8 de mai de 2011

Sabrina

Sabrina. EUA, 1954, 113 minutos, drama. Direção:  Billy Wilder. 
Trata-se de uma comédia romântica que se torna bela pela direção de Wilder e pela presença delicada e esponteaneamente simpática de Audrey Hepburn.

Billy Wilder é o responsável por inúmeros filmes de muito sucesso e já esteve em parceria com inúmeros atores de grande porte. Em Sabrina, de 1954, ele dirige três dos maiores atores da época áurea de Hollywood: Humphrey Bogart, Willian Holden e a belíssima Audrey Hepburn – essa recém-ganhadora de um Oscar por sua atuação em Roman Holiday. Todos os atores – em especial Hepburn – e o diretor conseguem criar um dos filmes mais gentilmente belos já criados!

Para mim, o aspecto principal desse filme é a delicadeza. Toda a história gira em torno de um tema que, por si só, é bastante traumático e que, caminhando por outra perspectiva, é também bastante poético. E o filme faz questão de seguir por essas duas trilhas: Sabrina, que dá título ao filme, é a filha do chofer que é apaixonada por um dos membros de uma riquíssima família; ele, porém, não a nota, nem mesmo quando ela tenta impor sua presença a ele, que sempre busca mulheres fáceis e novas aventuras. O filme não se abstém de mostrar o drama da rejeição inconsciente (não se pode, afinal, dizer que David não a aprecia voluntariamente): Sabrina tenta o suicídio sufocando-se com monóxido de carbono, mas acaba salva por Linus, irmão mais velho de David. Como forma de escapismo, Sabrina vai a Paris, estudar culinária, retornando a Long Island depois de passar dois anos na França – o seu retorno provoca alterações na dinâmica da família, pois os dois irmãos então passam a gostar dela.

Talvez o mais interessante no filme seja notar a sutileza das pequenas críticas que são feitas ao longo dessa produção. Isso se verifica principalmente no relacionamento de Sabrina e David, já que ambos demonstram ter personalidades muito imaturas. Ela, ainda que já adulta, não consegue se livrar dos seus trejeitos infantis, não consegue se assumir totalmente independente – e de fato não é independente, já que dedica a sua vida a David, mesmo que ela própria consiga reconhecer isso como um aspecto ruim. Ela mesma diz, estando ele prestes a se casar, que “ele ainda não está casado”. Vale lembrar que é um pensamento muito expressivo, pois, considerando a moral da época, dispor-se a enamorar-se de um homem já noivo a fim de fazê-lo romper o noivado é posicionar-se contra tudo aquilo que se espera de você. Sabrina é, em nome desse seu amor não amadurecido e desenvolvido a partir de uma impulsividade infantil, capaz de desafiar o contrato social. Há também o contraponto em relação ao amor de Sabrina, que é justamente o amor de David – ele evidentemente não a ama, mas a admira por causa de sua beleza e por causa do modo como ela agora lhe é capaz de chamar a atenção. O seu caráter paquerador permite que ele identifique alvos, não amores verdadeiros. E há nele, bem como há em Sabrina, uma profunda alienação, que faz com que eles busquem no passado amostras de que sempre foram apaixonados, o que se verifica no caso dela, mas não no dele. Sabrina e David tentam desesperadamente embasar o seu relacionamento em falsas memórias e em projeções inconstantes a respeito do que eles pensam a respeito do que sentem.

Em contrapartida, Sabrina e Linus possuem um relacionamento mais espontâneo, que se constitui pelo sentimento de proximidade que eles desenvolvem. Ainda que, a princípio, Linus tenha se prontificado a entreter Sabrina como forma de fazê-la se esquecer de David e, então, não atrapalhar o noivado dele, pouco a pouco ele começou a se aproximar, a se envolver emocionalmente, a se apaixonar por Sabrina. Ela, por sua vez, continuava iludida pelo sentimento que tinha em relação a David, no entanto, não negava que também se sentia estritamente próxima de Linus, por quem agora nutria afeto. Cabe a esse casal, aliás, a cena mais bela do filme: Sabrina vai ao escritório de Linus e os dois conversam à meia-luz, ela no lado oposto da mesa, ele estático e com uma sobriedade desastrosa – ele revela, então, as suas intenções iniciais e ela, assombrada – com sutileza incrível, todavia –, simplesmente parte, deixando-o sozinho.

Billy Wilder soube perfeitamente como apresentar os conflitos e as resoluções dos problemas. Embora, ao meu ver, haja uma facilidade incoerente na paixão de Sabrina e Linus, o enredo se desenvolve positivamente, de modo gradual e muito climático, proporcionando-o ao espectador uma boa história. E o mais interessante é que os personagens possuem momentos catárticos importantes: todos eles tornam-se mais conscientes de si mesmos e se questionam a respeito do rumo que eles estão tomando em suas vidas. Não se pode negar que o final seja o usual na estrutura romântica dos filmes da década de 1950 – de certo modo, há aquela constância nos relacionamentos que levará a um momento último que indica a consciência dos personagens em relação a si próprios; isso, no caso de Sabrina, resulta num envolvimento amoroso; no caso de Roman Holiday, filme anterior de Audrey Hepburn, a consciência dos personagens resulta na aceitação das condições sociais e das respectivas obrigações dentro de uma determinada ordem (ela, uma princesa; ele, um cidadão comum).

O sucesso do filme evidentemente está na junção dos atores, os três em perfeito desenvolvimento na trama – ainda que, para mim, Bogart e Hepburn não combinem e, em momento nenhum, consigam criar a afinidade necessária – e também por causa do diretor, que desenvolve muito bem a trama. Gosto também do modo como ele enquadra as cenas, como conduz as cenas – é de uma beleza estética admirável, com belas cenas, algumas inesquecíveis, como aquela que já citei, na qual Audrey permanece no meio do escritório conversando com Bogart. Aliás, por si só, Audrey já é belíssima; a somar com a estética artística de Wilder, isso resulta no filme admirável, que vale a pena ser visto.

1 opiniões:

Alan Raspante disse...

Se você olhar bem para os pares românticos de Audrey, quase todos eram atores bem mais velhos que ela. Em grande maioria. "A princesa e o plebeu" é uma boa excessão. Assim como "Bonequinha de Luxo", filme pelo qual funciona muito bem ela e o ator protagonista. Há um bom equilíbrio. Bacana você ter citado sobre a qúimica entre Hepburn e Bogart, também acho que não é das melhores.

Abs.