14 de mar de 2012

Geração Maldita

The Doom Generation. EUA, 1995, 85 minutos, drama. Diretor: Gregg Araki.
Uma feroz crítica ao comportamento juvenil num filme cheio de simbolismo e entrelinhas - e Rose McGowan, fantástica!

Doom foi um dos muitos filmes a que eu assisti sem saber exatamente o porquê de tê-lo assistido. Baixei-o aleatoriamente, sabendo somente a sinopse, sem qualquer outra informação. Até fiquei surpreso ao saber que se tratava de uma obra do Gregg Araki, cujo filme Mistérios da Carne eu já havia assistido e aprovado. O mesmo aconteceu com esse: aprovado por mim. Creio que considerá-lo um filme adolescente é subjugá-lo. Definitivamente, essa é uma obra cheia de simbolismo e críticas, que retrata adolescentes, mas que não foi primeiramente voltada para esse público. A começar pelo título: um filme feito para jovens sendo que esse o ataca diretamente? Não me parece totalmente contraditório, mas definitivamente não penso que tenha sido essa a intenção de Araki. Sua obra começa com o casal Jordan e Amy, que namoram há três meses e que se consideram “desalojados no mundo”. Sentem-se como se não houvesse lugar adequado pra eles. Uma noite, por coincidência, encontram Xavier, um jovem rebelde e agressivo, que vive desocupadamente, normalmente envolvido em confusão. Ao comprar numa loja e esquecerem o dinheiro no carro, envolvem-se num problema quando o dono do estabelecimento pensa que eles vão roubá-lo e ameaça atirar, culminando em atitudes incertas que levam à morte do homem e a constante fuga dos três jovens.

 Rose McGowan como Amy - ou Sunshine, ou Bambi, ou Mandy.

Se num momento eles se achavam “sem lugar no mundo”, agora eles têm quase certeza de que definitivamente não há mais lugar para eles. É difícil dizer exatamente o que faz com que esses jovens pertençam à geração maldita do título. Eles vivem intensamente, vivem o hoje, sobretudo. Isso fica evidentemente porque suas atitudes são extremistas, desconsiderando momentos muito adiantes no futuro – eles vivem o presente. Talvez o vivam mal, porque o vivem violentamente. Basta notarmos que em todos os lugares que eles entram, parece haver alguém com quem discutir, alguém com quem brigar. Mesmo entre eles não há paz. Os três discutem, envolvem-se emocionalmente para então se machucarem, chocam-se o tempo todo. Há neles o liberalismo que não havia antes e ao longo do filme percebemos que os dois rapazes – Jordan e Xavier, mais este do que aquele – flertam o tempo todo, conversando com os rostos muito próximos, sentindo a tensão de um quase-beijo que nunca se concretiza num plano real. Ou talvez a crítica seja exatamente essa: eles vivem tanto a situação que não estão conscientes do que ela significa, embora pareça bastante claro a nós que eles sabem que é aquilo mesmo. Uma crítica maior vai à atitude deles – ou melhor, à falta dela: eles querem o beijo, mas não assumem explicitamente, se aproximam, mas nunca o suficiente; o que parece bem incoerente para quem faz tudo sempre sem muitos questionamentos morais.

 Xavier: a figura que transita entre o casal, servindo como impulsor de tensão sexual.

Esses mesmos jovens estão relacionados à arma branca, ao crime, ao desapego e a massificação. Não são apenas três jovens fugindo de atitudes erradas. Eles carregam consigo a identidade de vários outros jovens, todos semelhantes a eles, todos fazendo parte de uma mesma geração, uma geração que deturpa e transgride, fere e foge. Uma geração que se marca, que carrega consigo cicatrizes das experiências anteriores e mesmo assim parece não aprender. Destaque para o modo como Amy é sempre confundida com outras garotas – um atendente de drive-thru confunde-lhe com Sunshine e jura matá-la. Então nos questionamos: o que terá feito Sunshine àquele homem para que ele lhe quisesse tanto mal? Depois, num bar de estrada, Amy é confundida com Mandy e a mulher que a confunde com essa pessoa jura matá-la. Na terceira vez, chamam-na de Bambi e, mais uma vez, o juramento de morte. Curiosamente, nas três vezes, as cenas terminam num ato de extrema violência, que exclui desmembramento, esfaqueamento, estupro. E acho curioso ressaltar que não se afirma com segurança que uma pessoa aleatória é a pessoa x só por causa da aparência. O que nos traz a certeza é o conjunto de voz, aparência, estilo, atitude. Por três vezes, Amy foi confundida com outras garotas, nos permitindo encontrar similaridade entre elas, o que nos permite também concluir que Amy representa todas as meninas de sua geração.

Destaque para as armas que aparecem ao longo do filme: um rifle, um facão e depois uma tesoura de jardinagem – para cada uma das vezes que Amy é confundida. Mas eles também são constantes alvos de revólveres: primeiro o japonês neurótico que quase os matou e depois símbolos espalhados, que remetem aos personagens. Ao comprar o que comer, Jordan paga o valor respectivamente à caixa e, logo atrás dela, há um imenso pôster no qual há uma arma apontando para ele. Não podemos ignorar também a importância das compras. Sempre que esses três jovens fazem alguma compra, independentemente do lugar ou do que compram, o valor é sempre relativo ao número 666, o que talvez reafirme a posição do filme ao criticar esses personagens. Eles são bestializados, eles são para os outros jovens o que a Besta é para o mundo terreno, eles influenciam, eles distorcem e recriam ao seu modo.

 Xavier e Jordan, sempre num beijo iminente.

Não posso me esquecer que a obra também se firma bem como seqüência fílmica. Tenho até então discorrido sobre sua eficiência no seu discurso elaborado e não comentei sobre o filme em si. Essa é a segunda parte da “trilogia adolescente apocalíptica” de Araki – o primeiro filme foi “Totally Fucked Up”, de 1993, e foi concluída com “Nowhere”, de 1997. O filme se firma como uma obra interessante quando junta três personagens bem diferentes – o desocupado rude Xavier, a pseudocomportada Amy e o indiferente Jordan. Mesmo que os personagens não sejam necessariamente típicos, eles encontram sua força no modo como agem tipicamente – e isso cria um paradoxo, pois eles são atrativos exatamente pelo modo como são. Destaque para a atuação de Rose McGowan – gatíssima, talentosa e num momento muito interessante de sua carreira (reparem: um ano depois, estaria no elenco do corajoso “Scream”). Assim, o filme vale bastante a pena, tanto como obra cinematográfica quanto como crítica social.

2 opiniões:

Hugo disse...

Gregg Araki é um destes diretores independentes que surgiram nos anos noventa mostrando a juventude perdida da época.

Assisti o interessante "Estrada para Lugar Nenhum "Nowhere" e "Splendor".

James Duval é figura constante em filmes independentes.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Esses dias revi a obra do Araki ao assistir pela primeira vez o recente "Kaboom", aliás um filme muito maluquinho.

Este cara é um diretor interessante, mas que meio se perdeu no caminho e que criou um cult em torno de si. Um filhote de Lynch com Waters.

"Geração Maldita" é ótimo, insano e divertido. Rose McGowan esta notável aqui, até mais do que em fitas de apelo comercial como Planeta Terror ou Pânico. Revi ela também recentemente no péssimo "Um Crime entre Amigas" rs

A quantidade de "fuck" que esta menina fala é o dobro do que qualquer personagem do Tarantino falaria.

O James Duval e o Johnathon Schaech esbanjando sensualidade nos filmes do Gregg. Embora aqui o Duval esteja mais bobinho.

Abs.