21 de set de 2010

O Auto da Compadecida

Brasil, 2000, 150 minutos. Comédia.

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Acredito que não haja muitos brasileiros que desapreciem esse filme, que foi baseado numa minissérie de 4 capítulos exibida em 1998 na Rede Globo. Tenho certeza de que os mais frescos, que torcem o nariz pro cinema nacional, possam criticar a obra, mas eu não vejo como deixar de amitir que O Auto da Compadecida é um dos melhores filmes brasileiros e reúne os aspectos mais importantes para o sucesso de uma produção: bons atores, ótimo roteiro, excelente direção, fotografia boa e um humor maravilhoso, que nos faz embalar pela história divertida que é narrada. João Grilo e Chicó são dois amigos que tentam lutar pelo pão a cada dia e, normalmente, por onde passam, devido às histórias e mentiras de João Grilo, acabam fazendo surgir confusão. Na cidade, acabam por promover o tumulto entre Dora, esposa adúltera, e Eurico, o padeiro traído; o Padre João e o Bispo; o major Moraes e também arrumam confusão com Severino, um cangaceiro que se passa por mendigo.

É importante ater-se à ideia de que O Auto da Compadecida é um filme sério, embora a sua seriedade - no sentido profissional - se deva ao tom cômico. Já ouvi pessoas falando que o filme é muito caricato, que é exagero, mas elas não entendem que todo o charme do filme está nessa caracterização e que é a demasia que lhe proporciona o humor com o qual o público se entretém. Assim, os personagens - como o Padeiro Eurico - não são tão bobos quanto seriam na vida real, pois a intenção dessa produção é mostrar personagens tipicamente construídos sob uma determinada característica; não são como são porque o roteiro aborda mal o comportamento humano, até porque o filme não aborda com dramaticidade e argumentos psicológicos o ser humano: ele simplesmente mostra a relação entre eles que se dá mediante o interesse maior. No caso de Dorinha, por exemplo, é o sexo; para o Padre e o Bispo, é o dinheiro. Com exceção das pessoas cuja capacidade de absorção é ridiculamente pequena, todo mundo compreende o ponto a que o filme quer chegar e definitivamente não é analisar criticamente.

Eu realmente acho que O Auto da Compadecida é um dos melhores filmes brasileiros, pois reúne não somente um elenco muito bom e extremamente capaz, como também tem um roteiro muito inteligente e agrada aos espectadores, até mesmo os mais exigentes. Na minha opinião, Matheus Nachtergaele tem um desempenho tão fabuloso que não me espanta as várias indicações que o ator recebeu nos circuitos de cinema nacional. É tão bom vê-lo em cena, compondo seu personagem de maneira tão curiosa, tão divertida. Outra grande surpresa é Denise Fraga, que posteriormente começou a protagonizar quadros desinteressantes no Fantástico. Ela faz de Dorinha uma personagem completamente satírica, principalmente quando Dora tem uma quedinha por homens bravos, incluindo o próprio Diabo. Na minha opinião, são esses os dois artistas que mais se destacam ao longo desse filme, embora outros, como Selton Mello, tenham um desempenho satisfatório e logicamente acrescentam humor à toda a trama. A fotografia é muito boa, mostrando com eficiente o cenário árido do sertão; de certa forma, o ambiente é um dos fatores mais favoráveis à história, principalmente por causa das cores fortes, o amarelo excessivo, etc.

Eu tenho que recomendar esse filme porque, como disse, é um dos melhores filmes brasileiros. Embora seja meio longa, cerca de duas horas e meia, vale a pena assistir a essa produção, que foi baseada na obra homônima de Ariano Suassuna. Talvez seja válido ler a obra dele também, mas isso talvez eu faça mais para a frente.

19 de set de 2010

Diários de Motocicleta

The Motorcycle Diaries. EUA, 2004, 118 minutos. Drama

Indicado a dois Academy Awards, nas categorias Melhor Canção Original (Al Otro Lado Del Rio) e Melhor Roteiro Original.
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Diria tratar-se do terceiro filme espanhol a que assisto essa semana, mas não sei se posso considerá-lo assim, afinal o filme é estadunidense, com atores mexicanos e dirigido por um brasileiro. Se leram as análises de E Sua Mãe Também e Tapas, perceberão que citei o charme castelhano da produção; aqui, talvez por ser produzido nos Estados Unidos, segue a linha americana de drama. Assim, tal como muitos bons dramas que vêm de lá, Diários de Motocicleta se revela um excelente drama, que narra a viagem que Ernesto Guevara e Tomás Granado, dois jovens amigos, decidem fazer saindo de Buenos Aires, indo até o extremo sul do continente e depois indo ao extremo norte de motocicleta.

Certamente o roteiro do filme é muito bom, então, tenho que admitir que a indicação ao prêmio fica mais do que justificável ao longo da obra. A maneira como tudo é abordado faz com que o espectador acompanhe a viagem, os prazes e os desprazeres que ela provoca; tudo isso acontece de uma maneira simples, porém muito eficiente. Diários de Motocicleta nos mostra que, embora a jornada seja pessoal, com fins particulares, Guevara e Granado dispõe de humildade o bastante para ajudar a todos que necessitam. As cenas são vistas de maneira bastante objetiva, sem muitas metáforas, sem grandes adornos; desta maneira, nós conseguimos nos apegar aos personagens e aos seus idealismos sem nos confundirmos com outros elementos presentes ao mesmo tempo. Além da história em si - e de outros aspectos sobre os quais falarei mais abaixo -, os efeitos técnicos são muito bons: o filme tem uma edição muito eficiente, que, embora corte trechos da viagem, não interrompe o clima das cenas, dando sempre uma linearidade, conectando-as com as censas anteriores, mesmo que estas não sejam imediatamente anteriores em relação à cronologia; a fotografia também é muito bem utilizada, nos proporcionando a visão de belas paisagens, como aquelas no Chile invernoso, com as estradas e árvores cobertas de neve. A trilha sonora é interessante e a música principal tem muito a ver com os princípios idealistas dos personagens. Para exemplificar, uma das passagens da canção diz sobre todo creo que no todo está perdido. Que melhor frase para justificar o ação de Che ao final do filme? Aliás, recomendo que baixem a música e a ouçam: tão bonita, belamente interpretada por Jorge Drexler. Al Otro Lado del Rio foi a primeira canção em espanhol a concorrer à categoria Melhor Canção Original.

