02/02/2012

Do Começo ao Fim

Brasil, 2009, 100 minutos, drama. Diretor: Aluisio Abranches.
Uma proposta interessante, mas um desenvolvimento de roteiro assombrosamente inverossímil.

“Eu te amo porque você precisa de amor”. – Francisco.

Não há como negar que o cinema nacional tem aumentado exponencialmente o seu empenho em produzir obras interessantes. Vários títulos têm surgido e os temas têm sido variados: alguns abordando personalidades famosas (Cazuza e Jean Charles, por exemplo), outros com temas convencionais (como Divã) - o mais interessante, no entanto, são as temáticas mais corajosas, como os recentes "Verônica" (2009), que aponta uma série de problemas relacionados ao ensino, à segurança, à sociedade, e "Do Começo ao Fim", do mesmo ano, que aborda um relacionamento homossexual incestuoso.

Antes de mais nada, quero explicitar algo em relação ao comentário que acabei de fazer. Por "temática corajosa", me refiro apenas ao mote do filme e não à maneira como ele foi concebida. Independentemente de acharem ou não o filme bom, não é concebível considerá-lo convencional, já que o seu tema é extremamente forte e, ainda que visível e "palpável" em nossa sociedade, tratado como inexistente. Devo também dizer que sou aberto a todo tipo de relação, desde que, evidentemente, ela seja consensual em relação a todas as partes envolvidas - por isso considero válido o envolvimento entre os irmãos de "Do Começo ao Fim" (mas não me agrada a situação proposta em "Cama de Gato" (2002), na qual três jovens estupram uma moça). Acho importante apresentar esse comentário, assim nenhum leitor pode interpretar a minha opinião em relação ao filme como preconceituosa - seja em relação à conduta homossexual ou à conduta incestuosa.

Como perceberam, o filme narra a trajetória de irmãos que se tornam amantes. O título faz alusão à vida deles, desde o momento em que eles se tinham apenas como irmãos e, partir de então, como eles foram evoluindo esse sentimento até constantarem que estavam apaixonados e que se queriam também numa vertente sexual e não apenas emocional - amam-se como um casal, não estando conectados apenas pelo laço fraterno. O "fim", não sei a que se refere, já que essa obra não se preocupa em mostrar o fim explicitamente - aliás, nem sequer é feita uma alusão a algum momento ou situação que possam definir o fim como "fim".

Devo dizer que eu gostei do roteiro por um motivo: praticamente metade da história é dedicada aos personagens enquanto crianças. É narrado, na primeira cena do filme, o modo como eles se "conhecem": Thomás, que ficara duas semanas de olhos fechados depois de ter nascido, viu o irmão tão logo que decidira abri-los. Nesse momento, há uma metáfora interessante, comentada pelo narrador, na qual é dito que Julieta, a mãe de Thomás e Francisco, não se preocupara quando o filho não abriu os olhos, pois sabia que ele o faria quando achasse certo. E, então, é dito de modo taxativo, mesmo que coberto por um tom muito amistoso, de que a Thomás fora concedido o livre-arbítrio. Essa é uma amostra clara de que os pais do garoto respeitariam as suas vontades e necessidades, aceitando-as mesmo que inesperadas e respeitando-as logo. Muitos reclamaram de que era desnecessário "desperdiçar" metade do filme para traçar essa trajetória; afinal, "ninguém está interessado neles como irmãos". Concordo no que diz respeito ao tempo gasto no detalhamento da relações das crianças - se houvesse uma redução, provavelmente haveria uma dinâmica maior no filme. E eu nem por um momento reclamei deles enquanto garotinhos - creio que seja necessário para o espectador primeiro conhecê-los como irmãos, para depois conhecê-los como amantes - mostrar como o amor fraternal se tornou amor matrimonial.

