26 de fev de 2011

O Discurso do Rei

The King's Speech. UK, 2010, 118 minutos, drama. Diretor: Tom Hooper.
Muito mais do que eu esperava, esse filme me cativou principalmente pela atuação magnífica de Colin Firth, provavelmente no melhor momento de sua carreira.

Muito se tem falado sobre esse filme, produzido pela Austrália e pelo Reino Unido, no qual a história é centrada no Rei George VI, que antecedeu à atual rainha, Elizabeth II. Dentre os filmes dessa temporada de premiações, The King’s Speech lidera, recebendo indicações e prêmios nas principais premiações. E não podemos deixar de notar que esse é mais um dos filmes baseados em fatos reais, assim como The Social Network, de David Fincher, 127 Hours, de Danny Boyle e The Fighter, de David O. Russel.

Antes de vê-lo, eu realmente achei que essa seria uma obra bem chata, sem nada que fosse realmente interessante. Devo dizer que fiquei surpreso ao terminar de conferi-lo, pois, embora a história realmente não tenha nada de interessante, a direção de Tom Hooper e o elenco estão bastante corretos, o que confere uma qualidade extra ao filme em relação a pelo menos dois dos filmes contra os quais concorre, no caso, The Social Network e The Fighter. A história do Rei George VI nos é contada desde que ele atendia pelo título nobre de Duque de York e que era, a mando de seu pai, o Rei George V, a pronunciar-se publicamente, anunciando alguns avisos da corte ao povo. O problema disso residia no fato de que Albert – primeiro Duque, então Rei – tinha muita dificuldade com a fala, gaguejando demais, o que lhe tirava parte da sua credibilidade e da sua confiança.

O roteiro, como disse, nos apresenta uma história que, ao meu ver, não precisava virar filme, porque ela é deveras banal. Pessoas que têm algum tipo de dificuldade, seja motor, seja mental, seja social, e que depois sucedem realmente não é algo desautomatizador a ponto de ser uma das obras mais celebradas pelas premiações. E honestamente penso que o cinema precise de obras mais marcantes, não tão passageiras como essas tantas que foram lançadas esse ano – devo dizer: ainda que eu reconheça a qualidade de The King’s Speech, trata-se de uma obra que, em curto prazo, é esquecível. Ainda assim, também alego que, como obra fílmica, cuja única função é relatar uma história e entreter, esse filme funciona perfeitamente bem e possui qualidades notáveis, como a boa direção de Tom Hooper, que pareceu bastante seguro do trabalho que fazia, realizando um filme bastante maduro. Penso que seja esse o melhor elogio: maduro. A obra de Hooper tem um tom muito refinado e uma beleza notável, ainda que eu não tenha conseguido enxergar muita originalidade nos seus ângulos de filmagem, na sua postura diante dos atores ou mesmo uma característica tipicamente sua nesse filme. Mas considerando os recentes filmes, todos pertencendo a uma massa quase indiscernível, não me restam dúvidas de que devo elogiar esse trabalho de Hooper.

Não importa a história do filme ou a direção de Hooper. Colin Firth é a essência dessa obra. Embora eu possa imaginar alguns atores que competentemente conseguiriam realizar uma performance elogiável como a de Firth, prefiro apenas atribuir a esse ator os elogios pela sua interpretações, pois é notável que ele se agarrou a esse personagem com um furor gritante e então tornou o Rei George VI uma figura de destaque entre os indicados a melhor ator na 82ª edição dos Academy Awards. Para dar suporte à personificação de Firth, há Helena Bonham Carter e Geoffrey Rush, ambos já bastante conhecidos por alguns de seus papéis no cinema; no caso dela, podemos citar Marla Singer, de Fight Club, enquanto dele pode-se citar Quills. Honestamente, achei muito reconfortante ver que Helena Bonham Carter consegue interpretar personagens comuns, que não são particularmente esquisitas ou exageradas, nem que sejam embasados por um retrato caricatural. Como a esposa de Albert, o Duque de York, Carter faz um excelente trabalho, justificando os elogios que tem recebido. Sua atuação é contida, bastante singela – e é exatamente isso que a torna exponencialmente grande, atraindo os olhos dos espectadores para ela a cada cena em que aparece. Quanto a Rush, devo dizer que ele me parece correto. Não vi nada espetacular em sua atuação, embora isso não signifique que ela deixe a desejar, muito pelo contrário: ele está tão bem quanto os outros atores, mas penso que haja um pequeno sobrevalor que vem sido dado a ele. Indubitavelmente, dos filmes vistos até agora, esse me parece ser aquele em que o elenco está em melhor sintonia, não destoando em nenhum momento um ator do outro, todos numa evolução linear muito válida.

Dentre as coisas que já disse, reafirmo algumas. Ainda que a história por si só não seja realmente interessante, Hooper conseguiu torná-la dinâmica e vê-la é uma atividade muito válida. O elenco merece elogios pelo seu trabalho e o trabalho de cinematografia aqui é realmente elogiável, destaque especial para a cena em que Albert e Lionel caminham na neve. O Discurso do Rei não é, definitivamente, um filme marcante, mas nele há boas características capazes de torná-lo um bom entretenimento e um filme que merece prêmios – o de melhor ator, sem sombras de dúvidas!

22 de fev de 2011

O Vencedor

The Fighter. EUA, 2010, 115 minutos, drama. Diretor: David O. Russel.
Um filme cuja força está nas interpretações dasatrizes coadjuvantes Amy Adams e Melissa Leo.

Quanto mais eu conheço a Academia, mais eu tenho certeza de que os membros dela têm um apreço especial pelos lutadores. Talvez haja na disputa corporal presente no boxe algo que instigue os membros e fazem com que eles insistam em indicar filmes com essa temática à categoria principal e também distribuam algumas indicações aos seus atores. Isso aconteceu com muitos títulos – Rocky, Ranging Bull, Million Dollar Baby, Cinderella Man, The Wrestler, e, mais recentemente, The Fighter, filme de David. O. Russel, de cujo filme anterior, Huckabees, eu honestamente não gosto.

Devo dizer que a única coisa que realmente me motivou a assistir a esse filme foi a presença de Amy Adams, atriz por quem tenho certo apreço, principalmente porque acredito que ela tenha um potencial imenso para se tornar uma das maiores atrizes, haja vista que nos últimos seis anos, ela nos apresentou trabalhos notáveis nos filmes Retratos de Família e Dúvida, em papel secundário, e em Encantada, produzido pela Disney. Não quero, com isso, dizer que eu supunha que O Vencedor seja um filme chato ou desinteressante. Para ser sincero, dos filmes citados acima, apenas Touro Indomável é intragável para mim – os outros são filmes aos quais assisti sem muitos problemas. A história de Micky Ward, lutador que realmente existiu – e está vivo ainda! –, nos é contada nessa narrativa que visa nos mostrar a relação perturbada que Micky tinha com a sua família, bastante presente em sua carreira, como o irmão drogado que era o seu treinador e a mãe relapsa que era empresária assim como a sua relação com Charlene, uma garçonete de opinião forte que queria que Micky assumisse um compromisso maior com sua carreira, pois acreditava em seu potencial.

Assim que o filme terminou, fiquei com a nítida impressão de que essa é uma obra feito para os coadjuvantes. Honestamente, a estrutura fílmica do diretor realmente não me chamou a atenção, achei que é um filme bastante comum, principalmente para os padrões do Oscar – é o tipo de produção feita com a visão clara de conquistar indicações aos prêmios da Academia. O que realmente me deixou surpreso foi a atuação de Amy Adams e Melissa Leo, ambas impressionantes em seus retratos muito firmes de duas mulheres marcantes em sentidos opostos: enquanto Adams interpreta uma garota que enxerga com sensatez a carreira do namorado e com isso busca fazê-lo consciente, sem medo da família maluca dele, Leo interpreta Alice, a mãe cujo olhar se mantém exclusivamente no filho mais velho, que é o treinador de Micky. É quase impossível para o espectador não colocá-las em lados opostos, mesmo que ambas pareçam querer o melhor para Micky – uso "pareçam" porque tive muitas dúvidas em relação à personagem de Leo, que, embora seja totalmente desestruturada e egoísta, pode querer o bem a seu filho. Não nego que Christian Bale também esteja bem em cena e que todos os prêmios clamem por sua atuação. No entanto, tenho a impressão de que o personagem é maior do que o ator, caso semelhante ao de Mo’Nique, no ano anterior, que recebeu seu Oscar pela intensidade de sua personagem e não pela força de sua atuação. Bale, como o irmão de Micky, nos entrega uma personificação de uma pessoa fracassada, cuja vida vem sendo gasta sem um propósito notável e que afeta negativamente aos outros. A mudança física do ator é notável e isso impressiona muito, o que soma para a minha desconfiança em relação ao seu desempenho e a essa crescente onda de prêmios que ele vem recebendo: avaliam a sua atuação ou o personagem e o quanto ele mudou fisicamente para poder caracterizá-lo? Enfim, devo dizer que o quesito atuação é dividido por esses três atores, haja vista que Mark Wahlberg está surpreendentemente apático, incapaz de provocar qualquer reação no espectador.