Acho um pouco difícil falar sobre a atuação dos atores, pois a viagem é a verdadeira protagonista, não eles. Há muito ouço falar de Gael Garcia Bernal, mas apenas recentemente dediquei atenção à sua capacidade interpretativa, sendo esse o segundo filme que me volto para analisá-lo. O primeiro fora E Sua Mãe Também e, antes desse, assisti a Ensaio Sobre a Cegueira, porém, não me ative o suficiente para percebê-lo de maneira efeitva na obra. Sem dúvida, é um ator muito competente, que trabalha com seriedade e que nãod eixa a desejar. Como Che Guevara, duvido que haja como repreendê-lo, pois se percebe o quanto o ator dedicou-se ao personagem. Em parceria, Rodrigo de La Serna, mesmo que um pouco apagado ao lado de Bernal, compõe Granado de maneira bem simpática, tornando-o um ótimo companheiro ao sempre honesto e solidário Ernesto. Walter Salles, em seu primeiro filme cuja língua predominante não é a língua portuguesa, conduz os atores muito bem e não acredito haver erros na sua direção. Como ainda não vi os diretores que concorreram ao Oscar em 2005, não posso afirmar se essa direção lhe valeria ou não uma indicação, pois preciso compará-lo aos outros. Mas definitivamente é um dos melhores diretores que o Brasil possui e muitas estrelas famosas estiveram sob seu comando, como Fernanda Montenegro, em Central do Brasil.

Não posso deixar de recomendá-lo, pois é um filme muito agradável, muito bem construído, com ótimas cenas e atuações extremamente satisfatórias. É importante notar a viagem em si, porque ela é um personagem à parte: ela molda os sentimentos e atitudes dos jovens Guevara e Granado e os modificam ao longo do trajeto. O ritmo lento pode ser um incômodo para alguns, mas definitivamente é um filme que eu recomendo às pessoas que gostam de bons filmes.

18 de set de 2010

Leões e Cordeiros

Lions for Lambs, 2007, 83 minutos. Drama.

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Assim que vi esse filme, pensei que a presença de Tom Cruise e Meryl Streep fizessem com que ele fosse extremamente interessante, ainda mais com a sinopse que li, na qual o senador interpretado por Cruise tenta convencer uma jornalista a expandir suas estratégias de combate; paralelo a esse evento, um professor tenta auxiliar um de seus alunos a dar um caminho melhor aos estudos, usando para exemplificar dois jovens que um dia tiveram aula com ele e que naquele momento estavam lutando pelo país.

O rumo nos parece muito bom no começo, principalmente porque todos os personagens estão de certa conectados um ao outro ou pelos menos à história do outro. Assim, podemos ver o quão entrelaçados estão os personagens e como as palavras soam esperançosas e ao mesmo tempo falsas diante das adversidades que as situações proporcionam. Isso é eficientemente perceptível nas cenas em que o senador explica passo a passo à jornalista a respeito de suas técnicas, numa tentativa de fazê-la cultuar o seu plano; porém, no Iraque, o espectador vê a forma como o plano falha consideravelmente à medida que o senador o eleva a um nível de infalibidade inexistente. O roteiro na minha opinião não é tão elaborado, pois dispensa bons momentos que poderiam ter sido trabalhados a fim de captar a densidade da emoção de cada personagem. As cenas intercaladas proporcionam certa expectatitva, mas se as considerarmos em sua totalidade, percebemos que elas não mostram nada novo, apenas se repetem incansavelmente.

Não acredito que esse seja um filme que dê chances para os atores, pois as cenas limitam as atuações a meros diálogos, que, tal como as cenas em si, soam sempre repetidos. Isso se torna muito visível nos takes em que Meryl Streep e Tom Cruise estão, pois a mesma fala é dita usando sinônimos. Ainda assim, acho que Cruise se mostrou bem no papel do senador, se diferenciando um pouco da monotonia dos outros personagens. O mais inútil é Todd, já que o ator Andrew Garfield fez o possível para dar um caráter soberbo e irritante ao seu personagem e as suas falas não acrescentam anda ao filme, apenas dispersam o espectador, que pouco a pouco se cansa do que vê. Robert Redford, já experiente na direção de filmes - tendo, inclusive, sido premiado com o Academy Awards em 1981 por Gente Como a Gente -, parece buscar se expressar pouco na linha narrativa pela qual optou, fragmentando tanto o filme que a todo tempo a cena anterior é retomada; ou seja, em uma hora e vinte minutos, vemos o que poderíamos ver em vinte minutos. Não posso deixar de dizer, porém, que alguns diálogos são extremamente fortes, causando no espectador uma sensação de confidência, que soa cruel quando as cenas de guerra seguem siretamente às cenas em que ocorre a entrevista. O auge de Leões e Cordeiros, cujo título é bastante interessante e faz menção a vários eventos do filme, são os momentos em que vemos os jovens na guerra e o rápido flashback no qual eles se mostram obstinados a fazer algo realmente melhor, considerando que isso signifique alitar-se ao exército.

Eu realmente não penso que esse é um filme para não ser visto, mas não tenho bons argumentos para fazê-los vê-lo. De aproveitável nesse filme, são as cenas de guerra, que somam, no máximo, um quarto do tempo total. Meryl Streep, Tom Cruise e até mesmo Robert Redford não são bem aproveitados, mas o filme não é um desastre - nem de longe o é. O título original - cujo sentido se perdeu na tradução - faz ótimas alusões a algumas breves cenas e também expressam bem o significado de algumas passagens; cabe ao espectador analisá-lo.

14 de set de 2010

Assunto de Meninas

Lost and Delirious. Canadá, 2001, 98 minutos. Drama.

