20 de nov de 2009

A Passagem

Para a resenha de hoje, teremos um convidado especial. Uma vez ele nos recomendou que víssemos esse filme e, uma vez tendo dito que gostou bastante da obra, achamos que seria interessante se ele mesmo viesse aqui expressar sua opinião acerca do filme sugerido. Ele me disse que é a primeira vez que faz uma resenha sobre um filme; como achei seu texto muito bom, eu penso que ele me enganou e que há algum tempo vem escrevendo sobre filmes!! Pois bem, hoje o nosso convidado especial é o Jean, que conhecemos em uma comunidade sobre filmes no orkut. Com prazer, eu e o Renan o recebemos aqui no Literatura e Cinema.
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Stay. EUA, 2005, 100 minutos. Drama / Suspense.
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A história em si é complexa e parece não fazer qualquer sentido. Todavia, em segunda análise, ficamos muito felizes quando conseguimos juntar os pauzinhos e compreender tudo. Este é um daqueles filmes que em seu lançamento deve ter provocado reações inesperadas na platéia, pessoas saindo no meio da sessão, adolescentes no final dizendo que não entendeu bulhufas e por aí vai. No entanto o roteiro é muito bom e dá pra quem presta atenção nele, todas as dicas possíveis.

Henry (Ryan Gosling) é um jovem que está em crise. Tendo seu suicídio metodicamente datado e planejado em sua mente, ele é um desafio para o psiquiatra Sam (Ewan McGregor), que assumiu o caso do rapaz após a estafa mental de sua psiquiatra anterior. Enquanto tenta impedir que Henry cometa o suicídio, Sam tem de lidar com seus próprios problemas. Especialmente porque o caso se parece muito com o de sua mulher, Lila (Naomi Watts), ex-paciente que também tinha idéias suicidas. (fonte – yahoo cinema)

Quero primeiramente comentar a respeito do elenco, que foi bem coeso e bastante talentoso. Destaco Naomi Watts e Ryan Gosling, este último trouxe ao filme todas as características que o seu personagem – Henry – precisava, desde diálogos bem construídos a expressões faciais que deixam a película muito mais densa. Cheguei a me perturbar com todo o clima pesado que ele trazia à tela, sem contar inúmeras imagens confusas que apareciam em seus pensamentos e em ambientes em que se encontrava. Outra atriz que preciso destacar é Kate Burton, que conseguiu com maestria interpretar uma mãe perturbada.

Todos os diálogos de personagens secundários, à primeira vista não fazem nenhum sentido. Porém são estes diálogos que nos faz compreender - mesmo que implicitamente - o real motivo de tudo aquilo estar acontecendo. E isso trouxe um aspecto muito positivo ao filme, porque acaba testando o quão perspicazes estamos sendo em relação ao que está sendo transmitido. O uso de repetições durante a trama, também é de se considerar, apesar de às vezes se tornar cansativo.

Um ponto que achei interessante foi a de terem usado uma das histórias que consta nas obras completas de Freud... Onde ele descreve um homem cujo filho está morrendo. O pai senta ao lado da cama do filho noite após noite e depois que o menino morre, ele quer acordá-lo, e faz um círculo de velas em volta do corpo do menino. O pai está exausto e adormece, e sonha com o filho, em pé ao seu lado e segurando seu braço. Sussurrando: “Pai, você não vê que estou pegando fogo?”. Isso fala muito sobre o filme! E há algo que também precisamos saber. Existem estímulos externos e internos que influenciam o sonho. Como por exemplo, vozes, emoções e estado corporal. O que quero dizer com tudo isso é: [SPOILER] O que acontece na realidade são apenas o acidente, o socorro e o tumulto em volta de Henry. Todo o resto é sonho ou devaneio. [FIM DO SPOILER]

“A Passagem” é um filme excelente, com cenários e ambientações que nos transporta para o clima certo do filme, belíssima fotografia e trilha sonora. E, o mais interessante é que, ao passar de uma cena pra outra, usam o último movimento de uma cena pra continuar a próxima e, ainda, os seus cortes rápidos, com um fundo musical tenso, de uma cena pra outra dando assim, o tom de suspense ao filme.

