15 de jan de 2011

Original e Remake: Disque M para Matar e Um Crime Perfeito

 

Gostaria de retomar essa sessão com uma obra que eu achasse verdadeiramente válida, por isso eu decidi comprar dois filmes que têm uma boa composição artística e estética e que são capazes de entreter o espectador. Antes de começar as comparações, primeiro devo ressaltar uma informação, a qual levei em consideração antes de começar esse texto. Tanto Dial M for Murder (1954) quanto A Perfect Murder (1998) são obras baseadas na peça teatral de Frederick Knott, sendo que esse inclusive assinou o roteiro do filme de Hitchcock. Talvez seja errôneo assumir que a obra mais recente seja um remake da anterior, quando na verdade pode ser – e é – apenas uma versão da peça de teatro, que, por sua vez, foi baseada numa produção feita para a TV americana em 1952. Desse modo, não posso simplesmente alegar que Um Crime Perfeito tenha sido refeito a partir de Disque M para Matar – comparar, portanto, as diferenças artísticas entre essas obras é desnecessário, haja vista que ambas são adaptações e que cada ao seu modo mantém a sua individualidade. Alguns alegam tratar-se de um remake, mas eu prefiro ater-me a idéia de que seja uma versão adaptada diretamente da peça e não do filme de Hitchcock. Assim, me basearei nesse pensamento para comparar as duas obras.


1. Personagens e situações.
Ambas as verões têm basicamente a mesma premissa: um homem elabora um plano aparentemente magnífico para assassinar a sua esposa e, então, encontra alguém que possa controlar para convencer a realizar o que ele havia planejado. As figuras importantes das duas obras são o marido (Tony Wendice, em 1954; Steven Taylor, em 1998 – as referências serão descritas sempre nessa ordem), a esposa (Margot Wendice; Emily Taylor), o amante (Mark Halliday; David Shaw) e o potencial assassino (Lesgate; “homem mascarado”). Como podemos perceber, todos os personagens centrais e relevantes estão presentes em ambas as obras, mas situações ocorrem de modo diferente.
No original: Tony planeja todo o assassinato e investiga a vida de um antigo colega de faculdade, o qual recentemente reviu num ambiente público. Ao verificar o seu passado, constata uma série de irregularidades e confronta-lhe com isso, chantageando-lhe e então lhe propondo que cometa o crime por dinheiro, oferta que é aceita após breve hesitação. A consumação do crime, porém, não se realiza e Lesgate acaba morto por Margot, que acaba se tornando suspeita de um crime premeditado – suspeitam que ela conhecia o homem e que, por causa de pistas forjadas por Tony, ela desejava matá-lo por ele saber do seu romance com Halliday. Ela é presa e condenada enquanto a polícia começa a suspeitar que tenha havido um erro na análise das evidências; voltam as suas atenções então para Tony, que também é alvo de Halliday, que já suspeitava que o marido tinha sido responsável por tudo aquilo. Ainda que não seja mostrado, percebemos que Tony acaba preso por ter planejado um homicídio.
No remake: Steven, assim como Tony, está consciente de que a esposa tem um amante. Então, revira o passado de David Shaw e, descobrindo irregularidades em sua vida, chantageia-o e propõe que ele mesmo seja o assassino de Emily. Nisso, o filme de 1998 se diferencia do original, já que na primeira versão a proposta é feita a um personagem que não tem qualquer envolvimento com a potencial vítima, ao passo que aqui ele tem uma conexão direta com ela. Ainda que aceite executar o plano, David acaba contratando uma pessoa para matar Emily e ela, por sua vez, consegue se livrar do homem matando-o. Sem notícias de David e reclusa na casa de uma amiga, Emily desconfia de que os problemas financeiros de Steven poderiam tê-lo feito planejar aquilo e mais tarde conclui ser verdadeira a sua suposição, pois encontra uma fita gravada por David, seu amante, na qual Steven lhe propõe o assassinato da esposa. Ela e o marido se confrontam e ele, ao agredi-la, acaba esfaqueado e morto por ela.
Ponderações: compreendo que cada obra tem a sua característica individual e gosto do modo como isso se registra em cada uma delas. Não vejo nenhuma diferença considerável de qualidade entre uma obra e outra nessa aspecto, então atribuo o mesmo olhar às duas produções – enquanto, por exemplo, o original me agrada pela sua conclusão, na qual Margot não sai matando as pessoas, o remake me agrada pelo tom verossimilhante da suspeita de Emily em relação a Steven. Assim, mérito dos dois filmes.

