4 de jan de 2012

A Noite Americana

La Nuit Américaine. França, 1975, 112 minutos, comédia. Diretor: François Truffaut.
Uma das melhores obras já lançandas: é o cinema falando sobre o cinema, fantástico!

Existem filmes que são feitos para ficar na mente do espectador por muito tempo depois de ele tê-los visto. E muitos desses filmes conseguem esse feito de modo extremamente positivo e despretensiosamente, haja vista que a finalidade primeira é apenas contar uma história com eficiência. La Nuit Américaine está nesse grupo de filmes, uma vez que é impossível vê-lo e não se deixar levar pela deliciosa história de um set de filmagens no qual o diretor e o elenco – atores e equipe de apoio – lidam com uma série de problemas ao filmar “A Chegada de Pámela”.

Não creio que haja como resumir bem o filme. Para mim, o seu objeto de exibição é bastante simples, como citei acima, a intenção do filme é mostrar os bastidores de uma filmagem. Não pensem, porém, que a simplicidade do objeto transforma o filme numa produção simples. Muito pelo contrário! François Truffaut, o diretor e roteirista de A Noite Americana, nos prova que a linguagem fílmica que ele usa é extremamente poderosa e complexa, envolvendo o espectador numa codificação literato-cinematográfica fantástica. A começar pelo seu roteiro, que talvez seja, empatado com a direção, o melhor aspecto desse filme longa-metragem. Truffaut ousou ao criar um roteiro no qual relaciona elementos bastante complexos e, embora pareçam fáceis, bastante difíceis de analisar.

 Uma das melhores cenas: os repetidos takes da cena inicial do filme dentro do filme.

Eu ouso dizer que a sua obra é bastante metafísica: é o cinema falando sobre o cinema. Não me restaram dúvidas de que o diretor buscou captar a essência das artes cinematográficas e da sua concepção – do seu nascimento à sua morte – a fim de expor aos espectadores todo o charme, diversão e ao mesmo tempo contradições presentes na chamada sétima arte. Para começar, o filme já é todo criado a partir do efeito de mise en abyme, construindo um filme dentro de um filme e fazendo com que o mundo real – aquele em que Truffaut dirige Jacqueline Bisset, Valentina Cortese, Jean-Pierre Léaud – seja inserido dentro de outro filme, no qual, curiosamente, Truffaut, sob o nome Ferrand, também dirige os personagens. Inquestionavelmente, é exatamente o efeito citado que é capaz de dar base a uma estrutura totalmente metalingüística – é o próprio filme se explicando conforme se desenvolve, a obra “A Chegada de Pamela” explicando a obra A Noite Americana e este, por sua vez, alimentando a estrutura metalingüística de “A Chegada de Pamela”, construindo então um processo interessantíssimo de retroalimentação. Não podemos em momento algum ignorar a potencial metaficção historiográfica presente em A Noite Americana, que eficiente nos mostra a teoria e a prática, misturando um contexto fictício numa produção notadamente real. Como disse, Truffaut merecidamente deve receber elogios pela produção desse roteiro inquestionavelmente satisfatório e excepcional.

 Um dos melhores representantes do cinema metalinguístico: na cena acima, vemos os bastidores de filmagens.

Vale ressaltar que aqui o efeito de mise en abyme é ainda maior quanto pensamos no quesito “direção”. Truffaut dirige Truffaut que dirige os atores – chegamos ao nível três da queda no abismo. A direção dele é muito boa, certamente uma das melhores que já vi. Ele realmente soube como conduzir toda a sua obra, tornando-a um exemplo no qual se inspirar, mas sem tentar copiá-lo – até porque não creio que seja possível recriar com extrema capacidade essa obra. Poucas vezes vi um elenco tão fantástico junto. Vejam o filme e perceberão: não há ninguém não-sincronizado, talvez porque eles são atores interpretando atores atuando. Tudo então flui com naturalidade e vemos bastantes destaques, como a belíssima Jacqueline Bisset, que, para mim, é notadamente a melhor atriz do elenco e realmente merecia uma indicação ao Oscar, mas a Academia optou pelo trabalho de Valentina Cortese, a qual também está maravilhosa, ainda que apareça consideravelmente menos do que a atriz inglesa. Outra atriz importante é Nathalie Baye, intérprete de Joelle, que se mostra muito eficiente como ajudante de Ferrand, personagem de Truffaut – a ele, aliás, outro elogio, desta vez pela sua interpretação.

Como disse no primeiro parágrafo, alguns filmes nos marcam. Tal como The Dreamers, de Bertolucci, é uma deliciosa homenagem ao cinema, La Nuit Américaine é a própria representação do cinema ensimesmado: é ele falando dele mesmo. Indubitavelmente, o filme merece ser visto, até porque ele nos mostra também como funcionam os bastidores. Ao mesmo tempo em que acompanhamos uma história cativante, conhecemos também mais ainda sobre como funcionam as técnicas de filmagem. Eu, por exemplo, adorei conhecer o segredo da vela que é uma luminária! Não vejo como elogiá-lo mais. Para mim, essa é uma pérola do cinema.

6 opiniões:

Alan Raspante disse...

Ah, esse filme é muito bom. Muito bom mesmo! Desses que apenas a palavra obra-prima defini.

Celo Silva disse...

Tai um filme q sempre quis ver, mas sempre esqueço. Teu texto colocou ele lá na frente, quero conferir logo. Prestigia meu blog novo. Se puder siga ou coloque o link aqui. Grande Abraço!

http://espectadorvoraz.blogspot.com/

Júlio Pereira disse...

Conheço pouco da Nouvelle Vague, mas o que conheço me fascina - mesmo porque, tudo que influencia diretamente Scorsese merece ser conferido. Acho brilhante o conceito que eles fundaram, em que o diretor é elevado ao nível máximo no Cinema - por isso os seus roteiros, aparentemente, simples (Godard investe mais nisso, tendo em vista que Jules e Jim, do Truffaut, é extremamente complexo), o que não os diminui (veja Encontros e Desencontros, aparentemente simples, e perfeito)! Perceba, por exemplo, que sempre nos referimos ao diretor da obra, não ao roteirista ("Um filme do Scorsese").

A Noite Americana ainda não consegui assistir, mas faz tempos que estou ansioso. Você fala bastante da metalinguagem empregada na obra do diretor francês, recomendo "Sinédoque, Nova York", que o conceito metalinguístico é elevado ao EXTREMO, cheio de camadas, extremamente intrincado e complexo - além de ser uma obra-prima!

MarCeL MOreNo disse...

Adorei seu texto! Está coerente com todo o talento deste diretor. Não assisti a este filme, mas estou agora com uma vontade que me consome só de tentar imaginar como é feito o truque da vela. Brincadeiras a parte, é interessantíssimo saber que um diretor conseguiu atingir o verdadeiro significado de Mise Em Abyme, ainda mais da forma que foi feita. Parabéns novamente. Não vejo a hora de poder assistir e comentar como um conhecedor deste belo trabalho. Abraços.

Gabriel Monteiro disse...

Realmente muito original. Gostei!
Cliquem no meu nome e visitem meu blog também! Araço

Márcio Sallem disse...

Próxima semana faço uma publicação de pompa sobre esse filme que sou apaixonado e, por ocasião, roubei a imagem do Blog :D