26/11/2009

Dissecando Stephen King

Conversations on Terror with Stephen King. EUA, 1990, 265 páginas (editora Francisco Alves).
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Passando entre as patreleiras da biblioteca, vi esse livro. Somente pelo título, gostei bastante. "Dissecando" sugere uma análise profunda do autor, o que me agrada bastante, uma vez que Stephen King é um dos meus autores preferidos e desta vez eu leria uma obra sobre ele e não feita por ele. Lê-lo também foi importante para elaborar o perfil do autor, que pode ser lido aqui.

O livro na verdade não é uma análise sobre SK, mas sim uma coleção de entrevistas que o autor concedeu a várias revistas ao longo de vários anos. Tim Underwood e Chuck Miller resolveram colocar num único livro as perguntas às quais King já respondeu. O mais interessante é que temos o conhecimento das opiniões do autor pelas próprias palavras dele e vários assuntos são abordados ao longo de cada entrevista, desde os sentimentos que ele tem quanto a escrever e até mesmo o que o fazia ter medo quando criança.

Devido à liberdade com que se expressa, muitos trechos são realmente divertidos. King conta, pro exemplo, que uma vez viu uma senhora lendo Carrie, A Estranha num avião. Ela foi a primeira pessoa que ele viu lendo um livro seu e, ao perguntar o que ela achava do livro, surpreendeu-se com a resposta: "Uma porcaria! Nunca li um livro tão ruim na minha vida!". E pouco antes ele pensara em se apresentar como autor do livro e, se precisasse, até mesmo mostrar a identidade para que ela acreditasse! King tem uma visão muito sóbria das suas obras; nem mesmo suas grandes obras são motivos de orgulho excessivo e ele as trata como livros comuns, narrativas detalhadas sobre um determinado tema. Algumas respostas nos reveleam curiosidades interessantes, como o fato de o autor pensar que O Cemitério Maldito - o meu preferido - seja o livro mais dramático quanto ao terror que ele expressa. Também é revelado que muitos livros tiveram que ser modificados e suavizados, pois os editores pensavam que seria mal recebidos pelo público se mostrassem aquele tanto de violência. Hoje sabemos que, se King escrever estórias extremamente violentas, continuará vendendo tanto quanto se escrevesse romances que nada tem a ver com horror.

Particularmente, as perguntas que mais me interessaram foram aquelas que se referem às opiniões de King a respeito de seus livros que foram adaptados. O resultado final de O Iluminado realmente não agradou o escritor, embora ele tente ser bastante sutil em relação a maneira como expressa o seu desagrado. Devo concordar totalmente com ele quanto ao pensamento sobre a adaptação, que está bem longe de ser uma boa adaptação, embora seja um excelente filme. Ao longo das entrevistas, há sugestões de que King poderia vir a atuar como diretor ou escrever roteiros especialmente para filmes e não escrever livros para ser adaptados. O fato é que King anos depois finalmente dirigiria um filme e criaria uma história diretamente para um filme, para exemplificar, posso citar Caminhões (Trucks, no original) e A Tempestade do Século.

Os fãs do autor têm que ler o livro, para conhecer um pouco das opiniões do autor ditas por ele mesmo. A coletânea é realmente interessante e nos mostra bastantes coisas a respeito desse autor, que é um dos mais vendidos atualmente. Comparado a grandes nomes da literatura do horror, com Edgar Allan Poe e Lovercraft, King é um autor que merece ser lido! Sugiro, portanto, que leiam esse livro e que se deliciem com as várias entrevistas - algumas delas contam com Peter Straub, escritor que é amigo de Stephen King e que inclusive já escreveu um romance chamado O Talismã junto com o autor. Totalmente recomendável.

Luís

24/11/2009

Os Infiltrados

The Departed, 2006, 149 minutos. Drama.

Vencedor de quatro Academy Awards nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição.

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Martim Scorcese dirige um excelente filme que agrada o espectador durante as mais de duas horas de produção. Como o próprio nome sugere, a história fala sobre dois personagens que estão infiltrados: um deles trabalha para a máfia e está entre os detetives investigadores da polícia estadual enquanto o outro está junto a máfia, embora seja investigador. Essa é basicamente a premissa dessa história, que aos poucos se desenvolve, mostrando boas atuações e um final muito bom.