Quanto à história, penso que ela realmente não tenha muito diferencial. É assim a vida de todos os esportistas: têm um sonho, passam por uma desilusão, enfrentam uma série de problemas e então sucedem maravilhosamente, conseguindo ser reconhecido por todos. E O Vencedor se mantém nessa fórmula, não muda nada – a direção de David O. Russel nem sequer é ousada. Não sugiro que modificassem a história de Micky Ward, mas poderiam tê-la retratado de um modo mais interessante e não tão exclusivamente convencional e, às vezes, repetido. Basta notar as cenas de luta: duas cenas são exatamente iguais. E eu realmente não entendi a finalidade delas, haja vista que a segunda, que deveria ser o clímax do filme, é bem anticlimática. Também não posso deixar de dizer que a história por si só é desinteressante, pelo menos para mim. Conhecer a carreira de Micky Ward não me fez qualquer diferença nem o filme me empolgou com essa narrativa – insisto, não quero dizer que seja ruim, só quero dizer que é convencional demais, é senso-comum. Mas o diretor pelo menos conseguiu manter uma linearidade na sua estrutura fílmica, então, assim que você entra no clima do filme, consegue assistir a ele sem grandes problemas e o tempo até passado rápido – ou então esse efeito se deve à Amy Adams, linda demais, perfeita em sua interpretação.

Não há como negar: O Vencedor é um filme de Oscar. Não desses que são reconhecidos pela Academia por uma qualidade excepcional, mas desses filmes cuja intenção é estar entre os nomeados por causa de sua narrativa típica de feel-good movie, bastante recorrente no cinema estadunidense. Essa obra é capaz de entreter, de te manter atento por quase duas horas, mas há poucas características nela que farão com você se lembra dela após algum tempo.

20 de fev de 2011

Cisne Negro

Black Swan. EUA, 2010, 108 minutos, suspense. Diretor: Darren Aronofsky.
Natalie Portman nos mostra o porquê de ser considerada uma boa atriz - decerto uma das que mais tem se destacado nos últimos anos. E Aronofsky nos mostra que sabe dirigir bem um elenco.

Com a aproximação da 83ª edição dos Academy Awards, todos os cinéfilos estão fazendo suas apostas para saber quem ganhará o prêmio máximo do cinema e também os outros prêmios relevantes da indústria cinematográfica, como o Globo de Ouro, SAG Awards, etc. O que mais tem chamado a atenção para esse filme é a presença de Natalie Portman, atriz jovem que desde cedo tem realizado bons trabalhos e que tem mostrado a todos que é provavelmente uma das melhores atrizes de sua geração. A somar, não podemos nos esquecer de citar o diretor do filme: Darren Aronofsky, que, por sua vez, é decerto um dos melhores diretores atuantes. Não podemos deixar de lhe dar os devidos créditos pelos bons filmes Réquiem para um Sonho, de 2000, e O Lutador, de 2008 – sendo esses dois títulos merecedores de atenção.

Então, em 2010, há a junção desses dois nomes e um filme que mostra os bastidores de um grande balé, uma versão da história de Odette, princesa que é enfeitiçada e vira cisne – a famosa história de O Lago dos Cisnes, que vocês provavelmente conhecem bem, tanto pela nossa própria cultura, que às vezes alude a esse repertório como pelo próprio cinema, haja vista que todo ano vemos a boneca Barbie interpretando uma versão muito comercial desse balé. Somos apresentados à história de Nina, uma moça de 28 anos que se dedica arduamente à dança e que aspira à posição principal na adaptação que Thomas, diretor de uma grande academia de dança. Porém, tudo parece mais complicado quando ela começa a perceber que Lily, outra bailarina, está competindo com ela pela personagem máxima do balé. Então, pouco a pouco, conforme se esforça ainda mais, experimenta coisas novas e ainda lida com a mãe, que lhe trata com muita severidade e cobrança, Nina não tem mais a certeza se o que presencia é real ou falso.

Não nego que o melhor que o filme tem é a presença de Natalie Portman. A atriz realmente concebe uma interpretação atenciosa, na qual mínimos detalhes não são esquecidos. Os seus olhares, os seus gestos – toda a sua postura em cena contribui para uma atuação elogiável. O modo como a atriz entrou em sua personagem é mesmo incrível e posso dizer que o filme funciona em sua maior parte pela excelente composição feita por Portman, que não se limitou em nenhum momento. Sua atuação ainda reforça algo muito interessante no roteiro do filme, escrito por três pessoas, sendo duas delas estreantes – em alguns momentos, temos a impressão de que o que acontece é real, noutros momentos concluímos que é imaginação da personagem. A relação do roteiro com a atriz principal funciona muito bem, pois um parece corroborar o outro. Ora o roteiro nos mostra uma coisa e a atriz acompanha com sua atuação, dando a entender algo; ora a atriz toma outro caminho, e o roteiro a acompanha, desfazendo aquela sensação anterior. O roteiro não mostra exatamente o que são todas as coisas que a personagem vê – o espectador então está livre para abrir a sua mente e depreender muitas coisas. Eu mesmo cheguei a pensar que se tratava de estresse traumático, por causa da relação dolorosa entre Nina e sua mãe; depois considerei esquizofrenia, haja vista que a personagem ouve e vê coisas que não estão necessariamente no plano da realidade. No final, não soube exatamente a que pensamento me ater.

Darren Aronofsky soube bem como utilizar as cores no filme. Se perceberem, verão que ele usa tons muito semelhantes em alguns momentos e que isso causa uma sensação incômoda no espectador. Reparem no quarto de Nina, com muitas cores claras, detalhes em rosa se destacando – chega a ser incômodo imaginá-la tão profissional e ao mesmo tempo tão infantil. E ver aquele quarto nos obriga a pensar em sua mãe, pois conhecemos a relação das duas e o modo como a mãe infantiliza a filha. O contraste entre o claro e o escuro é usado o tempo todo, desde cenas simples – como as idas e vindas de Nina no metrô – como nas cenas em que ela está nos ensaios. Reparem como o personagem de Vincent Cassel, Thomas, parece se opor à Nina – ela com roupas claras, tons cinzas; ele sempre com roupas pretas, sempre agressivo e muito firme. Aronofsky soube também como captar essas vertentes dos atores, soube como explorar cada um deles em suas várias cenas. Destaque especial para a coadjuvante Barbara Hershey, que compõe brilhantemente a mãe de Nina, uma mulher que abdicou da dança para poder ter sua filha e cuidar dela e que, exatamente por isso, trata com muita cobrança – cobrança disfarçada, o que é ainda pior – a sua filha.

Acho importante ressaltar as qualidades do filme sem exagerar no tom. Ainda que seja uma boa obra, eu penso que ela esteja aquém das obras anteriores do diretor, considerando os dois títulos que citei no primeiro parágrafo. Para mim, Cisne Negro tem o seu valor para o cinema, mas é importante não supervalorizá-lo, como já estão fazendo por aí – o mesmo tem acontecido com o filme mais recente de Fincher, A Rede Social. Black Swan decerto representa uma obra memorável na carreira de Natalie Portman, juntamente com outras personagens fortes já interpretadas por essa atriz, como Evey Hammond, de V from Vendetta, e Alice, de Closer. Vale ainda comentar que, como Nina, Portman consegue inclusive ocultar sua parceira de cena, Mila Kunis, que interpreta sua rival Lily.

18 de fev de 2011

A Origem

Inception. EUA, 2010, 148 minutos, ficção científica. Diretor: Christopher Nolan.
Esse diretor me prova que é capaz de fazer um filme que atinge a massa e, ao mesmo tempo, tem muita qualidade fílmica.

Esse foi um dos filmes mais comentados do ano anterior e está presente na lista dos melhores filmes de todos os blogues de cinéfilos nesse ano. Eu confesso que não tinha vontade de assistir a essa produção, mas, devido a todos os elogios que ela tem recebido, decidi que é hora de conferi-la. E admito: trata-se de uma das obras mais interessantes lançadas no ano anterior.

A obra é tão positiva que nem mesmo os efeitos especiais a prejudicaram. Explico: eu simplesmente não entendo nem suporto essa mania hollywoodiana de inserir efeitos especiais nos “grandes” filmes a fim de atrair a atenção do público para o que acontece de fascinante da tela. Em A Origem, porém, os efeitos são extremamente necessários para que consigamos compreender toda a essência da trama, que nos mostra o mundo dos sonhos e o mundo da realidade, planos que às vezes se confundem no consciente e no subconsciente de uma pessoa. O personagem central dessa produção é Cobb, uma espécie de “ladrão”: ele invade a mente da pessoa através dos sonhos e lhe rouba informações importantes. Ele é foragido e perseguido pela lei, exatamente por isso não pode rever os seus filhos nem voltar para a sua vida antiga. Surge diante dele a oportunidade de modificar isso – uma última proposta de emprego lhe propõe que, em vez de roubar uma informação secreta, ele insira uma idéia na cabeça de alguém. Se bem realizado, sua tarefa garante sua absoluta absolvição e lhe permite viver dentro da lei novamente.