As falhas, porém, são como o título: do começo ao fim. Enquanto crianças, os garotos mantêm um envolvimento fraternal, apenas. Foi visível para mim que eles se amavam como um irmão ama o outro. Não há, em nenhum momento enquanto as filmagens mostram os atores-mirins, insinuações de quaisquer naturezas sexuais. Provavelmente isso se deve ao fato de que o diretor trabalhava com crianças, o que dificultaria uma cena de caráter mais ousado. Considerando o fato de que eles se comportam do mesmo modo o tempo todo, achei incoerente a cena em que Julieta, a mãe dos garotos, os olha e simplesmente descobre que eles são mais do que irmãos. É como se Julieta tivesse tido um insight e, naquele momento singular, tivesse decidido que os filhos eram gays. Infelizmente, o problema de trabalhar com criança e optar pela sutileza durante as filmagens fez com que isso destoasse da minha percepção de realidade.

Mais tarde, quando os garotos crescem e se tornam homens - e, portanto, têm a sua visão de mundo já bem estruturada -, o filme declara abertamente a relação homossexual e incestuosa dos dois. Isso é feito, porém, numa cena que está totalmente desencaixada do roteiro, uma cena feita exclusivamente para dar um tom poético à nudez dos atores em cena. Honestamente, eu a enxerguei sem qualquer propósito, considerei-a substituível, principalmente pelo momento no qual foi inserida. Voltando de um funeral, a câmera filma de cima, mostrando quatro personagens na sala. Rosa, a empregada, sai de cena; depois, o pai dos garotos também sai. Ficam os dois, que começam a tirar as roupas, num contexto claramente sexual. Como puderam colocar essa cena nesse trecho lacônico da obra? Muito questionável.

Esse, contudo, não é o grande problema. A segunda metade é simplesmente inverossímil; nela, não há nada em que seja realmente possível de se acreditar. Os personagens, que são irmãos, gays e mantêm uma relação entre si - repetindo: homossexuais e incestuosos -, não encontram quaisquer obstáculos para a consumação de seu envolvimento amoroso. Os pais simplesmente aceitam a relação; não a questionam, não se opõem. Não quero com isso dizer que a oposição e o questionamento deveriam provir da concepção de que a união deles seja errada; a reação primeiramente negativa dos pais deveria provir do fato de que eles estão inseridos numa sociedade que vê relações como a dos jovens como errôneas e, ainda, pecaminosas. Hoje é possível dizer que haja mais aceitação em relação aos homossexuais - o respeito, porém, ainda não existe majoritariamente -, mas é inquestionável que o incesto definitivamente não é bem visto. Numa entrevista, li que o diretor do filme não queria "levantar bandeiras, apenas contar uma história de amor". Isso, no entanto, acarretou uma série de inverossimilhanças, já que a leveza com a qual esse romance foi abordado toma como base uma sociedade extremamente utópica, na qual todos os relacionamentos são aceitos - se vocês vivem no mesmo mundo que eu, evidente que sabem que essa sociedade não é a nossa.

Quanto à vertente cinematográfica - principalmente no que diz respeito aos aspectos técnicos -, devo dizer que não achei a obra notável. No máximo, posso fazer um elogio à fotografia, a qual considerei boa e relevante, dando um charme a mais ao filme. A trilha sonora, cujo efeito é positivo em alguns poucos momentos, não se faz notar em muitos outros; trato-a, portanto, como insatisfatória quanto à sua intenção de causar efeito estético no espectador. A direção é turva e duvidosa, de mau gosto no que diz respeito à forma como a história dos personagens foi concebida pela alienação do diretor, que temeu ousar e mostrar algo realmente convincente. As atuações, lamento dizer, são instáveis e não me convenceram o tempo todo - Júlia Lemmertz é a que me parece melhor, mas, mesmo assim, está numa atuação muito mediana, beirando o insatisfatório. Fábio Assunção é um mero figurante, já que sua participação na película é mínima e quase irrelevante. Os estreantes, Rafael Cardoso e João Gabriel Vasconcellos, não fazem um trabalho maravilhoso, até porque não há muito que fazer, pois seus personagens não são desenvolvidos a ponto de permitir que os atores os trabalhem bem. Não culpo, porém, apenas os roteiros – acho ainda assim que os atores poderiam ter se empenhado mais. As crianças são muito espontâneas e elas me passaram a credibilidade do afeto que sentiam uma pela outra, mas isso não salva o filme no quesito atuação.