Leonardo DiCaprio e Matt Damon protagonizam de maneira extremamente satisfatória esse filme. Funcionam ainda mais se repararmos no aspecto de inocência que os dois têm, sempre com olhares calmos e expressões neutras. Quando ao primeiro, tem seus grandes momentos enquanto irritado, já que perde a paciência facilmente e a noção do lugar onde está, simplesmente distribuindo socos e chutes; ver DiCaprio assim é bastante interessante. Damon, ainda que um pouco abaixo do nível de DiCaprio, também é muito eficiente e sua atuação é segura, sem momentos que fazem o espectador questionar sobre a veracidade das suas ações e emoções. Mark Walhberg, indicado a Melhor Ator Coadjuvante ao Academy Awards, participa pouco, sua presença deve somar, no máximo, uns 20 minutos. Mas isso não impede que o ator faça um bom trabalho, impondo seu personagem em todas as cenas em que aparece, com o tom sempre feroz da fala, que sempre desfere ofensas ao seu interlocutor. Não acredito que valeria uma indicação, ainda que o ator se mostre bem no papel. Mas é lógico que o destaque do filme cabe ao fabuloso Jack Nicholson, que a princípio não queria integrar o elenco do filme, mas acabou mudando de ideia por sentir saudades de interpretar um vilão, coisa que há anos não fazia. As suas falar são ótimas, principalmente por vermos a maneira simples como diz frases de impacto: "Alguns querem ser bandidos, outros querem ser policiais. Quando uma arma está sendo apontada pra sua cabeça, que diferença isso faz?".

O filme vai se desenvolvendo mostrando os altos e baixos pelos quais passam os infiltrados e também os problemas que os policiais e os mafiosos encontram para tentar descobrir qual é o rato, aquele que está disfarçado. Pouco a pouco, surgem dúvidas e indagações, até mesmo testes para descobrir quem é o trapaceiro e isso mexe com o espectador, deixando-o tão tenso quanto os personagens. Porém, eu acho que algo não foi bem caracterizado nesse filme: os encontros entre os personagens com os grupos a que pertencem são sempre feitos em locais abertos, onde podem ser facilmente rastreados, como um cinema ou um píer. Dá a impressão de que a máfia é meio desorganizada quanto à segurança, oq ue sabemos ser mentira; ao mesmo tempo, parece que a polícia é estúpida por não ver o quão óbvio está em relação ao trapaceiro. E isso ocorre durante todo o filme, mas eu acabei considerando que isso faz parte do universo mostrado. Eu gostei bastante da trilha sonora e das cenas, muito bem organizadas, bastante ágeis quando necessário e causando o clima certo, na medida ideal.

Não há como não recomendar esse filme, pois é uma obra muito boa, com atuações que valem a pena conferir. Isso para não comentar o fim de cada personagem, extremamente breve, mas que prolonga no espectador uma sensação de euforia quase descontrolada, devido à maneira caótica como se ligam as cenas finais, proporcionando um verdadeiro grand finale. Na época em que foi lançado, foi supervalorizado; acredito que esse não seja o tipo de filme que perde o charme com o passar do tempo. Vale a pena vê-lo com certeza! Quando começam os créditos, percebemos que aquela frase que Jack Nicholson fala categoricamente é extremamente real... que diferença faz?

Luís

22/11/2009

Melhor Ator Coadjuvante - Oscar 2009

Eu neDando seqüência a nossas análises sobre algumas categorias do Oscar 2009, decidimos postar sobre os Atores Coadjuvantes. Em 2009 houve muita diversidade nos atores, pois ao mesmo tempo havia filmes nos gêneros de ação, drama e comédia, onde o melhor dentro do seu gênero ganhou uma indicação. Lembrando que já analisamos a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante onde concordamos que Amy Adams deveria ser a vencedora. Os textos de Josh Brolin, Heath Ledger e Tobert Downey Jr foram escritos por mim (Renan) e os textos do Philip Seymour Hoffmann e Michael Shannon, pelo Luís. Sem mais delongas, vamos analisá-los.

Josh Brolin, por Milk - A Voz da Igualdade - Primeira indicação ao Oscar
A indicação de Josh Brolin parece ter sido um "acerto de contas" da Academia, já que o mesmo não foi indicado pelo ótimo "Onde os Fracos não tem Vez". Sua atuação em Milk é mediana, mas consegue passar com eficiência o recado que seu personagem tem que passar. Talvez o maior empecilho na sua indicação, seja seu companheiro de filme James Franco que conquista a simpatia de todos logo nos minutos iniciais do filme. De modo geral Josh Brolin foi bem, mas há outros atores que foram melhores.