Como percebemos, a situação de Cobb é bastante delicada e também a sua capacidade lhe garante oportunidades únicas, como investigar a fundo o que uma pessoa pensa e quais são os seus mais valiosos segredos. Quando o seu trabalho não é mais roubar, e sim inserir um pensamento, ele é obrigado a reunir um time de companheiros para lhe ajudar a concretizar o seu plano. Eis que entram os outros personagens, como Ariadne, a responsável pela construção dos níveis de sonho; Arthur, ajudante de Cobb; Eames, um imitador, capaz de se fazer passar fisicamente por qualquer outra pessoa. O roteiro do filme nos apresenta a vários personagens, cada um com uma função importante na trama, então, mesmo que pareça haver personagens demais, o roteiro dá conta de explicar a finalidade deles e conceder a todos motivos racionais para a sua presença na trama. De certo modo, fui remetido ao filme Matrix, onde os personagens viver duas realidades: uma virtual e outra real. Algo semelhante acontece nesse filme, ainda que a proposta filosófica seja diferente. Em Inception, somos apresentados à estrutura do sonho – como ele funciona, como nós o presenciamos, como interagimos dentro dele. Não nego que é interessantíssimo ter consciência de certas coisas que, de tão cotidianas, mal percebemos, como o fato de sempre nos lembrarmos de um sonho no meio dele, nunca como ele começou. É interessante o modo como o roteiro cria subníveis dentro da trama e conecta perfeitamente uma coisa à outra, fazendo com que possamos compreender com bastante clareza o que está havendo. Decerto é um bom roteiro, que merece atenção especial.

O elenco do filme também é bastante elogiável. Na verdade, acredito que toda a força interpretativa se resume aos atores Leonardo DiCaprio e Ellen Page, ambos em excelentes momentos de suas carreiras, nos concebendo momentos de tensão e ao mesmo atuando numa sintonia muito notável. A garota praticamente aparece junto com DiCaprio e todas as suas cenas parecem estar relacionadas às dele, mas mesmo com essa intensa subordinação, ela consegue atrair a atenção para si. Os outros atores também estão muito bem, mesmo aparecendo pouco. Joseph Gordon-Levitt, mais memorável pelas suas personificações nos filmes Mysterious Skin e (500) Days of Summer, se mostra eficiente como coadjuvante e mostrando uma atuação consistente, mesmo que apareça em poucos momentos ao longo das mais de duas horas de filme. A coadjuvante de destaque é Marion Cotillard, intérprete de Mal, esposa de Cobb e um bug do sistema – ela é boazinha, é depressiva, é perigosa, é acolhedora, simultaneamente consegue desestabilizar qualquer sonho. Acredito que a atriz francesa foi a escolha certa para essa personagem, haja vista que ela requer um força interpretativa muito pungente, a qual Cotillard já mostrou possuir.

É claro que não dá pra falar desse filme sem comentar sobre as escolhas de Christopher Nolan. O diretor soube como registrar com eficiência os momentos desse filme, nos mostrando sem exageros aquilo que é relevante exibir. Ele soube como expor o melhor dos atores, soube como escolher bem os efeitos especiais e a hora certa de inseri-los na trama, soube como filmar os ângulos, os detalhes, conseguiu nos mostrar uma fotografia elogiável. Outro diretor provavelmente teria deturpado o sentido do filme, enchendo-o de coisas bobas e sem sentido, mas Nolan fez de Inception mais um de seus bons filmes – vale ressaltar que cabem também a ele os elogios pela nova vida do personagem Batman, relançando em 2005 com o filme Batman Begins e tendo sua continuação lançada em 2008, sob o título The Dark Knight.

Indubitavelmente, A Origem é um filme que faz jus a toda a massa sólida de comentários positivos que tem recebido. Para mim, trata-se de uma boa obra cinematográfica, capaz de cativar pela sua qualidade e pelo modo como entretém. Não há como negar que a dinâmica do filme é fantástica, haja vista que ficamos nos divertindo ao longo de mais de duas horas sem nem ao mesmo perceber que tanto tempo se passou. Recomendo com certeza que o vejam, porque vale a pena.

16 de fev de 2011

Namorados para Sempre

Blue Valentine. EUA, 2011, 110 minutos, drama. Diretor: Derek Cianfrance.
O trabalho desses atores é mesmo elogiável, o filme merece ser visto por causa deles!

Crises no relacionamentos, mudanças de perspectivas, dificuldades de convivência, todos esses elementos confluem para caber no roteiro de alguns filmes. Recentemente, tivemos filmes como Revolutionary Road, no qual um casal se vê diante de uma tentativa de recomeçar e, pouco a pouco, vai descobrindo que esforço mútuo pode não ser o bastante. Esse ano, temos Blue Valentine, uma obra bastante coesa que nos mostra algo bem mais aterrador: a busca incessante de uma das partes, que se sente sufocada dentro de uma relação enquanto a outra parte também se sufoca na tentativa da reaproximação.

Pode-se resumir parcamente assim a história de Dean e Cindy, juntos há aproximadamente seis anos. Eles não estão juntos há uma vida inteira, conhecem-se, mas ainda não sabem como se comportar altruistamente, buscando compreender o outro. Quando se viram pela primeira vez e então começaram a sair, o seu relacionamento era maravilhosamente perfeito: eles se compreendiam, estavam em sintonia, divertiam-se um com o outro e estavam totalmente entregues àquele sentimento de paixão torrencial. Agora, ela praticamente não suporta o modo como ele “parou”, como ela mesma diz, como se ele já não tivesse mais perspectivas enquanto ele simplesmente não entende o que se rompeu, o que fez com que aquela vida não mais fosse boa o suficiente para ela. O antes e o agora são mostrados intercalados, permitindo-nos conhecer assim dois momentos daquela relação perturbada.

O maior mérito do filme talvez seja a maneira como ele nos apresenta a história. Conhecer o antes e o agora faz com que nós não julguemos os personagens, mas que busquemos depreender e depois compreender o motivo pelo qual algo deu errado. Numa outra estrutura, restritamente linear, seria difícil não mostrar o elemento que fica implícito na estrutura escolhida. Se a história do filme fosse apresentada tradicionalmente, com começo, meio e fim, nessa ou em outra ordem, então seria complicado para que nós não os julgássemos, pois decerto haveria um culpado, um responsável pelos erros daquele relacionamento. Derek Cianfrance, o diretor e roteirista – esse escrito também por Joey Curtis e Cami Delavigne – opta por criar um filme interativo: cabe ao espectador criar e encontrar o lugar correto para colocar as peças que faltam nesse quebra-cabeça. E confesso que esse entretenimento diverte e ao mesmo tempo destrói o raciocínio: se tudo era tão perfeito no começo, em que momento Cindy passou a achar desgostosa a vida que levava? Por que motivos surgiu tamanho abismo entre ela e seu marido? São perguntas difíceis de serem respondidas, porque elas abrangem uma quantidade muito grande de possibilidades e é difícil – às vezes, cruel – para o leitor supor situações e fazer projeções com base nelas.

A vida de Cindy não é feliz, pode-se notar facilmente isso duramente algumas cenas. Sua personagem, num futuro, potencialmente se tornaria uma alcoólatra irrevogável, ainda que, pelo que vemos no filme, é mais fácil que Dean chegue a esse ponto, haja vista que sua segurança e convicção são constantemente abaladas a cada tentativa sua de trazer Cindy mais para perto de si. Três momentos são particularmente chocantes, exatamente pelo recurso da oposição magnificamente utilizado por Cianfrance. Seguindo a ordem cronológica, primeiro vemos os dois personagens jovens, pouco depois de ele tê-la convencido a sair: os dois riem juntos, ele tocando e ela sapateando, logo depois de ela ter recitado todos os presidentes dos Estados Unidos – sendo esse o “dom especial” dela. O clima de charme e humor é indescritível, percebemos claramente que os personagens estão envoltos por uma fascinação intocável, algo que transcende a própria diversão deles, eles estão notavelmente em sintonia. Em outro momento, Dean e Cindy, com muitos ardor, vão para o quarto dela e ele faz sexo oral nela. A filmagem dá atenção a um conjunto de elementos: a mão dela puxando a cabeça dele, a fúria extasiada com a qual ele a lambe, o modo como o corpo dela se contrai – o desejo entre eles é, tal como a fascinação da cena já citada, notável e a sintonia entre os dois se fazer notar peremptoriamente. No tempo real, vemos os dois personagens num motel, ele tentando reconquistá-la e, num determinado momento, os dois estão no chão, bêbados, parcialmente revoltados e ela simplesmente cede, numa cena brusca, arrancando a calcinha como se simplesmente esperasse que ele investisse, como se ela mesma se autodeterminasse um objeto com o qual ele se diverte. Assumindo-se de tal modo, ela, como objeto, está livre de demonstrar amor por ele – amor que ela já não sente. Não há como permanecer alheio a essa série de informações, Cianfrance revela uma capacidade muito boa de contrastar elementos, opondo-os num ironia desesperadora: estar num motel, num quarto temático, com cama que gira, bebidas na geladeiras – e simples ter um das piores noites possíveis.

