31 de jan de 2011

Reencontrando a Felicidade

Rabbit Hole. EUA, 2011, 95 minutos, drama. Diretor: John Cameron Mitchell.
Sabe quando você sente que um filme podia ser muito pequeno, mas acabou engrandecido pelo seu conjunto de fatores positivos? Pois é, essa é uma das características desse novo filme, que traz de volta a maravilhosa Nicole Kidman.

Era o começo da década passada, o ano era 2001 e Nicole Kidman atraía a atenção dos espectadores e da crítica para a sua performance como Grace, a mãe da família-fantasma do filme Os Outros. A atriz, então, emplacou sucessos de crítica nos anos seguintes: Moulin Rouge, ainda em 2001; As Horas, de 2002; Dogville, em 2003. E desde então não consigo me lembrar de uma produção realmente boa da qual ela tenha participado. Isso até 2010, quando ela protagonizou Rabbit Hole, fazendo os espectadores se lembrarem de que ela é a mesma atriz capaz de proporcionar excelentes desempenhos.

Como devem ter notado, a interpretação da atriz me agradou totalmente e não acho que os circuitos de premiação estejam supervalorizando o trabalho de Kidman nesse filme – sua atuação é mesmo elogiável e 50% do poder desse filme está em suas mãos. A outra metade está nas mãos de Aaron Eckhart, intérprete de Howie Cobbert, esposo da personagem Becca, defendida por Kidman. Ambos interpretam o casal que há oito meses perdeu o filho e que desde então tem tentado lidar com a perda – eles vêem o filho em todos os lugares da casa e não sabem direito se querem manter isso ou se querem se ver livres para então tentar recomeçar. Como podem notar, a premissa é bastante simples e toda a história se desenvolve a partir disso.

A respeito do roteiro, devo dizer que ele já me chamou a atenção pela sua organização: estruturado in media res, nós conhecemos a vida de Becca e Howie depois que eles perderam o filho; na verdade, já se passaram oito meses desde que o seu filho morreu. O filme é linear, mas somente conhecemos aquilo que se passou antes de começarmos a assistir à obra por causa dos diálogos e das explicações que surgem quando os personagens conversam. Desse modo, não há apelos emocionais para longas cenas de choro ou cenas que mostrem a criança morrendo, o que é um ponto positivíssimo para o filme. Praticamente, todo o enfoque do filme está nas relações desses personagens e suas interações individuais com o mundo. Desse modo, as tramas paralelas e os personagens coadjuvantes servem para dar suporte à história de Becca e Howie, sem que os coadjuvantes ou as situações se tornem desnecessárias ou desalojadas na trama. Eu gostei muito de como o assunto é debatido e de como os personagens interagem. Destaque especial para dois momentos: quando Becca se revolta com as constantes comparações entre Danny, seu filho de 4 anos que cruzou a rua para pegar o carro e foi atropelado, e Arthur, seu irmão, que tinha 30 anos e morreu de overdose; depois, há o momento em que Howie discute com Jason, o garoto que atropelou o seu filho.

Acredito que o roteiro é tão bom porque ele conseguir enxugar a história dos personagens. Em apenas uma hora e meia, nós conferimos a todos os problemas pelos quais passam os personagens, a todos os seus conflitos internos e à forma como eles buscam uma nova energia para continuar a viver. A somar, conhecemos o apego que eles têm um pelo outro e o modo como desejam continuarem juntos. Isso é feito de um modo conciso e objetivo, sem longas divagações melodramáticas e incômodas. Penso que Rabbit Hole conseguiu ser intenso naquilo que buscava sem precisar ser apelativo e esse é inquestionavelmente um mérito do filme. Não nego que o clima do filme seja pesado, não havia como não o ser, afinal – estamos assistindo à história de um casal cujo filho pequeno morreu e estamos acompanhando justamente o processo de adaptação à nova vida. Os diálogos, as conversas, as atitudes dos personagens – tudo me pareceu muito verossímil e muito elogiável.

