18 de jan de 2012

Amigas de Colégio

Fucking Åmål. Suécia, 1998, 89 minutos, drama. Diretor: Lukas Moodysson.

Uma história que poderia render bons frutos, mas que, devido a uma deficiência no roteiro, apenas nos traz uma narrativa cansada e introspectiva.

É inegável que filmes que abordam a homossexualidade trazem consigo uma dificuldade em sustentar seu enredo satisfatoriamente, sem pender para a apelação da estereotipação nem percorrer caminhos heroicamente inverossímeis, como vistos, respectivamente, em “Comendo pelas Bordas” (2004) e “Delicada Atração” (1996). Considerando a possibilidade de erro - que é grande -, pode-se dizer que “Amigas de Colégio”, produção sueca de 1998, é um filme que “deu certo”, embora, como apontarei, existem problemas que tangem e trespassam o resultado final.

A história de Agnes nos é contada desde a primeira cena. Conhecemos a garota num momento de introspecção, quando escreve em seu computador os sentimentos que tem por Elin, uma garota da sua escola, uma das mais bonitas, populares e, secretamente, cansada das experiências que já viveu, principalmente com os relacionamentos. Embora tenham apenas 14 anos, as duas parecem bastante confiantes dos sentimentos que têm, mas pouco seguras quanto a como mostrá-los. Quando são apresentadas de um modo mais efetivo, começa entre elas uma relação que vai contra o esperado na pequena cidade de Åmål, onde elas vivem.

 Uma aposta boba com a irmã faz Elin se apaixonar por Agnes.

As protagonistas do filme são garotas de difícil entrosamento e aborrecidas com as suas famílias. Tanto Elin quanto Agnes enfrentam problemas familiares: a primeira com a sua irmã, que, embora boa companheira, parece forçá-la a fazer parte de um modo totalmente diferente do seu; e a segunda não lida bem com a mãe, que insiste em querer enturmá-la, sempre reforçando que seria interessante que ela trouxesse amigos para casa, mesmo sabendo que Agnes não possui amigos, a não ser uma cadeirante, que constantemente aborrece Agnes. Conhecemos os desajustes familiares das duas personagens e partir disso começamos a nos envolver com outros aspectos de suas vidas. Sabemos que as duas estão de certa forma descontentes com a cidade provinciana na qual vivem. Agnes não é natural de lá e Elin acha a cidade pequena demais, muito restrita - seja em espaço ou em forma de pensar. O resultado é que, num conversa, expondo esse tópico, surge entre as duas identificação.

 Primeiro, a identificação; depois, o embaraço: Elin fica em dúvida entre assumir o amor por Agnes e fingir que ama um rapaz.

Mas o problema é compreender de onde vem tamanha identificação a ponto de elas se apaixonarem. Primeiro, já sabemos que Agnes gosta de Elin, mas não há nenhum elemento no filme que faz com que compreendamos o porquê - é tipo o arquétipo da garota que se apaixona pelo professor só pelo fato de ele existir (“Tamara”, 2005) ou o cara que se enamora da garota loira mais popular do colégio (“Um Adolescente em Apuros”, 1997). Ainda que isso não fique muito esclarecido, é perfeitamente possível lidar; o problema reside no amor que surge em Elin - de onde veio e a partir de que momento surgiu? Essas duas perguntas não são respondidas e a lacuna incomoda. Também incomoda o vazio que parece existir nas discussões comportamentais que assolam o filme do seu começo ao fim: Elin se dedica a um envolvimento com Johan e isso é bastante desgastante, porque parece que a trama faz uma incursão num campo no qual não pretende se aprofundar, deixando de lado algo mais importante, a cuja essência se deveria atentar mais. Um buraco imenso separa o começo do amor de ELin por Agens até o momento em que ela decide assumir isso e a impressão que temos é que Agnes é imatura demais - a outra, afinal, parece ir e vir quando bem quer e cabe à Agnes apenas esperar pelos anseios da outra.

Se o tom heróico felizmente escapa à perspectiva da homossexualidade que é mostrada - de modo verossímil, percebemos que a cidade é conservadora demais -, infelizmente também foge um debate mais aberto à relação das garotas e menos focado em elementos dispersos. Não creio que o filme seja ruim, mas honestamente penso que falta bastante para que ele atinja proporções que façam com que ele mereça ser conferido. Apesar de curto, não empolga e chega a cansar em alguns momentos, além de não responder a questões essenciais, como, por exemplo, a relação de Agnes com seus pais depois que eles descobriram a homossexualidade da filha.

1 opiniões:

Guilherme Z. disse...

Parece ser interessante esse filme, já ouvi falar dele. Aliás, ultimamente você está postando textos sobre filmes bem diferentes, que não são fáceis de se encontrar. Parabéns pela iniciativa. É sempre bom descobrir bons filmes.

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