Muito do filme se perderia se os seus atores principais, Ryan Gosling e Michelle Williams, não enfrentassem tão sobriamente os seus personagens. É prazeroso ver o empenho dos dois em compor criaturas tão frustrantes – e tão humanas – em suas essências. Se eles tivessem errado um pouco o tom, decerto a obra perderia boa parte de sua qualidade e muito de sua credibilidade, pois a verossimilhança só se justifica pelas atuações centradas e corretas dos dois atores, que estão em sintonia nas cenas em que ela é requerida e estão completamente dessincronizados – por necessidade do roteiro – em outras tantas cenas. Acho difícil dizer qual dos dois está melhor, porque vejo as atuações deles como complementares – a dela só existe porque a dele está ali e o inverso é verdadeiro, de modo eles se permitem uma condução efetivamente eficaz ao longo desse filme. Seus personagens são bastante complexos e requerem muita dedicação, principalmente por causa da questão do tempo. É muito mais fácil apresentar diferenças na atuação quando se registram personagens em tempos quantitativamente distantes – nota-se visivelmente que uma pessoa de 60 anos tem perspectivas diferentes de quando tinha 30 anos (isso só não se aplica à personagem de Kate Winslet em The Reader), mas que grandes acontecimentos transformam tão enormemente um pessoa ao longo de seis anos, a ponto de fazê-la querer desconstituir uma vida com a qual sempre sonhara?

Como disse no começo, trata-se de um filme coeso. E bastante conciso, haja vista que há nele somente os elementos necessários para que a história seja contada eficientemente, sem enrolações, sem perda de tempo e, principalmente, sem ofender o espectador com uma série de clichês dramáticos dentro de uma história que pode ser considerada banal, pelas tantas vezes em que o tema já foi discutido. Acredito que o filme atinja o tom certo e consiga se apresentar positivamente para o espectador e é exatamente por essas razões que eu o recomendo a quem busca uma obra dramática de qualidade.

14 de fev de 2011

A Outra Volta do Parafuso

The Turn of the Screw. Inglaterra, 1890, 176 páginas, suspense. Autor: Henry James.
Uma linguagem muito adulta capaz de transportar o leitor para o universo psicológico da personagem principal e nos faz acompanhar com ela todos os seus medos.

Henry James, responsável por algumas narrativas bastante famosas, como The Wings of the Dove – adaptado para o cinema em 1997 com o título (nacional) de Asas do Amor–, publicou em 1898 uma obra que geraria divergência nas opiniões. Quanto à sua qualidade, todos admitiam ser inquestionável. Mas aquilo que realmente diferenciava as opiniões provinha da dualidade e ambigüidade da obra, que permitia mais de uma interpretação. Tal como As Asas da Pomba, A Outra Volta do Parafuso também foi adaptado para o cinema – várias vezes, inclusive! –, sendo a versão mais conhecida aquela de 1961, com Deborah Kerr como srta. Giddens.

Os críticos adoraram a obra e a principal diversão em relação a ela é descobrir de onde provinha o terror que assombra a personagem Giddens, uma jovem moça de 20 anos que vai se tornar preceptora de duas crianças, Flora e Miles, numa casa em Bly. Convencida pelo tio das crianças de que ela deveria se responsabilizar totalmente pelos seus sobrinhos – e que nunca deveria incomodá-lo com perturbações relacionadas a eles –, Giddens começa a se desesperar quando, já na casa de campo há alguns dias, começa a perceber presenças estranhas de duas pessoas que racionalmente não deveriam estar ali, haja vista que já estavam mortas. E a situação parece piorar ainda mais quando ela desconfia de que sejam as crianças os alvos daquelas aparições.

Existe na história uma dualidade fascinante entre a objetividade e a subjetividade. Elas se misturam, moldado a história numa massa às vezes indiscernível: às vezes, parece tudo é extremamente palpável, enquanto outras vezes a situação toda parece decorrer da mente doente da srta. Giddens. E isso causa uma ambigüidade muito interessante na obra, de modo que podemos trabalhar a interpretação de dois modos muito distintos, na qual se pode seguir a linha de pensamento da realidade dos fantasmas e a linha de pensamento da sanidade da preceptora. Particularmente, em relação ao livro, eu acredito que o tom de realidade tenha sido, para mim, mais aparente – e, portanto, eu acredito que tudo aquilo tenha de fato acontecido, mesmo que, em alguns momentos, eu tenha questionado se Giddens não era, talvez, esquizofrênica. Logo no começo do livro, pouco antes de ver pela primeira vez o fantasma de Peter Quint, Giddens afirma: “um dos pensamentos que me acompanhavam nessas caminhadas [...] era que seria tão encantador como num conto encantador se eu me encontrasse subitamente com alguém” (2010, p. 37). Como ela mesma havia dito antes, nunca ficara longe de sua família e estava, como depreendemos, encantada por alguém, de modo que, quem sabe, as visões dos fantasmas fossem conseqüência de sua necessidade de deparar com pessoas novas, numa situação em que ela pudesse provar-se digna de estar “num conto encantador”. Porém, as suas descrições extremamente específicas de Peter Quint, o empregado da casa de caráter duvidoso que havia morrido, são por demasiado precisas e não há qualquer indício que ela o tenha já visto antes, seja por foto, por alguma pintura, ou por algum comentário anterior feito por algum empregado a ele. Até Giddens vê-lo no alto da torre, ele parecia simplesmente não existir no universo daquela mulher. Como ela pôde então, sem antes ter conhecimento de fisionomia, tê-lo descrito se, de fato, não tivesse visto o seu espectro?

A característica mais marcante dessa obra é o uso do recurso do fluxo de consciência, técnica empregada por muitos autores modernos e que tomaria grande destaque no ano de 1925, com a publicação de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Definitivamente, nós conhecemos essa história por dois planos: o psicológico, que se desenvolve a partir das suposições, pensamentos e temores da srta. Giddens, e físico, que é aquele no qual vemos as ações dos personagens e elas servem como catalisadoras para reforçar a grandiosidade do plano psicológico. Srta. Giddens supõe que as crianças estejam em perigo e elas, como se corroborassem os seus pensamentos, agem estranhamente. Flora desaparece num determinado momento, de um modo muito improvável, porém inquestionável, haja vista que tal evento é presenciado também por Mrs. Grove, uma das empregadas da casa. Miles, num episódio marcante, sai da casa e fica no jardim, já quando deveria estar dormindo, sem propósito algum, a não ser, como ele mesmo disse, para que ela achasse que ele era mau.

Ocorre, às vezes, uma intersecção desses dois planos, criando momentos em que o sobrenatural parece muito aguçado e definitivamente compartilhado por todos os personagens. Isso é obtido por muitos recursos, como fugiras de linguagem capazes de estarrecer: há um momento de extrema sinestesia, quando Giddens e Miles estão conversando no quarto do garoto e ela afirma: “A resposta ao meu apelo foi instantânea, mas veio sob a forma de violenta rajada de vento, de uma golfada de ar gelado que sacudiu todo o quarto” (2010, p. 132) – isso imediatamente anterior à confissão de Miles de que havia sido ele o responsável por assoprar a vela e apagá-la, quando Giddens supunha ser uma conseqüência advinda de todo aquele vento. A janela, como ela mesma comprova, estava fechada. Aí, cabe ao leitor perguntar-se exatamente o que aconteceu, haja vista que, segundo a descrição de Giddens, há uma série de fatores em simultaneidade: a rajada de vento, o ar gelado, a escuridão do quarto, um grito que ela ouve e supõe provir de Miles.

Devo dizer que essa narrativa de Henry James é por demais envolvente, não me restam dúvidas de que seja uma das grandes obras a trabalhar com o fluxo de consciência e ser capaz de arremessar o leitor para dentro do universo aparentemente irracional e assombrada das personagens desse livro, que vivem em constantes augúrios, sempre acompanhados de recursos narrativos que engrandecem o discurso. Ainda que em momento nenhum tenhamos algum conhecimento efetivo e comprovado sobre o passado de Peter Quint e srta. Jessel, a mulher que anteriormente cuidava das crianças e que se enamorara de Quint – são eles os fantasmas da história –, não duvidamos em momento algum de que eles sejam realmente maus e isso se deve ao excelente argumetum ad hominem empregado ao longo da trama, na qual as personagens atacam diretamente o caráter dos fantasmas a fim de caracterizá-los como perigosos. Henry James conseguiu reunir numa narrativa relativamente curta – nem chega a duzentas páginas – toda a composição maravilhosa, cheia de suspense. Mais de 60 anos depois, John Mortimer, William Archibald e Truman Capote – o último, autor de Bonequinha de Luxo – adaptaram esse livro para o cinema e ele se tornou Os Inocentes, com Deborah Kerr no elenco. Indubitavelmente, isso reforçou a dubiedade presente no livro, haja vista que o filme é exponencialmente mais ambíguo do que o livro, que, para mim, é um dos melhores já lidos!

Bibliografia:
JAMES, Henry. A outra volta do parafuso. Tradução de Brenno Silveira. São Paulo: Abril, 2010.