Eu sei que há os defensores do filme – há aqueles que digam que essa é uma história de amor e por isso é contada com essa suavidade. Não duvido de que seja uma história de amor; apenas não há verossimilhança em toda a narrativa. Uma professora minha uma vez comentou que “vidas em equilíbrio não dão história”, e o problema do filme consiste no fato de que tudo na vida dos personagens é excelente, de modo que não há qualquer conflito. Não o achei totalmente ruim, me entretive um pouco, mas definitivamente não achei uma obra válida, capaz de expressar com eficiência os dilemas do envolvimento dos personagens.

30/01/2012

Original e Remake: A Hora do Espanto

Já  há algum tempo leio os textos - muito bons, aliás - que o Alan Raspante, dono do Satélite Assassino, escreve em seu blog e sempre gostei do estilo de escrita do rapaz. Assim, não via por que não convidá-lo para escrever um texto para o Literatura e Cinema, convite que ele prontamente aceitou, fazendo do texto abaixo a sua primeira participação aqui. E espero que outras venham em breve e que a nossa parceria se prolongue.

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por Alan Raspante
 
"A Hora do Espanto" (1985), creio, nasceu de uma forma bastante discutível. Afinal, qual a verdadeira intenção do filme? Se você parar para analisar, "A Hora do Espanto" não possui nada em que possa haver uma discussão ou algo parecido. É apenas um filme que nasceu para arrecadar cifras gigantescas no cinema. E foi dito e feito. O filme foi um verdadeiro sucesso e garantiu algumas continuações. E até serviu de inspiração para outros filmes como caso de "Os Garotos Perdidos". A história realmente não é grande coisa, mas o filme possui qualidades insuperáveis (nem tanto) e aquela sensação de velha infância. Eu sei que nem deveria tocar neste assunto, mas é impossível não ver "A Hora do Espanto" e não pensar que a década de 80, talvez, tenha sido a melhor década de todos os tempos. O clima aventuresco presente no filme é de uma ingenuidade ímpar, mas consegue cativar da melhor forma possível. O vampiro Jerry consegue exatamente isto: cativar a sua platéia. Algo que muitos vampiros atualmente não conseguem. Sim, isso foi uma indireta para o Edward Cullen. Aquele vampiro vegetariano que ainda não descobriu a pinça para dar um jeito naquela sobrancelha desastrosa.

 Jonathan Stark e Chris Sarandon: o aprendiz de vampiro e o vampiro-mestre.

A história é simples, Charley (William Ragsdale) começa a achar estranho o comportamento do seu novo vizinho, Jerry (Chris Sarandon) e acaba descobrindo que o mesmo é um vampiro. Afinal, assassinatos vêm acontecendo atualmente e o adolescente acaba presenciando um desses assassinatos (ou melhor: ouvindo). Charley chama a polícia, tenta impedir que a sua mãe convide o vampiro para entrar em sua casa e tenta até mesmo transformar o seu quarto em uma feira ao apostar no velho mito de quê vampiros e alho não se misturam. Claro, o pobre jovem não obtém sucesso e ainda por cima vira a caça principal do vampiro Jerry. Em paralelo, acompanhamos um desgaste no relacionamento do protagonista com a namorada, Amy (Amanda Bearse). Claro que, esta história paralela é pura encheção de linguiça e vai apenas servir de trampolim para o fato da jovem ser a cara de uma antiga paixão de Jerry. Ou seja, "A Hora do Espanto" não é muito inovador em seu roteiro e nem tenta isso. Do mesmo modo como o filme não consegue ser suficientemente bom como um filme de terror. Mas, digamos, que o filme não precisava ser bom nesses dois aspectos. "A Hora do Espanto" vai um pouco mais além.