Devo dizer que este é realmente um filme essencial! Fazer uma obra dessas é extremamente complexo... São muitos detalhes e todos eles são super importantes na trama e na absorção da obra, como linguagem, pelos espectadores.

Jean
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Antes, nunca havia ouvido falado desse filme. Os atores são conhecidos e eu conheço um pouco sobre a carreira de cada um deles, mas nunca havia atentado para esse filme que fizeram. Devido à escolha que o Jean fez de comentar A Passagem, eu o vi e antes de escrever essa resenha, eu o conferi pela segunda vez, o que modificou bastante da minha opinião anterior.

À primeira vista, estamos diante de um filme que nos remete à famosa - e usualmente complicada - viagem no tempo. Logo nas cenas iniciais, vemos o personagem principal, Henry, prevendo chuva de granizo, que acaba acontendo em seguida. Com o desenvolver do filme, essa impressão continua e, acrescida a ela, surgem potenciais fantasmas e um clima de suspense meio que alienado, como se tudo aquilo que é mostrado não se encaixasse no próprio tema. Há uma série de eventos que vão moldando o filme, vão transformando-o naquilo que ele é, tornando-o um filme bastante inteligente, mesmo que complicado.

Há várias cenas que parecem não acrescentar muito, mas eu tenho certeza de que todas têm uma finalidade e que juntas elas dão embasamento quase absoluto à proposta do filme. Eu usualmente costumo gostar dos detalhes, pois eu os acho fundamentais para a composição de uma obra. Em A Passagem, os detalhes são muitos, talvez em excesso - o que provoca um probleminha com o entretenimento. O que quero dizer é: são tantos em quantidade, que os detalhes tornam-se, às vezes, o único atrativo e os olhos dos espectadores voltam-se para elementos de pouca significância em cena. Desde o começo percebi que devia atentar às coisas que via; com o passar do filme, no entanto, acabei focando o cenário e o ângulo da câmera, o que me fez dispersar do que os atores diziam e, por isso, tive que voltar o filme uma ou duas vezes. Vale ressaltar que o filme caminha com sucesso para uma boa conclusão. Poderia, no entanto, ser mais curto, talvez ter uns quinze minutos a menos, já que nem tudo é realmente necessário e, mesmo depois de ter visto duas vezes, ainda fiquei com algumas dúvidas.

Os trabalhos dos atores são bastante positivos e todos estão bem em seus personagens. Grande destaque para a coadjuvante Naomi Watts que, embora participe pouco, nos presenteia com uma interpretação muito expressiva. Ryan Gosling é o caso de ator muito bom que dificilmente cai no gosto do público - é difícil vê-lo num filme que chame a atenção. Sua atuação é favorável ao que o filme propõe e, mesmo soando contraditória em muitos momentos, poderemos chegar aos motivos que levam o personagem a agir daquilo maneira. Talvez haja um quê de exagero em alguns momentos, como quando pede ajuda e depois ameaça Dr. Sam com uma arma, mas creio que isso se deve a um deslize do diretor e não dos atores em cena. Achei meio difícil acreditar a princípio que Ewan McGregor fosse um psiquiatra. Ao longo do filme, no entanto, achei-o totalmente cabível no personagem, indo fundo em busca da obsessão que aquele caso estranhíssimo causou em si. Não tenho muito o que dizer sobre os outros personagens, pois eles pouco aparecem e suas atuações são bem medianas, principalmente a da mulher que interpreta a mãe de Henry. Ela erra o tom e chega ao ponto de ser meio caricata, às vezes.

