14 de fev de 2011

A Outra Volta do Parafuso

The Turn of the Screw. Inglaterra, 1890, 176 páginas, suspense. Autor: Henry James.
Uma linguagem muito adulta capaz de transportar o leitor para o universo psicológico da personagem principal e nos faz acompanhar com ela todos os seus medos.

Henry James, responsável por algumas narrativas bastante famosas, como The Wings of the Dove – adaptado para o cinema em 1997 com o título (nacional) de Asas do Amor–, publicou em 1898 uma obra que geraria divergência nas opiniões. Quanto à sua qualidade, todos admitiam ser inquestionável. Mas aquilo que realmente diferenciava as opiniões provinha da dualidade e ambigüidade da obra, que permitia mais de uma interpretação. Tal como As Asas da Pomba, A Outra Volta do Parafuso também foi adaptado para o cinema – várias vezes, inclusive! –, sendo a versão mais conhecida aquela de 1961, com Deborah Kerr como srta. Giddens.

Os críticos adoraram a obra e a principal diversão em relação a ela é descobrir de onde provinha o terror que assombra a personagem Giddens, uma jovem moça de 20 anos que vai se tornar preceptora de duas crianças, Flora e Miles, numa casa em Bly. Convencida pelo tio das crianças de que ela deveria se responsabilizar totalmente pelos seus sobrinhos – e que nunca deveria incomodá-lo com perturbações relacionadas a eles –, Giddens começa a se desesperar quando, já na casa de campo há alguns dias, começa a perceber presenças estranhas de duas pessoas que racionalmente não deveriam estar ali, haja vista que já estavam mortas. E a situação parece piorar ainda mais quando ela desconfia de que sejam as crianças os alvos daquelas aparições.

Existe na história uma dualidade fascinante entre a objetividade e a subjetividade. Elas se misturam, moldado a história numa massa às vezes indiscernível: às vezes, parece tudo é extremamente palpável, enquanto outras vezes a situação toda parece decorrer da mente doente da srta. Giddens. E isso causa uma ambigüidade muito interessante na obra, de modo que podemos trabalhar a interpretação de dois modos muito distintos, na qual se pode seguir a linha de pensamento da realidade dos fantasmas e a linha de pensamento da sanidade da preceptora. Particularmente, em relação ao livro, eu acredito que o tom de realidade tenha sido, para mim, mais aparente – e, portanto, eu acredito que tudo aquilo tenha de fato acontecido, mesmo que, em alguns momentos, eu tenha questionado se Giddens não era, talvez, esquizofrênica. Logo no começo do livro, pouco antes de ver pela primeira vez o fantasma de Peter Quint, Giddens afirma: “um dos pensamentos que me acompanhavam nessas caminhadas [...] era que seria tão encantador como num conto encantador se eu me encontrasse subitamente com alguém” (2010, p. 37). Como ela mesma havia dito antes, nunca ficara longe de sua família e estava, como depreendemos, encantada por alguém, de modo que, quem sabe, as visões dos fantasmas fossem conseqüência de sua necessidade de deparar com pessoas novas, numa situação em que ela pudesse provar-se digna de estar “num conto encantador”. Porém, as suas descrições extremamente específicas de Peter Quint, o empregado da casa de caráter duvidoso que havia morrido, são por demasiado precisas e não há qualquer indício que ela o tenha já visto antes, seja por foto, por alguma pintura, ou por algum comentário anterior feito por algum empregado a ele. Até Giddens vê-lo no alto da torre, ele parecia simplesmente não existir no universo daquela mulher. Como ela pôde então, sem antes ter conhecimento de fisionomia, tê-lo descrito se, de fato, não tivesse visto o seu espectro?

A característica mais marcante dessa obra é o uso do recurso do fluxo de consciência, técnica empregada por muitos autores modernos e que tomaria grande destaque no ano de 1925, com a publicação de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Definitivamente, nós conhecemos essa história por dois planos: o psicológico, que se desenvolve a partir das suposições, pensamentos e temores da srta. Giddens, e físico, que é aquele no qual vemos as ações dos personagens e elas servem como catalisadoras para reforçar a grandiosidade do plano psicológico. Srta. Giddens supõe que as crianças estejam em perigo e elas, como se corroborassem os seus pensamentos, agem estranhamente. Flora desaparece num determinado momento, de um modo muito improvável, porém inquestionável, haja vista que tal evento é presenciado também por Mrs. Grove, uma das empregadas da casa. Miles, num episódio marcante, sai da casa e fica no jardim, já quando deveria estar dormindo, sem propósito algum, a não ser, como ele mesmo disse, para que ela achasse que ele era mau.

Ocorre, às vezes, uma intersecção desses dois planos, criando momentos em que o sobrenatural parece muito aguçado e definitivamente compartilhado por todos os personagens. Isso é obtido por muitos recursos, como fugiras de linguagem capazes de estarrecer: há um momento de extrema sinestesia, quando Giddens e Miles estão conversando no quarto do garoto e ela afirma: “A resposta ao meu apelo foi instantânea, mas veio sob a forma de violenta rajada de vento, de uma golfada de ar gelado que sacudiu todo o quarto” (2010, p. 132) – isso imediatamente anterior à confissão de Miles de que havia sido ele o responsável por assoprar a vela e apagá-la, quando Giddens supunha ser uma conseqüência advinda de todo aquele vento. A janela, como ela mesma comprova, estava fechada. Aí, cabe ao leitor perguntar-se exatamente o que aconteceu, haja vista que, segundo a descrição de Giddens, há uma série de fatores em simultaneidade: a rajada de vento, o ar gelado, a escuridão do quarto, um grito que ela ouve e supõe provir de Miles.

Devo dizer que essa narrativa de Henry James é por demais envolvente, não me restam dúvidas de que seja uma das grandes obras a trabalhar com o fluxo de consciência e ser capaz de arremessar o leitor para dentro do universo aparentemente irracional e assombrada das personagens desse livro, que vivem em constantes augúrios, sempre acompanhados de recursos narrativos que engrandecem o discurso. Ainda que em momento nenhum tenhamos algum conhecimento efetivo e comprovado sobre o passado de Peter Quint e srta. Jessel, a mulher que anteriormente cuidava das crianças e que se enamorara de Quint – são eles os fantasmas da história –, não duvidamos em momento algum de que eles sejam realmente maus e isso se deve ao excelente argumetum ad hominem empregado ao longo da trama, na qual as personagens atacam diretamente o caráter dos fantasmas a fim de caracterizá-los como perigosos. Henry James conseguiu reunir numa narrativa relativamente curta – nem chega a duzentas páginas – toda a composição maravilhosa, cheia de suspense. Mais de 60 anos depois, John Mortimer, William Archibald e Truman Capote – o último, autor de Bonequinha de Luxo – adaptaram esse livro para o cinema e ele se tornou Os Inocentes, com Deborah Kerr no elenco. Indubitavelmente, isso reforçou a dubiedade presente no livro, haja vista que o filme é exponencialmente mais ambíguo do que o livro, que, para mim, é um dos melhores já lidos!

Bibliografia:
JAMES, Henry. A outra volta do parafuso. Tradução de Brenno Silveira. São Paulo: Abril, 2010.

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