4 de fev de 2011

Minhas Mães e Meu Pai

The Kids Are All Right. EUA, 2011, 106 minutos, comédia. Diretora: Lisa Cholodenko.
Eu devo ser um dos poucos que não têm enxergado todo o triunfo desse filme. Para mim, mais uma excelente atuação de Julianne Moore, sempre linda, sempre alavancando qualquer obra em que apareça.

Junto com os títulos Black Swan e The Social Network, esse filme tem sido a sensação do momento. Todos comentam sobre ele, todos elogiam o trabalho das atrizes principais e do ator coadjuvante; parece haver consenso que essa é uma produção que tem conquistado a todos, inclusive os circuitos de premiações cinematográficas, como podemos conferir pelas indicações no Globo de Ouro, Gotham Awards, Independent Spirit Awards, entre outros.

Enfim, não sei bem dizer o que motivou todo esse interesse pelo filme. Não o considero ruim, muito pelo contrário! Mas não encontro nele aspectos que justifiquem toda essa valorização (e posso dizer o mesmo dos filmes que citei no começo dessa resenha). A história de Nic e Jules, um casal lésbico, nos é contada a partir do momento que seus dois filhos decidem encontrar o homem que doou sêmen para que as mães os concebessem. Então, a presença de Paul acaba afetando o relacionamento de toda a família, já que os filhos e Jules parecem receptivos a Paul ao passo que Nic o enxerga como um absoluto intruso.

Acredito que o maior mérito do filme seja a forma como ele consegue nos apresentar a família de Nic e Jules. De certo modo, é uma forma desautomatizadora de nos fazer enxergar um relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. Constantemente vemos no cinema a história de personagens homossexuais – Brokeback Mountain, Lost and Delirious, Boys Don’t Cry –, mas esses filmes são usualmente marcados por um elemento trágico, que é a impossibilidade do romance entre os protagonistas ou, no caso dos três filmes que eu citei, a morte de um deles. Isso não acontece em The Kids Are All Right, pois o filme tem a finalidade de mostrar o período problemático pelo qual a família passa, mas o seu enfoque é mais cômico, de modo que conhecemos também o melhor do relacionamento do casal principal, que inclusive tem uma família sólida, criada sem preconceitos. Assim, penso que esse filme tenha um peso maior quando pensamos em seu poder de modificar o pensamento social a respeito da homossexualidade e das famílias construídas por casais homossexuais.

O roteiro do filme é bastante direto. O filme já começa nos mostrando os personagens interessados em conhecer o seu pai biológico, o homem que, aos 19 anos e interessado por Relações Internacionais, doou o sêmen que foi inserido em Nic e em Jules, a primeira, mãe de Joni e a segunda, mãe de Laser. Pouco a pouco – no tempo certo, devo dizer – o filme vai apresentando melhor para nós os personagens e nos colocando a par da trama. Assim, vemos como Paul torna-se uma figura querida e, ao mesmo tempo, odiada na história. Acredito que o único problema que realmente me incomoda nesse roteiro seja a construção da personagem Nic, que parece bastante anacrônica e destoante naquela família. A cena em que o filho pergunta a elas porque elas vêem filmes pornôs com homens me mostrou o quanto antiliberal a personagem é – e isso me incomodou muito. Acho que o roteiro é bem trabalhado, ainda que não tenha me surpreendido em muita coisa. O modo como trabalha a traição de Jules e o modo como Paul reage a ela – por causa dela e dos filhos, ele até decide parar de “galinhar”, como ele mesmo diz. Ainda que eu tenha me esforçado, acho que o roteiro nos mostra uma história legal. Não “fantástica”, não “interessante” nem “boa” – apenas “legal”. Isso porque simultaneamente possui qualidades e muitos defeitos, como, por exemplo, os desfechos dados a Paul e ao relacionamento entre Joni e o seu amigo, cena que aliás parece perdida no filme, assim como todas aquelas que envolvem a amiga piranha de Joni.

