19 de abr de 2010

O Retrato de Dorian Gray

The Picture of Dorian Gray. Inglaterra, 1890, 296 páginas (Clássicos Coleção Abril).
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Há muito gostaria de ler esse livro. Com o lançamento em breve da nova versão da história de Oscar Wilde - e também com os lançamentos semanais de vários clássicos por preços bastantes acessíveis -, me senti obrigado a ler essa obra, que, decerto faz parte dos chamados "Clássicos da Literatura" e que merecidamente vem sendo lida há mais de cem anos!

Basicamente, basta falar  nome Dorian Gray para que qualquer pessoa com o mínimo de cultura seja remetida ao personagem famosíssimo. E todos sabem o esboço simples da narrativa: uma imagem num retrato que se deteriora na aparência, permitindo que o homem retratado permaneça com a juventude inalterável. O que falta acrescentar é mesmo pouco,  uma vez que o essencial para atrair a curiosidade do leitor é aquilo que eu já citei: o porquê da transfiguração do quadro e não do homem.

É importante, antes de mais nada, ressaltar que na obra não há vilões ou mocinhos. Todos de certo modo são heroicos e vis, todos têm características positivas e negativas. É comum pensar que Dorian Gray seja o vilão da história; o simples pensamento de que ele optou por permanecer jovem por fora enquanto o seu interior murchava causa nas pessoas o julgamento de que ele seja o personagem ruim. Vale lembrar que ele talvez seja tão ingênuo quanto Sybil Vane, garota por quem ele se apaixona. Não me restam dúvidas de que Dorian é de fato o melhor personagem do livro. O autor não apenas colocou o seu nome no título do romance como também se ocupou em criar um personagem denso, dúbio, profundo à sua maneira. Para dar-lhe suporte, surgem outras duas grandes figuras: Lorde Henry e Basil Hallward. Talvez devamos culpar o primeiro pelo corrompimento da alma de Dorian; devido a sua filosofia e aos seus argumentos, convenceu o personagem-título de que a vida só valia a pena enquanto somos jovens. Ainda que Dorian fosse a pessoa que encatava a todos com seu charme, era Henry que induzia as pessoas. Ele sabia como dominá-las, como introduzir nelas um pensamento tão amplo - destrutivo, às vezes - e, por fim, aos poucos, elas caíam nas palavras ardilosas dele. Basil, por sua vez, representa o que há de suave. Seu sentimento por Dorian é gentil e sua condescendência é notável, mesmo diante de notáveis maus tratos.

Oscar Wilde não poupou o seu único romance do brilhantismo: nele inseriu uma profunda análise do ser humano, não apenas no quesito psicológico, como também amoroso e sexual. A princípio, constrói uma cena na qual nós conhecemos Dorian por intermédio de ideologias provindas de Basil Hallward, o pintor que pouco depois pintará o famoso quadro. A maneira como o artista cita o seu modelo-vivo é encatadora e, então, começamos a suspeitar de que há mais do que simples admiração artística. Depois, surge Dorian, com sua mente fragilizada e influenciável, e Lorde Henry, bastante astuto, eterno questionador e filósofo. Usando esses personagens, Wilde mostra o desejo secreto do homem: permanecer sempre no topo, independentemente do que isso signifique. Segundo a teoria de Lorde Henry, em suas próprias palavras, "o senhor dispõe só de alguns anos para viver deveras, perfeitamente, plenamente. Quando a mocidade passar, a sua beleza ir-se-á com ela; então o senhor descobrirá que já não o aguardam triunfos, ou que só lhe restam as vitórias medíocres que a recordação do passado tornará mais amargas que destroçadas". Fica claro no livro que a juventude não apenas é instável - é difícil ater-se ao que é moralmente correto e o que é prazeroso - como circunstâncias ocorridas nessa época tornam-se grandes problemas no futuro. Dorian, antes consumido pela vontade de permanecer jovem, dedicara-se também a práticas imorais, destrutivas, sujas. Com isso, já tendo destruído sua vida, destruiu também a de outras pessoas - inclusive a do amigo Basil. Mais tarde, depois de abordar a corrupção da mente e do corpo, Wilde fecha a sua narrativa com um dos finais mais breves - não menos intensos, porém - da literatura: a redenção, por fim.

Acredito que lê-lo seja uma ótima fonte de estudo psicológico. Há muito o que se dizer dos personagens, há muito o que analisar na narrativa. Oscar Wilde ousou ao compor uma obra na qual critica o comportamento inglês da época, relata (de maneira sutil, evidente) o envolvimento amoroso que Basil sente por Dorian, fala sobre prostituição. Decerto, é uma obra clássica, que deve ser lida e, algum tempo depois, relida. Os personagens, assim como toda a narrativa, são bastante marcantes e ouso dizer que Dorian não é o único protagonista, uma vez que boa parte de sua construção se deve à participação de Lorde Henry. Oscar Wilde pode ter escrito apenas um romance, mas não tenho dúvidas de que o fez num momento certo e que o compôs da melhor maneira como poderia ser composto. Agora, resta-nos saber se a nova versão dessa história estará à altura do livro que a originou...

Luís

1 opiniões:

Débora disse...

Eu tenho esse livro!!
Comprei pq vc me indicou...Comecei a ler, mas por causa da facul tive que parar...em breve espero retomar a leitura...parece realmente bom!
Beijão, Luís.
PS: Como sempre um texto muitissimo bem escrito!
=)