Colin Firth reprisando o personagem que foi de Chris Sarandon.
O filme, em suma, é despretensioso. Talvez essa seja a maior qualidade do filme. É impossível esperar por algo plausível ou verdadeiramente bom de "A Hora do Espanto" e por isso acaba sendo uma surpresa que o filme consiga ser, ao menos, tão divertido assim. O roteiro clichê possui um bom desenvolvimento e tenta ao máximo criar um bom clímax final. O personagem interpretado por Chris Sarandon, o vampiro Jerry, consegue ganhar a simpatia do seu espectador. Afinal, Jerry não é explicitamente um vilão. Ele apenas possui uma natureza que o leva a agir desta forma. Sem contar que o filme possui excelentes efeitos especiais. Desses que de tão ruins, acabam convencendo e sendo divertidos. Os efeitos são pura nostalgia e até mesmo uma aula cinematográfica. Afinal, houve um verdadeiro esforço para que o resultado fosse o mais aceitável por isso. "As Hora do Espanto" de 1985 é pura nostalgia e acaba arrancando aquela sensação tão bem tratada no último filme de Woody Allen: seria melhor termos nascido na década de 80.

Remete sutilmente a "A Morte do Demônio" (1981).

Como você, meu caro leitor, deve saber, "A Hora do Espanto" ganhou um remake no ano passado (2011). Fui conferir o filme com muita expectativa. Não que eu estivesse esperando por algo melhor que o original, e sim pela curiosidade em saber como "A Hora do Espanto" pode ser visto no ano de 2011: quase trinta anos depois. O que aconteceria com aquele tom ingênuo tão presente na fita oitentista? Enfim, claro que o remake não conseguiu revitalizar isso, muito pelo contrário. Mas acabei me surpreendendo ao ver que o filme atual não ofende ao filme original. As mudanças são tão grandes, que este filme atual poderia ter outro nome e dizer apenas que se baseia no filme original. Claro que o remake é discutível e diferente do original, foi apenas concebido para tentar conquistar uma fatia daqueles que gostam de "Crepúsculo". O tirou -neste sentido- saiu pela culatra. Pois o remake não obteve o sucesso esperado. O motivo de não ter este sucesso eu não sei explicar, mas posso afirmar o que já disse no início deste mesmo parágrafo, "A Hora do Espanto" é um filme completamente diferente do que eu podia esperar.


 O encontro do adolescente com o vizinho vampiro.

Para começar, a cena inicial não é a mesma do filme original. Logo de início já vemos o vampiro em ação. O personagem principal consegue ser mais idiota que a versão original e a mãe do protagonista ganha mais destaque. Sem contar que mudaram a cidade onde tudo acontece e principalmente a forma como as situações acontecem. Peter Vincent é mais novo, possui namorada e não é apenas um apresentador de um programa de televisão, e sim um mágico ilusionista que tem certa obsessão por vampiros. O personagem principal ganha contornos mais complexos por namorar a garota mais bonita do colégio e, claro, vemos mais cenas de ação. O roteiro que também foi escrito por Tom Holland (diretor e roteirista da obra original) tenta trazer de volta aquele clima de aventura, mas tudo acaba sendo confundido com adrenalina. Não há uma sensação crescente, apenas cenas que tentam ao máximo levar o seu espectador ao delírio. O filme consegue entreter, mas não chega ao ponto crucial. Em um resultado final, não posso negar que eu gostei, mas, obviamente, não consegue superar o original. Porém, o filme não deve ser deixado de escanteio ou ter ser esquecido. Assim como o original, é um filme feito para arrecadar bilheteria e possivelmente entreter. Simples assim.

28/01/2012

Oh! Rebuceteio

Brasil, 1984, 74 minutos, comédia pornochanchada. Diretor: Cláudio Cunha.
Confesso que esperava pouco do filme, mas ele tem cenas geniais além de ótimos diálogos que me fizeram rir bastante.

