6 de jul de 2012

A Vida É Bela


La Vita è Bella. Itália, 1998, 116 minutos, comédia. Diretor: Roberto Benigni.
Trata-se de uma obra cuja intenção é muito maior que o resultado obtido.

Existem momentos históricos que são de tal modo marcantes que não se pode deixá-los passar sem registro nas artes. E, decerto, a Segunda Guerra Mundial é um dos eventos mais importantes do século passado e, justamente por isso, adquiriu um status que outros acontecimentos não conquistaram: tornou-se uma estética artística – a estética da guerra. Não de guerras, como muitos filmes mostram, mas da guerra, de um período específico, que é justamente esse que mobilizou praticamente todas as potências mundiais e que dividiu o mundo entre os Aliados e o Eixo, resultando na dizimação de centenas de milhares de militares e na única vez em que uma arma nuclear foi usada em combate.


O drama da guerra que, afinal, a tornou mote para tantas películas, não se resume apenas ao período de 1939 a 1945, anos em que os conflitos bélicos são registrados como oficiais. Há o Holocausto – grafado com letra maiúscula mesmo, referindo-se à brutalidade à qual foram submetidas milhões de pessoas –, que foi um grande precursor da guerra e que salvaguarda um bom conteúdo para explanação, em parceria com a guerra em si e as conseqüências dela. Desse modo, pensar na Segunda Guerra Mundial implica também conhecer a figura de Adolf Hitler, conhecer a sua política de valorização da raça ariana e, ainda, as suas táticas de combate, eliminando todos aqueles que podem estar atrapalhando a sua tentativa de purificação da raça alemã – mesmo que essas que pessoas que atrapalhem nada façam, apenas sejam: judias, polonesas, não-católicas, ciganas, deficientes.

Roberto Benigni, que co-escreveu e dirigiu La Vita È Bella, nos diz que – como o próprio título sugere – a vida é bela, apesar de estar vivendo na Itália dos anos 1930, que vive o perigo iminente da ascensão nazista. Como um alegre livreiro, Guido, personagem de Benigni, vive uma série de desventuras para conseguir alvará para abrir sua livraria. Nas suas andanças, ele eventualmente encontra Dora, uma professora simples e já noiva por quem ele simpatiza e mais tarde se apaixona, resultando em momentos nos quais os dois passeiam e dividem momentos e, posteriormente, resultando em um casamento e em filho, o pequeno Giosué. Não faria sentido introduzir a guerra se não houver função para ela na história – e nessa trama italiana, o nazismo é de extrema importância, já que é ele que obrigará Guido e Giosué a se enclausurar num campo de concentração, local que se tornará cenário para uma aventura fabular, já que é assim que Guido faz com que Giosué veja aquele drama.


Curioso pensar na função desautomatizadora de um elemento. A guerra, tão trágica e desumanizadora, se torna uma brincadeira imensa nessa película. Não que essa inversão de valores – tornar o trágico cômico – seja algo inovador na obra de Benigni – John Boorman já havia criado algo particularmente interessante – aliás, mais interessante do que o que vemos aqui – quando compôs “Esperança e Glória” (1987), no qual vemos a Segunda Guerra pela perspectiva infantil: os tiros de canhões e as rajadas de fogo são como fogos de artifício, o estrondo das armas são elementos para uma brincadeira mais realista de polícia-e-ladrão. Mas Benigni mostra uma vertente cômica que se difere daquele que Boorman apresentou, sendo a versão bastante madura deste, apesar de se referir ao universo infantil: Benigni cria um personagem histriônico cuja vida se mostra histriônica e sempre – obrigatoriamente – engraçada. De certo modo, apesar de ser essa a intenção, esse exagero é o que distancia “A Vida É Bela” de uma verossimilhança mais palpável, tornando-a, portanto, mais agradável de ser vista. Até mesmo “A Bela e a Fera” (1991), cuja história tem a finalidade de ser aventurosamente romântica, traz uma personagem que, embora sonhadora, apresenta mais veracidade no seu modo enxergar o mundo.