2. Desenvolvimento do roteiro.
Não vejo por que separar os dois filmes para comentar esse aspecto, uma vez que eu simplesmente gosto de como as coisas se desenvolvem em ambos os filmes. Penso que Um Crime Perfeito tenha um ritmo um pouco mais lento e um pouco menos de força nos diálogos, o que o torna, comparativamente, um pouco menor do que Disque M para Matar, mas ainda assim ambos os filmes conseguem manter a atenção do espectador com os seus acontecimentos. Tanto um quanto o outro possui algumas pequenas falhas em seus roteiros, como, por exemplo, o método anticonvencional e duvidoso usado para provar que Margot era inocente e Tony culpado – no filme de 1954 – e a estranha propensão de Emily a matar sem muita dificuldade tudo que lhe afronte – na versão de 1998. Considerando que haja mais aspectos bons do que aspectos ruins, acho válido admitir que cada filme, à sua maneira, é capaz de agradar com o desenvolvimento do seu roteiro.

3. Direção, elenco e aspectos artísticos.
Eis o quesito que distancia absurdamente um filme do outro. Enquanto Disque M para Matar é todo dotado de um conjunto artístico elogiável, Um Crime Perfeito se limita a ser um filme que entretém – e só.
No original: Alfred Hitchcock certificou-se de que comporia uma obra inesquecível, ousou ao captar cada ângulo, foi ousado ao criar efeitos de luz e sombra, criou tomadas teatrais, que englobam tudo que há em cena. O elenco do filme, no qual se destaca a beleza segura de Grace Kelly, atrai a atenção do espectador - na verdade, a atriz principal sozinha consegue garantir quase 100% da nossa atenção, tamanha a sua desenvoltura em cena, impedindo que nossos olhos se voltem para outro lugar que não os seus lindos olhos azuis, capazes de revelar toda a situação problemática de sua personagem. A fotografia é maravilhosa, registrando-se para mim como uma das mais interessantes, principalmente quando considero que o filme se passa praticamente todo dentro de um único ambiente.
No remake: Andrew Davis seguiu uma cartilha e dirigiu sem muita ousadia, sem um tom grandioso. Talvez tenha sido certo não ser muito pretensioso, mas decerto não foi válido compor uma obra que não se destaca pelo modo como foi dirigida. Ainda que Gwyneth Paltrow jamais poderá ser comparada ao talento de Grace Kelly, devo admitir que ela está correta na maior parte do filme. Em um ou outro momento, ela fica um pouquinho caricata, mas nada que possa comprometer a integridade do filme. Assim como ela, Viggo Mortensen e Michael Douglas estão corretos e num bom tom - os três dividem a nossa atenção ao longo do filme. De destaque, há a trilha sonora, com alguns momentos de suspense interessante, no qual a música faz diferença. Num ou noutro momento, porém, acabamos um pouco distraídos por uma súbita elevação do tom musical, característica que me incomoda.
Ponderações: considerando-se o conjunto, a obra original é notadamente superior.

4. Função de entretenimento.
Mais uma vez, não vejo como diferenciá-los, porque gosto dos dois filmes e penso que ambos sejam capazes de entreter o espectador. Tanto um quanto o outro atraem a nossa atenção e se revelam obras bastantes válidas. Não nego, porém, a minha preferência pelo filme de 1954, dirigido fabulosamente por Alfred Hitchcock, afinal, considerando todos os fatores analisados, Disque M para Matar sobressai ao ser capaz de entreter totalmente e ainda reunir um conjunto elogiável de bom diretor e elenco, bom desenvolvimento de roteiro, excelente argumento cinematográfico.

5.Conclusões.
a) A qual filme prefiro: Disque M para Matar, por causa de todos os motivos citados acima: é uma composição de extremo bom gosto na qual estão reunidos bons atores, excelente diretor, roteiro instigante e fotografia muito charmosa – e tem também Grace Kelly, linda!
b) A versão refeita faz jus ao filme original? Acredito que a versão de 1994 não ofenda o filme de Hitchcock. Não se equipara em qualidade, mas definitivamente não se trata de uma obra ruim.
c) A versão refeita é válida? Penso que, como adaptação da peça teatral de Frederick Knott, o filme seja válido. Ele não o é, porém, se pensarmos nele como um remake de Disque M para Matar, haja vista que o filme de 1954 mantém uma singularidade inalcançável e não havia como – nem por quê – tentar repetir o feito conquistado pela obra de Hitchcock.

1 opiniões:

Marcelo A. disse...

Man, você se apaixonou pela Grace!

Você sabe que esse é, seguramente, o meu filme preferido do Hitch. É um filme, acima de tudo, que tem sua força nos diálogos. E confesso que, pela primeira vez, torci pelo "bandido". Sabe o que eu gostaria? Que houvesse 3D na época. Dá pra imaginar?

Concordo contigo acerca das consideraçãoes sobre os dois filmes, mas também prefiro, com folga, "Disque M...". Só não sabia desse dado: que ambas as obras haviam sido baseadas numa peça teatral.

Que bom que retornou a sessão. Parabéns, queridão!

°/