Como dise parágrafos acima, o filme é cheio de detalhes e as metáforas estão presentes o tempo todo. Para vê-lo, é necessário estar totalmente atento e ser paciente. Se houver algo que pareceu sem sentido, minha sugestão é que volte um pouco e reveja o trecho confuso, pois ele pode ser de importante significância. Na primeira vez, fiquei com essa dúvida e a segunda vez que vi o filme não fez com que isso ficasse claro. Àqueles que ainda não viram esse filme, aconselho a não ler as enumerações seguintes:

  1. Talvez a questão mais importante: tudo aquilo que vemos durante o filme é um delírio do personagem enquanto morre ou é exato momento da passagem? Eu poderia facilmente ficar inclinado a pensar que se trata daquilo que o título sugere, mas vale lembrar que o título original nada tem a ver com o nacional - e esse, portanto, pode induzir o espectador a pensar outra coisa.
  2. Quando Lila está em sua casa e percebe que os quadros foram todos pintados por Henry, ela chega à conclusão de que há algo importantíssimo para fazer. Então ela corre e pára diante de um portão, por onde não consegue passar, pois está trancado - numa clara alusão de que a verdadeira Lila, embora quisesse, não poderia mais ajudar Henry a viver. No plano ficcional, a personagem olha para um canto do cenário e dá um breve sorriso. Alguém sabe o que aquilo significa?
  3. Depois que Henry permite que o Dr. Leon volte a enxergar, o velho se encontra com o Dr. Sam e os dois têm uma conversa breve. Em seguida, cada um se separa e o velho caminha por uma alameda bem estranha, com várias luzes, que se assemelha ao local onde houve o acidente. Pouco a pouco a cena vai escurecendo. Outra incógnita para mim.

Primeiro, eu pensei se tratar de um filme mediano. Agora, depois de vêlo de novo e concluir que seu roteiro é bem interessante além de ser uma composição muito bem elaborada, eu devo realmente dizer que esse é um filme que vale a pena ser visto. Ele não garante entretenimento supremo, pois o excesso de detalhes faz com que ele se prolongue desnecessariamente. No entanto, quando a película chega ao fim, nós somos obrigados a ficar pensando sobre tudo o que vimos e com certeza vamos ficar com vontade de vê-lo novamente, com outros olhos.

Luís

13 opiniões:

Carlos Augusto Matos disse...

Interessante o que vc postou... Muito mesmo, e sabe gostei da essência do seu blog, me cultivou a entrar aqui, e vai me cultivar a entrar sempre, pois vou virar seu seguidor...

Se tiver um tempo, entra no meu pois estou divulgando-o...Se gostar, me segue, por favor...

http://visaopoetica84.blogspot.com/

Ricardo Martins disse...

Então há pouco tempo havia feito um post sobre o filme, onde desafiava os leitores que não assistissem a vê-lo, pois muitas pessoas mesmo, tiverem um problema de compreensão sobre o filme, pois ele é um quebra-cabeça impressionante e surreal, que no fim pode-se dizer real!

A Passagem (ou Stay) é um desafio, onde atenção é fundamental. E só para terminar, achei até um comentário que dizia que para entendê-lo teria que ter um QI acima de 120! Morri de rir!!!
E o conselho é mesmo o seguinte: Assista 2 vezes!!!

ABRAÇO

Marcus disse...

deve ser muito legal o filme!

Cristiano Contreiras disse...

Eu precisaria, talvez, assistí-lo 3 vezes. Mas, é um filme que provavelmente me faça...refletir.

Vou ver, esse tempo todo deixei ele guardado aqui: tenho, mas ainda não conferi.

O post me motivou a vê-lo logo.

Naomi Watts sempre é expressiva, gosto muito dela! Uma atriz linda e dedicada.

Abs

CJ disse...

eu assisti esse filme duas vezes e gostei
na primeira vez achei muito ruim mas na segunda eu entendi o filme todo e achei brilhante

eu gostei muito da resenhas de vocês dois, muito boas de verdade. Os dois escrevem muito bem
eu vou assistir o filme de novo pra tentar entender as três perguntas que o Luis fez na resenha dele

filme ótimo, nota 9,5!

Fabricio bezerra da guia disse...

tem vários filmes que eu não entendo mesmo,que eu acho uma besteira,mas quando eu pesquiso na internet,e eu entendo,eu acho ótimo a história.este spoiler vai me ajudar a entender quando e ver esse filme

PEDRO disse...

Esse filme tem historia demais pra uma conclusao muito rapida.
me senti besta na sala de cinema quando terminou o filme e quando assisti de novo vi que é um filme inteligente, mas mesmo assim é meio chato.

Quero só ver a nota do filme quando vocês fecharem o mes.

Jean Douglas disse...

