18 de jul de 2012

Cinema Paradiso


Nuovo Cinema Paradiso. Itália / França, 1988, 120 min, drama. Diretor: Giuseppe Tornatore.
Esse definitivamente é um filme para se ver com a emoção.

Na 62ª edição dos Academy Awards, o filme “Cinema Paradiso” deu à Itália a oitava premiação como Melhor Filme Estrangeiro. A produção franco-italiana é decerto uma das mais queridas pelos cinéfilos, justamente por causa de sua história fabular que, na medida certa, consegue conquistar a simpatia do espectador e ainda apresenta uma história que, assistida com emoção, garante extremo deleite.

A obra é, nas suas proporções, uma homenagem ao cinema, desde seu próprio enredo até o modo como a história é apresentada. Salvatore é um diretor de cinema maduro que é repentinamente surpreendido pela notícia da morte de Alfredo, o antigo projetista do cinema Paradiso, local onde Salvatore se tornou cúmplice daquele que é o seu maior amor: o cinema. Já há trinta anos sem retornar à sua cidade natal, de onde saiu no final da adolescência, Salvatore retorna para o funeral Alfredo ao mesmo tempo em que relembra toda a sua trajetória, desde os primeiros contatos com os filmes até seu romance com uma jovem de quem nunca mais ouviu falar.

 Ao fundo, "Casablanca" (1943) decora a metalinguagem desse filme.

Para mim, não se podem deixam de ver certas falhas ao longo do filme e talvez a mais visível delas seja a inverossimilhança que se faz presente do início ao fim e que está presente, sobretudo, no personagem principal, que me parece bastante surreal, seja na sua infância ou na sua adolescência. Suas atitudes verdadeiramente parecem não caber no mundo real, de tão exageradas e descabidas que são. Mas é nesse exagero que reside a graça do personagem, sobretudo quando ele é criança, todo espivetado, colocando o cinema como um de seus maiores prazeres, chegando inclusive a deixar de comprar as coisas que suas mãe pede para assistir aos filmes exibidos por Alfredo no Cinema Paradiso. Todo o primeiro quarto da trama é marcada pelas constantes discussões do velho com a criança, que insiste em desobedecê-lo, como quando o homem diz que não deve ficar ali na sala de projeção nem deve levar os restos de rolo de filme para casa, pois eles se incendeiam facilmente, o que pode ser perigoso.

Não tarda para que percebamos que a relação de Salvatore com Alfredo é muito mais forte do que seu elo com sua mãe, que sempre vê o garoto indo contra as suas expectativas. É constante que ele gaste o dinheiro da compra dos mantimentos básicos para assistir a um filme no cinema e, ainda, sua mãe repudia aquela arte devido a um acidente que quase pôs fogo na sua filha caçula, já que ela acidentalmente colocou fogo naqueles rolos que Alfredo aconselhara Salvatore a não guardar. Numa cena, a própria mãe diz com desdém: “Alfredo e il cinematografo!!”, frase que o garoto costumava sempre dizer, aludindo às tantas vezes que passava com o velho na sala de projeção. Ao longo do filme, são visíveis os desapontamentos do garoto em relação à sua vida: eles são pobres; o dinheiro ou dá pra comida ou pro cinema; o pai, que lutou na Segunda Guerra, jamais retornou, criando no garoto uma sensação de lacuna, que tão rapidamente notamos preenchida por Alfredo e sua figura carinhosa, ainda que, num primeiro momento, bastante esquiva.

 Alfredo, já cego, e Salvatore: o velho a induzir o rapaz numa loucura de amor.