Acredito que o maior destaque seja a direção, mesmo que, como o roteiro, seja apenas legal e não suficientemente boa para surpreender e inovar. É uma comédia dramática e a diretora soube como captar isso muito bem – não deixou pender pra comédia boba nem dramatizou em excesso, deixou tudo na medida certa. Quanto aos atores, acho que estão todos corretos, não vi nada realmente especial em nenhum deles. No máximo, eu diria que Julianne Moore é a que mais sobressai, porque ela é realmente carismática e as suas cenas foram as que mais me agradaram. Annete Benning está correta, numa personagem desagradável. Estou surpreso com todas as indicações e com todos os elogios que ela tem recebido – para mim, tudo isso é à toa, não enxerguei nada realmente chamativo em sua atuação. O mesmo eu digo sobre Mark Rufallo: atuação satisfatória, mas não surpreendente. Aliás, ele estava repetindo algum personagem anterior, tenho certeza disso – ele está igual a uns outros dois filmes que já vi com ele. Mia Wasikowska e Josh Hutcherson estão bem, não destoam do resto do elenco.

Como devem ter percebido, alguma coisa nesse filme não fez com que eu gostasse dele em sua totalidade. Ou talvez eu tenha gostado do filme todo – e realmente o tenha achado apenas mediano. Eu não o indicaria a todos esses prêmios, não chamaria tanto atenção para ele e nem sequer é esse título que me vêm à cabeça quando me pedem para sugerir uma comédia interessante. Eu só o recomendaria se fosse para sugerir uma boa interpretação de Julianne Moore, que acabou ignorada pela Academia – o que não é incomum -, enquanto sua parceira, Annete Bening - cuja atuação só faz sentido em parceira com a de Moore - foi indicada e, tomara!, perderá para Natalie Portman ou Nicole Kidman.

4 opiniões:

Cristiano Contreiras disse...

Lendo seu texto percebemos que este filme NÃO te agradou mesmo, rs. Você faz questão de repetir que não acha ele especial, ou tão bom e interessante assim. Ok, ok...é questão de gosto. Pode não ser perfeito, mas acho ele funcional e bem realista até. O elenco está soberbo, eu acho que Bening tem uma atuação magnífica aqui e foi merecida sua indicação ao Oscar de atriz. Moore também poderia ter sido indicada. Ruffalo sempre um bom ator, já era a hora de ser reconhecido pela Academia. Até Mia está bem interessante aqui, diferente do seu CHATICE no País das Maravilhas. Um bom filme, sim!

ps: Você quis dizer "Lost and Delirious", não?

Abraço!

LuEs disse...

Sim, eu quis dizer "Lost and Delirious". Confundi com o nome do filme Velozes e Furiosos!
:)

Obrigado pela correção.

Renan disse...

Concordo com você em alguns pontos, mas discordo em outros.

Também achei o filme 'ok'. Principalmente depois de ver os outros concorrentes nas diversas categorias.

Discordo na parte de quem se destaca nas atuações. Gosto da Julianne, mas - na minha opinião - Annete Bening está bem melhor e acaba por merecer sua indicação ao Oscar.

A única coisa que não gostei mesmo foi Mark Rufallo, mas acho que isso se deve a minha aversão pelo ator, independente do personagem.

Jean disse...

Acabei conferindo "Minhas Mães e Meu Pai" um pouco tarde, mas tive uma bela surpresa ao finalmente assisti-lo. Foi soberbo o tom carinhoso e maduro colocado na trama. Acho que nunca vi um filme que mostrasse com tanta sutileza uma relação homoafetiva. É impossível não se identificar com os personagens e seus dilemas.

Tudo foi construído de uma maneira tão correta, que conseguimos analisar as situações apresentadas de uma maneira clara, sem confusões. As atuações ficaram impecáveis! A começar por Annette, que com sua postura protetora - que a levou ser mal interpretada na trama - dá um brilho incrível a tudo. Ela conseguiu me fazer rir, me emocionar, rever conceitos. Para mim, a melhor dali. Julianne Moore, como sempre, impecável. Seus diálogos bem construídos somado a uma belíssima interpretação, dá a ela qualquer credibilidade. Mia Wasikowska conseguiu me supreender! Sua atuação antipática em "Alice no País das Maravilhas", me fez pensar que ela não poderia oferecer nada de bom, em qualquer filme que estivesse envolvida. A achei segura, confortável e madura. Josh Hutcherson cumpre bem o seu papel, apenas. Quanto ao Mark Ruffalo, sempre o vejo da mesma maneira, com a mesma cara, com papéis que o deixe com uma postura "cool". Ele pode dar as mãos para Kristen Stewart.

Sem me prolongar mais, só posso dizer que me apaixonei por este filme. Me sinto leve após vê-lo, além de ter me causado uma certa insônia, visto que são exatamente 06:14 da manhã... rsrs... enfim, o recomendarei a meus amigos e é bem capaz que em breve irei revê-lo. :D