26 de jul de 2010

Adaptação: Uma Casa no Fim do Mundo


Eu me lembro bem de que, há algum tempo, um leitor comentou no blog sugerindo que comentássemos o resultado das adaptações de livros, contos, HQs, para as telas do cinema. Como já comento sobre o quão fiel uma obra cinematográfica foi quando resenho um filme cuja origem provém de outro suporte artístico, decidi criar a sessão Adaptação, voltada exclusivamente para posts objetivos que visam expor as diferenças entre um livro e um filme. Estréio a sessão com uma análise comparativa entre Uma Casa no Fim do Mundo, livro de Michael Cunningham, e A Casa do Fim do Mundo, filme que surgiu um ano após a publicação do romance literário. Dividirei em blocos e comentarei individualmente cada aspecto, tanto no filme quando no livro.

Antes de começar efetivamente a analisar as duas produções, gostaria de ressaltar que é necessário não se ater à fidelidade para analisar o quanto uma obra foi bem adaptada. Ao modificar o plano de expressão – passamos da narrativa escrita (livros, por exemplo) para aquela primordialmente visual (como o cinema) –, perdemos, de certo modo, a fidelidade à obra original. Desse modo, é garantido que não haja adaptação totalmente fiel, uma vez que uma determinada característica física de um personagem no filme pode não corresponder àquela descrita no livro. E, mesmo que correspondam todos os elementos, a fidelidade absoluta jamais será obtida. Tomando esse princípio como base de minha análise, busco comparar o plano de conteúdo, ou seja, a essência das duas obras. As informações fundamentais presentes em uma devem estar presentes na outra, garantindo a transposição adequada do conteúdo. Vamos agora à análise das duas obras.

Sinopse: Jon e Bobby são crianças nos anos 60 e eles ainda não se conhecem. O primeiro vive o conforto de uma família que lhe conforta carinhosamente nos braços do pai e no metodismo inflexível da mãe; Bobby, por sua vez, é iniciado aos nove anos no uso da maconha pelo seu irmão e vê nele um verdadeiro herói. Tudo se modifica quando Carlton, irmão de Bobby, morre tragicamente num acidente doméstico e a família do garoto se desestrutura totalmente: a mãe morre depois por depressão e o pai se mantém alheio ao filho que lhe restou. Na adolescência, Bobby é um garoto solitário e Jon é tagarela, casualmente acabam se aproximando. Tornam-se bons amigos e, mais tarde, descobrem-se mais íntimos, enamoram-se. Depois de um tempo separados e já adultos, Bobby vai morar com Jon e Clare, mulher mais velha que divide o apartamento com o amigo. Aos poucos, os três descobrem-se numa tumultuada relação a três, que implica vários questionamentos e decisões difíceis.

1- Estrutura narrativa.
• No livro: a história nos é contada pelas vozes de quatro personagens: Jon, Bobby, Clare e Alice. Todos narram um pedaço da história, intercalando-se entre si e apresentado os seus respectivos pontos de vista acerca de cada acontecimento. A opção por narrar em primeira pessoa aproxima o leitor do personagem, que parece confidenciar algo. Vale ressaltar que narrativas estruturas desse modo não são totalmente confiáveis, já que temos que considerar a influência emocional pelo que o personagem passa ao narrar sua opinião; ele sempre contará de acordo com a sua visão de mundo. No livro, essa opção do autor provavelmente serve para que compreendamos o quão instável é o universo dos personagens. Pode-se dizer que, mesmo que seja uma obra linear, ela não se prende à linearidade, já que os narradores podem facilmente expor memórias e lembranças, retomando então algum evento acontecido, ocasionando um flashback. Narrando em primeira pessoa, eles se contradizem, apontam pensamentos divergentes, contrapõem argumentos. Inquestionavelmente, foi criada uma abordagem que nos permite enxergar os personagens e também os seus psicológicos.
• No filme: a história é narrada em terceira pessoa, ou seja, de modo imparcial e sem a liberdade do discurso direto que existe no livro. Sem a metalinguagem existente no livro, os personagens nos são mostrados conforme as suas atitudes, sem que saibamos quais pensamentos exatamente embasam suas ações. Embora o psicológico das quatro pessoas abordadas pelo roteiro pudesse ter sido explorado (ainda que diferentemente da obra original), o filme – provavelmente pela escolha da troca da estrutura narrativa e pela alta intensidade sintética – não mostra bem esse lado.
Quem ganha nesse quesito: o livro sobressai e ganha o primeiro ponto.

