24 de ago de 2012

O Retrato de Dorian Gray

The Picture of Dorian Gray. EUA, 1945, 110 minutos, drama. Dirigido por Albert Lewin.
O filme definitivamente não consegue impressionar o espectador, ficando a impressão de que a história não foi bem transportada para as telas.

“Não há boa influência. Todo influência é imoral”. – Lord Henry Wotton.

Como usualmente acontece com todos os bons livros lançados no mercado literário, eles são adaptados para o cinema e transformados em eventuais bons filmes. A lista de obras que podemos citar é imensa e "O Retrato de Dorian Gray" (1890), escrito por Oscar Wilde no final do século XIX, é uma dessas obras. Tenho a impressão de que o personagem criado por Wilde é de conhecimento universal – todos que já estiveram numa sala de aula, que conhecem uma biblioteca ou que gostam de ler ou ver filme conhecem a figura que Dorian é.

Dorian Gray é a fiel representação do homem que não quer ser consumido pelo tempo. Se se lembram da mitologia greco-romana, aquela na qual Cronos é descrito como um feroz devorador de seus filhos, rapidamente teremos consciência de que Dorian é o filho que não será atingido pela força desse deus – Cronos, ou o tempo, não será capaz de destruí-lo. Dorian é ainda um homem mascarado. Nunca escondera o rosto, é verdade; no entanto, sua face bela e jovem está sempre escondendo as cicatrizes de sua alma corrompida pelo orgulho, egoísmo e pela indiferença com os outros. Decerto é um dos personagens mais interessantes da literatura inglesa – e talvez da literatura mundial – e sua influência na área literária é tão grande que chega até mesmo a ultrapassá-la: aposto que homens invejam a “sorte” de Dorian; os produtores e roteiristas acham a narrativa de Wilde tão original que repetidamente a usam como elemento implícito em seus roteiros.

É inegável para mim que o livro continua sendo notadamente melhor do que o filme, mesmo que essa produção de 1945 seja potencialmente uma das melhores adaptações que eu já vi. A transposição das páginas para as telas da história do homem que vendeu sua alma pela eterna juventude e beleza é realmente elogiável – Albert Lewin, o roteirista, cuidou para manter os aspectos mais interessantes da obra de Wilde: manteve os momentos mais importantes, não desrespeitou as noções temporais, fez permanecer a linearidade da destruição moral de Dorian – enfim, ainda que tivessem sido feitas algumas poucas modificações, o resultado final da adaptação ficou satisfatório. O que achei mais curioso em relação à escalação do elenco é o modo como as personagens femininas, quanto à beleza principalmente, tiveram mais destaque do que o elenco masculino. Sibyl Vane e Gladys Hallward conquistaram meus olhos e meu carisma – as intérpretes, respectivamente Angela Lansbury e Donna Reed, mostraram-se tão talentosas em suas interpretações que penso que as duas sejam ainda mais interessantes do que o respeito que Lewin teve pela história de Wilde. Hurd Hatfield é bonito, mas nem de longe se parece com o Dorian Gray que eu imaginava – essa é a parte boa dos livros: nós sempre podemos acentuar ainda mais as características dos personagens, o que se torna dificílimo quando temos como base uma figura já pronta no físico de um ator. Quanto aos atores que eu já citei, posso garantir que o efeito mais positivo de suas interpretações é sutileza; todos estão bastante concisos e simples, em atuações lineares. George Sanders também está bem, mas devo dizer que, tal como Dorian de Hurd Hatfield, eu não imaginava Lord Henry como aquele que foi composto por Sanders. Na verdade, ele até me irritou um pouco: efusivo demais, falando sem parar, tom de voz muito alto. Não gostei muito do que vi em relação ao ator, mas não o credito pela minha recusa em gostar desse personagem – talvez Lord Henry seja exatamente assim mesmo e eu o tenha imaginado um pouco mais sutil.

Teci elogios sobre a adaptação, sobre o roteiro de Lewin e discorri brevemente sobre os atores – como perceberam, não tive reclamações notáveis até aqui, o que pode lhes fazer pensar que eu adorei o filme. Afirmo que não: não gostei do filme como um todo. A obra tem suas qualidades, mas creio que algo se perdeu na mudança do plano de expressão. O filme me parece pequeno demais comparado ao livro, o filme parece sem brilho, muito apagado, simplório demais. Talvez tenha faltado mais força nos diálogos e mais firmeza no desenrolar da trama. Falta também um pouco de dinamismo, para acelerar o ritmo, tornando assim o filme mais interessante para quem o vê. Ainda que seja uma adaptação elogiável, o filme não o é – para mim, é uma obra que pode facilmente passar despercebida pela vida cinéfila de alguém que é fã de filmes. O que quero dizer é: não penso que O Retrato de Dorian Gray seja uma obra cinematográfica capaz de deixar uma marca no espectador, que provavelmente se esquecerá dos belos rostos de Lansbury e Reed pouco depois de conferir a obra. Penso que a versão feita em 2010 seja inferior a essa... tão logo que a vir, vou comentá-la aqui também, resenhando o filme e, num post especial, comparando as versão de 1945 e a versão do ano passado.

6 opiniões:

Rafael W. disse...

Esteticamente é um filme envelhecido, mas sua mensagem soa tão pertinente hoje quanto na época de seu lançamento.

http://avozdocinefilo.blogspot.com.br/

Alan Raspante disse...

Eu quero ver o filme, mas estou "tentando" ler a obra antes, rs

Celo Silva disse...

Assisti esse filme a muito tempo, mas nem de longe é um dos meus clássicos favoritos. A estetica noir impregna o filme, por ser uma época em que esse era um estilo comercial dominante e acho q isso atrapalha a condução da narrativa.

Abração.

J. BRUNO disse...

Li o livro pela primeira vez no segundo semestre da faculdade e foi amor à primeira vista, gosto do estilo de narrativa literária explorado por Wilde, que consegue ser singelo, detalhista e muito sofisticado. De lá pra cá vi umas três adaptações do livro (esta de 1945 eu ainda não vi) e nenhuma delas conseguiu me convencer. Eles não captaram a essência da obra literária que é a degradação moral do personagem, sendo que duas delas tentaram transformar o retrato em uma espécie de 'monstro de filme trash'...

Jefferson C. Vendrame disse...

Luis, Como vai?
Vim agradecer seu comentário em meu blog e me deparo com um "ótimo blog" regado de bons posts e ótimos textos! Já estou seguindo-o.

Sua resenha de Dorian Gray dispensa comentários. Muito bem escrito! Parabéns.

Espero recebe-lo em meu blog mais vezes!

Grande abraço!

O Narrador Subjectivo disse...

Preciso de ler o livro primeiro, mas parece um filme muito interessante :)