5 de nov de 2012

Christine - o Carro Assassino


Christine. EUA, 1983, 110 minutos, terror. Diretor: John Carpenter.
Ainda que não seja verdadeiramente um exemplo de qualidade em filme de terror, “Christine, o Carro Assassino” consegue bastante entreter o espectador com os seus bons momentos.

John Carpenter é um nome referencial para filmes de terror contemporâneos, principalmente esse de alcances mais populares, como “Halloween: a Noite do Terror” (1978), “Enigma de Outro Mundo” (1982) e o remake “A Cidade dos Amaldiçoados” (1995), só para citar alguns títulos e mostrar o espaço temporal de atuação desse diretor, que esteve bastante ativo pelo menos nas décadas de 70, 80 e 90. A história do Plymouth Fury 1957 nomeado Christine adveio do romance escrito por Stephen King – outra referência quando o assunto é terror – no mesmo ano de lançamento do filme e Carpenter se aproveitou do eventual lançamento do livro para levá-lo às telas e torná-lo um sucesso de bilheteria, principalmente porque o autor já estava popularizado, uma vez que outros textos seus – “Carrie” (1974) e “O Iluminado” (1977) – haviam já sido apresentados ao público por Brian De Palma, em 1976, e Stanley Kubrik, em 1980, respectivamente.

Posterior aos dois títulos supracitados, portanto, localiza-se “Christine, o Carro Assassino” (1983), numa narrativa que se inicia não com o segundo protagonista, Arnie Cunningham, como se lê no livro, mas com a verdadeira personagem central: a própria Christine. O ano é 1958 e já na fábrica o carro dá evidências de não ser inanimado, de deter uma personalidade ferina e muito pessoal. À época sem nome, mas já com atitudes obsessivas, o carro chegou a um dono e, devido a inúmeros acontecimentos, termina, empobrecido e feio, num quintal de uma casa. É nesse cenário que Arnie, um garoto submisso e desajeitado, conhece o carro e decide adquiri-lo – inevitavelmente se entregando cada vez mais ao carro destruído que pouco a pouco reconstruiria, trazendo-lhe novo brilho. E o relacionamento dos dois implica perigos iminentes, que surgem à medida que todos vão se dando conta de que o carro tem vida.

 Christine demonstrando sua raiva e "atacando" Leigh, a namoradinha de Arnie.

É importante não ignorarmos um fator fundamental para a compreensão da história. O Plymouth Fury 58 não é apenas um carro. Ter um nome implica uma personificação do objeto e, mais tarde, perceberemos que o veículo não se limita a um comportamento personificado – vai além: ele é verdadeiramente, salvo sua forma, um ser humano, talvez até se possa considerar como um "transgênero". Trata-se de uma mulher com pensamentos e atitudes na forma difusa de uma máquina de transporte.  Vemo-la confiante, sempre se reciclando, se renovando, se remoçando – de algum modo, a relação de Christine e de Arnie inclusive me remete à letra (não à semântica) de “Olhos nos Olhos”, do Chico Buarque: Christine passou por um relacionamento traumático e ficou à espera de outro alguém, no caso Arnie, a quem pudesse ser devota novamente. E uma vez encontrada essa pessoa, o carro estava disposto a qualquer coisa para ser a única na vida do amado. E, apesar de os créditos serem do romance escrito, acho interessante a abordagem ontológica da obra, que mostra a relação da pessoa consigo mesmo: primeiro, inequivocadamente insegura e imprecisa, então confiante a partir do momento em que encontra alguém em que se “apoiar” e que pareça lhe dar algum sentido à existência. Essa é a forma como muitos vêem o amor – “uma pessoa só é completa quando encontra sua alma gêmea”. Arnie tornou-se inteiro ao amar Christine e ser correspondido. E é somente isso que explica o tempo que Christine ficou ao léu naquele quintal descuidado: não havia por quem ela se apresentar inteiriça e dedicada, uma vez que não havia, até Arnie, quem a amasse de verdade.

Se John Carpenter falha ao explicitar o amor de Arnie por Christine, ele realmente acerta ao mostrar que Christine é verdadeiramente uma personalidade forte e que se faz indiscutivelmente presente. Esteja o carro decrépito ou reluzindo, a figura de Christine em cena é muito mais forte do qualquer outro personagem, seja pelo tratamento dado pelo diretor ao veículo ou pela fraqueza interpretativa dos outros atores. O cuidado ao apresentar o carro ao público é o grande diferencial, justamente porque é isso que faz com que nós compreendamos toda a grandeza do veículo que, como vemos gradualmente, deixa de ser um veículo simples para tornar uma criatura de ações premeditadas. A trilha sonora do filme ajuda bastante a criar o ambiente de tensão crescente - a cena inicial, que mostra o "nascimento" de Christine é embalada maravilhosamente pela canção "Bad to the Bone", já indicando assim a natureza perigosa do carro. O carro (obviamente) se locomove, pensa, mata e também fala: não é à toa que antes de acontecer algum crime o carro liga seu rádio, com alguma música dos anos 50 sendo tocada. 

Christine, o carro, é um espetáculo à parte, por si só parece querer dizer muito mais do que o filme como um todo. Essa obra não é uma maravilha, decerto não se trata de um filme que eu recomendaria a alguém que me pedisse sugestão sobre um grande filme de terror, mas inegavelmente é uma obra que diverte o espectador e que conta, pelo menos, com boas características, como é o caso da trilha sonora, muito eficiente; do destaque dado à personagem principal do filme, no caso Christine; até a intepretação de Keith Gordon é bastante positiva, embora haja quês de exagero em alguns momentos, que acabam acentuados pela maquiagem pesada aplicada no ator em alguns momentos. Apesar de ter muito para ser um grande filme, penso que falte uma abordagem mais intimista na dupla central - Arnie e Christine -, sobretudo conectando-os de modo a estabelecer melhor a sua conexão. Dando espaço para os coadjuvantes Dennis e Leigh, respectivamente melhor amigo e namorada de Arnie, o filme parece se ampliar de modo que não se possa construir bem os personagens que se propõe a relatar. Equívocos, talvez, ou talvez seja apenas uma má interpretação minha. Mas, de qualquer maneira, não vejo grandes defeitos no filme e acho, aliás, que se trata de uma obra muito capaz de entreter e de divertir a quem o vê, ainda mais porque o filme não envelheceu mal. Para quem não procura muito ou para quem procura mais diversão do que objeto de análise artística e intelectual, "Christine - O Carro Assassino" (1983) funciona bem. Antes de fechar o texto, fica o meu descontentamento com o título - com um pôster tão chamativo, sombrio em sua arte, por que expor já desde o começo que Christine é um carro assassino? Por que não nos deixar descobrir isso por nós mesmos - já na primeira cena somos apresentados a algo sobrenatural, não há por que estragar o título com tamanho didatismo.

2 opiniões:

Hugo disse...

Um dos bons filmes de Carpenter, feito na melhor época de sua carreira.

Sobre as traduções de títulos, este é apenas um exemplo dos absurdos e da falta de criatividade que aparecem em diversas traduções.

Abraço

Celo Silva disse...

Gostei do texto, mas acho q como obra que propõe abordar a temática terror, acredito que poderia ser um erro dar mais ênfase ao relacionamento entre carro e dono. Acho que na verdade, o filme se contextualiza bem na sua época de concepção. Acho um filmes mais interessantes de Carpenter, além de ser uma metáfora curiosa sobre o amor dos americanos com seus veículos.

Abração!!