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Há algum tempo, li num TOP 25 de um Blog, uma lista de filmes com temática homossexual e esse estava entre eles. Ainda que de imediato tenha querido conferi-lo, demorei uns dois meses até poder finalmente vê-lo. Eu imaginava que assistiria a um debate sobre a relação entre iguais, mas, no final, concluí que este é um filme amplamente conectado às relações humanas de uma maneira geral e aos medos e preconceitos que as tornam limitadas. É um excelente drama que merece ser visto; até mesmos os homofóbicos cinéfilos admitirão tratar-se de um ótimo filme!

Mary "Mouse" é enviada para um colégio interno devido às dificuldades de comunicar-se com o seu pai e amadrasta, já que a mãe morrerra há três anos de câncer e a garota ainda sofre a perda dela, principalmente por não conseguir, às vezes, lembrar-se do seu rosto. No colégio, passa a dividir o quarto com Tori e Paulie, duas garotas que a princípio parecem apenas amigas, mas na verdade amam-se muito além disso. Pouco a pouco, as três começam a dividir segredos e também percebem a interferência de fatores externos pertubando a relação entr elas. Basicamente, é essa a história, mas eu tenho elogios bem grandes ao roteiro, pois certamente soube aproveitar o melhor de cada personagem através de perspectivas boas e ruins, monstrando que, por melhor que seja o sentimento que se tenha, nem sempre ele é suficiente para embasar todas as ações, confugirando, assim, uma vida perfeita e conforme desejada anteriormente.

Um dos maiores acertos do filme é mostrar três tipos diferentes: Victoria é aberta quanto à sua vida, mas nutre um profundo medo em relação ao que as pessoas pensam e à relação familiar; Pauline é ainda mais aberta, chegando a um ponto de não se importa com o que pensam acerca dela, desde que possa ser livre para amar e ser amada; Mary "Mouse" - que recebe o apelido de Mary B. (de Brava, no sentido de corajosa) - é extremamente tímida, se resignando mais a ouvir do que a falar, mas que tem conceito extremamente precisos sobre o que deseja para si e o que acha dos relacionamentos com os quais convive. Quando digo que esse é um acerto, é porque num determinado momento do roteiro, todas essas personagens podem trocar de situação, ver-se na pele da outra, imaginar o porquê daquela dor e como dominá-la a fim de seguir em frente. Há uma correlação interessantíssima no filme, envolvendo o relacionamento entre Tori e Paulie e um falcão machucado na floresta; talvez, se eu explicar aqui a metáfora que enxerguei, eu acabe impossibilitando que vocês enxerguem por si só o mesmo que eu vi. Considerando isso, sugiro que prestem atenção no significado das cenas aparentemente repetitivas, mas que tem fundamento. São nesses momentos mais simples que se percebe o processo de libertação pelo qual as três personagens - inclusive o falcão - estão passando. A suavidade com que o roteiro aborda o tema nos faz gostar das garotas e torcer para que fiquem juntas, não importa sob quais circunstâncias. Outra grande acerto é a narrativa em primeira pessoa: vemos tudo pela visão de Mary B., que nos revela suas opiniões acerca do que sente na presença das amigas, ou quando está sozinha, etc.

Agora, acredito que devo dedicar um parágrafo a alogiar as atrizes principais e também à diretora. Mischa Barton - que eu pensava ser uma modelo, não uma atriz - está excelente na pele de Mary B. Sua instropecção é capaz de fazer com que o espectador a acompanhe numa jornada dentro de sua própria mente e a todo momento tentamos invadir os pensamentos dela para conhecê-los, decifrá-los. Certamente, as cenas finais, na qual ela recita a mando de Paulie trechos de Lady Macbeth, são aquelas em que quem assiste o filme realmente chega à conclusão de que outra atriz talvez atrapalharia mais do que ajudaria o resto do elenco. Jéssica Paré, intérprete de Tori, também está magnifíca, num misto de amor e preconceito, dos quais simplesmente não consegue lidar, mas que precisa, definitivamente, escolher entre um ou outro. Piper Pirabo, mais conhecida por causa de sua personagem em Show Bar, que é um filme agradável, mas também presente em bombas, como O Terceiro Olho, se revelou muito convincente nesse filme, numa atuação bem difícil, não somente pelas cenas, mas também pelo sentimento de amor profundo que deveria demonstrar. Logo, às três atrizes, dedico muitos elogios. Téa Pool, a diretora, realizou um trabalho fantástico em Assunto de Meninas, conduzindo as atrizes de uma maneira extremamente sensível e usando ótimos cenários para compor o visual inquisitivo e ao mesmo tempo belo do filme.

Ao final do filme, concluí que é um dos que eu assisti recentemente de que mais gostei. Assim, recomendo-o a todos que gostem de um drama cuja densidade é extremamente expressiva, num claro convite à reflexão. Quanto ao título nacional, que eu não poderia esquivar-me de comentar, achei-o válido, melhor, inclusive, que o original, que faz referência a uma cena específica, logo no começo do filme. O título nacional, porém, faz alusão a uma cena ainda mais densa, cujo significado é muito específico e praticamente rege todo o roteiro, do começo ao fim. Admito que os tradutores-inventores acertam às vezes. Embora eu o tenha visto sozinho, acho que uma companhia - qualquer que seja o gênero dela - caia bem, pois é necessário que haja alguém ao seu lado para quem você diga: "Uau, o filme é bom mesmo!". Eu fiz esse comentário para o meu gato, mas, muito sonolento, ele não prestou atenção em mim...

Luís

12 de set de 2010

Zodíaco

Zodiac. EUA, 2007, 157 minutos. Suspense.

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Zodíaco é um filme baseado no livro de Robert Graysmith, que também é personagem desse longa-metragem. Quando comprei o livro e o li, há uns quatro anos, fiquei ansioso para ver a produção cinematográfica, pois imaginei quão distorcidos ficariam os arquivos que são mostrados no livro; imaginei que eles se preocupariam principalmente em adotar medidas que induzam o espectador a chegar à conclusão acerca de quem é o Zodíaco e, o que seria mais desesperador, nos revelar quem ele é. Digo isso porque, para aqueles que não sabem, o livro nos traz uma série de evidências, anotações, cartas, etc., mas no final não revela quem é o assassino, até porque ainda hoje não se sabe quem cometeu todos aqueles crimes.

