17 de ago de 2012

Sonata de Outono

Höstsonatem. Suécia, 1978, 95 minutos, drama. Diretor: Ingmar Bergman.
Maravilhosas interpretações de Ingrid Bergman e Liv Ullman. As duas são capazes de deixar o espectador estarrecido com as suas desavenças do passado.

É difícil dizer exatamente qual o fator que me atraiu nesse longa-metragem. Do diretor, Ingmar Bergman, eu sou fã há algum tempo; a atriz Ingrid Bergman me conquistou desde que eu a vi em cena pela primeira vez, quando conferi Casablanca há uns três anos; Liv Ullman me chama atenção desde que a vi em Persona. A somar, há essa trama aparentemente muito envolvente, que aborda o relacionamento problemático entre mãe e filha, já que esta acusa aquela de jamais lhe ter dado a atenção necessária por ser sempre inflexível e distante, dedicada em demasia à sua profissão.

Definitivamente, esse tipo de trama me atrai. O que me agrada é justamente a sua temática: como mostrar uma mãe que simplesmente não se importa com o filho? Muitos outros filmes já mostraram assuntos parecidos, basta lembrarmo-nos dos nomes de Mary Tyler Moore, de Ordinary People, de 1980, e Mo’Nique, de Precious, datado de 2010 – ambas as atrizes representaram mães relapsas que, de modos bem diferentes, não são capazes de dar a seus filhos aquilo de que eles precisam. Curiosamente, tanto Moore quanto Mo’Nique – e o mesmo se aplica a Ingrid Bergman por esse filme – receberam indicações ao Oscar, mostrando que há um grande número de admiradores dessas criaturas estranhas que parecem agir contra as leis da natureza e, em vez de amar, odeiam os seus filhos. Beth, personagem de Moore, é taxativa e inquisidora em sua pergunta: “que tipo de mãe odeia o próprio filho?”; ela mesma sabia, porém, que estava mentindo ao dizer aquilo. E creio que algo semelhante pode ser dito a respeito de Charlotte, personagem de Bergman nesse longa-metragem.

Acredito que o roteiro ganhe força ao opor as personagens Charlotte e Eva, respectivamente a mãe relapsa e a filha submissa. O filme se inicia com uma clara tentativa de reaproximação entre as duas, mas pouco a pouco percebemos que uma sufoca a outra. Enquanto Charlotte não foi feita para o convívio familiar – é claro para o espectador que ela não se sente à vontade naquele ambiente –, Eva não foi feita para o tipo de vida que a mãe tem. Uma é vive pela profissão enquanto a outra vive para si mesma e para os outros, não é à toa que Eva dedica-se arduamente a cuidar de irmã deficiente enquanto Charlotte simplesmente optou por deixá-la num asilo, de modo que sua enfermidade não lhe atrapalhasse a carreira de pianista. O roteiro em momento algum exibe as personagens em uma situação de extremo conforto. Ambas estão tensas, ambos estão rígidas em pensamentos sufocantes.

Ingmar Bergman dirige um dos seus filmes mais convencionais e curiosamente é um dos meus preferidos, mesmo que aqui não haja toda a simbologia de Persona, ou a metaficção da Trilogia do Silêncio. Essa obra me parece bastante objetiva, mas há alguns efeitos estéticos que somente um diretor como Bergman seria capaz de conseguir. Traçarei um paralelo com o “clássico” do autor, intitulado pessimamente no Brasil como Quando Duas Mulheres Pecam. As duas atrizes, Bibi Andersson e Liv Ullman – esta em seu primeiro trabalho cinematográfico –, interpretam a mesma personagem e isso fica evidente ao longa do filme. Cada uma delas representa uma parte da pessoa: uma está no plano espiritual e a outra no plano físico. Numa das cenas, as duas mulheres – na verdade, cada parte da mesma pessoa – discutem e o diretor foca exclusivamente uma, para depois repetir toda a cena, focalizando somente a outra. Isso enfatiza aquilo que própria personagem representa. Uma estrutura semelhante é usada nesse filme, quando Eva e Charlotte, à escuridão da sala, discutem sobre os problemas do passado. O efeito obtido aqui é o inverso daquele mostrado em Persona. Durante a discussão, os argumentos usados por Eva – e o constante foco em Liv Ullman – apenas intensifica mais a figura de Charlotte, já que o espectador não consegue parar de pensar na criatura estranha descrita por Eva: uma mãe distante e fria, sempre ocupada com o trabalho, sempre querendo fica sozinha. Um flashback nos mostra uma memória de Eva, quando, após servir café para a mãe e sentar-se no chão perto dela, acaba sendo delicada expulsa da sala, pois a mãe queria ficar sozinha; curiosamente, ela estivera sozinha toda a tarde, ensaiando uma de suas peças.

Existem pouquíssimos momentos em que uma atriz é tão espetacularmente capaz de carregar o espectador para dentro do universo psicológico de sua personagem. Maravilhosamente, em Sonata de Outono, não apenas uma atriz consegue esse feito; ambas o fazem! Tanto Ingrid Bergman quanto Liv Ullman constroem uma complexidade contra a qual não podemos lutar – os seus argumentos e as suas posturas simplesmente estão ali, nada podemos fazer para nos afastar daquilo. Em seu livro, The Secret Language of Film, Jean-Claude Carrière afirma categoricamente: “Não gosto de dizer: como ele atua bem! Prefiro que o ator me faça chegar mais perto dele; prefiro esquecer que ele é um ator e deixar que ele me transporte – como ele mesmo foi transportado – para um outro mundo” (CARRIÈRE, 2006: 171). É exatamente isso o que acontece aqui: Bergman e Ullman fazem-nos crer que são mãe e filha, carregam-nos para a vida e as angústias de suas personagens; a cada grito de Eva, o espectador se sente gritando junto; a cada olhar de cansaço Charlotte, o espectador se sente desconstituído também. Indubitavelmente, as duas estão em plena sonata: elas são dois instrumentos que rangem em profunda desarmonia e que, ao mesmo tempo em que incomodam o espectador, enchem-lhe também de emoção.

O filme tem apenas uma hora e meia, mas a discussão das personagens e o clima criado entre elas fazem com que pareçamos estar a mais tempo diante da tela. Isso não é ruim, porém, porque essa obra nos mantém presos a ela o tempo todo. Inquestionavelmente, para mim esse é um dos momentos mais notáveis de ambas as atrizes e é também, como já disse, um dos meus filmes preferidos de Bergman, ao lado de Persona. É blasfêmia não recomendá-lo. Qualquer cinéfilo que preze a sua cinefilia não deixa de conferir esse título sueco, que é de extremo bom gosto artístico e estético.

Bibliografia:
CARRIÈRE, Jean-Claude. A linguagem secreta do cinema. Tradução: Fernando Albagli e Benjamin Albagli. 1. ed. especial – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006

1 opiniões:

Celo Silva disse...

Um dos grandes filmes desse mestre, mas não é meu favorito. Gosto mais de Persona, Morangos Silvestre e O Sétimo Selo.