12 de fev de 2011

Original e Remake: Ringu x O Chamado

Para esse post, mais um da série Original e Remake, conto com um convidado muito especial, que é o Luiz Santiago, editor-chefe do blog Cinebulição, que reúne excelentes análises cinematográficas, escritas por alguém que definitivamente entende do assunto. Como descobri recentemente os dotes fílmicos do Luiz, não demorou para que eu o convidasse para vir participar com algum texto. Hoje, ele co-escreve uma análise comparativa entre os filmes Ringu, filme japonês, e O Chamado, sua versão correspondente no cinema estadunidense. Desde já, quero agradecê-lo por ter aceito o convite.
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- Textos sobre Ringu, por Luiz Santiago.
- Textos sobre O Chamado, por Luís.

Ringu (1998) é a minha lembrança mais antiga de um terror japonês, e o ponto de partida para que eu admirasse muitíssimo os filmes desse gênero produzidos no país dos samurais. Há alguns anos, essas macabras películas nipônicas invadiram o mercado ocidental, tanto na distribuição dos originais quanto na refilmagem de diversas produções. Obviamente, a qualidade varia de uma obra para outra, e não raro temos as ocidentais cavando uma superioridade com base nos efeitos visuais e especiais. Ringu é um filme notável, e revê-lo a fim de escrever para este especial Original e Remake, foi, além de um encontro com o início de minha cinefilia, mais uma constatação de que bons filmes sobrevivem ao grande tempo histórico, que em nosso século, prima pela enxurrada de imagens e profusão infernal de sons. Nesse filme, não temos nada disso. Medo, silêncio e ângulos vazios dominam o Japão de Ringu.

1. Personagens e situações
Original: A história de um curta-metragem que, ao ser visto, desencadeia uma maldição, é no mínimo um argumento interessante, principalmente pelos fenômenos que o acompanha: ao fim da reprodução o telefone toca, e em sete dias o espectador morre. Nessa coluna estrutural do roteiro, a personagem de Sadako, a origem da maldição, assume um papel interessante. Ao início do filme ela é apenas uma sugestão, mas no desenrolar da trama passa a fazer parte do filme, desencadeia uma busca jornalística com pitadas de “filme de detetive”. A repórter Reiko Asakawa é o motor da pesquisa, o elo entre a “isolada” sequência-prólogo e o irônico fim. Penso que a personagem amadurece durante o filme, e em situações muito diferentes se põe em diferentes níveis de importância dramática: as sequências da descoberta, quando ela entrevista jovens estudantes sobre as estranhas mortes, e quando inicia a investigação, ainda no escritório em Tóquio; a sequência do poço, quando ela enfim se depara com a origem da maldição; e a sequência final, quando ela dirige o carro em direção à casa do pai. Das personagens em cena, talvez o pequeno Yoichi seja o menos necessário. Entendo sua existência no filme como o deflagrador da emoção materna, a força que faz a mãe, num dado momento, seguir com mais afinco as pistas para o mistério de Sadako, mas de resto, ele não tem grande importância para o produto fechado. Da pertinência das situações, não há o que contestar. Vejo todas as situações trabalhadas por Hideo Nakata como necessárias para o bom desenvolvimento da história.
Remake: Em relação ao filme original, pode-se dizer que poucas coisas foram alteradas na obra refeita. Os personagens têm outro estilo de vida e portam-se de acordo com eles, então há naturalmente um tom estético mais dramático, voltado para uma acentuação da sutileza do filme que o originou. Aqui, a história narrada é praticamente a mesma e, haja vista que a sequência de eventos é quase a mesma, vou me ater ao diferencial. Rachel, interpretada por Naomi Watts, passa por muitos momentos tensos até a descoberta de todo o problema e até encontrar um modo de resolvê-lo. Numa das cenas, inexistentes no original, ela se depara com uma situação muito tensa, na qual está num barco e provoca involuntariamente reações nos animais que estão sendo transportados, causando a morte de um cavalo. O acréscimo de certas cenas, como essa, nos mostra claramente que o tom do filme é envolvido por intenções muito objetivas de trabalhar a subjetividade de um modo sutil – e desse modo, ele se aproxima do original.

2. Desenvolvimento do roteiro
Original: Um bom roteiro de filme de terror deve saber equilibrar medo, simbolismos e tensão e distenção do espectador (algo parecido com o McGuffin do Hitchcock). Os roteiristas de Ringu não só conseguiram chegar a esses pontos como lograram ao espalhar deixas pelo caminho inteiro, para uni-las depois. Revendo o filme, pude perceber como esses pontos inicialmente contraditórios com o que até então havia sido apresentado, alcança um prazeroso significado ao final da obra, como o fato de o telefone não ter tocado quando Ryuji assistiu ao curta-metragem da maldição. Destaco também as incursões de mini flashbacks, momentos que poderiam descarrilar a história, mas que são tão bem escritos, objetivos e apresentados, que só enriquecem o espectador de informações. Mas o melhor do roteiro está no final. Primeiro, quando imaginamos que o filme terminaria, numa sábia extensão da história, somos levados para o que poderia ser muito bem um “final alternativo”, coisa tão típica nos filmes a Oeste de Greenwich. Essa extensão da história dá ao filme o seu clímax, especialmente quando somos apresentados à imperiosa ordem do mundo obscuro: para que a vida continue é necessário disseminar a morte.
Remake: indubitavelmente, não é o melhor já construído, mas não nego que haja elementos espalhados pelo filme que sucedem em seu propósito: instaurar a tensão. Pouco a pouco, somos apresentados a momentos em que o clímax é crescente. De certo modo, penso que o filme se torna bem recomendado porque ele vai mostrando peças importantes e permitindo uma construção lógica, ainda que acabe deslizando algumas vezes em saídas fáceis quando poderia ousar. A jornada de Rachel e Noah é marcada por um desenrolar às vezes frenético, que dinamiza a história; em outras horas, porém, o ritmo lento determina o tom sombrio da trama. Não posso dizer que o roteiro seja ruim, porque ele de fato não o é.


3. Direção e elenco
Original: Hideo Nakata estabelece a espontaneidade como regra para seus atores. Em L Change the World, um spin-off da série Death Note, o diretor parece não dirigir, apenas direcionar seus atores, algo que de certa forma também faz em Ringu. As atuações da versão americana estão um tanto melhores que essa original. O elenco é bem entrosado, mas fora a personagem da jornalista, não vejo um desenvolvimento psicológico dos atores em cena. Todos parecem cumprir o papel do “causar impacto momentâneo”, algo que faz com que sejam esquecidos ao final da película, algo que não acontece com o roteiro, por exemplo. A planificação de Nakata é extremamente limpa. Não há trepidações, câmera na mão, excesso de travellings e zoom. Os primeiros e primeiríssimos planos são usados de forma cinematograficamente correta, e mesmo a fusão entre música e ruídos dá um brilho todo especial ao mundo acusmático do filme. As cenas dos flashbacks são tremendamente bem filmadas, e os planos e ângulos usados destoam daqueles que vimos durante todo o filme, gerando um maravilhoso efeito de estranhamento – embora muita gente não tenha identificado “o que havia de diferente ali, além da cor. Gosto de todo o plano-sequência em Oshima. O diretor capta maravilhosamente, junto a atmosfera densa do filme naquele momento, aquilo que o cenário lhe oferece, com planos um pouco mais curtos e mais escuros que o resto do filme. Os ângulos vazios, desfocados e os silêncios também se sobressaem com louvor, integrando-se de forma muito sutil a todo o filme.
Remake: Gore Verbinski, o diretor, provavelmente sucedeu por ter conseguido criar o clima certo. Não quero com isso dizer que ele conseguiu criar uma obra exemplar, mas ele definitivamente soube como fugir de certos clichês, como trilha sonora insistentemente desagradável, cuja função é exclusivamente assustar. O diretor permitiu que os atores criassem e tirou deles boas interpretações, principalmente no que diz respeito a Naomi Watts e David Dorfman. Sua direção é bastante linear, sem recursos grandiosos e sem exageros, sempre no tom certo, utilizando bem a iluminação, além de captar umas boas tomadas – cito, por exemplo, a cena excelente do incidente entre Rachel e o cavalo no navio. Penso que só não haja maior sucesso de sua parte, porque ele poderia ter ousado muito mais em sua subjetividade, em vez de explicitar tudo, como faz em momentos importantes da trama. Penso, com sinceridade, que Naomi Watts segura o filme, ainda que ele também tenha um bom roteiro e direção. Cabe à atriz manter o clima do filme, até porque ele todo se desenvolve a partir da interação de sua personagem com o universo assustador no qual está inserida. Se Watts não fosse capaz e se sua interpretação não fosse válida, então decerto a obra seria consideravelmente menor.

4. Elementos artísticos
Original: No plano artístico, Ringu perde feio até para outros filmes asiáticos do gênero, como Espelho, Silk e Gin guai, mas mesmo assim se mantém como uma boa produção. A tonalidade do filme é geralmente muito escura, não monocromática, apenas escura. Os figurinos seguem a mesma tendência, com exceções dramáticas: Sadako, a origem do mal, é a única que usa branco. Não há, além dessas observações, muita coisa a destacar. Ringu é um filme artisticamente medíocre.
Remake: a estesia provocada pelos recursos artísticos surgem principalmente pelo uso de uma fotografia intensa, que revela momentos climáticos bastante diferentes entre si. Podemos perceber claramente que características serão apresentadas quando observamos o filme e as suas diferentes tonalidades de cor e de iluminação. A trilha sonora é bem executada na maior parte do filme, mas é inegável que Verbinski cai no erro comum dos cineastas de filme de terror e, então, tenham acontecido sustos provindos de um aumento inesperado da música. Mas isso não é um problema para o filme, que se desenvolve bem artisticamente.