Descobri que o filme não somente é uma boa obra de cinema como também é uma adaptação bastante fiel. Jake Gyllenhall, à frente do elenco, já que interpreta Graysmith, faz jus à sua escolha como protagonista, pois não deixa a desejar durante as cenas; podemos perceber os vários sentimentos e desejos ao mesmo tempo no personagem. Vemo-lo obsessivo, a fim de encontrar respostas que ajudem a completar o quebra-cabeça que levará ao Sodíaco e também o vemos amedrontado, invadindo territórios alheios, os quais ele não conhece e que podem levá-lo a um dano maior. Mark Rufallo, de Ensaio Sobre a Cegueira, interpreta um detetive que investiga os crimes, quase sempre sem chegar a um resultado, prologando muito o processo investigativo. Rufallo não parece muito diferente de com está em outros filmes, numa atuação bastante morna, às vezes repetitiva e o timbre da sua voz, que deveria nos fazer pensar que ela se deve ao desânimo de não encontrar o assassino acaba nos fazendo pensar que é preguiça em demasia do ator, pois realmente parece que ele não estava com vontade de atuar. Chloë Sevigny certamente está presente no filme para fazer um favor a algum amigo que produziu o filme, provavelmente ser receber cachê; em duas horas e trinta e sete minutos de filme, ela aparece em menos de cinco minutos e tem três ou quatro falas. Dado o fato, não me considero apto a analisar tão pífia atuação. Gostei bastante da atuação de Robert Downey Jr, o Homem de Ferro, cujo interpretar se assemelha ao de Gyllenhall; ainda que não participe tanto quanto o seu companheiro de cena, não se deixa limitar facilmente e dá um caráter bastante realista ao seu personagem.

Zodíaco tem o clima certo para um bom thriller investigativo. A fotografia sombria adquire aspecto ameaçador mesmo nos momentos mais simples e o fato de desconhecermos o assassino nos faz pensar que a qualquer momento Graysmith pode estar diante dele sem saber disso. A trilha sonora do filme auxilia, criando bons momentos, mas penso que seja realmente a fotografia interessante e as cenas de mortes que dão uim charme extra. Acreditamos que veremos atitudes extremamente sádicas, como tortura, mas o mais próximo disso que o assassino chega é esfaquear o namorado na frente da namorada. Porém, a cena inicial abre a produção de maneira interessante, numa ótima sequência, muito bem editada, nos permitindo ver vários ângulos e, por fim, os disparos que Zodíaco dá contra o casal. Na minha opinião, não é um filme modinha - aquele tipo que se espalha rapidamente e do qual todo mundo gosta - ; é um filme pra um grupo mais seleto de pessoas que gostam de cinema. Não quero, porém, compará-lo a outros filmes do mesmo gênero como O Silêncio dos Inocentes; diria que se parece mais com Caçadores de Mente, embora poucos conheçam esse filme.

Considerando todos os aspectos, talvez o que único que desagrada seja a duração do filme, que, como especifiquei acima, é bastante longa. Aqueles que lhe assistem por causa de Sevigny se decepcionam; então, eu recomendo o filme se você gosta de uma boa investigação e gosta de finais inconclusivos. Recomendo também que leiam o livro no qual o filme foi inspirado, pois também vale a pena. Logo talvez o comentaremos aqui.

10 de set de 2010

A Vila

The Village. EUA, 2004, 120 minutos. Suspense.
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A Vila é um filme que causa diversos impactos nas pessoas: alguns consideram-no um lixo, outros o admiram. Eu fico on grupo que está em cima do muro: não o acho genial tampouco o deprecio. Penso que é um filme mediano, que tem seus grandes momentos e que, simultaneamente, incomoda um pouco o espectador com o seu desenvolvimento. Mais adiante, eu falarei sobre... vamos a um rápido resumo.

Vários moradores vivem numa pequena vila, sem qualquer contato com a cidade, num lugar bastante isolado. A floresta cerca a vila e todos os moradores têm consciência de que não deve cruzar os limites da floresta, ficando obrigatoriamente delimitados ao lugar onde moram. Depois de muito tempo sem ataques dos que vivem na floresta, os moradores se deparam com um ataque e um aviso, que não sabem exatamente o que significa.

A princípio, pensamos estar diante de um interessante filme de suspense, onde há elementos sobrenaturais e perigosos, que conseguem causar pânico nos moradores e, consequentemente, nos espectadores. Pouco a pouco, percebemos que o suspense existe e que há muitos segredos guardados, o que nos faz pensar que num determinado momento haverá momentos de revelação, que supostamente deve ser o ápice do filme. Não há como dizer que o filme não entretém, porque até metade dele, o desenvolvimento é completamente aceitável e o clima criado é de um suspense interessante, que sempre nos faz perguntar o que exatamente é aquela vila. O roteiro é inteligente ao apresentar um local cravado numa região onde tudo ao redor é floresta. O fato curioso que nos deixa curiosos, e isso é um ponto muito positivo, é a formação da vila. Como ela foi parar ali? Quem veio antes: os moradores - e foram cercados pelos habitantes da floresta - ou os habitantes da floresta, que, por algum motivo, os moradores da vila foram limitados àquele espaço?  Dessa maneira, o foco inicial dos questionamentos do espectador está voltado para essa pergunta.