Confesso que a minha primeira incursão no subgênero pornochanchada foi com esse filme de Cláudio Cunha, que já havia lançado anteriormente outros títulos que seguiam o mesmo modelo de humor. Fiquei verdadeiramente surpreso por ver sexo explícito bem explícito - de um jeito que eu não imaginava que fosse nesses filmes olha que ingênuo que eu sou - mas também fiquei interessado pela história, que aborda um grupo de atores liderados por um diretor que pretende oferecer a peça “Rebuceteio” ao grande público.

Nenê impressionado com o desempenho (sexual) dos seus atores, ainda inexperientes.
Basicamente o enredo se foca nos bastidores, quando os atores estão ensaiando sob a coordenação de Nenê Garcia, o responsável pela peça de teatro; mas o conteúdo é também expandido para outros ambientes, como a casa de Letícia, cuja mãe a incentiva querer o papel principal da peça, e também algumas tomadas externas nas quais vemos, por exemplo, conversas do diretor com o produtor e o arranjador da peça bem como diálogos entre ele e Letícia, por exemplo, no zoológico. Cabe ressaltar, no entanto, que a maior parte desse filme acontece nos palcos, onde todo o sexo acontece.

Num primeiro momento tive a impressão de que o sexo seria o protagonista do filme - e pode-se dizer, de certo modo, que é mesmo. Existe, porém, toda a relação dos atores com a situação na qual estão e ao filme é, sobretudo, a respeito de atores em processo de aquisição da essência experimental daquele projeto. E isso resulta em cenas incríveis, como quando o diretor os divide em grupos e pede que eles improvisem, mostrando aquilo que quiserem: o primeiro grupo apresenta uma dona de casa cuja casa foi invadida por dois bandidos que a renderam e a estupraram, tendo ela, no final, gostado da brincadeira; o segundo grupo apresentou uma dominatrix a castigar o seu escravo; o terceiro grupo apresenta um padre e uma freira seduzidos por uma fiel que vai se confessar; por fim, o melhor grupo, dono da melhor pérola de diálogo, apresenta três crianças muito sensualizadas que estão brincando no quintal - uma amamentando uma boneca, outra pulando amarelinha e a terceira chupando o pênis de um jumento - até que chega um urso que as observa e se masturba, atraindo a atenção das garotas, que decidem “brincar” com ele.

Letícia, a estrela da peça, nos intervalos do ensaio fotográfico que estava fazendo.
O mais interessante é que o filme não disfarça o seu tom sério debochado. Ao longo dele, vemos atuações horríveis muito ridículas, e outras que até nos convencem, como a do diretor, Nenê, que, na verdade, é o diretor Cláudio Cunha. - um dos únicos a não aparecer nu ou numa cena de sexo. Adoro os vários diálogos nos quais ele reforça a importância da metapraxis, que envolve o desenvolvimento dos processos criativos - e devo dizer: que criatividade! O humor do filme se vê nas dicas geniais do diretor, inclusive para o espectador - numa cena, ele nos olha nos olhos e diz firmemente: masturbe-se, gozem gostoso. E o que dizer da mãe de Letícia, que insiste o tempo todo para que a filha dê o melhor de si, inclusive indo aos ensaios dela, convidando os seus amigos para irem à sua casa - é, no mínimo, engraçado, até mesmo quando a vemos na primeira fileira do teatro, batendo palmas para a filha.

Moralistas devem fugir desse filme, decerto não os agradará, tem muitas cenas de pau buceta chupação esporrada lambida no cu nu frontal, ereções, sexo explícito - oral, vaginal, anal. E essas cenas ocupam boa parte do filme, acredito que pelo menos 60% dele. E ainda assim é bastante engraçado, artístico, divertido e inevitavelmente uma obra brasileira que vale a pena ser conferida. E eu digo sem medos: vou procurar mais filmes desse diretor para vê-los.

27/01/2012

Lucky Blue

Lucky Blue. Suécia, 2007, 30 minutos, drama. Diretor: Håkon Liu.
Assisti a esse curta-metragem e ele não me marcou. Hoje, mal lembro do que ele fala e faz pouquíssimo tempo que eu o conferi.

