9 de nov de 2012

Os Inocentes

The Innocents. EUA / UK, 1961, 95 minutos, terror. Diretor: Jack Clayton.
Uma obra extremamente válida, que impõe uma série de dúvidas ao espectador e faz com que ele fique pensando no filme muito depois de ele ter acabado. E, para somar, a melhor interpretação de Deborah Kerr - segundo ela mesma.

Todo mundo sabe o apelo que certos filmes conseguem e o nível de expectativa que alcançam, mesmo antes que nós os vejamos. Foi assim com "Os Inocentes", filme de 1961, com Deborah Kerr – eu simplesmente me senti extremamente motivado, tanto pela presença dessa atriz quanto pela sinopse, que de certa forma me remeteu a bons filmes de terror ou suspense, como "Os Outros" (2001) e "A Aldeia dos Amaldiçoados" (1960), mais tarde refilmado como "A Cidade dos Amaldiçoados" (1995).

 Deborah Kerr, numa das interpretações mais maravilhosas de sua carreira.

Deborah Kerr é uma jovem moça que é contratada por um homem para cuidar de seus sobrinhos, Miles e Flora, que vivem numa casa de campo. O homem impõe-lhe uma condição: não incomodá-lo com quaisquer problemas relacionados às duas crianças. Concede à governanta total liberdade e poder sobre os garotos. Morar naquela casa, tão isolada, tão grande e despovoada, faz com que Srta. Giddens comece a perceber que algo está errado: ela vê constantemente dois antigos habitantes da casa, que, segundo uma das empregadas, já são ambos mortos. Então, a governante começa a desconfiar que ambos estão aparentemente tentando usar as crianças para algum fim obscuro.

Acredito que a grandiosidade nesse filme reside nas atuações. Por mais que tudo no filme seja muito funcional, o grande destaque vai para as atuações, que são todas muito estáveis e elogiáveis. A própria Deborah Kerr admitiu ser essa a sua melhor performance como atriz – e eu dificilmente posso discordar dela. Intensa como Srta. Giddens, Kerr nos assusta mais do que o próprio filme, basta notarmos o seu desempenho em cena, basta ver o modo como os seus olhos se mexem rápidos, sempre à procura de algo, sempre afoitos por uma nova descoberta e, ao mesmo tempo, sempre desconfiados e temerosos de que algo pior possa acontecer. É claro que existem outros fatores que acentuam a sua atuação, tornando-a ainda maior, como por exemplo as boas escolhas de Jack Clayton, responsável pelo famosíssimo "Almas em Leilão" (1959), o qual lhe rendeu uma indicação ao Oscar como Melhor Diretor. Devo dizer que o diretor soube maravilhosamente como guiar o filme, adicionando-lhe efeitos muito sensatos, como o contraste sempre presente entre claro e escuro; seu maior mérito é o uso excessivo de muita luz, o que chega às vezes a instaurar ainda mais terror à sua obra. Vejam a cena em que Srta. Giddens no momento em que, com um candelabro, ela busca desesperadamente pelas vozes que ouve. Talvez o único defeito da direção de Clayton tenha sido a maneira rápida como ele focou a passagem do susto para a aceitação da personagem principal, ela me pareceu bastante racional numa situação tipicamente irracional, mesmo para uma pessoa cuja construção psicológica se dê, sobretudo, pela lógica e pela razão.

 Uma das tantas aparições que perturbaram a sanidade de Mrs. Giddens.

Vale lembrar que o filme proveio de uma obra literária, de nome “A Outra Volta do Parafuso” (1898), do autor Henry James. De certo modo, a história aborda com muita objetividade o tema, que é bastante subjetivo, e isso faz com que à narrativa seja atribuído um tom meio destoante. Ainda assim, o filme traz consigo uma história envolvente, que nos prende exatamente pela sua dubiedade. É difícil decidir se as crianças são mesmo tão inocentes quanto parecem ser ou se são malignas, como também parecem ser. Toda a estrutura narrativa se embasa nas sugestões, nada é tão claramente explícito. Honestamente, eu achei difícil concluir se a governanta realmente via aquelas coisas e acabou contaminada pelas crianças – como a sra. Grose fala num momento: “acha que ele pode corrompê-la?” , referindo-se ao pequeno Miles – ou se ela tinha algum grau de esquizofrenia, porque tudo parece incrível demais, mas ao mesmo tempo, o tom de realidade infligido à trama é deveras assustador.

 Flora e Mrs. Giddens, que vi a assombração do outro lado do lago.

Indubitavelmente, essa é uma trama sobre a perda da inocência. Todos os personagens parecem distante de sua inocência original, todos eles são corrompidos pelas suas dúvidas, pelos seus medos e por aquilo que esperam. Honestamente, acho inclusive possível analisar a obra pelo viés sexual, haja vista que a figura dos mortos pode também representar os desejos sexuais reprimidos – inevitável não pensar assim considerando a cena em que Miles beija Srta. Giddens na boca. Devo, aliás, dizer que essa é bastante ousada, considerando a polêmica que ela potencialmente causaria. Não me restam dúvidas de que seja uma obra muito boa, recomendo-o totalmente, principalmente pela excelente atuação de Deborah Kerr, que está belíssima e irrepreensível. Me surpreende a sua não-nomeação ao prêmio da Academia, haja vista que em 1962 Natalie Wood foi indicada por uma atuação notavelmente menor e desinteressante. O filme, na sua dialética acerca das diversas dicotomias que o constroem - bem x mal, loucura x sanidade, por exemplo - consegue manter o espectador preso à narrativa o tempo todo e o final não é, senão ótimo, um momento catártico digno de atenção dos cinéfilos.

2 opiniões:

Kamila disse...

Deborah Kerr é uma grande atriz. Ainda não assisti a esse filme, mas todo mundo fala maravilhas da atuação dela em "Os Inocentes".

Celo Silva disse...

Nossa, nunca dei a devida atenção a esse filme, mesmo tendo ótimas referencias sobre. Gostei muito do teu texto, ótima leitura, de fato. Assim que tiver uma oportunidade, assistirei essa obra, até mesmo pela tématica que muito me agrada e pela atuação de Deborah Kerr.