Com o desenvolvimento do filme e com o acontecimento que dará origem às descobertas - as dos personagens e as de quem assiste à obra -, somos apresentados à explicação de tudo. Conhecemos os motivos pelos quais a vila se encontra ali, o que é aquele lugar, como é possível a existência daquelas pessoas naquela região. Muitos podem discordar de mim, mas eu achei a explicação bastante plausível e coerente, embora, logicamente, seja improbabilíssimo que algo semelhante realmente ocorra. A explicação, no entanto, é coerente demais e contradiz a metade inicial do filme, a qual nos condicionou a esperar por espectros e monstros sobrenaturais. Ressaltando: a explicação é coerente com a trama e com a conclusão proposta pelo filme. O espectador, porém, não esperava exatamente aquele tipo de abordagem e aquela surpresa não é a que todos esperam; como consequência, muitos consideram esse filme como uma obra ruim. O roteiro assinado por M. Night Shyamalan, que também é o diretor dessa produção, possui uma tendência que o separa daquilo que propõe: deveras fantasioso, a explicação é possível e dentro dos padrões - esse talvez seja o erro do filme. Algo semelhante aconteceria alguns anos depois, quando o diretor nos apresentaria Fim dos Tempos: propunha um suspense interessante, mas, afinal, como temer algo tão banal como o vento? A Vila segue a mesma linha e todo o suspense proposto é diluído ao longo do filme.

Dentre as atuações, nenhum grande destaque. O nome de Sigourney Weaver - bastante conhecida e talentosa - me chamou a atenção, mas a atriz tem pouca participação efetiva na história, sendo deixada de lado a maior parte da trama. Adrien Brody, que um ano antes ganhada o prêmio máximo do cinema, nos apresenta uma atuação um pouco forçada, embasada em muitos cacoetes irritantes, sem se decidir se quer fazer de seu personagem um deficiente mental ou se quer torná-lo shakespeariano. Bryce Dallas Howard e Joaquin Phoenix, atores principais, têm um bom desepenho - ela interpreta a moça corajosa, capaz de tudo por amor, e ele, o rapaz tímido, que ama incondicionalmente. É exatamente essa ênfase no amor que faz com que a metade final se desenrole conforme é. Bryce nos motra uma atuação segura, sem exageros, sem maneirismo, logo ela rapidamente conquista nossa simpatia. Eu não sou muito fã de Joaquin Phoenix, mas sua atuação aqui é concisa, o que me agradou. Mas, de um modo geral, atuação não é um grande aspecto desse filme. A Vila, aliás, conta com a presença de Celia Weston, que simplesmente me irrita por suas participações nos filmes, uma vez que suas personagens praticamente não têm finalidade e os diretores a colocam para nos assustar com aquela cara horrível que ela tem.

Por fim, resta-me dizer se recomendo ou não. E acho que essa dica é difícil de dar, porque A Vila não é um filme fácil. Há nele aspectos positivos e negativos e acredito que eles equilibrem a balança - ou, caso ela esteja desequilibrada, certamente há mais qualidades do que defeitos. Ainda assim, não é aquilo que promete ser, mas, de algum modo, causa um impacto em que vê. Portanto, deixo essa decisão a vocês...

Luís
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8 de set de 2010

Adaptação: O Retrato de Dorian Gray

ATENÇÃO: o artigo abaixo possui muitas revelações sobre o enredo.
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Nesse post, tal como fiz anteriormente com o livro Uma Casa no Fim do Mundo, compararei as obras literária e cinematográfica que contam a vida de Dorian Gray, o famoso personagem do único romance de Oscar Wilde. Já comentei aqui o livro, a resenha vocês podem ver aqui; logo, comentarei sobre o filme, num post especial para comentar apenas sobre a produção feita para o cinema. Dorian Gray é uma figura tão interessante que vários filmes abordaram sua existência fictícia. Muitas adaptações do livro foram feitas; muitos filmes tiveram direta ou indiretamente Gray como personagem – só pra citar: A Liga Extraordinária e Pacto com o Diabo, produção canadense cujo título original é homônimo ao personagem central da obra de Wilde. Para a comparação, tomei como elementos o livro de Oscar Wilde e a obra cinematográfica dirigida por Albert Lewin, ou seja, a versão de 1945 dessa história.
Sinopse: Dorian Gray é um rapaz cuja beleza impressiona. O pintor Basil Hallward, impressionado com a imponente beleza do rapaz, o convida para ser seu modelo. Pinta num quadro a imagem do rapaz com todo o frescor de sua juventude. Dorian, ao conhecer Lord Henry, amigo de Basil, e ouvir dele que a felicidade se encontra na juventude, já que com o passar dos anos os homens se tornam medíocres diante dos olhos da sociedade e diante da própria vida. Influenciado pelas teorias de Lord Henry, Dorian pede diante de seu retrato que jamais envelheça e que o retrato passe a sofrer as ações do tempo; em troca disso, Dorian oferece sua alma.

1. Estrutura narrativa.
No livro: com narrador onisciente, os personagens são apresentados de modo imparcial – ou seja, o narrador, é também homodiegético (não participa da história) – e aos personagens são dados espaços para que eles se expressem. Posso dizer que, de um modo geral, o livro de Oscar Wilde é como a maioria dos livros quanto à sua estruturação funcional; sem muita pompa na engenharia da narrativa e dos eventos, a linearidade é notável e facilita a leitura.
No filme: bem semelhante à estrutura do livro, o filme possui um narrador que vai indicando alguns acontecimentos, tecendo comentários sobre alguns personagens, discorrendo a respeito da finalidade que os personagens têm na trama. O resto é como no livro, podemos dizer que a câmera é o narrador em terceira pessoa. Tal como no livro, a linearidade é perceptível e torna o filme fácil de ser compreendido, principalmente no que diz respeito a alguns eventos que não puderam ficar tão claros.
Quem ganha nesse quesito: creio que tanto o livro quanto o filme sejam eficientes nesse aspecto. O jeito como a história é narrada é relativamente fácil, condicionada para fazer com que a leitura e a compreensão sejam muito acessíveis. Ainda que eu não goste de vozes avulsas com a finalidade de explicar aquilo que o filme por si só não é capaz de explicar, não me incomodou o uso desse recurso na obra cinematográfica. Então, empate quanto à estrutura narrativa.

