos bem construídos a expressões faciais que deixam a película muito mais densa. Cheguei a me perturbar com todo o clima pesado que ele trazia à tela, sem contar inúmeras imagens confusas que apareciam em seus pensamentos e em ambientes em que se encontrava. Outra atriz que preciso destacar é Kate Burton, que conseguiu com maestria interpretar uma mãe perturbada.
Todos os diálogos de personagens secundários, à primeira vista não fazem nenhum sentido. Porém são estes diálogos que nos faz compreender - mesmo que implicitamente - o real motivo de tudo aquilo estar acontecendo. E isso trouxe um aspecto muito positivo ao filme, porque acaba testando o quão perspicazes estamos sendo em relação ao que está sendo transmitido. O uso de repetições durante a trama, também é de se considerar, apesar de às vezes se tornar cansativo.
Um ponto que achei interessante foi a de terem usado uma das histórias que consta nas obras completas de Freud... Onde ele descreve um homem cujo filho está morrendo. O pai senta ao lado da cama do filho noite após noite e depois que o menino morre, ele quer acordá-lo, e faz um círculo de velas em volta do corpo do menino. O pai está exausto e adormece, e sonha com o filho, em pé ao seu lado e segurando seu braço. Sussurrando: “Pai, você não vê que estou pegando fogo?”. Isso fala muito sobre o filme! E há algo que também precisamos saber. Existem estímulos externos e internos que influenciam o sonho. Como por exemplo, vozes, emoções e estado corporal. O que quero dizer com tudo isso é: [SPOILER] O que acontece na realidade são apenas o acidente, o socorro e o tumulto em volta de Henry. Todo o resto é sonho ou devaneio. [FIM DO SPOILER]
“A Passagem” é um filme excelente, com cenários e ambientações que nos transporta para o clima certo do filme, belíssima fotografia e trilha sonora. E, o mais interessante é que, ao passar de uma cena pra outra, usam o último movimento de uma cena pra continuar a próxima e, ainda, os seus cortes rápidos, com um fundo musical tenso, de uma cena pra outra dando assim, o tom de suspense ao filme.
Devo dizer que este é realmente um filme essencial! Fazer uma obra dessas é extremamente complexo... São muitos detalhes e todos eles são super importantes na trama e na absorção da obra, como linguagem, pelos espectadores.
Jean
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Antes, nunca havia ouvido falado desse filme. Os atores são conhecidos e eu conheço um pouco sobre a carreira de cada um deles, mas nunca havia atentado para esse filme que fizeram. Devido à escolha que o Jean fez de comentar A Passagem, eu o vi e antes de escrever essa resenha, eu o conferi pela segunda vez, o que modificou bastante da minha opinião anterior.
À primeira vista, estamos diante de um filme que nos remete à famosa - e usualmente complicada - viagem no tempo. Logo nas cenas iniciais, vemos o personagem principal, Henry, prevendo chuva de granizo, que acaba acontendo em seguida. Com o desenvolver do filme, essa impressão continua e, acrescida a ela, surgem potenciais fantasmas e um clima de suspense meio que alienado, como se tudo aquilo que é mostrado não se encaixasse no próprio tema. Há uma série de eventos que vão moldando o filme, vão transformando-o naquilo que ele é, tornando-o um filme bastante inteligente, mesmo que complicado.
Há várias cenas que parecem não acrescentar muito, mas eu tenho certeza de que todas têm uma finalidade e que juntas elas dão embasamento quase absoluto à proposta do filme. Eu usualmente costumo gostar dos detalhes, pois eu os acho fundamentais para a composição de uma obra. Em A Passagem, os detalhes são muitos, talvez em excesso - o que provoca um probleminha com o entretenimento. O que quero dizer é: são tantos em quantidade, que os detalhes tornam-se, às vezes, o único atrativo e os olhos dos espectadores voltam-se para elementos de pouca significância em cena. Desde o começo percebi que devia atentar às coisas que via; com o passar do filme, no entanto, acabei focando o cenário e o ângulo da câmera, o que me fez dispersar do que os atores diziam e, por isso, tive que voltar o filme uma ou duas vezes. Vale ressaltar que o filme caminha com sucesso para uma boa conclusão. Poderia, no entanto, ser mais curto, talvez ter uns quinze minutos a menos, já que nem tudo é realmente necessário e, mesmo depois de ter visto duas vezes, ainda fiquei com algumas dúvidas.