O filme se distingue em dois atos bastante nítidos. No primeiro, vemos o desenvolvimento do relacionamento de Guido com Dora e todas as peripécias pelas quais o casal passa. Inclusive, ela, já noiva, é “seqüestrada” de sua festa de casamento por um Guido sentado num cavalo pintado de verde, pichado por vândalos nazistas que escreveram no animal que se trata aquele de um animal judeu – e Dora parte, montada no cavalo, à frente de Guido, deixando todos boquiabertos por causa de sua escolha. O segundo ato acontece quando pai e filho são levados ao campo de concentração e Dora, por sua escolha, os acompanha. É aí que começa a nova aventura fabular, na qual Guido tenta de todos os modos convencer seu filho de que tudo aquilo é uma grande brincadeira – um jogo de pontos, no qual os vencedores são aqueles com a maior pontuação. Desse ato, talvez o grande destaque seja uma das cenas finais, que é a purgação de Guido e a grande catarse da trama.


A meu ver, o filme tem seu bom momento na primeira parte, ainda que nem mesmo ela seja grandiosa. Mas pelo menos o humor é mais bem posicionado, é mais interessante acompanhar a trama. O tom divertido parece ajustado, ainda que, como disse, bastante exagerado. E é justamente tanto exagero que me impede de enxergar uma grande atuação por parte de Roberto Benigni, que é curiosamente apenas o segundo ator a ganhar um Oscar sob sua própria direção. Talvez o roteiro seja o mais agradável nessa obra; isto é, agradável se desconsiderarmos uma série de erros que se mostram perpétuos. O filme é, indubitavelmente, acomodado no impacto que a guerra provoca e no choque do espectador de ver um personagem feliz na guerra. Trostky, antes de ser assassinado, escreveu que, apesar de tudo, a vida é bela – e a apropriação que Benigni fez, sobretudo na cena final do filme, é bastante adequada. Talvez seja esse o grande mérito do filme.

5 opiniões:

Kamila disse...

Não gosto de "A vida é Bela". Acho um filme altamente manipulativo e eu nunca gosto disso. Claro que a história tem carisma, emociona, mas eu me senti, o tempo todo, guiada pela direção do Roberto Benigni a ter todas aquelas sensações.

O menino é adorável, mas Roberto Benigni aqui interpreta a si mesmo. Eu gosto de chamá-lo de o Didi Mocó italiano! rsrsrrs

E não sei se gosto também da forma bem humorada como ele lidou com um tema tão delicado. Mas, como esse filme não causou polêmica nenhuma e é amado por muita gente, acho que essa minha preocupação é uma grande besteira.

Júlio Pereira disse...

Confesso ter assistido A Vida é Bela há uns bons anos, por recomendação da minha mãe. É uma obra que, embora pontualmente divertida, é afetada por sua manipulação excessiva e o sempre exagerado Roberto Benigni. Só levou o Oscar de Central do Brasil por se tratar dum filme de Holocausto - os mais adorados pela academia -, uma obra muito superior.

J. BRUNO disse...

Já tem muito, muito tempo que o assisti, eu não me arriscaria a fazer uma avaliação dele agora, mas lembro que o assisti pela primeira vez, eu tive certeza do porque ele tinha levado o Oscar que até então eu acreditava que deveria ter sido de "Central do Brasil"...

Matheus Pannebecker disse...

Gosto do filme, mas entendo completamente quem o desaprova - como a Kamila. Só que, claro, aquele ano era todo de "Central do Brasil"!

Evair Eliandro Duarte disse...

O brasileiro tem que parar de pensar como um fanático por futebol quando seu time perde, sempre acha uma desculpa para justificar a derrota. "Central do Brasil" é um bom filme mas, em nenhuma das três vezes que assisti, o filme não conseguiu me prender até o fim. Já "A vida é bela" consegue te prender de tal maneira que é sempre bom assistir de novo. É um filme simples, com um humor leve e inocente, e, filme que não é manupulado pelo diretor, provalvelmente é documentário.