2. Personagens e suas funções na história.
No livro: todos os personagens são bem trabalhados e têm funções importantes. Não comentarei sobre todos, pois isso estenderia excessivamente o post. Comentarei, então, sobre aqueles que foram mais alterados. Basil Hallward, o pintor que criou o retrato de Dorian, é muito complexo no livro. Não me restam dúvidas de que Oscar Wilde o usou como forma de aludir a homossexualidade – Basil tem um envolvimento muito emocional com Dorian, ainda que esse não lhe retribua. Basil sente ciúmes e está envolvido tão amoroso com Dorian que não é capaz de aceitar o fato de que o rapaz é imoral e extremamente corrupto. As descrições de Wilde fazem questão de tornar possível essa leitura, embora acoberte o personagem com outras tantas descrições. O irmão de Sibyl Vane, responsável pelo temor constante que Dorian sente nos trechos finais, tem um espaço durante o meio da trama, no qual é narrada a sua busca por Sir Tristan (nome pelo qual Sibyl costumava chamar Dorian) e a descoberta de que Dorian Gray é um homem extremamente misterioso, cuja vida é cercada de segredos.
No filme: definitivamente não há qualquer menção à homossexualidade de Basil, que, aliás, é muito esquecido no filme, principalmente porque a sua finalidade no livro é promover um debate sobre as relações sentimentais entre pessoas do mesmo sexo; como no filme isso foi ignorado, não resta muito espaço ao personagem, que aparece muito esporadicamente – e nem se dignaram a matá-lo com o mesmo charme do livro. O irmão de Sibyl aqui é um completo estranho. Sua participação se limita a três cenas e eu nem sequer pude reconhecê-lo em uma delas. Sem a linearidade adequada em relação ao seu personagem, ele parece sem propósito – nem mesmo o narrador em off é capaz de lhe dar uma significação maior na trama. Também acho que o Dorian Gray do filme é bem diminuto em relação às descrições de Wilde: aqui ele é pomposo, menos em sua imoralidade gritante; ele é gentil e pouco perigoso, diferentemente do personagem literário.
Quem ganha nesse aspecto: o livro ganha, pois a sua abordagem é mais completa e definitivamente mais interessante.

3. Desenvolvimento da narrativa.
No livro: Oscar Wilde foi muito inteligente ao intercalar os eventos quanto à vida de Dorian Gray e as teorias influenciadoras de Lord Henry. Tudo na trama acontece com velocidade elogiável e temos a impressão de que o ritmo sempre aumenta – tanto é que vinte anos se passam muito rapidamente. Definitivamente, os acontecimentos na vida dos personagens são importantes para essa noção espaço-temporal. Acho importante ressaltar o quanto o envolvimento entre Sibyl e Dorian é descrito no livro; o primeiro encontro, as constantes idas ao teatro para vê-la, então o noivado e o convite que Dorian faz aos amigos Henry e Basil para vê-la atuando como Julieta, do conterrâneo de Wilde, Willian Shakespeare; por fim, a trágica separação. Tudo isso, embora ocupe um tempo considerável na trama, é narrado com agilidade, o que não dispersa o leitor.
No filme: tudo o que vemos basicamente é uma monótona vida de Dorian, que vai a tabernas e a pocilgas, sem ter em nenhum momento o mesmo conteúdo dramático do personagem literário. As divagações de Lord Henry são insistentemente colocadas próximas, como se Albert Lewin, o diretor, quisesse mantê-las juntas em blocos – quando o personagem começa a falar, fala por cinco minutos ininterruptos, o que cansa o espectador. O relacionamento entre Dorian e Sibyl é extremamente rápido e de atriz intérprete de Julieta, a garota se torna uma moçoila cantante. Honestamente penso que removeram uma das melhores passagens do livro, que é aquela na qual Dorian, ao vê-la atuando mal, lhe diz que não pode mais amá-la se ela não for capaz de proporcionar boa arte; ela, por sua vez, lhe diz que não pode mais falar coisas bonitas sobre amor, porque ela agora o sente em vez de decorá-lo das páginas dos livros.
Quem ganha nesse aspecto: mais uma vez, o livro ganha, pois ele não apenas é mais dinâmica, como também constrói momentos mais intensos para o leitor.

4. Impacto da obra sobre o leitor / espectador.
No livro: todo o romance nos proporciona uma série de questionamentos, principalmente no que diz respeito ao envolvimento de Dorian Gray com o tipo de vida que ele escolheu para si mesmo. É inevitável não nos perguntarmos o quão viável e produtivo é viver como o personagem vive; também nos questionamos a respeito da potencial existência de pessoas como o personagem desse livro, que são capazes de tudo pela oportunidade de viver mais ou viver mais intensamente, conceito usualmente mal compreendido – inclusive pelo próprio Dorian, que crê que enquanto estiver jovem poderá ter tudo o que quer.
No filme: criado por sutileza, o efeito em mim foi bem menor do que livro. Ao conferir a obra cinematográfica, não pude me estender em pensamentos questionadores, pois me senti meio cansado em alguns momentos, já que o filme não é tão dinâmico. Tanta singeleza impede um impacto maior; o que eu realmente me perguntei foi: o que Dorian Gray fez para que sua imagem ficasse tão destruída se, ao longo do filme, não vemos praticamente nada?
Quem ganha nesse aspecto: definitivamente, o livro.

5. Conclusões.
Tal como aconteceu quando eu analisei e comparei a adaptação de Uma Casa no Fim do Mundo, o livro sobrepôs ao filme em vários aspectos. A produção de Oscar Wilde é definitivamente melhor do que a produção deAlbert Lewin. Como usualmente acontece, o livro é mais completo em suas passagens e dá mais espaço para que todos os personagens e situaçãosejam desenvolvidos.
O Retrato de Dorian Gray foi bem adaptado? Devo admitir que achei a transposição das páginas para as telas satisfatória, o que me permite dizer que, como adaptação, o filme chega a ser interessante. Reparem que apenas me refiro ao ato de tirar das páginas e pôr nas telas – mesmo com algumas modificações, creio que seja uma das melhores adaptações que já vi. No entanto, o filme não mantém o glamour do livro e isso não tem a ver com a forma com a qual ocorreu a mudança do plano de expressão. O problema está na direção meio equivocada, que deixou o filme lento e cansativo. Desse modo, sem confundir o ato de adaptar a obra e o ato de conceber o filme, posso dizer que a adaptação é boa, mas o filme não é tão bom.