Por causa da indicação de um colega, eu assisti a esse curta-metragem alemão cujo tema abordado é o relacionamento de dois garotos adolescentes que se conhecem e rapidamente nutrem sentimentos de afeto um pelo outro. O diretor Håkon Liu conseguiu resumir bem a história: o primeiro contato dos garotos parece meio distante, depois, juntos, eles liberam o pássaro que dá título ao filme e, a partir dessa pequena travessura, os dois tornam-se confidentes em algo, já que partilham do erro de ter liberado o passado. Mais tarde se descobrem afins quando um rouba um breve beijo do outro e o diretor soube como captar bem esse momento. Então, vem a negação e, depois, a aceitação – um é afeito ao outro e eles podem admitir isso, mesmo que implicitamente, como na cena final percebemos.

Os atores, que são quatro, estão bem. Tobias Bengtsson e Tom Lofterud, respectivos intérpretes de Olle e Kevin, representam bem seus personagens. Britta Andersson, a tia de Kevin, pareceu-me uma atriz competente, embora eu tenha visto pouco de sua capacidade, já que sua personagem aparece pouquíssimo. A direção de Håkon Liu é correta, sem exageros, sem timidez excessiva – suas tomadas mostram aquilo que necessitamos ver. Considerei este um curta-metragem interessante, que vale a pena ser conferido como curiosidade. Decerto não é a obra mais intensa que já vi, mas mesmo assim consegue cumprir sua pretensão.

25/01/2012

Minhas Mulheres e Meus Homens

Brasil, 1999, 252 páginas, editora Objetiva. Autor: Mário Prata.
Esse livro nos permite não apenas conhecer mais sobre Mário Prata, mas também nos apresenta inúmeros outros personagens extremamente interessantes e relevantes para a cultura brasileira.

Fiquei meio em dúvida entre comprar esse livro ou não comprá-la. Há muito que não lia literatura brasileira e estava ansioso para conhecer mais das obras nacionais contemporâneas. Esse livro do Mário Prata é desses gêneros que causam confusão: difícil chamá-lo de literatura, principalmente porque o livro na verdade reúne breves explicações sobre pessoas com as quais ele teve contato em algum momento da vida, percorrendo o “breve” período de 181 anos – desde a origem do sobre “Prata” até a época de publicação do livro, datado de 13 anos atrás.

Aqueles que esperam literatura nos seus moldes mais tradicionais – ou seja, uma história linear com personagens regulares – decerto se frustrarão com o que há aqui. Acredito haver inequívoca literatura aqui: toda a vida do autor nos é contada e toda ela acontece com a junção de inúmeros “cacos”, que são as pessoas que ele eventualmente conheceu. Assim, a cada nova pessoa que surge na história, constrói-se a vida – a narrativa da vida – de Mário Prata. Detalhe especial para o fato de, como o autor mesmo escreve, a história poder ser lida de vários jeitos: você pode lê-la linearmente, da primeira página à última, acompanhando a ordem alfabética; você pode pular para os nomes em negrito, que não necessariamente acompanham a ordem alfabética ou cronológica (por exemplo, de Abe, na p. 17, há um nota na lateral da página indicando que a pessoa em questão está conectada com Zuleika, da p. 244); ou, ainda, você pode acompanhar a história pela cronologia, conferindo o final do livro, onde há um índice para guiá-lo.