2 – Personagens e suas funções na história.
• No livro: os quatro personagens supracitados – Jon, Bobby, Clare e Alice – são personagens fundamentais e todos têm a função de personagens principais. Todos têm as suas características físicas descritas no romance, mas me apegarei às suas características mentais e psicológicas. Jon e Bobby apresentam-se de modo oposto: o primeiro é tagarela e explosivo, o outro é quieto e contido; eles basicamente se contrapõem de modo a se completar. Clare é uma mulher com muitas expectativas e dúvidas, principalmente no que diz respeito ao futuro ao lado de Jon e Bobby; pode-se dizer, então, que ela é a mente dos três, pensando sempre no modo pragmático de fazer a vida funcionar. Alice é uma mulher aberta às novas experiências, desde que isso não afete aquilo que ela crê ser inerente ao sistema; uma família, por exemplo, deve consistir numa mãe, num pai e em filhos – um segundo pai não está incluso na soma dela. Ela é contraditória e isso se deve às suas constantes tentativas de esquivar-se da vida que leva; quanto a isso, é liberal (chega a fumar maconha e a se relacionar com um homem mais novo depois da morte do marido), mas não abre mão de que o filho, Jon, não seja alvo de uma vida tortuosa.
• No filme: todo o filme é narrado tendo como personagem principal Bobby, interpretado por Colin Farrell. Ainda que as tentativas de manter as características dos personagens possam ser vistas, elas acabam não aparecendo totalmente. Isso se deve ao elenco, mal escalado – no caso de Farrell e Dallas Roberts – e mal aproveitado – no caso de Sissy Spacek e Robin Wright Penn. Assim, Bobby parece totalmente bobo, Jon parece uma bichinha chata e hipocondríaca, Clare parece ser uma escrota invejosa (por causa da sua cena final, meio mal elaborada, quando decide abandonar os rapazes e criar a sua filha sem nenhum pai) e Alice não tem função nenhuma na trama.
Quem ganha nesse quesito: o livro, de novo, que aborda muito melhor os personagens e as relações deles com o mundo e, sobretudo, consigo mesmos.

3 – Os eventos acerca dos personagens.
• No livro: Suas histórias nem sempre se cruzam, como é o caso de Alice, que durante a adolescência dos garotos se envolvem maternalmente de modo muito intenso com eles e, ao mesmo tempo, vê nesse envolvimento um escapismo para o seu casamento acomodado. Jon e Bobby narram, durante a adolescência, como se aproximaram e como se sentem em relação um ao outro. Clare entra somente a partir da metade do livro, quando os rapazes já têm por volta de 23 anos, e a partir de então, aborda também os seus sentimentos em relação aos dois. Creio que seja certo dizer que haja duas histórias sendo contadas – a dos três e a de Alice – e que essas histórias se relacionam, mas não necessariamente dependem uma da outra. A importância da família e os modos como a sociedade a enxerga é um tema comum a todos os personagens e todos tomam alguma atitude em relação a melhorar o modo como serão vistos.
• No filme: tudo o que acontece no livro – e que corresponde bem ao que se espera ver numa obra cinematográfica – acontece no filme. Creio que todos os eventos importantes tenham sido mantidos, com grande destaque para os diálogos e passagens que podem facilmente ser correlacionadas com a obra original. Como o roteirista é Michael Cunningham, o autor do livro, ele soube manter os momentos e acontecimentos mais inspirados do seu romance. O único defeito reside na completa exclusão de Alice – incluí-la talvez resultasse em acrescentar vinte e cinco minutos ao filme, totalizando então duas horas, que é um tempo bom e que não cansaria ninguém.
Quem ganha nesse quesito: devo dizer que não gostei do modo como os acontecimentos que dizem respeito a Alice foram tratados no filme, mas compreendo a necessidade de se reduzir o livro de modo a fazê-lo sucinto para caber no filme. Considerando isso, ganham um ponto tanto o livro quanto o filme.