John Cameron Mitchell, responsável por uma outra obra bastante famosa, Shortbus, é o diretor desse longa-metragem e penso que o seu trabalho aqui seja notável e até premiável, ainda que eu imagine que ele não terá espaço nas premiações entre os grandes nomes dessa temporada, entre os quais estão Darren Aronofsky, David Fincher e Danny Boyle, recente ganhador do Oscar de melhor direção. É perceptível o esforço de Mitchell em retratar cada cena com o máximo de veracidade, abordando cada elemento de um modo que seja possível na vida real. E cabe a ele também um grande elogio pelo modo como trabalhou com o elenco, arrancando de todos boas performances. É inquestionável que um filme desse porte ficaria ruim se os atores principais não fossem capazes de entregar-se às situações propostas; felizmente, não é isso o que acontece. E o resultado é muito simples: Aaron Eckhart e Nicole Kidman promovem interpretações excelentes. Ambos estão em perfeita sintonia, seja nas cenas mais simples seja nas cenas de discussões – atentem para a discussão que há entre eles logo depois de ela ter, sem querer, apagado o vídeo do filho deles que estava no celular dele. Percebemos quanto os atores são bons não pelas cenas mais dramáticas, mas sim pelas cenas em que há mais estabilidade e calmaria – eles não saem do tom, carregam o clima pesado consigo o tempo todo. Assim, dou-lhes total credibilidade e realmente afirmo sem dúvida disso: apreciei as suas interpretações. Infelizmente, Eckhart está sofrendo da mesma maldição que Leonardo DiCaprio: ele está sendo ignorado em todas os circuitos de premiação. O filme ainda conta com Diane Wiest, que aparece em poucos momentos, mas que, junto com Kidman e Eckhart, consegue impor a sua presença e mostrar uma potência dramática muito válida.

Honestamente, esse filme me conquistou mais do que qualquer outro que eu tenha visto dessa temporada de premiações. Realmente não acho que esse seja inferior às obras “A Rede Social”, “Cisne Negro” e, sobretudo, não é inferior à “Minhas Mães e Meu Pai”. E sinceramente penso que não faz sentido indicar qualquer autor de qualquer um desses filmes sem também indicar o casal protagonista, ainda que eu saiba que Eckhart permanecerá ignorado. Para mim, Rabbit Hole é uma obra que merece ser vista, porque sabe abordar um tema relevante com dignidade, sem apelar para o drama à-toa e para as bobagens costumeiras dos filmes melodramáticos. Todo o elenco está em sintonia, a direção é muito válida, a fotografia é bastante bonita. A somar, adoro a metáfora do título original, que definitivamente se perdeu com essa péssima “tradução”.

3 opiniões:

Cristiano Contreiras disse...

Estou pra conferir este filme, seu texto me deixou mais tranquilo - pelo menos alguém releva todos os pontos positivos e mostra que a indicação de Kidman é justa. Tão bom vê-la indicada, não?

Não só DiCaprio e Eckhart sofrem a maldição: é um absurdo Ryan Gosling NÃO ter sido indicado também, visto que (sei que viu o filme) sua atuação em "Blue Valentine" é excepcional, densa e interessante. Assim como seu contraponto, Michelle Williams.

Vai entender a "cabeça" da Academia...

Matheus Pannebecker disse...

Olha, não achei tudo isso... Nem Nicole. Para mim, ficou apenas no ok.

Renan disse...

Gostei bastante do filme. Como você disse, a obra escolhe uma abordagem firme e consistente do tema, talvez pelo fato de que o incidente tenha acontecido a algum tempo.

Você citou duas cena que gostou. Citarei as minha preferidas: 1) A cena do mercado e 2) Quando ela discute sobre a morte do filho no grupo de apoio.


As atuações são boas mesmo. Kidman se destaca, mas Eckhart também não fica muito atrás.

Resumindo: Extremamente recomendável.