12 de nov de 2011

Amor à Toda Prova

Crazy, Stupid, Love. EUA, 2011, 118 minutos, comédia. Diretores: Glenn Ficarra e John Requa.

O roteirista e os diretores conseguiram transformar uma história singela em diversão com qualidade absurdamente superior a das diversas comédias românticas lançadas anualmente.


Ao ver notícias sobre esse filme, duas coisas rapidamente me passaram pela cabeça: “quero vê-lo”, pois no elenco está a belíssima Julianne Moore, atriz cujo trabalho eu admiro bastante, e “não quero vê-lo”, pois no elenco também está Steve Carell, um ator que, até essa atuação, ao meu ver, só esteve em uma obra interessante, que é Little Miss Sunshine. Se o visse e o achasse ruim, eu teria pouco a perder, então decidi conferi-lo.

E sorte que o fiz, porque a história é cativante e a sua singeleza envolve o espectador na desventura amorosa de Cal Weaver, um homem que, após ser deixado pela esposa, que revela tê-lo traído, ele se sente tão frustrado que passa a beber todas as noites num bar enquanto conta o seu problema amoroso. Lá conhece Jacob Palmer, um jovem bem sucedido que conquista todas as mulheres e que é, efetivamente, a representação da masculinidade. Palmer, então, decide ensinar Weaver a se valorizar e a recuperar a auto-estima, tornando-o, então um homem bastante seguro, o que, na verdade, não modifica o que ele ainda sente pela ex-esposa e nem faz com que ele deixe de se envolver em algumas confusões, principalmente quando ao seu redor estão o seu filho adolescente que é apaixonado pela babá, a babá que é apaixonada por ele (por Cal) e a ex-esposa, que o ama, mas que já não consegue se manter nem longe nem próxima dele.

Quando penso nas comédias românticas, penso sempre no arquétipo das situações-problemas que é apresentado. Dificilmente vemos algo que seja diferente de uma modelo já consolidado: o problema inicial, os conflitos pessoais que seguem humoradamente e, por fim, a solução com a união do casal principal. Crazy, Stupid, Love consegue justamente se afastar disso ao tornar os personagens e situações mais verossímeis, mais palpáveis e menos fantasiosos. Os problemas enfrentados por Cal e Emily são reais e os dois lidam com isso de forma real. Interessante notar a preocupação de Dan Folgeman, o roteirista, em não torná-la monstruosa – ela é simplesmente uma mulher que não consegue mais estar num relacionamento que não a motiva a continuar. Cal, por sua vez, por ter estado exclusivamente com Emily, não encontra em outra mulher razão para se envolver. Personagens completamente compreensíveis, bastante naturais e, sobretudo reais.

A somar, há mais a dizer sobre os personagens. Basta pensar no título principal para termos uma idéia do quanto as pessoas retratadas nessa filme são complexas: elas vivem momentos de loucura (abandonar um casamento de mais de vinte anos, tornar-se garanhão de repente), momento de estupidez (o modo como agem sovinamente, degradando a convivência em função de mesquinharias pessoais) e, indubitável e principalmente, momentos de amor – isso se verifica em todos os personagens e nas diversas relações vistas: amor conjugal, paternal, fraternal; mesmo entre Cal Weaver e Jacob Palmer se vê uma relação se amizade intensa, a qual, embora se abale – a estupidez aí –, não morre. Esse panorama da complexidade comportamental dificilmente é apresentado em outros filmes de comédia, que se limitam a personagens planos em situações unilaterais.

O lado cômico do filme se encontra basicamente nas personagens de Ryan Gosling, o qual, aliás, está bastante sedutor, e em Hannah, interpretada por Emma Stone. É claro que existem muitos momentos em que o humor se evidencia, podemos vê-lo claramente na personagem de Marisa Tomei, cuja participação é pequena, mas garante entretenimento. A escolha por intercalar momentos dramáticos e momento cômicos foi certa, isso evitou que o filme ficasse carregado, seja num gênero ou no outro – é interessante, sobretudo, perceber que a linha que separa o drama do humor é muito tênue: basta observar, por exemplo, as cenas nas quais Emily e Cal conversam no jardim, quando ela comenta que foi assistir Twilight, e quando eles saem da reunião com Kate, professora ex-alcoólatra do filho deles.

Acredito que outro fator positivo seja a dedicação dos atores. Todos estão confortáveis, mesmo Kevin Bacon, que é meio canastrão, se encontra à vontade na sua personagem. Os destaques vão evidentemente para Julianne Moore e Ryan Gosling, ambos enriquecem o filme com a sua presença. Muitas comédias são lançadas, mas poucas trazem consigo um bom elenco, um roteiro conciso e atrativo, uma direção eficiente e, ainda, um desenvolvimento – este ligado principalmente à direção – que percorre duas horas sem se deixar afetar pelos pequenos defeitinhos que existem ao longo de toda obra. Trata-se de um filme que diverte e se faz notável dentro do gênero.

3 opiniões:

Celo Silva disse...

É um filme bom mesmo, achei interessante tb q o filme trata os personagens como devem ser tratados, adulto como adulto, adolescente como adolescente e criança como criança. Não subverte isso, achei realmente louvavel, não por ser tradicionalista, mas por mostrar q muitas vezes as coisas devem seguir sua ordem natural. Abração!

Cristiano Contreiras disse...

Teu texto está excelente, meu caro, parabéns! concordo. É uma obra boa mesmo de se ver, afinal os personagens são tratados com respeito, bem humanos e não são superficiais - ainda que o filme não seja assim tão inovador, claro. Mas, agrada e é interessante, há momentos que podemos até refletir, pois as situações são bem próximas da realidade, como disse. E gostei muito de Moore neste filme, além de Gosling que é um ator muito criativo na interpretação. abs

alan raspante disse...

Uma belezinha de filme, né? Foi uma grande surpresa para mim, já que só fui ao cinema conferir por conta da Moore.

Muito bom!