10 de jul de 2012

Viagem pela Itália


Viaggio in Italia. Itália/França, 1954, 82 min, drama. Diretor: Roberto Rossellini.
Grande destaque para as interpretações de Ingrid Bergman e George Sanders, que são os verdadeiros responsáveis pela qualidade dessa obra.

Existem filmes cuja notabilidade se dá pelo enredo bastante pleno, cheio de acontecimentos, com muitos eventos que requerem desenlaces vários. Um exemplo desse tipo de filme são os recentes “Ilha do Medo” e “A Origem”, ambos de 2010, nos quais a narrativa é também marcada pela complexidade do roteiro. Há outros títulos, no entanto, que divergem dessa estética, restringindo sua força nos diálogos e atuações mais do que nos acontecimentos, como é o caso de “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” (1966). Fiz essa introdução usando esses títulos como referência justamente para explanar sobre um filme que não se encontra nem no primeiro caso nem no segundo, mas, justamente, numa intersecção dos dois: “Viagem pela Itália” (1954) é uma produção cuja força toma forma numa mistura de diálogos e interpretações e nos acontecimentos, salvaguardadas as proporções em relação aos títulos que usei como exemplo, evidente.

Catherine e Alexander são um casal inglês que viaja à Itália para vender uma casa herdada. Casados há oito anos, Catherine logo aponta que se trata da primeira vez que os dois realmente ficam sozinhos, o que demonstra certa instabilidade – mesmo na aproximação deles. A estadia na Itália apresenta divergência nos gostos dos dois, bem como os faz notar a distância que, em algum momento, surgiu entre eles. Não demora e começam os ciúmes, as sensações de raiva, o desprezo – isso enquanto cada personagem conhece uma parte da Itália.

 
Rossellini não erra na composição de sua obra. Acertou na eficiência da direção, na duração da obra, que é bastante concisa e nos apresenta aquilo que é relevante ser mostrado, sem se estender em frivolidades que não nos interessam. Sobretudo, o que mais cativa é a funcionalidade do elenco: o filme todo é alicerçado pela magnitude de ambos, grandes atores cujas carreiras estavam num bom momento em meados da década de 1950, quando essa obra foi concebida. Bergman e Sanders interpretam opostos: ela bastante artística, interessada na arte, no que é objetivo; ele se esquiva da poesia, dos museus, mas gosta da subjetividade das conversas. Não à toa o vemos os dois em momentos sempre tão distintos: ela passeando por corredores de museus e de cavernas, sempre embalada pela poesia que um ex-namorado lhe fez, e ele a se entreter conhecendo pessoas, perambulando ora com uma moça que conheceu fora de Nápoles, ora com uma prostituta que encontra na rua.

Gosto especialmente de como eles se relacionam com o ambiente e as personagens que os cercam. Num dado momento, Alexander diz a Catherine que ela é dotada de um romantismo ridículo – a aspereza das palavras dele parecem, em união com os lugares que a esposa visita, corroborar aquela característica: o museu ao qual vai lhe faz ver estátuas imensas, que, olhando de cima para baixo, a tornam ainda maiores; a gruta que visita é tão escura, que temos a impressão de que a personagem se perderá ali; as terras cheias de enxofre, nas quais qualquer fumaça levanta um nevoeiro imenso, parecem se assimilar a personagem, segundo a visão do seu marido. Já Alexander – que não gosta de arte – parece viver marginalizado na história: conversa com mulheres casadas e prostitutas, quase sempre num tom de flerte, quase sempre se decepcionando com aquilo que elas lhe têm a oferecer. Ao final, inevitável não pensar que o equivocado seja ele e não elas. 


A ida à Nápoles sustenta todo o enredo, já que ele não se dá pela história em ação, mas pelo psicológico dos personagens. Ainda que vão a este ou aquele lugar, o grande mote desse filme é o relacionamento dos personagens um com o outro e, sobretudo, consigo mesmo. Acabamos, inevitavelmente, pensando: será que Alexander percebe, em meio a tantos desapontamentos, que ele não consegue se encaixar nas expectativas que ele mesmo cria? Será que Catherine vê a pequenez do relacionamento do casal ante as grandiosidades que a cercam? No caso dela, até mesmo uma poesia – alguns versos – são grandes demais. Necessitamos acompanhar a viagem física e psicológica de ambos os personagens a fim de, por fim, compreender o momento catártico, que é, em tempo, magnífico.

A cena final carrega consigo toda a beleza que fica pulsando ao longo da obra. Rossellini faz uso de muitos extras a fim de obter o resultado que é apresentado no momento de despedida do casal – já abalados demais e cônscios de que seu relacionamento nunca teve alicerce firme (apesar de já se terem amado um dia, como pensam) –, encontram-se em meio a uma procissão que os separa com brutalidade. É, afinal, o místico que os coloca em frente à realidade, mesmo que ela se realize bruta demais. Somente a cena final já valeria o filme, pois ela mostra com bastante intensidade toda a qualidade que vemos espalhada ao longa da obra. E não consigo enxergar esse filme sem pensar que ele é, indubitavelmente, o casal principal de atores: Bergman e Sanders realmente conseguem trazer à tona todo o fluir de sentimentos que abalam seus personagens e são eles os responsáveis pela força do filme, ainda que, óbvio, não se possa de modo algum tirar méritos do diretor – que, à época, encontrava-se casado com a atriz sueca. Definitivamente, um filme a ser visto com bastante atenção.

1 opiniões:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Já sou seguidor, Luís, e seu blog está na minha lista.
O belo VIAGEM À ITÁLIA seduz com simplicidade e profundidade.
Cumprimentos cinéfilos!

http://literarioecinematografico.blogspot.com.br/