6 de set de 2010

Identidade

Identity. EUA, 2003, 92 minutos. Suspense.
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Sempre li resenhas muito positivas sobre o filme Alta Fidelidade e era esse filme que eu buscava quando me deparei com esse outro, também estrelado por John Cusack. Já tinha ouvido algumas opiniões interessantes sobre esse filme e ao somar com a sinopse interessante, que me remeteu a Agatha Christie, eu decidi pegá-lo e vê-lo. Talvez eu acabasse descobrindo uma obra boa e agradável. E foi exatamente o que aconteceu.

Duas histórias paralelas nos são contadas. Uma envolve 10 personagens que, por vários motivos, acabaram presos num motel e um a um eles começam a ser brutalmente assassinados; a outra envolve um prisioneiro que foi condenado à morte e que, no meio da noite, teve uma audiência extra marcada a fim de reavaliação a sua sentença. A princípio sem relação, as histórias vão se aprofundando até que chegam cada um em seu ápice.

O filme não conta com nenhum grande ator. Talvez os nomes mais expressivos sejam John Cusack, a esquecida Rebecca DeMornay e Alfred Molina. Os outros atores, como Ray Liota, Amanda Peet e Clea Duvall são, na minha opinião, meros encaixes hollywoodianos e servem apenas para ocupar uma posição de relativo destaque em filmes. Todos, no entanto, se reúnem nesse filme que tem uma proposta bem interessante e que logo nos minutos iniciais cumpre a sua meta, que é entreter o espectador. Com um tom sombrio e conspirador, vários eventos acontecem nos minutos iniciais fazendo com que todos os personagens se encontram no motel: um acidente, uma tempestade, um pouco de sangue, linhas mudas de telefone. Qual clima melhor do que esse para uma boa história de mistério? A somar, há as características dos personagens: uma atriz famosa nos anos 80, cheia de si e completamente arrogante; uma prostituta ladra; um casal recém-casados, ambos instáveis; uma família aparentemente feliz (se não fosse o fato de que a mãe sofreu um acidente e não pára de sangrar); um policial e um prisioneiro, que cometeu múltiplos assassinatos; e, por último, o dono do motel. Em meio à chuva, ocorre o primeiro assassinato e todos ficam em estado de alerta, porque qualquer um pode ser o próximo.

O filme é inteligente. Gostei bastante do roteiro dele, principalmente por causa do motivo apresentado que interrelaciona ambas as histórias. Não é um filme muito dispersivo. Ele vai direto ao ponto e rapidamente começa a mostrar ação, que em momento nenhum decai - isto é, do começo ao fim, o espectador se divirtirá com o que vê. O julgamento noturno fica em segundo plano, se submetendo aos eventos que ocorrem no motel. Então, se vocês acharam que aquelas passagens do filme são chatas, não fiquem tristes, porque elas são realmente curtas. A atuação dos atores certamente não é o ponto forte do filme, porque todos, sem exceção, atuam no piloto-automático, ou seja, a atuação deles é definitiva pela cena e não pela capacidade individual de mostrar o medo que sente. Mas, mesmo assim, me surpreendi com Amanda Peet, pois eu a imaginava bem mais tosca no filme! John Cusack tem aquela cara de rapaz simpático e por isso eu irrelevo o fato de ele ficar com a mesma expressão o tempo todo.

Eu definitivamente recomendo Identidade, porque é um filme interessante, com bons momentos de suspense e uma linha narrativa que interage consigo mesma, permitindo que o espectador acompanhe o raciocínio de toda a história. O final é interessante, talvez seja mesmo o ponto alto do filme. Muitos discordarão e reclamação da conclusão, eu sei. Mas são essas mesmas pessoas que não entenderam o porquê de tudo aquilo. Vale a pena vê-lo. Se você tiver uma companhia legal e vê-lo num sábado à noite, certamente gostará ainda mais do filme. E se estiver chovendo enquanto você assistir... vai ser ideal.

4 de set de 2010

A Identidade Bourne

The Bourne Identity. EUA, 2002, 118 minutos. Ação.
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Demorei muito para que eu visse esse filme. Quando todos já gostavam dele ou o detestavam, eu ainda não tinha uma opinião acerca dessa obra. Então, quando o Hugo, do Cinema - Filmes e Seriados, comentou que prefere as cenas de ação dessa trilogia às cenas de ação de O Procurado, eu decidi que tinha que ver para comprovar e, por fim, poder dizer que eu também tinha visto a trilogia.

Um rapaz é encontrado jogado no mar e depois de trazido para dentro de uma embarcação, o médico do barco descobre que o homem possui, sob a pele, um chip. Sem ter noção de quem é, esse homem, que despois descobrirá ser Jason Bourne, sai em busca de informações a respeito do que aconteceu com ele. Em seu caminho, descobrirá que está sendo caçado e que cuidado é essencial para que não morra.

Todo mundo sabe que minha preferência é por dramas, mas eu tenho umas recaídas constantes por filmes assim e gosto de ver perseguições de carros, tiros, muita violência - e por isso gosto também de filmes como Kill Bill, Busca Implacável e, como citado acima, O Procurado. Sei diferenciar bem as funções dos filmes e eu os avalio conforme o gênero em que estão. Dessa maneira, afirmo com segurança que A Identidade Bourne é um filme muito bom dentro de seu gênero, porque consegue fazer o espectador entrar no clima da perseguição e ainda pode ver boas cenas de luta. O roteiro do filme começa bem: tal como o personagem, o espectador não conhece muito, mas sabe que há um grande perigo acerca do personagem principal, afinal, por que haveria de ter um chip escondido sob a pele de alguém? De maneira ágil, com algumas cenas intercaladas, o roteiro vai nos apresentando a cilada na qual Bourne está. Logo nos primeiros trinta minutos, ele já descobre o seu nome, mas ainda não sabe quem ao certo ele é e por que está sendo perseguido. Só no quarto final de filme é que nós realmente sabemos tudo, mas, sem que o filme perca o fôlego, nos entretemos normalmente até que seja feita a descoberta.