5. Entretenimento
Original: Muito mais que servir como entretenimento, Ringu serve como experiência cinematográfica. A história e o modo como é contada nos coloca em uma situação muito estranha ao final. Esse sentimento vai muito além do cinema como reprodução mecânica e do espectador como consumidor passivo de quilômetros a rodo de ópio óptico. O final de Ringu nos toca, faz ter um pouco de raiva ou incita o riso nervoso. Ao invés da erradicação do mal, a sua propagação... Muito bom. Recomendado para todos os que gostam de um bom terror psicológico.
Remake: O Chamado surgiu como sucesso imediato. Parece que todos que o viram simplesmente o consideraram a melhor estória de terror já contada e então todos que não viram desejaram ver. E eu, honestamente, não conheço quem não goste do filme. Penso que ele entretenha e que, mesmo tendo alguns erros, seja uma boa obra para entreter e divertir o público. Compreendo que muitas pessoas não entendem o tom psicológico do filme e consideram-no bom apenas ele é capaz de causar medo. Mesmo que não seja totalmente anticonvencional, o filme de Verbinski não é uma obra mediana – ele é mesmo recomendável, principalmente para quem gosta do gênero terror com enfoque numa vertente dramática psicológica.


6. Conclusões.
• Opinião do Luiz Santiago
a) Você acha o remake válido? Sim. A versão de Gore Verbinski (diretor que um ou dois filme ótimos no currículo) traz elementos técnicos e um apuro estético mais pontual, o que o retira da lista de remakes descartáveis. Não o acho melhor que Ringu, apenas válido, e com pontos técnicos melhor trabalhados.
b) Você acha que o remake faz jus ao filme original? Guardados os parâmetros culturais e diferença de quatro anos de um para o outro... sim. É inegável que a atmosfera macabra permanece no filme de Verbinski – claro, filmada de outro modo – o que o faz se aproximar de sua fonte.
c) Qual obra te agrada mais? Ringu, de Hideo Nakata. Mesmo com os tropeços técnicos, o filme convence e traz um tema que me chama muito a atenção. A filmagem do diretor e o trabalho com o roteiro me agradam bastante também, muito mais que a versão estadunidense.

• Opinião do Luís
a) Você acha o remake válido? Acredito que seja válida por mostrar diferenças culturais em relação ao Japão e ainda por ser esteticamente mais trabalhada. A produção estadunidense, ainda que recorra a alguns artifícios meio bobos se comparados ao original conseguem imprimir um tom mais feroz de assombro.
b) Você acha que o remake faz jus ao filme original? Acredito que sim, porque, como disse, o filme consegue reestruturar a história para que ele caiba dentro de sua proposta (que é mostrar a cultura americana diante de tais fatos) e ainda consegue aprimorar algumas coisas que ficam no nível mediano da outra obra.
c) Qual obra te agrada mais? The Ring, de Gore Verbisnki. Não tiro a qualidade do filme japonês, mas penso que a qualidade técnica seja consideravelmente melhor no filme americano e conseqüentemente eu acabei mais envolvido no enredo do filme quando pude me transportar para perto dele e isso principalmente ocorre pela boa interpretação de Naomi Watts, que é inominavelmente superior que a protagonista do filme original.

10 de fev de 2011

Aniversário de Blog e Selo


3 ANOS DE LITERATURA E CINEMA

Não parece que faz tanto tempo e honestamente eu mesmo pensava que talvez não durasse tanto. Em 10 de fevereiro de 2008, eu e o Renan criávamos esse blogue, com o intuito de comentar filmes e livros, dos quais gostávamos (e gostamos ainda) muito. Vieram então os anos de 2009 e 2010 e com eles muitas coisas novas, por fim chegamos ao ano de 2011 e ao terceiro aniversário do blogue.

Esse é, também, o primeiro aniversário sem o Renan como companheiro de críticas. Como ele debandou no ano anterior, eu continuei na edição desse blogue e trouxe-o até aqui, e devo dizer que pretendo dar continuidade a ele, somando mais resenhas às mais de 400 resenhas feitas até hoje (vale lembrar que boa parte delas estão ainda na plataforma antiga, quando o blogue ainda tinha como servidor o Terra). Não posso deixar de dizer que o Blogue Literatura e Cinema – bem como as pessoas que conheci através dele – me causa orgulho!

Esse blogue, evidentemente não existiria se não houvesse parceiros, sejam eles apenas leitores ou também editores de outros blogues, afinal, que prazer haveria se não houvesse quem lesse ao que eu escrevo e concordasse com minhas opiniões ou discordassem dela? Aproveitando para comemorar os três anos de blogue e também homenagear alguns dos parceiros por quem eu tenho simpatia, aproveito e repasso um selo, recebido pelos companheiros Hugo, do Cinema – Filmes e Seriados e Luiz, do Cinebulição. Respondo as questões e, na seqüência, indico as pessoas para quem dedico esse selo, encerrando esse post.



Nome: Luís Adriano de Lima
Uma música: a do momento é Stairway to Heaven, do Led Zeppelin.
Humor: usualmente, sou bem humorado, mas meu humor varia muito.
Estação: inverno.
Como prefere viajar: de carro, de preferência à noite.
Um seriado: LOST.
Uma frase dita por você: “a vida é dinâmica!”.
O que achou do selo: uma amostra de que reconhecem qualidade no que faço.

Blogues indicados:

8 de fev de 2011

Atração Perigosa

The Town. EUA, 2011, 125 minutos, policial. Diretor: Ben Affleck.
Uma produção bem dirigida, que é capaz de envolver o espectador na trama. Ben Affleck merece parabéns pela direção.

Algumas personalidades, muito conhecidas numa área, às vezes se arriscam num outro campo e sucedem. Esse é o caso de Clint Eastwood, Tim Robbins, Sean Penn e mais recentemente Ben Affleck. Todos eles começaram como atores e, então, descobriram o gosto por atuar também fora das câmeras – ou melhor, atrás delas. Acabaram nos mostrando bons filmes, que mostram o talento deles como diretor.

Esse filme, The Town, baseado no romance de Chuck Hogan, fala sobre uma cidade – sim, a cidade, como veremos, também é protagonista –, Charlestown, na qual vários assaltos acontecem. Então, o filme se enfoca em Doug McRay e em seu gangue, que usualmente assalta bancos e consegue sempre sair impune, mesmo que os policiais estejam já desconfiando de que sejam eles os responsáveis por uma série de assaltos. Quando uma refém é capturada e depois solta, Doug resolve aproximar-se dela para saber se ela desconfia de que sejam eles os ladrões, mas acaba se apaixonando por ela.

Definitivamente, Ben Affleck me convenceu de que é bom dirigindo um filme. Ele sofre da mesma maldição de Sean Penn: atua mal pra caramba, no entanto é capaz de conceber uma obra bastante concisa, sem exageros e na medida certa para o espectador. Não quero com isso dizer que essa seja uma obra excepcional – ela é correta e capaz de entreter, não há erros muito notáveis, ainda que haja alguns momentos aparentemente deslocados. Affleck conseguiu registrar muitos momentos relevantes e correlacioná-los, principalmente soube como fazer jus ao título: definitivamente, ele tornou a cidade como uma participante ativa da história. Basta ver as cenas de perseguições, nas quais o cenário é sempre bem focado para causar ainda mais tensão em quem assiste, e também na quantidade de bancos que há em Boston – por si só, a cidade já parece fornecer os elementos necessários para que a história se concretize. A própria gangue pode ser considerada uma “cidade”, eles atuam em conjunto sincronizado, num tráfego sempre perfeito e cronometrado, sem espaços para falhas e sempre conectando, como um personagem diz no filme, A a B e B a C.

Acredito que haja bastante funcionalidade na história, que une ação policial e romance, misturando assim, um gênero ao outro através do personagem Doug, que está, ao mesmo tempo, envolvido com Claire, com a sua gangue e ainda sendo perseguindo pela polícia, unindo assim três núcleos separados do filme. Praticamente a força do filme está nas cenas de ação, são três cenas relativamente longas de assalto a bancos, todos elas bem diferentes uma da outra, de modo que elas não soem repetidas, ainda que, como podemos ver num determinado momento, elas parecem embasar todo o filme e “disfarçar” a ausência de outros elementos nele. Mas, enfim, isso não se torna nenhum grande problema na trama, porque, qualquer coisa que falte, acaba mesmo sendo encoberta pelo efeito do entretenimento. Mas penso que o bom desenvolvimento do roteiro e a direção eficiente de Ben Affleck – que muitos até pensavam que conquistaria uma indicação ao Oscar – não são os únicos bons fatores presentes nessa obra. Se os atores não estivessem em sintonia ou corretos, o filme potencialmente sofreria quanto às atuações, mas isso não acontece, graças, principalmente, a Rebecca Hall e Jeremy Renner, que conquistou sua segunda indicação consecutiva ao Oscar, desta vez na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Ainda que Ben Affleck seja o protagonista da história, quem verdadeiramente chama a atenção são os atores que eu citei. Aliás, até acho que Rebecca Hall merece um personagem realmente de destaque, num espaço cênico maior – parece sempre que ele nunca pode mostrar tudo de que é capaz.

