3 de mai de 2011

Biografia comentada: Audrey Hepburn

Audrey, em 1953, no filme "Roman Holiday".

O ano era 1954. Aos 25 anos, uma garota belga subia no palco do Academy Awards para receber um dos poucos prêmios do Oscar em todos os tempos que permanecem incontestáveis até hoje. Ela, Audrey Hepburn (nascida Audrey Kathleen Ruston em uma cidadezinha da Bélgica). O filme, “A Princesa e O Plebeu”, de William Wyler, em que Audrey representava o papel-título feminino, realeza entediada que escapava dos guarda-costas para viver uma aventura romântica com o americano de Gregory Peck. Ainda não era o auge de sua carreira em terras americanas, mas sem nenhuma dúvida era o começo “de uma linda amizade”, para não dizer caso de amor, do público do mundo inteiro com a européia refinada e graciosa que Audrey sabia representar tão bem.

Mas voltemos ao ponto pelo qual eu resgatei a cerimônia de 1954 como ponto de partida dessa biografia. Não foi só pelo fato que ganhar um Oscar imediatamente eleva um ator/diretor a outro nível, mas pela notória elegância e discrição que Audrey mostrou ao receber a estatueta. Cabeça baixa, sorriso ressabiado, vestida sem extravagância e a mesma graça no caminhar e no portar que emprestou para todas suas personagens, Audrey fez os agradecimentos habituais, levantou os olhos para a platéia e, sem mais palavra, sorriu aquele sorriso raro, que não é de seu feitio, e que a levou, talvez exatamente por aparecer apenas de vez em quando, nas horas certas, sem querer roubar o show, ao patamar de ícone moderno.

E não, não é exagero. Marilyn Monroe pode ter cantado “Happy Birthday, Mr. President”, mas quando Audrey, a atriz preferida de John Kennedy, foi a escolhida para segui-la no ano seguinte, ela cantou “Happy Birthday, Dear Jack”. Mas um ícone precisa ser atemporal, não passageiro, diriam uns. Audrey figura no topo da lista das mais belas atrizes de todos os tempos religiosamente, ano após ano, e sempre no topo. Ela desbanca mulheres que, em termos de pura estética, poderiam ultrapassá-la com facilidade: Angelina Jolie, Catherine Zeta-Jones, a própria Marilyn. Mas a qualidade “beleza” que se encontrava em Audrey era diferente, e tinha a ver com a elegância, a graça, a leveza, a polidez e a delicadeza de uma mulher de minúcias que sabia jogar com o que tinha. E isso incluí, é claro, um talento imenso.

Como já dito, o primeiro grande papel de Audrey no cinemão americano foi como uma princesa, que ela era por porte ainda que não por título, na comédia romântica A Princesa e o Plebeu. A maldição do Oscar, concedido tão cedo quanto deveria pela Academia, não pegou na inteligentíssima Audrey. Nos anos seguintes ela se juntou a um time de diretores de primeira linha que a deram papéis inesquecíveis, ainda que tenham se tornado menos lembrados em sua longeva, ainda que não extensa, filmografia. Billy Wilder a colocou entre Humphrey Bogart e William Holden no triângulo amoroso premiado de Sabrina, que rendeu sua segunda indicação ao prêmio da Academia. King Vidor a escalou no épico de 1956, adaptação da novela de Leon Tolstoi, Guerra e Paz. Neste último, Audrey contracenava com o primeiro marido, Mel Ferrer, com o qual firmara união dois anos antes.

O casamento com o ator de papéis menores que o dela duraria até 1968, produzindo o primeiro rebento da atriz, Sean, nascido em 1960, após dois abortos e um acidente de filmagem terem impedido o casal de proliferar. Ela seria dirigida pelo marido, fazendo par romântico com Anthony Perkins (sim, o Norman Bates do Psicose original) no pouco lembrado A Flor Que Não Morreu, um dos papéis que demonstraram a versatilidade de Audrey, colocando-a fora de sua zona de conforto (princesinhas, mocinhas apaixonadas, heroínas românticas), no papel de uma selvagem venezuelana (!) que enfeitiça o jovem vivido por Perkins. Enquanto isso, o clássico Cinderela em Paris a colocou para dançar sob a vigia de Fred Astaire. A cena de sua dança solo e a atuação no momento em que Astaire a beija e a abandona apenas para conseguir uma boa foto se tornaram clássicas. Mas foi no papel de uma freira no dramático Uma Cruz à Beira do Abismo, de Fred Zinneman, que Audrey conquistou a terceira lembrança dos acadêmicos do Oscar.

