16/01/2012

Perfect Blue

Pâfekuto Burû. Japão, 1997, 81 minutos, thriller. Diretor: Satoshi Kon.
Uma animação bastante adulta, que nos faz fugir do senso de que toda animação é “bonitinha”, e ainda muito bem desenvolvida, nos remete a dois filmes interessantes do cinema norte-americano.

Depois de assistir a “Tokyo Godfathers” (2003), eu fiquei interessado em conhecer mais animações japonesas, principalmente porque elas parecem sair do senso comum que as animações norte-americanas tendem a oferecer. Só para que tenham uma idéia, a animação supracitada tem em seu enredo três protagonistas, sendo um velho bêbado, uma adolescente rebelde e um travesti, todos os eles moradores de rua que encontram uma criança e decidem cuidar dela - bastante ousado, certo? Perfect Blue nos traz a história de Mima, uma garota que decide sair do grupo Cham, banda musical com a qual trabalha há um ano e meio, para se dedicar à carreira de atriz, abandonando, assim, a imagem de ídolo pop. A contragosto da mãe, das colegas de trabalho e dos agentes publicitários, Mima adentra o universo da atuação e descobre que o maior perigo reside na insatisfação dos fãs, havendo um deles capaz inclusive de querer puni-la pela sua “traição”.

Como vocês perceberam, a animação aborda o perigo que a vida de Mima sofre a partir do momento em que ela toma uma atitude que é mal compreendida pelos seus fãs. Podemos perceber que isso é bastante real e o filme não foge ao realismo de mostrar a visão dos fãs em relação aos seus ídolos. Mima também não tarda a perceber que a sua escolha a tornou um alvo de maníacos, já que numa das suas primeiras gravações no set de um seriado de suspense uma carta endereçada a ela explode, ferindo o seu agente. Mais tarde, descobrirá haver uma página na Internet na qual alguém se finge passar por ela, contando a rotina da estrela - o que surpreende a atriz é o fato de a pessoa saber exatamente cada movimento seu, desde as coisas que ela compra no supermercado até o que ela faz em seu quarto. Assim, ela percebe que ela pode verdadeiramente estar em perigo e o medo acaba tomando totalmente conta dela.

 O grupo Cham cantando para os seus milhares de fãs (e para alguns maníacos também).

Já no começo do filme conhecemos o fã maluco de Mima: um homem mal encarado, silente e preciso, que conseguiu o cargo de segurança nos shows da banda Cham e que, assim, pode ficar mais perto de seu ídolo, mesmo sem jamais ter lhe falado - o que, mais tarde, descobriremos ser uma verdade parcial, uma vez que descobrimos que o homem é louco o suficiente para comandar “O Quarto de Mima” (aquele site que comentei acima) além de acreditar que a garota - a Mima verdadeira, a estrela da música, não a atriz traidora - lhe manda e-mails que lhe dizem para agir contra a farsante que está na televisão. Vemos nele uma espécie de Annie Wilkes, de “Louca Obsessão” (1990), que faz de tudo para invadir a vida de Paul Sheldon, seu escritor preferido, chegando a ponto de atentar contra sua vida quando descobre que ele assassinou a sua personagem favorita no seu romance recém-publicado. A morte de Misery no romance, para Annie, representa a saída de Mima da banda, para o fã maluco daqui. Ainda há o fato de que os dois vivem uma espécie de bovarismo: Annie e o fã, tão aficionados que são, respectivamente, por Misery e por Mima, acabam vivendo a vida de seus ídolos, acreditando a partir de um momento que eles mesmos são os seus ídolos. Penso que o romance de Yoshikazu Takeuchi, que deu origem a Pâfekuto burû, pode ter se inspirado em parte pelo romance Misery, de Stephen King.

Mima também se vê ameaçada, o que gera nela um conflito psicológico muito grande, causando-lhe uma espécie de fragmentação e colocando-a diante de imagens alucinatórias. Ela começa, dado os constantes choques, a se enxergar como ela-mesma, a atriz e mocinha da história, e ela-outra, que ainda pertence à banda Cham e que é vilã. Não há mais paz em sua vida e é difícil para ela distinguir ficção de realidade, havendo momentos em que as duas confluem e ela não sabe mais se a vida que vive é a sua (ela-mesma), a de cantora (ela-outra) ou, ainda, a da personagem que ela interpreta no seriado, que foi estuprada e que sofre de transtorno dissociativo. É por esse aspecto que o filme nos remete ao posterior “Cisne Negro” (2010), que nos fala sobre uma bailarina tão empenhada em ser a melhor para conseguir o papel principal no balé O Lago dos Cisnes, que acaba duplicada na figura dela mesma - Odile, o cisne branco - e a outra - Odete, o cisne negro.

 Mima atuando numa das cenas mais difíceis de sua carreira: um estupro.

Talvez o grande problema do filme seja a repetição de muitas cenas, que parecem fazer com que a história não se desenvolva muito e que seu alicerce seja a repetição, o que não é verdade, mas que, inegavelmente, causa essa impressão no espectador, principalmente na realização do seu segundo terço de filme. E o final, bastante interessante, é seguido por uma cena de otimismo que não condiz com a trama e que, no fim, parece ter sido posta ali somente para mascarar o fato de que, já naquele estágio de medo, Mima não poderia simplesmente se reabilitar e ficar bem. Um erro que incomoda, não nego, mas que não destrói tudo o que havia sido mostrado anteriormente, até porque há uma descoberta interessante: a de que o suposto vilão não é verdadeiramente o vilão.

Honestamente, acredito que esse filme seja válido para se assistir, ainda que eu prefira outros títulos japoneses em animação, como o citado no começo desse texto. Mas reforço que poder assistir a esse filme e ainda ser remetido a dois filmes interessantes do cinema é mesmo muito válido, além de podermos conhecer um pouco mais do que o Japão tem a oferecer, além dos filmes de terror que já estão banalizados, seja por eles próprios ou pelas notórias refilmagens estadunidenses.

3 opiniões:

Luiz Santiago disse...

Satoshi Kon é fenomenal. Ainda não vi essa animação dele, mas gostei de tudo o que vi até agora. Vou procurar para baixar. =)

Alan Raspante disse...

Estou doido para conferir, Luís. Não sei se você sabe, mas há boatos de que Aronofsky se baseou neste filme para Black Swan, tanto que parece que ele chegou até comprar os direitos autorais... Ou seja?

Abs.

Júlio Pereira disse...

Há décadas que os japoneses produzem animações extremamente adultas. Satoshi Kon é um grande representante dos animes, apesar de eu não ter visto NADA dele, o que é impressionante pra mim. Recomende Akira, e tudo do Studio Ghibli (que, inclusive, está recebendo um especial no Lumi7).

Sobre a relação com Cisne Negro, é verdade. O Aronofsky comprou os direitos do filme, segundo o amigo Wilson Antonio. Isso me instigou mais ainda a assistir Perfect Blue!