Acredito que Atração Perigosa não faça feio. A história, a meu ver, não soa absurdamente original, mas não deixa a desejar nem cai numa série insustentável de clichês que usualmente são comuns em filmes policiais. Penso que, mesmo não sendo um filme excepcionalmente marcante, Atração Perigosa consegue pelo menos duas coisas: provar a capacidade de Affleck e entreter o espectador por duas horas. Então, penso que seja válido.

6 de fev de 2011

O Hobbit

The Hobbit. Inglaterra, 1937, 298 páginas (Ed. Martins Fontes, 4ª edição). Autor: J. R .R. Tolkien.
Infelizmente, trata-se de um livro cujo sucesso não é consequência  de sua qualidade.

O Hobbit dá origem às sagas escritas por J . R . R. Tolkien, sendo elas a que se inicia nesse quase-épico e que continua nos três volumes de O Senhor dos Anéis, mais tarde transformado em uma das aventuras épicas cinematográficas mais rentáveis do cinema e mais relembradas pelos fãs de cinema quando o assunto comentado são “mundos mágicos” (aqui não podemos nos esquecer de citar a saga de Harry Potter, ainda que pouco haja em comum entre os dois mundos criado por Tolkien e Rowling). Segundo o jornal New York Times, responsável pela orelha da edição do livro que eu tenho em mãos, esse livro “(...) conquistou sucesso imediato quando foi publicado em 1937. Vendeu milhões de cópias em todo mundo e estabeleceu-se como ‘um dos livros mais influentes de nossa geração’”.

Tolkien, homem extremamente respeitável academicamente, sendo professor de Oxford, lingüista renomado, uma referência para a literatura anglo-saxônica, não poupou esforços para nos contar a história de Bilbo, um hobbit que é escolhido por um mago para acompanhar treze anos numa jornada de alta periculosidade, da qual eles talvez não voltem vivos. Bilbo, ou Senhor Bolseiro, como ele é tratado – aquele é seu sobrenome –, vivia sua vida normalmente, jamais esperava tamanha modificação no seu estilo de viver e jamais pensou que pudesse ser, como mais tarde se verificaria verdadeiro, um “excelente ladrão”, como Gandalf, o mago, garante aos anões que ele seja a fim de que eles o levem consigo na busca pelo tesouro sob a montanha, protegida por Smaug, o dragão que há muito tempo guerreou contra os antigos moradores daquela região e roubou o tesouro dos anões.

Não resta dúvidas de que Tolkien, em sua proposta original, quis escrever uma narrativa épica, com características que se aproximam das novelas de cavalaria, contendo, portanto, características bastante adultas, mas, ao mesmo tempo, portando uma linguagem que fosse acessível às crianças e adolescentes. Não se pode esquecer, afinal, que Tolkien escreveu esse livro para os seus filhos, John, Michael e Christopher, que tinham, respectivamente, vinte, dezessete e doze anos na época de publicação de The Hobbit, que aconteceu em 1937. O que me deixa assustadoramente surpreso com esse livro é, acima de tudo, a sua linguagem, haja vista que ela é infantil demais e contraditoriamente construída sobre um alicerce que não dá suporte lógico para aquilo que Tolkien pretende nos contar. Dedicar a seu filho mais velho, já com vinte anos, era apenas uma amostra do quanto Tolkien o amava, aposto que ele não esperava que o rapaz realmente lesse o seu livro.

A história do hobbit é assustadoramente infantilizada, embasada por uma linguagem que não nos deixa duvidar da intenção do autor: o seu público definitivamente são as crianças, mesmo que os seus termos sejam, talvez, não totalmente compreensíveis para elas. Bilbo Bolseiro é o personagem central de uma história que definitivamente tem muitos problemas, não apenas na sua linguagem e nas opções de recursos estilísticos do autor, mas na própria ordem dos seus eventos e no modo como eles nos são apresentados. Acredito que o principal fato por eu não ter gostado da obra se deve as situações propostas, todas elas sem qualquer clímax. Nenhuma das aventuras pelas quais passam o hobbit, o mago e os treze anos são verdadeiramente emocionantes – algumas delas nem sequer causam a falsa sensação de emoção. Honestamente, a função principal da literatura é causar algum impacto no leitor, porque a sua finalidade máxima é desautomatizar. Para isso, é necessário que algo afete quem lê um livro e mova o espectador junto com a trama apresentada. Tolkien simplesmente não consegue nada aqui, haja vista que ele recorre à saídas aparentemente “não-clichês”, mas que, exatamente por isso, tornam-se um escape alternativo e inapropriado. Sinceramente, até mesmo os livros da série Vaga-lume – coleção literária voltada para o público infanto-juvenil – têm impacto estético maior do que O Hobbit. Caso eu leia hoje um livro como O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida, decerto me sentirei mais emocionado e mais tenso do que me sentiria se, aos 12 anos, lesse O Hobbit.

Para exemplificar um dos problemas dessa narrativa, cito a passagem em que os personagens são emboscados por lobos, os wargs, depois de terem escapado dos orcs, que eu nem sequer sei descrever como são. Os quinze seres – hobbit, mago e anões – ficam no topo de três ou quatro árvores, a fim de não serem percebidos pelos wargs, tática que não dá certo e que os coloca em perigo iminente, embora claramente não factual – nesse momento, o espectador já percebeu que em nenhuma passagens os personagens realmente correm perigo. Pois bem, os wargs tentam a todo o momento tirar os viajantes de cima da árvore e, sem sucesso, recorrem aos orcs, de quem são amigos, a fim de que esses subam nas árvores. Gandalf recorre a algumas mágicas para ganhar tempo. Então surgem águias imensas para ajudar os personagens, elas os recolhem dali e levam-nos para um lugar seguro. Assim mesmo, sem nenhum clima, nenhuma emoção, simplesmente cortam o clímax de uma cena. E isso acontece ao longo de todo o livro! Num determinado capítulo, de nome Explode a Tempestade, ocorre o que é – deveria ser – para O Hobbit aquilo que a batalha final entre Harry Potter e o Lord Voldemort é para a saga potteriana, ou seja, deveria ser o momento máximo do clímax estarrecedor da obra de Tolkien. Não é nada disso, porém. E nem chega a ser minimamente animador, é, de longe, mais uma passagem qualquer do livro.

Fico surpreso que alguém com tantos títulos qualitativos como Tolkien não tenha conseguido nem ao menos construir descrições concebíveis. Eu nem sequer consigo conceber totalmente como seja a imagem de um orc, assim como não pude entender com precisão o tempo durante as viagens desses personagens. Perguntei a um colega o que ele havia achado de algumas descrições presentes em O Hobbit e ele me disse que compreendeu a fisionomia de alguns personagens depois de assistir aos filmes de Peter Jackson – aí, eu pergunto a vocês: uma boa obra literária necessita de recursos fílmicos para conceber as imagens presentes no livro? Decerto um bom livro não precisaria de nada, a não ser a própria e exclusiva linguagem verbal, para nos fazer compreender aquilo que está presente em suas páginas. Para um especialista em linguagem e literatura, Tolkien não me pareceu tão impressionante assim nessa sua obra. Tolkien achou conveniente referir-se a Bilbo excessivamente no diminutivo, causando também um efeito inverso àquele que esperava: em vez de parecer carinho, parece depreciação quando o autor insistentemente comenta sobre, por exemplo, o modo como “Bilbo pôs sua cabecinha pra pensar”. E o que dizer então do efeito cômico mal sucedido de nomear treze anões com os nomes de Thorin, Dwalin, Balin, Fili, Kili, Dori, Nori, Ori, Oin, Gloin, Bifur, Bofur e Bombur? Sinceramente, prefiro Mestre, Zangado, Soneca, Atchim, Feliz, Dengoso e Dunga.

Para que vocês tenham noção: demorei cinco dias lendo O Hobbit, cuja linguagem é infantil, no entanto, demorei apenas dois dias lendo A Outra Volta do Parafuso, de Henry James, cuja linguagem é notadamente mais adulta e complexa. Isso talvez se deva a uma narrativa bastante monótona, sem climas; ou talvez a personagens bastante chatos e desinteressantes; ou ainda às situações mais insossas que eu já li. E realmente me assusta ainda saber que tenho, pelo menos, mais três livros de Tolkien para ler, ou então perco uma aposta!

4 de fev de 2011

Minhas Mães e Meu Pai

The Kids Are All Right. EUA, 2011, 106 minutos, comédia. Diretora: Lisa Cholodenko.
Eu devo ser um dos poucos que não têm enxergado todo o triunfo desse filme. Para mim, mais uma excelente atuação de Julianne Moore, sempre linda, sempre alavancando qualquer obra em que apareça.