Lembrança, aliás, que faltou no comecinho dos anos 1960, quando Audrey assumiu aquele que foi, sem dúvida nenhuma, o papel mais marcante e influente de toda a sua carreira: a adorável vigarista Holly Golightly do gracioso Bonequinha de Luxo, adaptação indefinível em gêneros que Blake Edwards entregou para o livro de Truman Capote sobre a high-society nova-iorquina dos anos 1950. Aos 32 anos e mais bela do que nunca, Audrey domina a tela com carisma impecável, a elegância de sempre e um toque gaiato que não era próprio seu até o diretor Edwards encontrá-lo escondido por trás de toda a “fleuma” (no melhor dos sentidos) européia. Audrey entrega semi-monológos com tranqüilidade, constrói uma personagem adoravelmente charmosa e eleva um filme leve e agradavelmente interessante ao nível de clássico. A referência na cultura pop é tanta que até o cinema francês, notoriamente avesso ao americanismo, emprestou o “toque Golightly” (e uma parte da premissa do filme) para Amar Não Tem Preço (“Hors de Prix”, no original), em que outra Audrey, a Tautou (na minha humilde opinião, uma escolha felicíssima), encarna a figura relaxada e carismática que joga o jogo do amor pelo dinheiro.

Igualmente divertido, ainda que nem tão marcante, Quando Paris Alucina, de Richard Quine, a reuniu com William Holden (seu parceiro de cena em Sabrina) e fez dos dois um casal improvável: um roteirista em crise criativa e uma secretária que tenta ajudá-lo a superar as dificuldades... encenando na vida real todas as premissas malucas que surgem na cabeça do chefe. Audrey voltou aos musicais em 1964, com o segundo papel mais marcante de sua carreira, o da garota pobre transformada em flor da alta sociedade Eliza Doolittle em Minha Bela Dama. Mais uma vez, por mais que Audrey atue e cante da forma fluída e detalhista que os acadêmicos costumam gostar, nada feito entre a atriz e o Oscar.

Antes de espaçar suas aparições no cinema, o que aconteceu a partir da década de 1970, Audrey ainda mostrou que continuava uma beldade ao lado de Albert Finney em Um Caminho para Dois, do alto de seus 38 anos, e voltou a batuta de William Wyler na comédia assumida Como Roubar um Milhão de Dólares. Mas foi com o último clássico de sua carreira que Audrey conseguiu provar, sem que sobrasse dúvida alguma, seu talento para a atuação. Um Clarão nas Trevas é o estranho no ninho em sua filmografia, um suspense pesado de um diretor menor, onde ela interpreta uma mulher que acaba de se tornar cega, atormentada por um trio de ladrões que procura por uma boneca recheada com heroína, supostamente escondida na casa. O papel lhe rendeu a quinta e última indicação ao Oscar, e a oitava e também derradeira lembrança no Globo de Ouro (a Imprensa Estrangeira a concedeu o prêmio também por A Princesa e o Plebeu). Depois disso, Audrey só voltaria as premiações para as homenagens pelo conjunto da obra: a do Globo de Ouro veio em 1990, e a do SAG Awards, em 1993, mesmo ano em que a atriz não pôde comparecer a entrega do Oscar (que a concederia um prêmio por ações humanitárias).

Antes de morrer, na Suíça, em 20 de Janeiro de 1993, Audrey Hepburn marcou ainda presença na versão de Richard Lester para a lenda de Robin Hood, o adorado Robin & Marian, no qual atuava na pele de uma Lady Marian mais jovem, e sob a direção de Steven Spielberg no sentimental Além da Eternidade, de 1989. A garota belga que começara em frente as câmeras com uma ponta em um filme europeu, aos 22 anos, apareceria para os espectadores em uma sala de cinema pela última vez em 1989, ano em que completou seis décadas, quatro delas dedicadas ao cinema. E a caridade, como a ação com a UNICEF, que se estendeu nos anos 50 até sua morte, bem representa.

Audrey, que teve dois filhos e passou por três abortos traumáticos, jamais perderia a graça, a elegância e a força. O que, no final das contas, lhe garantiu o lugar não apenas como a grande atriz e ícone hollywoodiano que foi, mas como uma das mulheres mais notáveis da história. Seu trabalho foi discreto, charmoso e sutil, e todo o legado que ele deixa prova que não é preciso revolucionar, chocar, quebrar padrões, para marcar o mundo. É preciso apenas um pouco de bom senso, a dose certa de auto-consciência e a delicadeza (que não se confunda ela com fragilidade, o que Audrey nunca foi) necessária para conquistar quem interessa: o público. Audrey Hepurn era bela, sim, e de muito mais maneiras do que qualquer lista vai ser capaz de provar.


Por Caio Coletti, autor do blog O Anagrama.

3 opiniões:

Alan Raspante disse...

Belíssimo post, mito bacana e bem feito... Audrey Hepburn foi uma atriz e tanto de inúmeras qualidades!

joyce Pretah disse...

maravilhosa postagem sobre essa grande,elegante e inesquecível atriz,que vai muito além de bonequinha e my fair lady!

LuEs disse...

Só uma correção quanto a um detalhe: em My Fair Lady, Audrey é dublada, não é ela quem canta.
=)