Devia ter feito isso bem antes, mas com alguns problemas na cabeça acabei me esquecendo. Não é desculpa, mas estou me redimindo... hehehe!!

Quero agradecer ao Luís e ao Renan pela oportunidade e pelo espaço. Como eu disse ao Luís, eu nunca fiz resenha de um filme e a princípio fiquei temeroso e cheguei até a desistir, mas vejo agora que foi bobeira da minha parte e acho que a resenha foi satisfatória.

Mais uma vez muito obrigado e estou aqui agarrado com vocês, acompanhando todas as novidades!

Abraço!

leandro disse...

A análise é ótima. Bastante rica em detalhes. Eu fiquei realmente curioso!
Um abraço.
Leandro Andrade

diariodeplantao.blogspot.com

Camila Passatuto disse...

Já tinha assistido o filme. Assisti uma vez, mas sempre voltando rsrsrs, sempre pense que seria pelo motivo de estar desligada, mas talvez seja por eu tbm me prender nos detalhes e me confundir rsrrs.

Tobias Cavichioli disse...

Pow, Ewan McGregor é o campeão em fazer filmes complexos e extremamente voltados para as pessoas que pensam. Stay é excelente, tenho o DVD em casa. Agora um brinde dos Filmes exCelentes para vocês. A fonte usada no cartaz do Stay é a mesma usada em um outro filme muito ruim! Conseguem adivinhar?

Marcelo A. disse...

Oi, Luís/Renan!

Eu gosto do Marc Foster. Desde A Última Ceia. Só não pensava dele fazer um filme tão cabeça como A Passagem. Eu até encontrei um pouco de David Linch nesse filme! Vocês não?

Li uma vez, em algum lugar, que a bilheteria do filme foi péssima. Eu até entendo: quando vi o filme, o pessoal que assistiu comigo achou um porre. Eu fiquei pensativo um bom tempo. Depois, quando o revi, também o vi com outros olhos e até achei tudo que aconteceu bem simples - pena que não dá pra falar, pois nem todo mundo viu. Além do mais, há as atuações sempre corretas do Ewan McGregor e da gostos... epa, Naomi Watts!

Uahahahahaaaaaa!!!

Bom, desculpa a demora aí. Final de semana foi um pouco corrido. Apareça!

Abração!

Luís / Renan disse...

CARLOS AUGUSTO, tenho a impressão de que você fez esse mesmo comentário em um outro post. Já vimos o seu blog e gostamos dele.

RICARDO, concordo com você: esse filme é um desafio, um quebra-cabeça interessante. Mas não acho que para entedê-lo precisa de um QI de 120! Vê-lo duas vezes é mesmo o aconselhável.

MARCUS, o filme é bom. Veja-o.

CRISTIANO, por que acha que precisaria vê-lo três vezes? Recomendo que o veja. Naomi é mesmo muito expressiva, especialmente bela em 21 Gramas.

CJ, se você encontrar uma explicação plausível para as questões que eu fiz, por favor, me diga. Ficarei muito grato! Recomendo que venha ver as notas que demos ao filme no final do mês.

FABRÍCIO, alguns filmes são mesmo difíceis. Esse é um deles, mas com atenção você compreenderá, tenho certeza.

PEDRO, também me senti assim na primeira vez que vi. Depois, eu o achei mais inteligente. Venha ver no final do mês as notas que demos para os filmes.

JEAN, você foi muito bem-vindo e ficaremos felizes de te chamar qualquer dia para mais uma participação. Torcemos para que continue conosco, então!

LEANDRO, se ficou curioso, vá à locadora e pegue o filme. E venha nos dizer o que achou!

CAMILA, definitivamente quem se prende aos detalhes, ao mesmo tempo que amplia sua visão, também se confunde. Absolutamente normal.

TOBIAS, gosto de Ewan McGregor. E eu não faço a mínima ideia de que filme seja esse! Me fale, me fale!

MARCELO, não me surpreende que a bilheteria tenha sido péssima: a princípio, parece que o filme não quer dizer nada. E a maioria dos espectadores estavam ali pra ver algo mais surpreendente (e provavelmente menos inteligente).

Luís