Junto com os títulos Black Swan e The Social Network, esse filme tem sido a sensação do momento. Todos comentam sobre ele, todos elogiam o trabalho das atrizes principais e do ator coadjuvante; parece haver consenso que essa é uma produção que tem conquistado a todos, inclusive os circuitos de premiações cinematográficas, como podemos conferir pelas indicações no Globo de Ouro, Gotham Awards, Independent Spirit Awards, entre outros.

Enfim, não sei bem dizer o que motivou todo esse interesse pelo filme. Não o considero ruim, muito pelo contrário! Mas não encontro nele aspectos que justifiquem toda essa valorização (e posso dizer o mesmo dos filmes que citei no começo dessa resenha). A história de Nic e Jules, um casal lésbico, nos é contada a partir do momento que seus dois filhos decidem encontrar o homem que doou sêmen para que as mães os concebessem. Então, a presença de Paul acaba afetando o relacionamento de toda a família, já que os filhos e Jules parecem receptivos a Paul ao passo que Nic o enxerga como um absoluto intruso.

Acredito que o maior mérito do filme seja a forma como ele consegue nos apresentar a família de Nic e Jules. De certo modo, é uma forma desautomatizadora de nos fazer enxergar um relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. Constantemente vemos no cinema a história de personagens homossexuais – Brokeback Mountain, Lost and Delirious, Boys Don’t Cry –, mas esses filmes são usualmente marcados por um elemento trágico, que é a impossibilidade do romance entre os protagonistas ou, no caso dos três filmes que eu citei, a morte de um deles. Isso não acontece em The Kids Are All Right, pois o filme tem a finalidade de mostrar o período problemático pelo qual a família passa, mas o seu enfoque é mais cômico, de modo que conhecemos também o melhor do relacionamento do casal principal, que inclusive tem uma família sólida, criada sem preconceitos. Assim, penso que esse filme tenha um peso maior quando pensamos em seu poder de modificar o pensamento social a respeito da homossexualidade e das famílias construídas por casais homossexuais.

O roteiro do filme é bastante direto. O filme já começa nos mostrando os personagens interessados em conhecer o seu pai biológico, o homem que, aos 19 anos e interessado por Relações Internacionais, doou o sêmen que foi inserido em Nic e em Jules, a primeira, mãe de Joni e a segunda, mãe de Laser. Pouco a pouco – no tempo certo, devo dizer – o filme vai apresentando melhor para nós os personagens e nos colocando a par da trama. Assim, vemos como Paul torna-se uma figura querida e, ao mesmo tempo, odiada na história. Acredito que o único problema que realmente me incomoda nesse roteiro seja a construção da personagem Nic, que parece bastante anacrônica e destoante naquela família. A cena em que o filho pergunta a elas porque elas vêem filmes pornôs com homens me mostrou o quanto antiliberal a personagem é – e isso me incomodou muito. Acho que o roteiro é bem trabalhado, ainda que não tenha me surpreendido em muita coisa. O modo como trabalha a traição de Jules e o modo como Paul reage a ela – por causa dela e dos filhos, ele até decide parar de “galinhar”, como ele mesmo diz. Ainda que eu tenha me esforçado, acho que o roteiro nos mostra uma história legal. Não “fantástica”, não “interessante” nem “boa” – apenas “legal”. Isso porque simultaneamente possui qualidades e muitos defeitos, como, por exemplo, os desfechos dados a Paul e ao relacionamento entre Joni e o seu amigo, cena que aliás parece perdida no filme, assim como todas aquelas que envolvem a amiga piranha de Joni.

Acredito que o maior destaque seja a direção, mesmo que, como o roteiro, seja apenas legal e não suficientemente boa para surpreender e inovar. É uma comédia dramática e a diretora soube como captar isso muito bem – não deixou pender pra comédia boba nem dramatizou em excesso, deixou tudo na medida certa. Quanto aos atores, acho que estão todos corretos, não vi nada realmente especial em nenhum deles. No máximo, eu diria que Julianne Moore é a que mais sobressai, porque ela é realmente carismática e as suas cenas foram as que mais me agradaram. Annete Benning está correta, numa personagem desagradável. Estou surpreso com todas as indicações e com todos os elogios que ela tem recebido – para mim, tudo isso é à toa, não enxerguei nada realmente chamativo em sua atuação. O mesmo eu digo sobre Mark Rufallo: atuação satisfatória, mas não surpreendente. Aliás, ele estava repetindo algum personagem anterior, tenho certeza disso – ele está igual a uns outros dois filmes que já vi com ele. Mia Wasikowska e Josh Hutcherson estão bem, não destoam do resto do elenco.

Como devem ter percebido, alguma coisa nesse filme não fez com que eu gostasse dele em sua totalidade. Ou talvez eu tenha gostado do filme todo – e realmente o tenha achado apenas mediano. Eu não o indicaria a todos esses prêmios, não chamaria tanto atenção para ele e nem sequer é esse título que me vêm à cabeça quando me pedem para sugerir uma comédia interessante. Eu só o recomendaria se fosse para sugerir uma boa interpretação de Julianne Moore, que acabou ignorada pela Academia – o que não é incomum -, enquanto sua parceira, Annete Bening - cuja atuação só faz sentido em parceira com a de Moore - foi indicada e, tomara!, perderá para Natalie Portman ou Nicole Kidman.

2 de fev de 2011

Café com Leite

Brasil, 2007, 20 minutos, drama. Diretor: Daniel Ribeiro.
Se todos os filmes nacionais produzidos fossem como esse curta-metragem, decerto a nossa indústria cinematográfica seria bem mais elogiada.

Esse é mais um dos filmes que provém da minha incursão pelo mundo dos filmes curtas-metragens nacionais. Só me interei por essa obra por dois motivos muitos básicos: a quantidade de pessoas que queriam vê-lo no site Filmow e a sua capa, que mostra dois rapazes e uma criança entre eles. Fiquei curioso para saber como esse tema seria desenvolvido e eu acabei baixando o curta para conferi-lo.

Admito que não me decepcionei. Nem um pouco, para ser sincero. Gostei do modo como Daniel Ribeiro, o diretor, concebeu a sua obra e como ele a trabalhou de modo que ela não ficasse melodramática nem superficial e muito menos que ficasse parecendo um culto à homossexualidade. Conhecemos, então, a história dos namorados Marcos e Danilo é alterada quando a morte dos pais de Danilo faz com que ele fique responsável pelo irmão Lucas, um garoto muito apegado a ele.

Acho que o que mais me chamou a atenção nessa produção foi a sua qualidade fílmica. Parece inegável que a qualidade das filmagens realmente é a primeira característica que nos chama a atenção – logo na primeira cena percebemos que foi usada uma câmera profissional. Isso, para mim, soou bastante curioso, haja vista que os curtas-metragens anteriormentes vistos por mim, à exceção fica por conta de Lucky Blue, tinha uma imagem desastrosa. Logo depois, a primeira cena por si só já me impressionou. Daniel Ribeiro soube registrar os atores Daniel Tavares e Diego Torraca em cena sem lhes atribuir quaisquer características vulgares, depreciativas, melosas ou mesmo exageradas – a cena é de uma sutileza crível e totalmente aceitável. Não há como não pensarmos que eles formam um casal bonito e desde o começo já somos conquistados pela simpatia deles. Penso também que a sintonia entre os atores tenha sido um fator fundamental para que essa produção nacional tenha sido tão funcional. O ator-mirim Eduardo Melo também faz jus à qualidade dos outros dois atores e não deixa a desejar em nenhum momento – os três juntos compõem um elenco que é, no mínimo, elogiável.

Penso que o grande acerto tenha sido não dramatizar em excesso, sem, porém, dramatizar de menos e cair na superficialidade. Aqui, podemos perceber o tom certo em todos os momentos e ao longo de vinte minutos o espectador pode acompanhar uma história quase tragicômica, na qual se misturam elementos dramáticos, como a perda dos pais e o distanciamento aparente entre Marcos e Danilo, e elementos mais cômicos, como a cena final, na qual Danilo e Lucas estão em perfeita comunhão, falando sobre videogames e testando o tempo correto do micro-ondas para chegar à temperatura ideal do leite. Destaque especial para a cena em que Marcos e Lucas conversam num parque – uma amostra clara de que uma criança é capaz de entender que o amor se realiza de várias formas e que por isso o preconceito é desnecessário. Acredito que esse momento acrescente um charme a mais à trama.

Gostaria que todos os filmes nacionais de longa-metragem fossem tão eficientes em seu discurso quanto esse curta-metragem. Daniel Ribeiro sabe registrar bons momentos em cena. Depois de assistir a esse filme, procurei mais sobre o diretor e encontrei outra produção que ele dirigiu – A Mona do Lotação, uma paródia evidente, e extremamente engraçada, à obra de Nelson Rodrigues. Acho válido citá-la, pois provavelmente não farei uma resenha exclusivamente para ela aqui no blog. Retomando o que eu dizia: Café com Leite merece uma conferida atenta e, ao meu ver, merece também alguns elogios – ao elenco, ao roteiro, ao diretor, à qualidade cinematográfica. E espero conhecer mais obras com esses atores e mais produções desse diretor.