Eu optei por seguir a ordem cronológica e, assim, recriar mentalmente a trajetória da vida do autor e das pessoas que ele conheceu ao longo de sua vida. E devo dizer que há nomes de muitas personalidades famosas, muitos momentos marcantes, muitos lugares – e isso acaba satisfazendo todos os leitores, que decerto encontrarão com o que se identificar na obra. Não tardou para que eu me identificasse: logo no começo da cronologia, há uma referência à minha cidade natal – Rio Claro. Sobre ela, Prata afirma que em 1968 “estava numa pracinha em Rio Claro, esperando Ticá [Beozzo] sair da faculdade” (PRATA, 1999, p. 231) e sobre o relacionamento deles, diz que “ficou aquela coisa parada no ar, numa cidade onde só fui uma vez” (ibidem). Isso aconteceu há 44 anos, numa época em que Rio Claro felizmente não era alvo de piadinhas no Facebook por ostentar uma versão pífia da Torre Eiffel. Eventualmente conhecemos mais: de Chico Buarque, de Caetano Veloso, Marta Suplicy, de São Paulo, Rio de Janeiro, até mesmo Araraquara, cidade que está relacionada à sua ex-esposa, Marta Góes.

E é importante ressaltar que o autor escreve sem rodeios sobre inúmeros problemas enfrentados por ele e por seus amigos, principalmente a partir de meados da década de 1960, quando a ditadura surgiu para oprimir. Gosto especialmente de uma passagem do livro, quando Prata nos fala sobre Julinho da Adelaide, personagem de Chico Buarque foi obrigado a assumir para poder compor e ter suas músicas aceitas pelos censores, já que a simples menção ao seu nome já fazia com as canções fossem barradas:

Julinho da Adelaide até então não tinha dado uma entrevista, poucas pessoas tinham acesso a ele. Nenhuma foto. [...] Setembro de 74. A coisa tava preta. O Chico já havia topado e marcado para aquela noite na casa dos pais, na rua Buri. [...] Quando eu achava que estava tudo pronto o Chico disse que ia dar uma deitadinha. Quando desceu, não era mais o Chico. Era o Julinho. Julinho, ao contrário do Chico, não era tímido. Mas, como o criador, a criatura também bebia e fumava. [...] Era metido a entendedor de tudo. Falou até de meningite nessa única entrevista que deu a um jornalista brasileiro. Julinho não se deixaria fotografar. Tinha uma enorme e deselegante cicatriz muito mal explicada no rosto. [...] Chico inventava, a cada pergunta, na hora, facetas, passado e presente do Julinho. [...] Para mim, o que ficou depois de 25 anos, foi o privilégio de ver o Chico em um total e superempolgado momento de criação. Até então, Julinho era apenas um pseudônimo para driblar a censura. Ali, naquela sala, criou vida. (ibidem, p. 124-126)

Como disse, não apenas conhecemos a história do autor, mas também a história do nosso próprio país e de figuras que foram imensamente importantes para a construção de elementos da nossa cultura. E tudo isso com extremo bom humor e sem nenhum moralismo forçoso que incomode a leitura. Mário Prata faz uso de palavras como “bicha”, “viado”, além de nos contar sem temores momentos curiosos de sua vida sexual (e também da vida sexual dos amigos):

Eu havia operado da fimose há 15 dias. Ainda tinha uns pontos. O que eu sei é que acordei no dia seguinte na cama dela [de Maria Regina, atriz], todo ensangüentado, ainda viajando [por causa do ácido], com a coisa latejando. Parecia uma rosa vermelha mordida por um buldogue. (ibidem, p. 162)

A sua franqueza torna a leitura agradável. Parece uma confissão do autor, como se fôssemos nós amigos dele, como se estivéssemos a acompanhar a sua história sendo dita por ele mesmo, estando à sua frente, numa conversa informal e divertida. E o livro é interessante também para conhecer os “podres” de alguns famosos; acabamos inevitavelmente por enxergá-los bem mais próximos da nossa realidade do que do jeito como normalmente os vemos – míticos, distantes. Acredito que a obra seja extremamente válida para ser lida – como viram na citação longa sobre o Julinho, o livro serve para como um registro de um momento histórico, só que a analisado pelo outro lado. A lista de nomes é vasta, devem ser uns trezentos, mas decerto vale a pena e a leitura é bastante rápida, extremamente recomendada como o que eu chamo de “leitura de transição”, que é aquele momento em que você quer um livro leve logo após ter lido uma obra contundente.