Philip Seymour Hoffman, por Dúvida - Terceira indicação ao Oscar
Esse é um ator que vem nos mostrando que consegue compor bons personagens. Em Dúvida, sua interpretação como o Padre Flynn, consegue cumprir com o objetivo do roteiro: nos deixar na cabeça a imensa incógnita que é sua relação com o aluno. O ator soube mesclar bem os momentos de fúria e os momentos dramáticos, soube como fazer com que simpatizássemos com seu personagem, mesmo que estivéssemos nos perguntando a respeito de seu caráter. Certamente, sua indicação foi justificável e acredito que ele tenha sido um forte candidato ao prêmio.

Robert Downey Jr, por Trovão Tropical - Segunda indicação ao Oscar
Me pergunto qual foi a finalidade da indicação de Robert Downey Jr ao Oscar. Seu personagem, que era pra ser o mais engraçado, (pois satiriza o cinema de uma forma inteligente) se torna chato e esquecível, assim como o filme todo. Aliás, o filme todo é uma perda de tempo, e Robert não consegue se destacar dos outros colegas de cena, que também são dispensáveis, e sendo assim, ele certamente não merecia a indicação e muito menos o prêmio.

Heath Ledger, por Batman - O Cavaleiros das Trevas - Segunda indicação ao Oscar.
Heath Ledger em seu papel de Coringa conseguiu se sobressair ao verdadeiro protagonista do filme. Seu personagem é sarcástico, irônico, maquiavélico, mas não deixando de ser bem humorado. Além disso, inovou com uma maquiagem borrada e uma frase que marcou o ano "Why you so serious?". Desse modo, Ledger conseguiu fazer que a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante fosse não só uma homenagem, mas principalmente uma prova da sua capacidade de interpretação.

Michael Shannon, por Foi Apenas um Sonho - Primeira indicação ao Oscar
Sua participação em Foi Apenas um Sonho é bem curta, mas o ator mostrou-se eficiente em seu propósito: desmascarar os personagens centrais. Talvez a sua indicação se deva à carga dramática contida nas cenas em que ele foi inserido e não exatamente pelo desempenho do ator, mas, de qualquer forma, Shannon mostra-se eficaz ao interpretar o perturbado John, que nos presenteia com belas agressões verbais ao instáveis personagens Frank e April.

Como vocês devem ter percebido, gostamos pouquíssimo da indicação de Robert Downey Jr pois nada no filme, nem o enredo e muito menos a atuação dele e dos seus companheiros de cena melhoram com o decorrer do longa. Não achamos a atuação de Josh Brolin ruim, mas também não é espetacular, fato esse que faz seu personagem ficar na média.

E todos os cinéfilos receberam um presente ao ver a atuação de Heath Ledger com (possivelmente) um dos melhores Coringas da história. Ledger conseguiu afastar todos os personagens do enredo e tomar a estória para si abafando qualquer Cristian Bale e por isso concordamos plenamente com sua vitória sobre os demais concorrentes. Infelizmente, Heath foi encontrado morto aos 28 anos com comprimidos do lado, antes de ver sua carreira chegar ao ápice. Houve muitos boatos que ele teria se matado por conta do seu personagem Coringa, e ele mesmo chegou a declarar que "as filmagens do novo Batman o deixaram física e mentalmente exausto e que precisou tomar pílulas de um remédio chamado Ambien para conseguir dormir".

Renan e Luís

20/11/2009

A Passagem

Para a resenha de hoje, teremos um convidado especial. Uma vez ele nos recomendou que víssemos esse filme e, uma vez tendo dito que gostou bastante da obra, achamos que seria interessante se ele mesmo viesse aqui expressar sua opinião acerca do filme sugerido. Ele me disse que é a primeira vez que faz uma resenha sobre um filme; como achei seu texto muito bom, eu penso que ele me enganou e que há algum tempo vem escrevendo sobre filmes!! Pois bem, hoje o nosso convidado especial é o Jean, que conhecemos em uma comunidade sobre filmes no orkut. Com prazer, eu e o Renan o recebemos aqui no Literatura e Cinema.
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Stay. EUA, 2005, 100 minutos. Drama / Suspense.
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A história em si é complexa e parece não fazer qualquer sentido. Todavia, em segunda análise, ficamos muito felizes quando conseguimos juntar os pauzinhos e compreender tudo. Este é um daqueles filmes que em seu lançamento deve ter provocado reações inesperadas na platéia, pessoas saindo no meio da sessão, adolescentes no final dizendo que não entendeu bulhufas e por aí vai. No entanto o roteiro é muito bom e dá pra quem presta atenção nele, todas as dicas possíveis.

