16 de fev de 2011

Namorados para Sempre

Blue Valentine. EUA, 2011, 110 minutos, drama. Diretor: Derek Cianfrance.
O trabalho desses atores é mesmo elogiável, o filme merece ser visto por causa deles!

Crises no relacionamentos, mudanças de perspectivas, dificuldades de convivência, todos esses elementos confluem para caber no roteiro de alguns filmes. Recentemente, tivemos filmes como Revolutionary Road, no qual um casal se vê diante de uma tentativa de recomeçar e, pouco a pouco, vai descobrindo que esforço mútuo pode não ser o bastante. Esse ano, temos Blue Valentine, uma obra bastante coesa que nos mostra algo bem mais aterrador: a busca incessante de uma das partes, que se sente sufocada dentro de uma relação enquanto a outra parte também se sufoca na tentativa da reaproximação.

Pode-se resumir parcamente assim a história de Dean e Cindy, juntos há aproximadamente seis anos. Eles não estão juntos há uma vida inteira, conhecem-se, mas ainda não sabem como se comportar altruistamente, buscando compreender o outro. Quando se viram pela primeira vez e então começaram a sair, o seu relacionamento era maravilhosamente perfeito: eles se compreendiam, estavam em sintonia, divertiam-se um com o outro e estavam totalmente entregues àquele sentimento de paixão torrencial. Agora, ela praticamente não suporta o modo como ele “parou”, como ela mesma diz, como se ele já não tivesse mais perspectivas enquanto ele simplesmente não entende o que se rompeu, o que fez com que aquela vida não mais fosse boa o suficiente para ela. O antes e o agora são mostrados intercalados, permitindo-nos conhecer assim dois momentos daquela relação perturbada.

O maior mérito do filme talvez seja a maneira como ele nos apresenta a história. Conhecer o antes e o agora faz com que nós não julguemos os personagens, mas que busquemos depreender e depois compreender o motivo pelo qual algo deu errado. Numa outra estrutura, restritamente linear, seria difícil não mostrar o elemento que fica implícito na estrutura escolhida. Se a história do filme fosse apresentada tradicionalmente, com começo, meio e fim, nessa ou em outra ordem, então seria complicado para que nós não os julgássemos, pois decerto haveria um culpado, um responsável pelos erros daquele relacionamento. Derek Cianfrance, o diretor e roteirista – esse escrito também por Joey Curtis e Cami Delavigne – opta por criar um filme interativo: cabe ao espectador criar e encontrar o lugar correto para colocar as peças que faltam nesse quebra-cabeça. E confesso que esse entretenimento diverte e ao mesmo tempo destrói o raciocínio: se tudo era tão perfeito no começo, em que momento Cindy passou a achar desgostosa a vida que levava? Por que motivos surgiu tamanho abismo entre ela e seu marido? São perguntas difíceis de serem respondidas, porque elas abrangem uma quantidade muito grande de possibilidades e é difícil – às vezes, cruel – para o leitor supor situações e fazer projeções com base nelas.

A vida de Cindy não é feliz, pode-se notar facilmente isso duramente algumas cenas. Sua personagem, num futuro, potencialmente se tornaria uma alcoólatra irrevogável, ainda que, pelo que vemos no filme, é mais fácil que Dean chegue a esse ponto, haja vista que sua segurança e convicção são constantemente abaladas a cada tentativa sua de trazer Cindy mais para perto de si. Três momentos são particularmente chocantes, exatamente pelo recurso da oposição magnificamente utilizado por Cianfrance. Seguindo a ordem cronológica, primeiro vemos os dois personagens jovens, pouco depois de ele tê-la convencido a sair: os dois riem juntos, ele tocando e ela sapateando, logo depois de ela ter recitado todos os presidentes dos Estados Unidos – sendo esse o “dom especial” dela. O clima de charme e humor é indescritível, percebemos claramente que os personagens estão envoltos por uma fascinação intocável, algo que transcende a própria diversão deles, eles estão notavelmente em sintonia. Em outro momento, Dean e Cindy, com muitos ardor, vão para o quarto dela e ele faz sexo oral nela. A filmagem dá atenção a um conjunto de elementos: a mão dela puxando a cabeça dele, a fúria extasiada com a qual ele a lambe, o modo como o corpo dela se contrai – o desejo entre eles é, tal como a fascinação da cena já citada, notável e a sintonia entre os dois se fazer notar peremptoriamente. No tempo real, vemos os dois personagens num motel, ele tentando reconquistá-la e, num determinado momento, os dois estão no chão, bêbados, parcialmente revoltados e ela simplesmente cede, numa cena brusca, arrancando a calcinha como se simplesmente esperasse que ele investisse, como se ela mesma se autodeterminasse um objeto com o qual ele se diverte. Assumindo-se de tal modo, ela, como objeto, está livre de demonstrar amor por ele – amor que ela já não sente. Não há como permanecer alheio a essa série de informações, Cianfrance revela uma capacidade muito boa de contrastar elementos, opondo-os num ironia desesperadora: estar num motel, num quarto temático, com cama que gira, bebidas na geladeiras – e simples ter um das piores noites possíveis.

Muito do filme se perderia se os seus atores principais, Ryan Gosling e Michelle Williams, não enfrentassem tão sobriamente os seus personagens. É prazeroso ver o empenho dos dois em compor criaturas tão frustrantes – e tão humanas – em suas essências. Se eles tivessem errado um pouco o tom, decerto a obra perderia boa parte de sua qualidade e muito de sua credibilidade, pois a verossimilhança só se justifica pelas atuações centradas e corretas dos dois atores, que estão em sintonia nas cenas em que ela é requerida e estão completamente dessincronizados – por necessidade do roteiro – em outras tantas cenas. Acho difícil dizer qual dos dois está melhor, porque vejo as atuações deles como complementares – a dela só existe porque a dele está ali e o inverso é verdadeiro, de modo eles se permitem uma condução efetivamente eficaz ao longo desse filme. Seus personagens são bastante complexos e requerem muita dedicação, principalmente por causa da questão do tempo. É muito mais fácil apresentar diferenças na atuação quando se registram personagens em tempos quantitativamente distantes – nota-se visivelmente que uma pessoa de 60 anos tem perspectivas diferentes de quando tinha 30 anos (isso só não se aplica à personagem de Kate Winslet em The Reader), mas que grandes acontecimentos transformam tão enormemente um pessoa ao longo de seis anos, a ponto de fazê-la querer desconstituir uma vida com a qual sempre sonhara?

Como disse no começo, trata-se de um filme coeso. E bastante conciso, haja vista que há nele somente os elementos necessários para que a história seja contada eficientemente, sem enrolações, sem perda de tempo e, principalmente, sem ofender o espectador com uma série de clichês dramáticos dentro de uma história que pode ser considerada banal, pelas tantas vezes em que o tema já foi discutido. Acredito que o filme atinja o tom certo e consiga se apresentar positivamente para o espectador e é exatamente por essas razões que eu o recomendo a quem busca uma obra dramática de qualidade.

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