20 de jul de 2012

Olhos Negros


Oci Ciornie. Itália / Rússia, 1987, 117 min, comédia. Diretor: Nikita Mikhalkov.
Uma narrativa verdadeiramente graciosa!

A obra “Olhos Negros” (1987), estrelada por Marcello Mastroianni e dirigida pelo russo Nikita Mikhalkov, é baseada nas obras literárias – mais especificamente em alguns contos – do também russo Anton Tchékov. O filme rendeu ao ator italiano a sua terceira e última indicação como intérprete nos Academy Awards e definitivamente fica marcado pela graciosidade com a qual toda a narrativa é apresentada, permitindo que o espectador verdadeiramente se delicie com o que lhe é narrado.

Num primeiro olhar, parece não haver nada de interessante na vida de Romano, o bon vivant charmoso e de meia idade, de casamento meio complicado, e de constante bom humor. Ele parece levar tudo como uma grande brincadeira, inclusive seu casamento como Elisa, que eventualmente o acusa de a odiar por ela ser rica e isso o afligir – a discussão o faz sair de casa, alegando precisar de uma estadia longe da casa (que, na verdade, é um grande castelo). O que acontece a partir de sua saída de casa nos é narrado por ele mesmo, que na verdade conta sua história a um passageiro russo de um navio no qual ele está.

 Romano contando sua história ao passageiro russo do navio.

A história toda é um verdadeiro charme e o seu verdadeiro sucesso se dá pelo modo delicado e gentil com que Mikhalkov dirige seus atores, cujos personagens são rodeados de dramas, mas que, no final, são mais caracterizados pela graça com a qual se envolvem. O diretor não erra o tom e faz com que sua obra seja linear quanto ao seu gênero, sem os altos e baixos normalmente vistos em comédias que tentam ser engraçadas, apesar de seu roteiro não permitir tanto humor. Aqui isso não ocorre e os atores parecem realmente se divertir em cena, o que conseqüentemente faz com que o espectador também se divirta. O mais interessante é que essa comédia, na verdade, vai pouco a pouco se transformando numa tragicomédia, resultando num final que é verdadeiramente o ápice da obra, provando que o diretor soube imprimir-lhe o ritmo certo, promovendo a cadência adequada para que o final da história seja verdadeiramente o seu clímax.

Romano é um personagem curioso, sobretudo porque ele vive tudo com extremamente facilidade, desde um casamento mal resolvido, do qual ele parece incerto acerca de amar ou não a esposa, até um relacionamento adúltero, bastante intenso, que é um verdadeiro arrombo na simplicidade de sua rotina. Ele parece transitar com leveza de uma situação para a outra, mas, curiosamente, nada disso torna o personagem superficial: ele é, como vemos numa das últimas cenas, um personagem desapegado, que é realmente dotado desse dom de ir e vir sem grandes problemas, sendo, no entanto, totalmente apaixonado pelas coisas que o cercam e que o motivam. Mikhalkov, que também fez o roteiro, foi feliz ao criar um personagem verossímil, que se fixa naquilo que verdadeiramente o comove, como o relacionamento com Tina, mulher que encontra num hotel quando passava uma temporada afastado de sua esposa, Elisa. 

 Tina, a mulher por quem Romano se apaixonará e a quem dedicará uma busca aventureira.

Marcelo Mastroianni com certeza é outro grande responsável pelo sucesso do filme. Seu personagem é extremamente carismático e isso se deve em grande parte ao ator, que encanta o espectador enquanto está em cena. Incrível como nos sentimos próximos de Romano a todo o momento, desde sua saída de casa por causa das constantes discussões com Elisa até o seu profundo encanto com Tina, mulher por quem o espectador também se apaixona. E quando disse acima que parece que os atores se divertem em cena, parece também que se apaixonam, tão verdadeiro é o sentimento de ternura que há entre os dois. Difícil nessa relação apontar qual é o melhor momento, pois todos são igualmente fantásticos, sendo, claro, o mais pungente aquele momento final, provando a grande ironia que a vida é.

A direção de arte do filme talvez seja o seu elemento mais impressionante, criando sempre uma atmosfera extremamente asséptica, o que torna a obra visualmente mais bonita. A mansão de Romano, o spa no qual ele e Tina se conhecem, o navio no qual Romano conta sua história ao russo e também a casa do esposo de Tina, na Rússia – é como se todos esses lugares fossem de tal modo limpos que não há nada para se olhar a não ser os personagens. Contraditoriamente, tudo ali é belo o suficientemente para que gastemos nosso tempo apreciando. Confesso que fiquei bastante surpreso com a grandiosidade desse filme, sendo sua direção de arte a mais autêntica característica de cuidado técnico e artístico.

Honestamente, assistir a essa narrativa é mesmo um deleite. Todo o filme é delicado e gracioso e seu humor não é em momento nenhum desastroso ou falho, tudo aqui é feito sob medida. Nenhuma obra-prima, é claro, mas um filme que tem suas características positivas que o impulsionam a um status de “pequena pérola do cinema”. Chega até ser difícil pensar que Mastroianni, aqui todo simpático e divertido, seja o mesmo da obra “8 ½” (1963), tão soturno e desconfiado. O ator prova ser verdadeiramente talentoso nas suas incursões e diversos gêneros.

3 opiniões:

Hugo disse...

Gostei do texto, tinha lido sobre este filme há bastante tempo e nem lembrava mais.

Fiquei curioso.

Abraço

J. BRUNO disse...

Acho que é a primeira crítica que leio do filme e até então eu sem sabia qual era a abordagem dele. gosto deste tipo de filme, cujo valor artístico está da singeleza de suas sequências... eu gosto muito do Marcelo Mastroianni!

http://sublimeirrealidade.blogspot.com.br/2012/07/pearl-jam-twenty.html

Rodrigo Mendes disse...

Obrigado pela dica. Adoro o Mastroianni, mas tem muito filme dele que ainda não conferi. Revi recentemente o escandaloso "A Comilança" que também é ótimo.

Abs.