21 de set de 2010

O Auto da Compadecida

Brasil, 2000, 150 minutos. Comédia.

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Acredito que não haja muitos brasileiros que desapreciem esse filme, que foi baseado numa minissérie de 4 capítulos exibida em 1998 na Rede Globo. Tenho certeza de que os mais frescos, que torcem o nariz pro cinema nacional, possam criticar a obra, mas eu não vejo como deixar de amitir que O Auto da Compadecida é um dos melhores filmes brasileiros e reúne os aspectos mais importantes para o sucesso de uma produção: bons atores, ótimo roteiro, excelente direção, fotografia boa e um humor maravilhoso, que nos faz embalar pela história divertida que é narrada. João Grilo e Chicó são dois amigos que tentam lutar pelo pão a cada dia e, normalmente, por onde passam, devido às histórias e mentiras de João Grilo, acabam fazendo surgir confusão. Na cidade, acabam por promover o tumulto entre Dora, esposa adúltera, e Eurico, o padeiro traído; o Padre João e o Bispo; o major Moraes e também arrumam confusão com Severino, um cangaceiro que se passa por mendigo.

É importante ater-se à ideia de que O Auto da Compadecida é um filme sério, embora a sua seriedade - no sentido profissional - se deva ao tom cômico. Já ouvi pessoas falando que o filme é muito caricato, que é exagero, mas elas não entendem que todo o charme do filme está nessa caracterização e que é a demasia que lhe proporciona o humor com o qual o público se entretém. Assim, os personagens - como o Padeiro Eurico - não são tão bobos quanto seriam na vida real, pois a intenção dessa produção é mostrar personagens tipicamente construídos sob uma determinada característica; não são como são porque o roteiro aborda mal o comportamento humano, até porque o filme não aborda com dramaticidade e argumentos psicológicos o ser humano: ele simplesmente mostra a relação entre eles que se dá mediante o interesse maior. No caso de Dorinha, por exemplo, é o sexo; para o Padre e o Bispo, é o dinheiro. Com exceção das pessoas cuja capacidade de absorção é ridiculamente pequena, todo mundo compreende o ponto a que o filme quer chegar e definitivamente não é analisar criticamente.

Eu realmente acho que O Auto da Compadecida é um dos melhores filmes brasileiros, pois reúne não somente um elenco muito bom e extremamente capaz, como também tem um roteiro muito inteligente e agrada aos espectadores, até mesmo os mais exigentes. Na minha opinião, Matheus Nachtergaele tem um desempenho tão fabuloso que não me espanta as várias indicações que o ator recebeu nos circuitos de cinema nacional. É tão bom vê-lo em cena, compondo seu personagem de maneira tão curiosa, tão divertida. Outra grande surpresa é Denise Fraga, que posteriormente começou a protagonizar quadros desinteressantes no Fantástico. Ela faz de Dorinha uma personagem completamente satírica, principalmente quando Dora tem uma quedinha por homens bravos, incluindo o próprio Diabo. Na minha opinião, são esses os dois artistas que mais se destacam ao longo desse filme, embora outros, como Selton Mello, tenham um desempenho satisfatório e logicamente acrescentam humor à toda a trama. A fotografia é muito boa, mostrando com eficiente o cenário árido do sertão; de certa forma, o ambiente é um dos fatores mais favoráveis à história, principalmente por causa das cores fortes, o amarelo excessivo, etc.

Eu tenho que recomendar esse filme porque, como disse, é um dos melhores filmes brasileiros. Embora seja meio longa, cerca de duas horas e meia, vale a pena assistir a essa produção, que foi baseada na obra homônima de Ariano Suassuna. Talvez seja válido ler a obra dele também, mas isso talvez eu faça mais para a frente.

4 opiniões:

Hugo disse...

É um filme (minissérie) sensacional, com atuações destacadas de Selton e Matheus.

Pena que existe uma versão compactada lançada em DVD que deixa a história confusa.

Abraço

alan raspante. disse...

Concordo contigo, este é um dos melhores filmes nacionais que já vi!

Jú Azeredo disse...

Olá, descobri seu blog no acaso do destino, quando procurava qualquer referencia sobre "Se Houver Amanha -Sidney Sheldon". Queria saber se havia adaptaçao pro cinema, pois adorei o livro.
Achei o su blog fantástico, eu amo cinema e literatura.
Voce poderia fazer um post sobre Moulin Rouge, acho um fuilme com uma fotografia excelente, sem falar dos medleys e covers. Enfim, obrigada por nos dar esse refúgio literario e cinematográfico na internet.

ps:: perdoe os erros, estou escrevendo com o notebook todo torto aqui...

Filmes Antigos Club disse...

Gostei muito desta adaptação. Em 1972 houve uma primeira tentativa de adaptação da obra, com Regina Duarte e Armando Bogus, intitulado A COMPADECIDA, e em 1987, Renato Aragão produziu uma versão da mesma história, OS TRAPALHÕES E O AUTO DA COMPADECIDA, ambas as versões hoje parecem estarem esquecidas devido a superação desta versão mais recente.

Na minha juventude li a obra de Suassuna, que me fazia cair da cama de tanto rir. Difícil mesmo adaptar para as telas esta grandiosidade.

Parabéns pela matéria e pelo blog, que doravante sigo, tendo uma tribuna de honra no meu espaço.

Saudações

Paulo Néry