6 de jun de 2011

Inverso do Cinema: Legião

Para trazer a vocês uma amostra de filme ruim, convidei a minha amiga Ciça, que já colaborou aqui algumas vezes. Agradeço a ela por ter aceitado falar um pouco sobre um filme que tenha visto e o qual tenha detestado - a fim de partilhar um pouco de sua experiência cinematográfica desprazerosa conosco.
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Quando recebi o e-mail que me convidava para colaborar mais uma vez com o blog Literatura e Cinema, na sessão Inverso do Cinema, já logo comecei a vasculhar minha mente tentando me lembrar de algum filme ruim que havia assistido recentemente. Em pouco tempo consegui me lembrar de vários, porque, por sinal, não ando dando sorte nas minhas escolhas na locadora...mas nenhum era tão trágico a ponto de ser completamente o oposto do que buscamos em um filme. Mas, como eu ainda tinha algum tempo para escrever minha crítica, não me preocupei tanto.
 
 Então, alguns dias depois, resolvo assistir ao filme Legião, que já estava gravado na minha TV há um certo tempo, e que eu já ensaiara locar várias vezes, mas ainda não o tinha feito. A vantagem de ter escolhido assistir a esse filme: encontrei o objeto para minha crítica! E só.
 

 A proposta da produção não é de todo ruim, apesar de nem um pouco inédita. Basicamente, Deus se cansa da humanidade, que só faz destruir o que ele construiu, e envia um exército de anjos para nos exterminar. Ou seja, o filme retrata o Apocalipse, com uma ideia mais agressiva e revoltada.
  
Através da sinopse, o filme atrai o espectador, pois, apesar de batido, o tema sempre acaba rendendo um bom entretenimento. Mas o problema começa junto com o filme. A história se inicia com o arcanjo Miguel “caindo” na Terra e cortando suas asas para se tornar (ou parecer) um humano comum. Porém, devo admitir, demorei algumas cenas para entender o que estava acontecendo. Não apenas por causa do meu raciocínio lento, mas a péssima iluminação da cena inicial dificultou um pouco a compreensão dessa passagem. Logo após, o filme já nos leva para uma lanchonete de beira de estrada, literalmente no meio do nada, como manda o figurino de um suspense bem clichê. Na lanchonete trabalham um homem já não tão jovem, uma garçonete grávida, outro rapaz que a defende de todos com unhas e dentes, e seu pai, dono do estabelecimento e de uma personalidade extremamente rude. O pobre rapaz cuida da garçonete como se fosse pai de seu filho (detalhe importante: ele não é), sendo criticado e zombado por todos, inclusive pela própria moça, e sendo duramente repreendido por seu pai.
  
Em uma tarde de pouco movimento na lanchonete, com apenas uma família aguardando o carro ser consertado pelo filho do dono do local e um homem usando o telefone, algumas coisas estranhas começam a ocorrer. A televisão perde o sinal, e nenhum telefone ou rádio funcionam. Surge então, uma frágil e sorridente senhora, que é atendida pela garçonete grávida. Porém, ao se dirigir à gestante, a idosa altera grosseiramente seu comportamento, dizendo coisas assustadoras sobre o bebê que iria nascer, e começa a agredir verbalmente também a mãe da família presente no local. Quando o marido desta levanta para defendê-la, a velhinha cria dentes afiados, ataca o pescoço do homem, e sai escalando as paredes, até levar um tiro do dono do estabelecimento. Esta cena logo nos faz pensar que algum tipo de demônio quer a criança prestes a nascer, e que outras criaturas do mal surgirão para buscá-la.
  
Mas, eis que surge o arcanjo Miguel para esclarecer as dúvidas dos espectadores. Ele aparece na lanchonete munido de diversos tipos de armamentos, e explica que Deus enviou seus soldados-anjos para exterminarem a raça humana. Ou seja, a idosa estava possuída por um anjo, e não por um espírito do mal, como nos parece a princípio. Miguel explica também que o bebê que aquela humilde jovem carrega no ventre é a salvação da humanidade. Ok... mas por quê? Seria a criança um novo messias? Mas, para salvar os homens, ele teria que confrontar a vontade de Deus, fazendo uma imagem não muito boa de um messias. Enfim, este ponto não é esclarecido pelo filme. Fico com a conclusão de que ele foi escolhido no “uni-duni-tê” para dar continuidade ao mundo como conhecemos e ponto.
 
Miguel também confessa que foi escalado para comandar nosso extermínio, mas que ele aprendeu a amar os homens e que não seria capaz de fazê-lo, indo dessa forma contra as ordens de Deus, que é exposto no filme como um general cruel e impiedoso. No decorrer do filme a batalha acontece, sem qualquer mudança de cenário. Tudo se passa dentro ou nos arredores da lanchonete. Começam a surgir outras pessoas tomadas por anjos exterminadores, de todos os lugares, e dirigindo-se unicamente àquele estabelecimento. Há um ponto no filme em que os personagens fazem somente mirar nas pessoas e atirar, no melhor estilo Resident Evil. Por fim, após uma ilustre aparição do próprio anjo Gabriel, e uma batalha (um tanto quanto mortal demais) com o arcanjo Miguel, os anjos maus, por se encontrarem em clara vantagem, acabam aniquilando todos os presentes na lanchonete. Exceto, é claro, a garçonete e seu bebê, que nasce em meio à confusão, e seu fiel protetor.
  
Uma proposta cinematográfica que tinha tudo para ser bem desenvolvida, trabalhando com temas polêmicos e provocativos, acaba indo por água abaixo por, ao que me parece, pura preguiça do diretor. Uma produção que conta com Dennis Quaid (O Dia depois de Amanhã) e Paul Bettany (O Código da Vinci) no elenco deveria ser louvável apenas pelas figuras escaladas, mas estes atores, que costumam comover em suas interpretações, ficaram patéticos tendo que desenvolver os papéis que lhes foram dados. Os efeitos de transformação das pessoas em monstros-anjinhos chegam a ser hilários, apesar de bens feitos. Como todos os outros elementos do filme, este é mais um aspecto batido que mostra a falta de criatividade dos criadores. Os seres criam uns dentes afiados e os olhos ficam pretos, e nada mais. Há uma lista imensa de filmes de zumbis, ou vampiros, ou possuídos, em que os vilões da história se encaixam perfeitamente na descrição acima.


 Legião acaba por ser aquele tipo de filme que você não vê a hora que acabe, pra desligar logo a TV e ir fazer outra coisa. O que nos mantém assistindo até o final é a curiosidade de saber o que vai acontecer afinal com o tal bebê salvador da humanidade. Infelizmente, para a decepção de quem bravamente aguarda até o final, a resposta é: nada. Para quem procura um entretenimento despretensioso, sem maiores expectativas, recomendo. Já para aqueles que procuram, através de um filme, fugir por algumas horas da realidade do nosso dia-a-dia (assim como eu), recomendo que passem longe, ou leiam um livro.

por Cecília

1 opiniões:

alan raspante disse...

Eu hein... Vou passar bem longe deste "Legião" xD