Gosto do título original, que não remete à fase infantil da vida de Salvatore, mas sim à sua fase adolescente. O nuovo Cinema Paradiso é aquele criado após o antigo cinema Paradiso ter sido consumido pelas chamas de um rolo de filme que pegou fogo no projetor. Ironicamente, tanto havia dito o senhor ao menino que se cuidasse a fim de não se queimar com as películas, que o incêndio no antigo cinema Paradiso quase o fez sucumbir às chamas - o homem foi salvo pelo pequeno Salvatore, que conseguiu recuperá-lo do fogaréu, ainda que algumas seqüelas – como a perda da visão – ficassem para sempre. O “novo Cinema Paradiso” se trata de um momento de transição entre o criativo e ativo Salvatore para o personagem de grandes responsabilidades cujas expectativas não param de crescer, chegando inclusive a levá-lo à introspecção.

Vemos ao longo do filme inúmeros momentos nos quais os personagens assistem a várias películas e, não fossem essas as únicas referências, há ainda os vários momentos em que Alfredo toma emprestado de algum astro uma frase famosa dita em algum filme e a repete a Salvatore, como se fosse de sua autoria e jamais dita antes. Num momento crucial – numa cena bastante bonita, aliás –, visando aconselhar o garoto acerca da grandiosidade da vida, se vista fora daquela pequena cidade, Alfredo diz sobre a pequenez das coisas a que somos encerrados, fala sobre o pouco a que temos que nos habituar e, sobretudo, ao quanto tudo é muito rápido. O garoto pergunta de quem é aquela fala e o homem, lacônico, diz que,  dessa vez, se trata de uma frase sua mesma. O processo de metalinguagem é também um processo de amadurecimento, como se os filmes presentes dentro do filme fossem um medidor da vida de Salvatore – basta ver que as referências famosas somente se tornam mais tristonhas à medida que a história de desenvolve.

 Salvatore e Elena, a garota responsável pelo romance cinematográfico do rapaz.

Giuseppe Tornatore, responsável também pelo roteiro, fez questão de dar ao Salvatore adolescente um amor. Assim ele tinha com que se ocupar e fazer de sua vida mais cinematográfica: ele também tem uma grande paixão por que lutar. E esse episódio se transcreve longo e carrega seu charme: o espectador fica entusiasmado com o que vê, seja pela simplicidade que Tornatore dá àquele romance juvenil, seja pela doçura que existe no relacionamento de Salvatore e de Elena, a jovem por quem ele se enamorou.  O diretor não se ocupa em tornar esse relacionamento extremamente realista – deixa-o numa simplicidade de adolescente mesmo, mais embasado em beleza abstrata do que em concretudes. Acho que isso é um fator positivo, aumentando a sensação de “magia” existente nessa produção.

Se visto com distância, o filme potencialmente se tornará uma obra bastante simplista sem nada que lhe justifique um prêmio ou mesmo um olhar mais cuidadoso nosso. É importante enxergar o filme com a emoção que os personagens sentem: ora extasiados por poderem ver um filme, ora indignados por jamais poderem ter visto uma cena de beijo, já que o pároco submete todos os filmes à censura da Igreja antes de suas exibições. Há no filme vários momentos programados para nos fazer nos chorar e, felizmente, sua premeditação não afeta nossa emoção ante aquilo que nos é mostrado. A meu ver, se trata de uma excelente obra para ser vista sem compromisso – mais do que isso, uma obra para ser ver com o coração, aberto a tudo aquilo que o filme quer nos apresentar. Vale a pena, com certeza, acompanhar a história desses dois personagens e é, ao final da obra, impossível não querer uma amizade como a de Alfredo e Salvatore.

3 opiniões:

Kamila disse...

Lindo texto. "Cinema Paradiso" é um filme muito especial pra mim. Assisti-o quando era criança numa sala de cinema e isso mudou minha vida. Me fez sair da sala completamente emocionada e apaixonada pela sétima arte. Acho esse filme um primor, especialmente no que diz respeito ao roteiro, à direção, às atuações e à inesquecível trilha de Ennio Morricone. Fora que o longa tem tantas imagens icônicas que não saem da nossa memória.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Pura emoção. Um belo tributo ao cinema.

O Falcão Maltês

Matheus Pannebecker disse...

Pura emoção e nostalgia!