13 de nov de 2012

Acampamento Sinistro


Sleepaway Camp. EUA, 1983, 88 minutos, terror. Diretor: Robert Hiltzik.

Um filme que mantém segredo quanto ao seu assassino, mas, ainda assim, surpreende - choca! - o espectador com a sua revelação final.

Ao escrever sobre esse filme, creio que seja necessário contextualizá-lo temporalmente antes de me aprofundar na sua estética fílmica. Lançado na década de 1980, o filme se encontra no subgênero slasher que, embora já fosse conhecido há algum tempo, não era tão popular quanto a partir de 1978, com o lançamento de “Halloween - A Noite do Terror”, de John Carpenter. Os anos seguintes viriam a popularizar bastante os slasher movies, que começaram a se produzidos em massa e então chegaram ao nosso conhecimento personagens como Jason Voorhees, de “Sexta-feira 13” (1980) e até mesmo Ângela, de “Acampamento Sinistro” (1983).

E devo dizer que achei o filme sinistro bom, dotado de uma peculiaridade singular. A história de Ângela Baker e dos acontecimentos no Acampamento Arawak é dotada de uma obviedade que intriga o espectador: tudo está tão óbvio, qual é a grande sacada do filme? Fazemos a nós mesmos essa pergunta ao longo de toda a produção, que nos narra a história de adolescentes que são mandados para um acampamento nas férias de verão, onde estranhos assassinatos começam a acontecer, especialmente depois da chegada de Ângela, uma garota de 13 anos cujo pai e irmão foram mortos acidentalmente quando ela era pequena, e seu primo Ricky, que se esforça o máximo possível para protegê-la, já que, como ele mesmo diz, ela é diferente das outras garotas, mais quieta, menos extrovertida.

 A tia totalmente teatral e parcialmente responsável pela surpresa da trama.

Recomendo, a partir de agora, que quem não viu o filme e se incomoda com spoilers, não siga em frente, porque eles inevitavelmente podem surgir, até porque, embora eu assuma óbvio o roteiro, não sei se para outros espectadores possa ter sido assim tão fácil enxergar o que havia ali para ser mostrado. Mas o fato é que somos guiados a dois pensamentos, sendo que ambos atiçam a nossa curiosidade e tiram a credibilidade do filme. As mortes se tornam notórias a partir da chegada de Ângela, uma garota que notadamente tem algum tipo de distúrbio, pois sua postura não é nem um pouco normal. Ela mal fala, se locomove estranhamente, vive afastada de todos os outros do acampamento, com exceção de seu primo, Ricky, e de Paul, melhor amigo de Ricky e admirador dela, que parece entendê-la e simpatizar totalmente com ela, a ponto, inclusive, de querer ficar com ela. Como podem notar, ela é odiada ou evitada pelos outros, que zombam dela e procuram meio de incomodá-la, jogando-lhe bexigas com água, obrigando-a a participar de atividades físicas das quais não gosta, fazendo insinuações de que ela seja homossexual (por “ter medo” de tomar banho com as outras garotas) ou, ainda, tentando molestá-la, como é o caso do cozinheiro, que estréia a lista bastante extensa de personagens mortos nesse longa-metragem.

Vamos lá ao primeiro daqueles dois pensamentos que citei: todos os mortos são personagens que, de algum modo, perturbaram Ângela. Não digo que eles a enfureceram, porque ela não é nenhuma Carrie e não dá pra perceber ódio em seu olhar; mas é sabido que houve alguma perturbação e o resultado disso é a morte dos personagens-problemas. Reafirmo: todos, sem exceção, que incomodaram a garota, morrem. Evidentemente somos levados ao pensamento de que tudo isso é obra de duas personagens: de Ricky, o primo protetor, ou da própria Ângela. Como o garoto se porta como qualquer criança normal, inclusive discutindo às vezes - o que é bastante comum -, nossas apostas recaem sobre a garota, uma vez que ela é muito estranha, provavelmente muito mais incomum do que qualquer outra personagens incomum já vista na década de 1980 no cinema. Não há como suspeitar de outro personagem: Paul parece ordinário demais, os monitores do acampamento não matariam uns aos outros, decerto nem vem à nossa mente a dúvida de que possa ser o pai ou o irmão mortos - que, como se poda esperar em filmes do gênero, podem não estar mortos - e também nem Mel, que, embora pareça proteger ferozmente seu acampamento, poderia ser o responsável pelos assassinatos por conseguir mais marketing. O segundo pensamento é o de que, no final, para fechar a produção, algum personagem aleatório, como a mãe de Ricky, uma mulher extremamente assombrosa, de atitudes teatrais e surreais, pudesse ser o assassino, dando ao filme uma conclusão que nos soasse incoerente, mas que não é assim tão estranho em filmes do gênero, que usualmente atribuem as mortes a algum personagem como se isso - a surpresa - fosse agradar a alguém. Mas até isso parece improvável, então a única coisa que fica martelando na mente é a sugestão de que Ângela seja a responsável por tudo isso. 

