19 de set de 2010

Diários de Motocicleta

The Motorcycle Diaries. EUA, 2004, 118 minutos. Drama

Indicado a dois Academy Awards, nas categorias Melhor Canção Original (Al Otro Lado Del Rio) e Melhor Roteiro Original.
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Diria tratar-se do terceiro filme espanhol a que assisto essa semana, mas não sei se posso considerá-lo assim, afinal o filme é estadunidense, com atores mexicanos e dirigido por um brasileiro. Se leram as análises de E Sua Mãe Também e Tapas, perceberão que citei o charme castelhano da produção; aqui, talvez por ser produzido nos Estados Unidos, segue a linha americana de drama. Assim, tal como muitos bons dramas que vêm de lá, Diários de Motocicleta se revela um excelente drama, que narra a viagem que Ernesto Guevara e Tomás Granado, dois jovens amigos, decidem fazer saindo de Buenos Aires, indo até o extremo sul do continente e depois indo ao extremo norte de motocicleta.

Certamente o roteiro do filme é muito bom, então, tenho que admitir que a indicação ao prêmio fica mais do que justificável ao longo da obra. A maneira como tudo é abordado faz com que o espectador acompanhe a viagem, os prazes e os desprazeres que ela provoca; tudo isso acontece de uma maneira simples, porém muito eficiente. Diários de Motocicleta nos mostra que, embora a jornada seja pessoal, com fins particulares, Guevara e Granado dispõe de humildade o bastante para ajudar a todos que necessitam. As cenas são vistas de maneira bastante objetiva, sem muitas metáforas, sem grandes adornos; desta maneira, nós conseguimos nos apegar aos personagens e aos seus idealismos sem nos confundirmos com outros elementos presentes ao mesmo tempo. Além da história em si - e de outros aspectos sobre os quais falarei mais abaixo -, os efeitos técnicos são muito bons: o filme tem uma edição muito eficiente, que, embora corte trechos da viagem, não interrompe o clima das cenas, dando sempre uma linearidade, conectando-as com as censas anteriores, mesmo que estas não sejam imediatamente anteriores em relação à cronologia; a fotografia também é muito bem utilizada, nos proporcionando a visão de belas paisagens, como aquelas no Chile invernoso, com as estradas e árvores cobertas de neve. A trilha sonora é interessante e a música principal tem muito a ver com os princípios idealistas dos personagens. Para exemplificar, uma das passagens da canção diz sobre todo creo que no todo está perdido. Que melhor frase para justificar o ação de Che ao final do filme? Aliás, recomendo que baixem a música e a ouçam: tão bonita, belamente interpretada por Jorge Drexler. Al Otro Lado del Rio foi a primeira canção em espanhol a concorrer à categoria Melhor Canção Original.

Acho um pouco difícil falar sobre a atuação dos atores, pois a viagem é a verdadeira protagonista, não eles. Há muito ouço falar de Gael Garcia Bernal, mas apenas recentemente dediquei atenção à sua capacidade interpretativa, sendo esse o segundo filme que me volto para analisá-lo. O primeiro fora E Sua Mãe Também e, antes desse, assisti a Ensaio Sobre a Cegueira, porém, não me ative o suficiente para percebê-lo de maneira efeitva na obra. Sem dúvida, é um ator muito competente, que trabalha com seriedade e que nãod eixa a desejar. Como Che Guevara, duvido que haja como repreendê-lo, pois se percebe o quanto o ator dedicou-se ao personagem. Em parceria, Rodrigo de La Serna, mesmo que um pouco apagado ao lado de Bernal, compõe Granado de maneira bem simpática, tornando-o um ótimo companheiro ao sempre honesto e solidário Ernesto. Walter Salles, em seu primeiro filme cuja língua predominante não é a língua portuguesa, conduz os atores muito bem e não acredito haver erros na sua direção. Como ainda não vi os diretores que concorreram ao Oscar em 2005, não posso afirmar se essa direção lhe valeria ou não uma indicação, pois preciso compará-lo aos outros. Mas definitivamente é um dos melhores diretores que o Brasil possui e muitas estrelas famosas estiveram sob seu comando, como Fernanda Montenegro, em Central do Brasil.

Não posso deixar de recomendá-lo, pois é um filme muito agradável, muito bem construído, com ótimas cenas e atuações extremamente satisfatórias. É importante notar a viagem em si, porque ela é um personagem à parte: ela molda os sentimentos e atitudes dos jovens Guevara e Granado e os modificam ao longo do trajeto. O ritmo lento pode ser um incômodo para alguns, mas definitivamente é um filme que eu recomendo às pessoas que gostam de bons filmes.

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