Henry (Ryan Gosling) é um jovem que está em crise. Tendo seu suicídio metodicamente datado e planejado em sua mente, ele é um desafio para o psiquiatra Sam (Ewan McGregor), que assumiu o caso do rapaz após a estafa mental de sua psiquiatra anterior. Enquanto tenta impedir que Henry cometa o suicídio, Sam tem de lidar com seus próprios problemas. Especialmente porque o caso se parece muito com o de sua mulher, Lila (Naomi Watts), ex-paciente que também tinha idéias suicidas. (fonte – yahoo cinema)

Quero primeiramente comentar a respeito do elenco, que foi bem coeso e bastante talentoso. Destaco Naomi Watts e Ryan Gosling, este último trouxe ao filme todas as características que o seu personagem – Henry – precisava, desde diálogos bem construídos a expressões faciais que deixam a película muito mais densa. Cheguei a me perturbar com todo o clima pesado que ele trazia à tela, sem contar inúmeras imagens confusas que apareciam em seus pensamentos e em ambientes em que se encontrava. Outra atriz que preciso destacar é Kate Burton, que conseguiu com maestria interpretar uma mãe perturbada.

Todos os diálogos de personagens secundários, à primeira vista não fazem nenhum sentido. Porém são estes diálogos que nos faz compreender - mesmo que implicitamente - o real motivo de tudo aquilo estar acontecendo. E isso trouxe um aspecto muito positivo ao filme, porque acaba testando o quão perspicazes estamos sendo em relação ao que está sendo transmitido. O uso de repetições durante a trama, também é de se considerar, apesar de às vezes se tornar cansativo.

Um ponto que achei interessante foi a de terem usado uma das histórias que consta nas obras completas de Freud... Onde ele descreve um homem cujo filho está morrendo. O pai senta ao lado da cama do filho noite após noite e depois que o menino morre, ele quer acordá-lo, e faz um círculo de velas em volta do corpo do menino. O pai está exausto e adormece, e sonha com o filho, em pé ao seu lado e segurando seu braço. Sussurrando: “Pai, você não vê que estou pegando fogo?”. Isso fala muito sobre o filme! E há algo que também precisamos saber. Existem estímulos externos e internos que influenciam o sonho. Como por exemplo, vozes, emoções e estado corporal. O que quero dizer com tudo isso é: [SPOILER] O que acontece na realidade são apenas o acidente, o socorro e o tumulto em volta de Henry. Todo o resto é sonho ou devaneio. [FIM DO SPOILER]

“A Passagem” é um filme excelente, com cenários e ambientações que nos transporta para o clima certo do filme, belíssima fotografia e trilha sonora. E, o mais interessante é que, ao passar de uma cena pra outra, usam o último movimento de uma cena pra continuar a próxima e, ainda, os seus cortes rápidos, com um fundo musical tenso, de uma cena pra outra dando assim, o tom de suspense ao filme.

Devo dizer que este é realmente um filme essencial! Fazer uma obra dessas é extremamente complexo... São muitos detalhes e todos eles são super importantes na trama e na absorção da obra, como linguagem, pelos espectadores.

Jean
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Antes, nunca havia ouvido falado desse filme. Os atores são conhecidos e eu conheço um pouco sobre a carreira de cada um deles, mas nunca havia atentado para esse filme que fizeram. Devido à escolha que o Jean fez de comentar A Passagem, eu o vi e antes de escrever essa resenha, eu o conferi pela segunda vez, o que modificou bastante da minha opinião anterior.

À primeira vista, estamos diante de um filme que nos remete à famosa - e usualmente complicada - viagem no tempo. Logo nas cenas iniciais, vemos o personagem principal, Henry, prevendo chuva de granizo, que acaba acontendo em seguida. Com o desenvolver do filme, essa impressão continua e, acrescida a ela, surgem potenciais fantasmas e um clima de suspense meio que alienado, como se tudo aquilo que é mostrado não se encaixasse no próprio tema. Há uma série de eventos que vão moldando o filme, vão transformando-o naquilo que ele é, tornando-o um filme bastante inteligente, mesmo que complicado.