Matt Damon não é um dos meus atores preferidos, mas ele está muito bem como Jason Bourne. Expressão concisa com a racionalidade do personagem, atos necessários e calculadas - o ator soube como incorporar o personagem e transmitir bem toda a segurança e a insegurança pelas quais Bourne passa. Acho que minha opinião foi mais favorável também porque o ator causa certa simpatia, mesmo que não sorria muito. Franka Potente também está bem em seu papel e, em atuação, está no mesmo nível que Damon. Só não achei que havia química entre o casal principal e algumas cenas, principalmente as de romance, soavam incoerente tanto com o filme quanto com os atores. Julia Stiles, que também não é nenhuma suntuosa atriz, ficou com uma personagem de significância perceptível na teoria, mas que na prática, ou seja, conforme o filme a mostra, não tem serventia nenhuma. Ainda assim, é bom ver um rosto bonito em cena - mesmo que isso não sirva pra nada. Clive Owen, em sua pequena participação, não mostra muito do seu talento. Ele apenas serve como figurante ou, sendo mais justo, como ator quaternário.

A ediçãod e imagens é realmente muito boa e isso faz com que a dinâmica do filme seja ainda maior. Os efeitos sonoros não são exagerados e não deixam o espectador semi-surdo e isso é definitivamente uma qualidade num filme em que há batidas de carro, tiros, etc. O filme possui boas cenas de ação e é capaz de entreter o espectador, que gostará daquilo que vê. As duas horas parecem durar menos e, com isso, o filme ganha mais, já que dificilmente alguém vai querer apertar flash-forward. Na minha opinião, O Procurado tem cenas mais exageradas de ação, mas, de qualquer maneira, o filme também possui um aspecto mais exagerado, logo, as cenas são coerentes com a proposta do filme. Em A Identidade Bourne, que procura mostrar algo mais sério, a sua proposta também é cumprida e, no final, fiquei bastante satisfeito, porque esperava um filme menor, menos divertido. Acho que vale a pena ver.

2 de set de 2010

Pulse

Pulse. EUA, 2006, 91 minutos. Terror.
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Eu poderia começar dizendo várias coisas, mas quero ir direto ao ponto: esse filme é muito ruim! Chega a ser difícil acreditar que esse filme foi escrito por Wes Craven, que nos apresentou o sardônico vilão do interessante A Hora do pesalo e que, mais tarde, dirigiria Pânico, filme que traria de volta os famosos assassinos mascarados. Pois bem, Craven se uniu a Ray Wryght e ambos vieram com essa bomba cinematográfica.

Essa resenha possui muitos spoilers, porque, como não há coisas boas a dizer, o jeito é criticar aquilo que vi. Eu nem sequer sei dizer do que Pulse trata. Há fantasmas, há redes tecnológicas de comunicação assim como existe um tom apocalíptico. De um modo geral, o filme fala sobre mortos que encontraram uma passagem para o mundo dos vivos através de celulares, computadores, televisores - e nos caso dos fantasmas narcisistas e das domésticas-do-além, até mesmo espelhos e lavadoras de roupa se tornam portais.

Pulse é uma bosta de filme cercado de incoerências e muitas delas chegam a ser risíveis, já que tomam o espectador por estúpido e sugerem que ele não seja capaz de perceber o quão errado aquilo está.  Um bom e rápido exemplo: Stone, depois de contaminado pelo espírito que o tocou, tem contato físico com Tim (esse segura o braço daquele) e Tim acaba contaminado também, morrendo depois; numa das passagens, depois que um espírito sai de uma lavadora de roupas (do que o espírito fazia lá, não faço a mínima ideia) e ataca Izzie, ela não passa o contágio pra Mattie, que a toca, a segura, a abraça, a beija, etc. Soa muito incoerente, mas, afinal, como poderiam matar a mocinha do filme? E no final nós podemos perceber que a lógica da coisa é: quanto mais próximo de um local onde há grande fluxo de ondas, maior a facilidade com que os espíritos transpõem a barreira do mundo dos mortos para o nosso mundo. Daí eu pergunto: qual o motivo pelo qual havia um espírito dentro da máquina de lavar roupa? Ela por acaso é como um microondas? (eu definitivamente impliquei com a maldita cena na lavanderia)

O roteiro tem uma frase que, bem usada, poderia resultar num filme bem interessante. Um personagem diz que ele e um colega tentavam criar uma superbanda-larga e que, ao descobrirem uma frequência de onda muito alta, eles acabaram fazendo com que os dois mundos se conectasse, como se uma quarta dimensão pudesse ser vista e tocada. A premissa soa interessante, mas eles não souberam usar essa história e tudo se resume a uma frase de três segundos. É meio complicado falar sobre atuações, porque o filme não apresenta isso. Se os atores estão em momentos sofríveis, nem sei o que dizer do diretor, que possivelmente não conseguiu impor sua opinião sobre aquilo que os atores apresentaram ou, por mau gosto, achou que aquilo estava bom. A parte boa é que Kristen Bell e Ian Somerhalder são bonitos e, se houvesse alguma história para contar, formariam um casal simpática. Os outros atores ou são feios e poluem ainda mais o visual do filme ou são bonitos mas desaparecem em dois minutos, não interferindo assim na poluição do filme. O tom sombrio seria bastante útil, porque causa certo incômodo, mas, considerando que o filme é uma bomba, a fotografia não ajuda em nada.

Vale lembrar que essa é mais uma das dezenas de produções refilmadas de filmes asiáticos, que, como muitos de nós sabem, ficam apenas bons quando vistos na versão original. Não sei se Kairo, de 2001, que deu origem a Pulse é bom, mas o remake certamente não tem resultado positivo e em vez de entreter ele acaba irritando o espectador, que vê uma série de babaquices e se desespera com tamanha capacidade de se fazer um filme péssimo. Certamente um bom exemplar para ser comentado no Filmes ExCelentes - com C maiúsculo -, blogue do Tobias, especializado em apresentas filmes-bomba.

Luís