22 de jan de 2012

Grandes Mentiras

Mentiras y Gordas. Espanha, 2009, 107 minutos, drama. Diretores: Alfonso Albacete e David Menkes.
Talvez eu o consideraria bom se o roteiro não priorizasse o sexo e as drogas em vez dos relacionamentos dos personagens e das suas interações.

Assisti a esse filme por recomendação de um colega e, considerando que algumas vezes ele me recomendou coisas boas – eventualmente, algumas bem ruins também –, eu decidi conferir esse filme intitulado originalmente “Mentiras y Gordas”, título que eu realmente não sei se é melhor do que a obviedade porca do título nacional.

Eu não sei bem o que eu esperava ao começar a assistir a esse filme. Mas eu deduzi pelo pôster que múltiplas histórias seriam contadas e provavelmente entrelaçadas em algum momento da narrativa, conectando então todos os personagens numa “única” trama. E é mais ou menos isso que acontece nesse filme, que fala sobre a relação de vários personagens com o sexo, romances e drogas – não necessariamente nessa ordem e não na mesma intensidade, haja vista que os personagens transam e se drogam em 90% do filme e raramente somos apresentados à parte que diz respeito aos seus envolvimentos amorosos.


Acho que o que me motivou a não detestar o filme foi o excelente humor que eu estava quando eu o conferi. Não poderia mesmo estar mal humorado, afinal, no mesmo dia, eu havia anteriormente assistido aos maravilhosos Rear Window e Belle de Jour, de Hitchcock e Buñuel, respectivamente. E o que me leva a escrever sobre esse filme sem massacrá-lo é também o bom humor do dia, porque se eu realmente o tivesse analisado friamente, como usualmente faço quando vejo filmes, eu decerto o classificaria como uma obra totalmente insatisfatória, haja vista que todo o foco do filme está em cena repetidas de sexo, que, de um modo geral, servem como alicerce dessa obra espanhola, provavelmente foi dirigida por alguém com forte tendência à ninfomania. Penso que a idéia de usar o sexo em demasia possa até sem interessante quando há um motivo que embase isso. Nesse filme, parece haver apenas a vontade de filmar diversas cenas de sexo. Curiosamente, todos os personagens aparecem nus em algum momento e todos têm o seu ato sexual – alguns deles, duas vezes!

O roteiro basicamente se divide nesses episódios: 1) Carola, que tenta ajudar a amiga Paz a emagrecer, pois ela foi abandonada pelo namorado e despedida do emprego por estar gorda. 2) Toni e Nico, que são melhores amigos, sendo que Toni o ama sem que ele saiba. 3) Marina, que se sente em dúvida em relação à sua sexualidade após se relacionar com Leo, outra garota. 4) Sonia que vende drogas para pagar a fiança de Chente, amigo seu que foi preso. Paralelamente a essas histórias, temos ainda uma subtrama envolvendo Carola, que se relaciona com o ex-namorado de Paz. Acredito que em 100 minutos, essas quatro histórias poderiam ser abordadas, mas para isso era necessário que a elas não fosse dado a mesma ênfase – se todas histórias são episódios centrais do filme, torna-se difícil abordar qualquer uma dela com maior cuidado. Assim, tudo que é mostrado é meio superficial e, no caso de Sonia e de Marina, por exemplo, não somente é superficial como ainda é repetitivo, pois acontece três vezes a mesma coisa. Já as histórias mais interessantes, que na minha opinião é a de Carola e de Toni, são meio que deixadas de lado por causa das repetições que já comentei.

Não sei bem como definir os personagens. De um modo geral, acredito que na teoria todos eles tivessem algum nível de emoção. No entanto, ao passar para a prática, os personagens parecem meio bobos, vivendo situações torpes e sendo insistentemente infantis. Só para constar: ao terminar de ver o filme, eu estava provavelmente tão drogado quanto eles, de tantas vezes que eu os vi ingerindo alguma coisa ou puxando uma carreira. Penso que haja indícios ao longo da trama de que os personagens sejam melhores do que parece. Por exemplo, Nico pode recorrer às drogas para esquecer os problemas familiares, pois o pai desempregado lhe causa transtornos ao ficar no bar o tempo todo. A situação delicada de Carola me faz pensar que ela é uma boa personagem, afinal ela quer ao mesmo tempo ajudar a melhor amiga e também ser feliz. Mas a direção complicada de Alfonso Albacete e David Menkes impede que tudo isso se desenvolva muito positivamente. Aliás, a respeito da direção, é difícil dizer o que eles pretendiam com algumas cenas, porque elas são bastante curiosas – isso para não dizer “ruins”. O orgasmo de Marina, por exemplo, é uma das coisas mais ridículas que eu já presenciei no cinema – tentativa de humor ou pura incapacidade dos diretores? Não entendi aquilo. E o que dizer do choro de Paz por não sentir a penetração do rapaz com quem está? Deprimente, no mínimo. Mas cômico ao mesmo tempo – eu ri demais, ri sem parar por uns dois minutos.

Acho que o único momento que esse filme encontra o seu tom adequado é no final, quando registra o coincidente encontro de Carola e Toni, numa cena dramática de intensidade certa, que mostra dois personagens de estilos bem diferentes – um que recorre a atitudes inconseqüentes para suprir o afeto de que precisa e outro que chora e assume a dor sem querer afastar-se dela com drogas; respectivamente, Toni e Carola. E o mais interessante é que fizeram uma cena boa, em que o espectador não julga nenhum dos personagens e até acha bonito o encontro deles. [Spoiler] Acredito que o carisma de Carola atraia a atenção de quem assiste ao filme para si, de modo que reparamos na boa intenção de sua personagem de ajudar Toni, quando percebe que o rapaz está passando muito mal. Digo isso porque momentos depois, quando os dois saem para que ele pudessem tomar ar fresco e ele, por infortúnio do destino, acaba morrendo nos braços da menina, que chora desesperada e grita por ajuda, a direção deu ares mais melodramáticos, criando então uma situação clichê – todos os amigos chegando naquele momento, Nico se jogando no chão, tomando o amigo nos braços. Enfim, se não tivessem saído do tom, a cena seria realmente a única cena excelente do filme. Com erro, a qualidade caiu, mas ainda assim é o melhor momento de toda essa obra. [Spoiler]

Devo dizer que não fiquei totalmente insatisfeito com o filme, mas isso porque eu o conferi num dia em que estava de boníssimo humor, por influência dos filmes que havia visto antes. Não sei se vocês o acharão uma obra válida. A direção é ruim, isso é inegável; o roteiro é meio problemático, com muitos excessos; o elenco provavelmente teria algo destaque se a direção fosse melhor. Então, acho que no fundo não vai mudar muito na vida de vocês se assistirem ou não à essa obra.

2 opiniões:

Wilson Antonio disse...

Acho uma obra super-válida sim, e entendi a profusao de cenas de sexo sem um maior envolvimento entre eles e do abuso de drogas, consideradas recreativas ou não, como um reflexo da incomunicabilidade que rolava entre eles, bem comum na juventude das classes B e A, com o estilo de vida como os dos personagens da trama. No geral acho sim, um filme bem interessante. E pouco conhecido. Muito bom ler alguém escrevendo sobre ele! Abraço :-))))

Cristiano Contreiras disse...

Apoiado, Wilson, também acho isso. Acredito que o filme tenha sim uma direção correta, sem cuidados, obviamente, mas isso não compromete em nada a obra. É um roteiro bem interessante, mostra a juventude até como ela é, e o sexo aqui não é tão desproposital assim. No mais, eu gosto do filme. Abs!