Os trabalhos dos atores são bastante positivos e todos estão bem em seus personagens. Grande destaque para a coadjuvante Naomi Watts que, embora participe pouco, nos presenteia com uma interpretação muito expressiva. Ryan Gosling é o caso de ator muito bom que dificilmente cai no gosto do público - é difícil vê-lo num filme que chame a atenção. Sua atuação é favorável ao que o filme propõe e, mesmo soando contraditória em muitos momentos, poderemos chegar aos motivos que levam o personagem a agir daquilo maneira. Talvez haja um quê de exagero em alguns momentos, como quando pede ajuda e depois ameaça Dr. Sam com uma arma, mas creio que isso se deve a um deslize do diretor e não dos atores em cena. Achei meio difícil acreditar a princípio que Ewan McGregor fosse um psiquiatra. Ao longo do filme, no entanto, achei-o totalmente cabível no personagem, indo fundo em busca da obsessão que aquele caso estranhíssimo causou em si. Não tenho muito o que dizer sobre os outros personagens, pois eles pouco aparecem e suas atuações são bem medianas, principalmente a da mulher que interpreta a mãe de Henry. Ela erra o tom e chega ao ponto de ser meio caricata, às vezes.
Como dise parágrafos acima, o filme é cheio de detalhes e as metáforas estão presentes o tempo todo. Para vê-lo, é necessário estar totalmente atento e ser paciente. Se houver algo que pareceu sem sentido, minha sugestão é que volte um pouco e reveja o trecho confuso, pois ele pode ser de importante significância. Na primeira vez, fiquei com essa dúvida e a segunda vez que vi o filme não fez com que isso ficasse claro. Àqueles que ainda não viram esse filme, aconselho a não ler as enumerações seguintes:
- Talvez a questão mais importante: tudo aquilo que vemos durante o filme é um delírio do personagem enquanto morre ou é exato momento da passagem? Eu poderia facilmente ficar inclinado a pensar que se trata daquilo que o título sugere, mas vale lembrar que o título original nada tem a ver com o nacional - e esse, portanto, pode induzir o espectador a pensar outra coisa.
- Quando Lila está em sua casa e percebe que os quadros foram todos pintados por Henry, ela chega à conclusão de que há algo importantíssimo para fazer. Então ela corre e pára diante de um portão, por onde não consegue passar, pois está trancado - numa clara alusão de que a verdadeira Lila, embora quisesse, não poderia mais ajudar Henry a viver. No plano ficcional, a personagem olha para um canto do cenário e dá um breve sorriso. Alguém sabe o que aquilo significa?
- Depois que Henry permite que o Dr. Leon volte a enxergar, o velho se encontra com o Dr. Sam e os dois têm uma conversa breve. Em seguida, cada um se separa e o velho caminha por uma alameda bem estranha, com várias luzes, que se assemelha ao local onde houve o acidente. Pouco a pouco a cena vai escurecendo. Outra incógnita para mim.
Primeiro, eu pensei se tratar de um filme mediano. Agora, depois de vêlo de novo e concluir que seu roteiro é bem interessante além de ser uma composição muito bem elaborada, eu devo realmente dizer que esse é um filme que vale a pena ser visto. Ele não garante entretenimento supremo, pois o excesso de detalhes faz com que ele se prolongue desnecessariamente. No entanto, quando a película chega ao fim, nós somos obrigados a ficar pensando sobre tudo o que vimos e com certeza vamos ficar com vontade de vê-lo novamente, com outros olhos.
Luís