4 – Desenvolvimento da história.
• No livro: ao pensarmos que um autor transforma quatro personagens em protagonistas e lhes dá espaço para narrarem sua própria história, logo se percebe que o desenvolvimento é lento e gradual, possibilitando a inclusão de elementos complicadores que dramatizam ainda mais a vida dos personagens e que então os conduzem ao clímax adequado. Assim, há o momento para a descoberta do romance, a descoberta por Alice de que seu filho e Bobby são mais que amigos, o envolvimento entre Jon, Bobby e Clare, o afastamento entre eles, a união de novo – na casa afastada de tudo, que dá título ao romance -, e, por fim, o final, que é muito bom. Tudo isso com o tempo necessário para o leitor absorver o máximo de informação.
• No filme: pela tentativa maluca de encaixar tudo em uma hora e meia, o filme não se ocupa muito em desenvolver nada e, por causa disso, até mesmo duas personagens – Clare e Alice – acabam praticamente suprimidas da história. O desenvolvimento é tão rápido que não temos tempo para acompanhá-lo e entendê-lo e assim o filme parece muito superficial, já que não consegue embasar suas cenas nos questionamentos relevantes que seriam vistos se houvesse mais tempo para a condução adequada da trama.
Quem ganha nesse quesito: inquestionavelmente, o livro.

5 – O efeito da obra no leitor / espectador.
• No livro: há muitas passagens que são realmente estarrecedoras, cito, por exemplo, a página 62 – quando os personagens Jon e Bobby trocam carícias pela primeira vez –, a página 98 – quando os dois são flagrados pela mãe enquanto masturbam um ao outro – e o final muito intenso, que propõe uma série de questionamentos. Vale ainda ressaltar que a paixão de Bobby por discos fazem com que o livro seja quase musical. Algumas vezes, o autor usa um tom correto, outras vezes nos deixa boquiabertos. Em nenhum momento, porém, nos sentimos entediados ou cansados de lê-lo.
• No filme: a maioria das passagens são insatisfatórias, tendo apenas algumas poucas que chegam a ser corretas. Por ser um filme dramático, ele é tratado com suavidade demais, o que destoa de sua própria proposta. A superficialidade coloca o espectador contra o próprio filme. Num momento qualquer, eu comecei a me distrair, retornando depois ao filme, na esperança de que ficasse mais interessante.
Quem ganha nesse quesito: adivinhem.

Conclusões.
Na transposição do livro para o filme, a história se perdeu de tal maneira que tudo nela parecia breve e superficial, como se não houvesse conflito entre os personagens e as situações que vivenciam e como se todos os sentimentos que lhes embasassem as ações fossem extremamente irrelevantes. Como usualmente acontece, a obra adaptada ficou aquém da obra original e, nesse caso, o grau de inferioridade é gritante.
A Casa do Fim do Mundo é uma boa adaptação? Não, o filme, como adaptação, é insatisfatório, e como obra independente também o é. Desse modo, recomendo que todos se atenham apenas à obra literária, que é realmente muitíssimo mais interessante.

Luís

2 opiniões:

Rafael disse...

Não gosto de adaptações, porque é inevitável ficar comparando.
E nesse filme ai tá tudo errado: se já não bastasse ter Colin Farrell como personagem (principal ainda!!!) ele só ganhou um pontinho visivelmente pelo dó que acometeu o autor do post num momento de fraqueza.

E Colin Farrell devia ter morrido naquela cabine telefônica.

Renan disse...

Adaptações são complicadas. Não concordo quando dizem que todas as adaptações ficam abaixo do original, mas é realmente difícil tornar as duas obras boas. A mudança do papel para o telona, a mudança de perspectiva são elementos que deturpam a visão primária que se tem da obra.

Não li o livro e não vi o filme, mas depois disso, a vontade de ver o filme está beirando a 0.Colin Farrell é um elemento difícil também. Definitivamente ele não combina com dramas.