Há várias cenas que parecem não acrescentar muito, mas eu tenho certeza de que todas têm uma finalidade e que juntas elas dão embasamento quase absoluto à proposta do filme. Eu usualmente costumo gostar dos detalhes, pois eu os acho fundamentais para a composição de uma obra. Em A Passagem, os detalhes são muitos, talvez em excesso - o que provoca um probleminha com o entretenimento. O que quero dizer é: são tantos em quantidade, que os detalhes tornam-se, às vezes, o único atrativo e os olhos dos espectadores voltam-se para elementos de pouca significância em cena. Desde o começo percebi que devia atentar às coisas que via; com o passar do filme, no entanto, acabei focando o cenário e o ângulo da câmera, o que me fez dispersar do que os atores diziam e, por isso, tive que voltar o filme uma ou duas vezes. Vale ressaltar que o filme caminha com sucesso para uma boa conclusão. Poderia, no entanto, ser mais curto, talvez ter uns quinze minutos a menos, já que nem tudo é realmente necessário e, mesmo depois de ter visto duas vezes, ainda fiquei com algumas dúvidas.

Os trabalhos dos atores são bastante positivos e todos estão bem em seus personagens. Grande destaque para a coadjuvante Naomi Watts que, embora participe pouco, nos presenteia com uma interpretação muito expressiva. Ryan Gosling é o caso de ator muito bom que dificilmente cai no gosto do público - é difícil vê-lo num filme que chame a atenção. Sua atuação é favorável ao que o filme propõe e, mesmo soando contraditória em muitos momentos, poderemos chegar aos motivos que levam o personagem a agir daquilo maneira. Talvez haja um quê de exagero em alguns momentos, como quando pede ajuda e depois ameaça Dr. Sam com uma arma, mas creio que isso se deve a um deslize do diretor e não dos atores em cena. Achei meio difícil acreditar a princípio que Ewan McGregor fosse um psiquiatra. Ao longo do filme, no entanto, achei-o totalmente cabível no personagem, indo fundo em busca da obsessão que aquele caso estranhíssimo causou em si. Não tenho muito o que dizer sobre os outros personagens, pois eles pouco aparecem e suas atuações são bem medianas, principalmente a da mulher que interpreta a mãe de Henry. Ela erra o tom e chega ao ponto de ser meio caricata, às vezes.

Como dise parágrafos acima, o filme é cheio de detalhes e as metáforas estão presentes o tempo todo. Para vê-lo, é necessário estar totalmente atento e ser paciente. Se houver algo que pareceu sem sentido, minha sugestão é que volte um pouco e reveja o trecho confuso, pois ele pode ser de importante significância. Na primeira vez, fiquei com essa dúvida e a segunda vez que vi o filme não fez com que isso ficasse claro. Àqueles que ainda não viram esse filme, aconselho a não ler as enumerações seguintes:

  1. Talvez a questão mais importante: tudo aquilo que vemos durante o filme é um delírio do personagem enquanto morre ou é exato momento da passagem? Eu poderia facilmente ficar inclinado a pensar que se trata daquilo que o título sugere, mas vale lembrar que o título original nada tem a ver com o nacional - e esse, portanto, pode induzir o espectador a pensar outra coisa.
  2. Quando Lila está em sua casa e percebe que os quadros foram todos pintados por Henry, ela chega à conclusão de que há algo importantíssimo para fazer. Então ela corre e pára diante de um portão, por onde não consegue passar, pois está trancado - numa clara alusão de que a verdadeira Lila, embora quisesse, não poderia mais ajudar Henry a viver. No plano ficcional, a personagem olha para um canto do cenário e dá um breve sorriso. Alguém sabe o que aquilo significa?
  3. Depois que Henry permite que o Dr. Leon volte a enxergar, o velho se encontra com o Dr. Sam e os dois têm uma conversa breve. Em seguida, cada um se separa e o velho caminha por uma alameda bem estranha, com várias luzes, que se assemelha ao local onde houve o acidente. Pouco a pouco a cena vai escurecendo. Outra incógnita para mim.

Primeiro, eu pensei se tratar de um filme mediano. Agora, depois de vêlo de novo e concluir que seu roteiro é bem interessante além de ser uma composição muito bem elaborada, eu devo realmente dizer que esse é um filme que vale a pena ser visto. Ele não garante entretenimento supremo, pois o excesso de detalhes faz com que ele se prolongue desnecessariamente. No entanto, quando a película chega ao fim, nós somos obrigados a ficar pensando sobre tudo o que vimos e com certeza vamos ficar com vontade de vê-lo novamente, com outros olhos.

Luís