 Judy perturbando Angela e perpetuando a curiosidade do espectador em relação ao comportamento esquivo de Angela.

E é mesmo. Ignorando alguns aspectos básicos, como o de ela se locomover em ambientes abertos sem que ninguém a veja e, ainda, ter uma força que parece incomum até mesmo para um adulto, o roteiro nos mostra claramente que a Ângela é a responsável pelas mortes: primeiro a dos que a perturbaram, depois a de várias pessoas, indiscriminadamente. Mas ainda assim o final é surpreende é choca o espectador, que já vinha sendo trabalhado nisso desde o meio do filme. A cena introdutória nos serve para mostrar que a família foi supostamente morta e o porquê de a garota ter medo de água e, daí, as tantas recusas posteriores por não entrar na água. Depois, sabemos, por flashback, que o pai da garota e o amigo dele, que estavam pajeando as crianças quando o acidente aconteceu, eram na verdade amantes, e que as duas crianças - ela e o irmão - já os haviam visto fazendo sexo, o que nos permite concluir que a garota pode ter alguma relação diferente com a visão da homossexualidade, por isso o seu medo de tomar banho com as outras garotas. E também as recusas por deixar que Paul a toque, mesmo quando estão aos beijos e, aparentemente, prestes a ir além dos beijos. Na cena final, é levado ao conhecimento dos monitores que há muitos corpos de jovens assassinados - até aquele momentos, as outras três mortes já descobertas pareciam acidentes - e todos saem à procura das crianças, faltando encontrar após algum tempo apenas Ângela e Paul, que, pouco tempo depois, são encontrados juntos e nus na praia deserta. Então, a revelação máxima, que honestamente faz com que até o espectador mais polido arreganhe a boca, qual a personagem no filme: Ângela, na verdade, é Peter, que sobreviveu ao acidente que matou seu pai e sua irmã quando era pequeno. Tendo sido levado para ficar com a tia, mãe de Ricky, a mulher enlouquecida deu-lhe o nome Ângela e fê-lo passar-se por garota, já que o seu sonho sempre foi uma filha. 

 Angela é o inverso de um boy magia.

Os nossos queixos caídos desculpam a obviedade de todo o resto do filme, que consegue inclusive nos apresentar personagens que viram Ângela cometendo os assassinatos e, mesmo podendo falar, mesmo assim preferiram ficar quietos. Também desculpamos a personagem chata e escrota que Ângela é, porque, afinal, todos os anos vividos com aquela tia louca devem tê-la afetado bastante. E se o roteiro é bobo em seu desenvolvido principal, que é situação no acampamento, ele é excelente nos elementos de suporte à trama, não deixando fios perdidos, como é o caso da cena introdutória e a cena em que conhecemos a tia, que, embora apareça uns quatro minutos no filme, é perfeitamente capaz de nos chamar a atenção por causa de seu comportamento bastante duvidoso que, assumimos a princípio, parece um mau concebimento da personagem - quero dizer, num primeiro momento, parece que a atriz errou o tom e sua interpretação ficou ruim, mas depois entendemos que ela estata totalmente ajustada àquilo que se esperava dela.

Longe de ser uma grande obra, o filme conta com alguns bons momentos, um trabalho de maquiagem bastante exagerado, principalmente quando vemos os mortos por afogamento e por picada de abelhas “acidentais”, e isso me remeteu ao excelente “A Morte do Demônio” (1981), de Sam Raimi; mas também fui remetido a outro clássico do terror supracitado, “Sexta-feira 13” (1980), principalmente quando ocorre a morte de Mel, que é flechado assim como um personagem no filme do Jason. Há, ainda, alguma referências a outras histórias conhecidas, como “O Mágico de Oz”, quando Paul chama uma das monitoras de “a bruxa má do oeste” e também, talvez, uma referência a “De Volta ao Vale das Bonecas” (1970), já que nos dois filmes um travesti assassina seu amante arrancando-lhe a cabeça. Não nego a eficiência de Robert Hiltzik no roteiro - mesmo que não originalíssimo, consegue entreter o espectador na história e, ainda, arranca de nós um bom suspiro de contentamento quando a história se mostra, por fim, concluída.

1 opiniões:

Kamila disse...

Li seu texto até o alerta sobre os spoilers. Nunca tinha ouvido falar sobre este filme, muito menos o assistido, mas acho que filmes desse gênero de terror/suspense são todos completamente óbvios. Fica difícil fugir do lugar comum em obras assim. Por isso, só gosto mesmo, nesse gênero, dos longas que surpreendem. Não sei se esse filme se enquadra nesse caso.