6 de nov de 2011

A Casa dos Sonhos


Dream House. EUA, 2011, 92 minutos, mistério. Diretor: Jim Sheridan. 
Um filme de roteiro precário, que cria dúvidas sem se preocupar em resolvê-las e que, na sua tentativa de ser muitos outros filmes, falha na sua concepção de “mistério” - de que, segundo os produtores, o filme se trata.

Estávamos a Nathália, minha companheira de casa, e eu assistindo ao filme Salt, com Angelina Jolie, que fala sobre uma agente secreta do governo americano que é acusada de ser uma espiã russa e que, ante a acusação, precisa fugir para não ser presa pelo Estado a que serve. Numa determinada cena do filme, Evelyn Salt rouba uma roupa numa loja e eu, já achando graça da piada que faria a seguir, comentei que seria divertido se o filme, a partir daquele momento, se tornasse o drama choroso de uma mulher que tenta se reabilitar da cleptomania em vez de continuar com a ação à qual estávamos assistindo. Sempre que assistimos a filmes juntos, eu faço um comentário assim, imaginando quando verei um filme com um característica como essa.

Pois bem, vi-o hoje: Dream House. Os produtores chamam-no de mistério, os cinemas apresentam-no como terror, algumas resenhas apontam-no como drama. Como, afinal, podem as pessoas saber qual o gênero do filme se ele próprio não se decide em que categoria permanecer? Não que num filme de terror não se verifique momentos dramáticos - The Exorcist prova que isso é perfeitamente possível. Filmes de mistério possuem excelentes eventos que demonstram terror - vide Mindhunters. Já A Casa dos Sonhos, encabeçando por Daniel Craig, Rachel Weisz e Naomi Watts, fala sobre a história de uma família que descobre ter havido um assassinato na casa onde se mudaram e começam a se sentir pressionados pela figura de um homem, o responsável pelos crimes, que parece estar à espreita. Terror? Suspense? Drama? Comédia? Difícil dizer.

Essa produção roteirizada por David Loucka oscila entre os gêneros, mudando efetivamente de um para outro. Não vemos uma confluência dos acontecimentos, somando drama às situações de tensão e terror; vemos terror de uma família assombrada pelo desconhecido durante o primeiro terço, o drama de um homem em reabilitação durante o segundo terço e um misto de romance e ação no terceiro ato - o qual, aliás, finaliza insatisfatoriamente a trama. Ao assistir esse filme, não se pode ignorar outros três títulos que inevitavelmente virão à cabeça: The Others, estrelado por Nicole Kidman; The Sixth Sense, com as famosas pessoas mortes da frase do garotinho; e, por fim, Shutter Island, com aquela reviravolta inverossímil no final. A diferença é que em A Casa dos Sonhos, os enredos desses três filmes confluem durante o seu primeiro ato, deixando o espectador bastante surpreso, pois, com a revelação feita aos trinta minutos, perguntamo-nos indubitavelmente: o que vem agora?

Fácil responder: vem a dificuldade que o próprio roteirista encontrou e que, devido a não saber como solucioná-la, resolveu partir para outras características de gêneros na sua escrita. Difícil também entender como os atores se submeteram a esse filme confuso, que em momento nenhum e em nenhuma forma - seja enredo, script, plots blocados - consegue se mostrar estável. Talvez Rachel Weisz seja a mais simpática do elenco, mas, ainda assim, a atriz mais medíocre - mas acho que isso seja por causa da sua personagem, com a qual não pude simpatizar. Libby é o verdadeiro brinquedo-problema do filme e nós podemos perceber isso ao longo de toda a obra: ela perturba a todos em qualquer que seja a situação, consegue até roubar a concretude do conflito que reside na personagem de Naomi Watts, que, como vemos também, deveria ser o auge da tensão. Aliás, quanto a Ann Paterson, interpretada por Watts, não se pode dizer muito, já que nada sabemos da personagem por discurso de outros e, nas suas aparições em cena, ela também não diz nada nem apresenta muito que seja relevante. Ao final do filme, ficamos com dúvidas acerca da relação dela com Will Atenton, vivido por Daniel Craig - o roteiro, só pra constar, ignora a dubiedade (que acontece por falha, não por intenção) e finaliza o filme sem explicar.


Se for terror, não causa medo. Se for drama, não comove. Se for mistério, não há o que solucionar, já que metade da incógnita se apresenta ao final do primeiro ato do filme e a outra metade se revela sem qualquer suspense e, ainda, se mostra terrivelmente insatisfatória, exatamente por que o roteirista teve preguiça de aguçar a criatividade e apelou - isso mesmo: apelou - para uma saída absurdamente fácil. Dream House só perturba quando consideramos que perdemos tempo e dinheiro no cinema. E, no meu caso, ainda tive que vê-lo com dois casais, um em cada lado, fazendo barulhos que me intrigaram muito mais do que qualquer cena ou proposta desse filme - teria decerto tido mais entretenimento olhando para a direita ou para a esquerda em vez de olhar para frente.

3 opiniões:

Jean disse...

Assisti este filme hoje. Apesar de não ter sido minha pretensão - já que queria ter assistido "Contágio" ou "O Preço do Amanhã" - acabei indo porque a turma queria. Pelo cartaz, até pensei que o filme fosse ter uma abordagem mais densa, mais sombria. Que nada! Me deparei com mais um filme clichê e com ótimos atores desperdiçados em uma trama totalmente sem chão.

Foi lamentável ver a ótima Naomi Watts, reduzida a um papel insignificante, que não explorou em nada seu real potencial. A também excelente Rachel Weisz cumpriu bem o que seu papel pedia, mas nada de magnífico em sua atuação. E quanto a Daniel Craig, bom... esse parecia mais perdido do que tudo. DEFINITIVAMENTE não recomendo este filme. Perdi tempo e dinheiro. Que triste!! :(

alan raspante disse...

Uma pena que o filme seja tão ruim. Estava na expectativa de ver um bom filme, e pela premissa, de terror. Talvez eu veja, mas sem pressa e, claro, já sabendo o que vou encontrar pela frente.

Abs.

Márcio Sallem disse...

Estou botando a cabeça e as estréias da semana em ordem. Tenho ainda que escrever sobre A Pele que Habito.

Mas, com certeza durante a semana devo assistir este e passo aqui para compartilhar minhas opiniões.

Abraços.